QUALIDADE NA TV


ASPAS
Jorge Moreno

"Laços de fumaça", copyright O Globo, 25/11/00

"No almoço com diretores e atores da TV Globo, FH evitou se comprometer com providências mais diretas sobre a proibição ao trabalho de crianças na novela ‘Laços de família’. Brincou muito e com todo mundo, principalmente quando lhe disseram que o ministro José Serra foi ator na infância.

- Não só o Serra. Eu também. Mas fui sempre um canastrão. Glauber chegou até me convidar. Mas não deu certo.

Mas, nas despedidas, FH deu um sinal a atores e diretores de que o almoço não foi em vão. Justificando a pressa, detalhou sua agenda para o resto da tarde:

- E para terminar ainda tenho uma missa.

- Então, aproveite e reze por nós - pediu, humildemente, La Fischer.

- Para vocês e para que Deus dê um pouco de bom senso para o meu ministro da Justiça - respondeu FH.

Gregori, presente, deu um sorriso amarelo."



Fritz Utzeri

"FH é zero", copyright Jornal do Brasil, 26/11/00

"Atitude no mínimo inadequada, a de FH de ir ao almoço na casa de Toninho Drummond, levando a tiracolo José Gregori, ministro da Justiça, para encontrar-se com astros globais como Vera Fisher, principal estrela da novela Laços de família. A novela está sob questionamento da Justiça e a visita do presidente cria, no mínimo, um constrangimento ao juiz que cuida do caso. Onde FH errou? Em Brasília, certos hábitos tortos não são mais notados, mas presidente da República não visita amigos nem aceita qualquer convite para almoçar, principalmente nas circunstâncias acima.

O ‘inesquecível’ João Figueiredo tinha o costume de vir ao Rio, nos fins de semana, para fazer churrasco na casa de um amigo, coronel, no Recreio dos Bandeirantes. A República em peso mudava-se para a casa do dito coronel e a notoriedade que isso lhe dava propiciava-lhe uma influência tal que - num país de moralidade frouxa como o Brasil, onde comissões podem chegar a 30% (naqueles ‘bons tempos’ eram de 10%, ou dix pour cent, como era conhecido, em francês, um representante brasileiro em Paris) - poderia possibilitar ao militar fazer grandes negócios. Não sei se fez, acredito até que não, mas que poderia, poderia...

Quando o poder se desloca, respinga e marca. Não é à toa que ainda hoje encontramos no interior casarões e fazendas onde a primeira informação é: ‘D. Pedro dormiu aqui’. Lembro-me de Francisco Dornelles, quando era ministro da Fazenda, a fazer Bill Rhodes, todo-poderoso negociador mor dos credores do Brasil, ir ao hotel onde se hospedava, em Nova Iorque, quebrando uma longa romaria de ministros à sede do Citicorp. ‘Ministro não vai a banqueiro, banqueiro vai a ministro’, sentenciou Dornelles, e Rhodes foi a Maomé. Encenação? Certamente, mas a isso chama-se liturgia do poder, a mesma liturgia que levou à criação dos protocolos, etiquetas, cerimoniais, bandeiras, hinos, condecorações e outros penduricalhos com os quais vamos vivendo em sociedade.

Nada contra o fato de FH encontrar-se com Toninho Drummond, Vera Fisher, Romário, Sandy e Júnior ou Zé do Caixão, mas recebendo-os em Palácio e não aceitando convite para almoçar e mergulhar de cabeça no lobby global. E tudo isso para - jogando o mesmo jogo dos que criticam a atitude do Judiciário - ocupar-se de uma questão ridícula para um presidente da República. Afinal, há crianças abandonadas, insegurança geral, o Cacciola está solto, o Nicolau fugido etc. etc..

Saudades da Shirley

E continua a mistificação da censura, que acaba envolvendo muita gente boa. Cony (o primeiro a insurgir-se, em coluna jornalística, contra a Redentora, pelo que merece a gratidão de todos nós) passa de raspão e fala da censura, não a política, mas a das revistas masculinas, o que pode até ser uma boa comparação para discutir o assunto. Zélia Gattai e o próprio FH lembram com saudade a Shirley Temple, para tentar justificar o trabalho das crianças em Laços de família.

