|
QUALIDADE NA TV
ASPAS
O Estado de S. Paulo
"Autocontrole das TVs?", editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 27/12/00
"Há duas avaliações possíveis - uma pessimista, outra otimista - quanto à surpreendente iniciativa das emissoras de televisão de comunicar ao Ministério da Justiça a decisão de elas próprias elaborarem um código de conduta, visando a disciplinar suas programações. A pessimista, infelizmente, se baseia na conduta pregressa das emissoras, que ‘enrolaram’ todas as propostas para que elevassem, espontaneamente, o nível ético das programações. E a melhor demonstração disso foi a resistência que opuseram às insistentes sugestões do ministro da Justiça, José Gregori - ainda ao tempo em que era secretário Nacional dos Direitos Humanos -, para que fizessem sua auto-regulamentação. Mas há a hipótese - sem dúvida, otimista - de que as emissoras de televisão tenham resolvido atender, finalmente, a um enorme reclamo da sociedade brasileira.
Claro está que ainda é muito cedo para que a secretária Nacional da Justiça, Elizabeth Sussekind, possa afirmar que ‘nosso objetivo foi amplamente alcançado’. Mais claro ainda nos parece - apesar de a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) não querer admiti-lo - que a iniciativa de auto-regulamentação vem como resposta à ampla repercussão das ações do Ministério Público e às decisões da Justiça, envolvendo a participação de crianças em novelas, o cumprimento de horários dos programas - conforme as faixas etárias do público a que se destinam - e o próprio nível moral desses programas.
Na verdade, embora representantes da Abert tenham declarado não estar preocupados com as 500 mensagens enviadas ao Ministério da Justiça por telespectadores revoltados com o baixo nível dos programas - porque as emissoras considerariam esses reclamantes uma ‘ínfima’ porcentagem da audiência -, acreditamos que a parcela mais lúcida dos proprietários e administradores dos veículos de comunicação eletrônica de massa tem plena consciência do que representam aqueles protestos: vêm de poucos, mas, com absoluta certeza, expressam o que sentem muitos milhões. Pois a grande maioria da coletividade brasileira é constituída por cidadãos que prezam os valores inerentes à dignidade da pessoa e da família, assim como não se comprazem em divertir-se com aberrações morais.
Sempre é bom ter em mente que, por inúmeros motivos, o autocontrole dos veículos de comunicação, dentro do escopo mais amplo de respeitar os valores éticos intrínsecos da sociedade, estará muito mais de acordo com os princípios do Estado de Direito democrático - em que é ínsita a plena liberdade de expressão e de criação artística - do que a tutela exercida por agentes dos poderes de Estado, no sentido de determinar o que pode e o que não pode ser exibido ao público telespectador. Entretanto, se a auto-regulamentação só existir no papel, sem que possa ser devidamente operada, na realidade cotidiana das emissoras, por falta de quem possua a devida autoridade para fazê-la cumprir, o resultado será que a sociedade, por descrença, irá desejar o retorno à famigerada censura.
Considerem-se, também, os riscos de o poder individual das emissoras de televisão transformar-se em poder de manipulação de decisões do órgão que fiscalizará o cumprimento das normas auto-regulamentadas. Só se evitarão tais riscos encontrando um mecanismo eficaz de constituição de um Conselho independente, com autonomia decisória que o leve a opor-se, quando necessário, aos interesses até das redes de televisão mais poderosas, que eventualmente insistam em desrespeitar o código de conduta acordado.
Seja como for, é possível que não só em resposta à pressão da opinião pública, mas até por interesse prático - na medida em que não deve ser confortável, para suas produções, cortar ou recuperar cenas de novelas ou de reportagens policiais, bem como mudar os horários das programações, ao sabor das liminares concedidas ou cassadas pela Justiça - as emissoras de televisão, a partir de agora, se empenhem em oferecer ao público telespectador aquilo que a imensa maioria da população brasileira realmente deseja: uma programação que não desrespeite os valores que lhe são mais caros, que não sacrifique a ética por uma pretensa estética, falsamente ‘realista’."
Ancelmo Gois
"Fernando Henrique", copyright no. (www.no.com.br), 25/11/00
"O presidente foi deselegante com o ministro José Gregori ao insinuar, no almoço com as estrelas da Globo, que não tinha nada a ver com a 'censura' em Laços de Família. Afinal, quem manda no Governo?"
Giovanna Antonelli
"A atriz faz questão de distinguir prostituta de garota de programa: nada de bolsinha", copyright O Estado de S. Paulo, 26/12/00
"Laços de Família chegou ao seu maior ibope, picos de 59 pontos, terça-feira. Naquele dia, mais que interessado na festa de casamento de Edu (Reynaldo Gianechinni) e Camila (Carolina Dieckmann), o público queria ver a ciumenta Clara (Regiane Alves) desmascarando Capitu, verdadeira paixão de seu marido, o Fred interpretado por Luigi Barrichelli.
No horário da novela, enquanto a audiência atingia o índice inédito para a trama de Manoel Carlos, Giovanna Antonelli, a desmascarada em questão, gravava mais uma cena nas ruas do Leblon.
O sucesso da personagem fez o autor aumentar a participação de Capitu e Giovanna não pára, ainda mais depois que a Globo teve de refazer cenas por causa da briga com o Ministério Público do Rio. ‘Moro no Projac’, diz Giovanna, sem reclamar. Afinal, de algum modo, está ampliando o significado de um termo até então restrito ao vocabulário machadiano.