Vamos à Enciclopédia Britânica, atrás do verbete Shirley Temple. Lá está: ‘...ela é lembrada por seus cachinhos e pelos musicais sentimentais, nos quais demonstrava um talento genuíno para cantar e dançar, mas, mais importante, por sua habilidade em amolecer os corações dos adultos, promover e estreitar casamentos e envergonhar criminosos empedernidos, tornando-os cidadãos cumpridores das leis...’. Realmente, tem tudo a ver com Laços de família. Além disso, se o exemplo vale, a pequena Shirley cresceu, perdeu o dom de fazer sucesso e virou um monstro republicano, ultraconservadora. Ela mandaria, certamente, tirar a TV do ar, se pudesse. Cuidado com o exemplo...

Burro! Imbecil! Ditador!

Até sexta, recebi 168 e-mails sobre o artigo da semana passada. Desses, 12 fazem picadinho de mim (devo ser horrível em forma de hambúrguer e acredito ser intragável) e os outros 156 acham que a TV exagera. Vou mostrar os que não concordam comigo, mas abro com o e-mail do leitor Walter Vieira (wsv@nserc.ca). Ele escreve do Canadá, que, como todos sabem, é um país obscurantista, ditatorial, injusto, cujos governantes não dão a mínima para seu povo, que não tem acesso à educação, à cultura e ao bem-estar. As crianças canadenses, como é do conhecimento geral, vivem maltrapilhas pelas ruas, cheirando cola, dormindo em calçadas imundas e trabalhando desde a mais tenra idade. (Graças a Deus moramos no Brasil). Vejam como os canadenses são atrasados: ‘Estivessem atuando num país como o Canadá, a Globo e suas colegas de mesmo ou pior calão já não estariam mais no ar. Há muito teriam perdido seu alvará de funcionamento.’

Em geral, quem ataca escreve muito e tende a personalizar. Não é o caso do leitor Ricardo Portela do Aguiar (portella@rafrom.com.br), que diz, no começo, aceitar minha coluna, mas manifesta pavor da volta da censura e tipifica: ‘Você é editor do JB, sabe o que é publicado, veja o artigo de domingo (do excelente JORNAL DO SÉCULO) e resgate as leis que Hitler decretou na Alemanha. Não posso afirmar e ninguém pode, porém tudo pode ter começado com um sermão numa sinagoga, do qual aquele assassino não gostou.’ Não é tão simples assim, meu caro. Além disso, os judeus não foram responsáveis ou co-responsáveis pelo holocausto. Simplesmente não dá para comparar.

Se depender do leitor Mário Leme (marioleme@aol.com), não consigo entender o que está em discussão porque sou dotado apenas de ‘inteligência limitada’. Aliás, eu e o resto da humanidade, incluindo o leitor, a não ser que Mário Leme seja o nome de guerra de alguma divindade. Não suportaria ter inteligência sem limites, o que me transformaria em deus e me faria sofrer muito (tenho certeza). O leitor sofisma quando comenta a minha posição de que pais não têm direito de escolher a profissão dos filhos, mas sim apoiar a escolha, escrevendo: ‘...mas também não deve apoiar o filho de três anos, se ele quiser ser o super-homem e voar da janela’. Obviamente não me referia a tal bobagem quando falei do direito dos filhos. Essa idéia de ser super-homem e voar pela janela, na cabeça de um guri de três anos, geralmente é herdada direto dos programas da TV.

E, finalmente, vejo-me definido pelo leitor Oscar Matos (ommatos@yahoo.com): ‘Você deve ser aquele chefe que ninguém quer ter, mas que, infelizmente, muita gente tem; o que não pode ser contrariado. Bastou o Cláudio Paiva colocar seu ponto de vista e você o expõe em público. Isto, definitivamente, não é atitude de colega.’

Eu sou mesmo um monstro de autoritarismo, caro Oscar. Comigo é assim: discordou, leva pau em público e pode responder em público devolvendo a bronca, e todos continuamos, juntos, divergindo em público. Eu não concordo com muitos editoriais do JB pelos quais sou constantemente espinafrado por leitores, mas editoriais são o ponto de vista do dono do jornal. É assim que as coisas funcionam neste jornal. Aqui é tudo às claras, lavamos nossa roupa aqui, em casa, mantemos públicas nossas diferenças e continuamos juntos nesta casa que é o nosso velho, bom e democrático JORNAL DO BRASIL. Escrevam."



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