Mesmo contra a vontade dos pais, Giovanna começou cedo na TV, como assistente de palco de Angélica no Clube da Criança (Manchete) em 1987. Fez comerciais, teatro amador e a Oficina de Atores da Globo, de onde saiu para Tropicaliente (94), sua primeira novela. ‘Foi um papel pequeno, mas aprendi com atores maravilhosos’, diz, citando Stênio Garcia, Francisco Cuoco e Regina Dourado.
Em seguida, voltou à Manchete, encarnou sua primeira protagonista, a filha de um padre, em Tocaia Grande (95), e a primeira prostituta, Elvira, ‘bem rameira, vulgarzona’, em Xica da Silva (96). No retorno à Globo, já foi a patricinha Judi, de Corpo Dourado, a professora Iza, de Malhação, e a cortesã Violeta, de Força de Um Desejo. Foi também a irmã que transa com o cunhado num episódio do Você Decide. Em abril, no espetáculo da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém (PE), será Maria Madalena.
Na entrevista, a seguir, entre tragadas de Marlboro, a atriz carioca, de 24 anos, falou sobre a sina de encarnar mulheres marginais, a experiência no cinema com Bruno Barreto, convites para posar nua e a diferença entre prostituta e garota de programa.
Estado - Com quem você gostaria que a Capitu terminasse no final da novela?
Giovanna Antonelli – Com o Fred. O amor impera na minha vida, sou supersentimental, pisciana e acho que uma pessoa é capaz de mudar de vida, corrigir defeitos por amor. E já que o amor deles é tão incondicional, vem desde a adolescência, por que ficar com o Orlando?
Estado - É muito difícil encarnar uma prostituta no Brasil?
Giovanna – De jeito nenhum, eu me orgulho de fazer a Capitu porque mexe muito com a cabeça das pessoas. Ela é uma menina que pode ser confundida com qualquer jovem carioca. Descobri a diferença entre garota de programa e prostituta quando fui fazer laboratório na rua.
Estado - Qual é a diferença?
Giovanna – A prostituta é aquela que fica na beira da praia, com botas, microrroupas de couro, rodando bolsinha. As garotas de programa são meninas elitizadas, falam outros idiomas, saem com grandes empresários e não necessariamente só para transar. É uma outra realidade.
Estado - Por que você acha que acaba sempre fazendo papel da mulher mais vulgar?
Giovanna – É um destino de carreira, coincidência. Não tenho medo de desafios, posso fazer mais dez prostitutas, que vou saber fazer diferente. Mas também interpretei milhões de outras coisas: filha de padre, patricinha, nerd...
Estado - Deixaria um filho pequeno assistir a `Laços de Família'?
Giovanna – Sim. Os pais têm de esclarecer. Censura é hipocrisia.
Estado - Como está a sua rotina?
Giovana - Moro no Projac, vou em casa só para dormir. Gravo de dez a 15 horas por dia, todos os dias da semana. Mas estou adorando. Não quero me dividir com nada, até tive propostas de teatro. Só respiro a novela e o personagem.
Estado - Não dá nem para fazer cursos, ginástica?
Giovanna – Odeio ginástica. Mulher tem que ter o corpo feminino mesmo. É óbvio que se você vive como um vegetal, vai sentir quando chegar aos 40. Mas as turminhas e os papos de academia, eu não gosto. Sou antiacademia.
Estado - E nas horas vagas?
Giovanna – Curto minha casa, meu maridinho (o empresário Ricardo Medina), a vida familiar, assisto a filmes, leio livros.
Estado - Você leu `Dom Casmurro', de Machado de Assis?
Giovanna – Não li. Estou com o livro lá em casa, mas eu começo um, aí pego outro, outro. Mas quero ler, mesmo depois de acabar a novela. Estou lendo Ensaio sobre a Cegueira, do José Saramago, e fiquei tão envolvida com esse negócio da cegueira branca que dá em todo mundo no livro, que um dia acordei com alergia no olho. Não conseguia nem abrir nem fechar, foi um desepero e parei no hospital.
Estado - Você diria que está experimentando o gosto do sucesso?
Giovanna – Esse papel é um divisor de águas na minha carreira, mas já atuo há 13 anos. É minha sétima novela. Tudo foi batalhado, acontecendo gradativamente. Cada personagem, um sucessinho a mais. Então valorizo muito esse momento, mas não deixo de fazer nada. Vou ao supermercado ando na praia. Falar que não gosto de ser reconhecida na rua é hipocrisia.
Estado - Como é contracenar com os veteranos Leonardo Villar e Walderez de Barros?
Giovanna – É uma escola a cada cena, a gente tem uma química boa. Eu já tinha trabalhado com o Léo antes, em Tocaia Grande.
Estado - Você curtiu atuar em `Bossa Nova'?
Giovanna – Foi um sonho. O Bruno Barreto é maravilhoso na direção de ator e me ensinou muito. Ele tira os elementos que quer do ator com muito humor.
Estado - E teatro?
Giovanna – Ainda não tive o gostinho de fazer uma montagem profissional. Quando era pequena, meu sonho era ser atriz de teatro.
Estado - Já recebeu proposta para posar nua?
Giovanna – Tive propostas, mas não quero posar agora. Quando eu tiver vontade e resolver, não vou nem pensar duas vezes.
Estado - Quais são os seus próximos projetos?
Giovanna – Vou tirar férias em fevereiro e quero ir para os Estados Unidos ou conhecer a Itália, mas estou meio preguiçosa por causa do inverno. Meu contrato com a Globo vai até 2003. Acho que devo estar em alguma novela no ano que vem e vou fazer a Paixão de Cristo em abril. Também estou analisando um roteiro de filme."
Volta ao índice
Qualidade na TV – próximo texto
Qualidade na TV – texto anterior

|
|