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QUALIDADE NA TV
STJ RESTRINGE NOVELA
Luiz Orlando Carneiro
"STJ mantém classificação de novela", copyright Jornal do Brasil, 30/11/00
"A novela Laços de Família, da Rede Globo, continuará sendo exibida a partir de 21h e sem participação de menores de idade. O ministro Antônio de Pádua Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça, manteve a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que deslocou para as 21h o horário de exibição da novela e proibiu a participação de crianças e adolescentes na trama.
A Rede Globo pedira uma liminar em ação cautelar, alegando prejuízos econômicos e argumentando que a classificação da novela como não-recomendada para menores de 14 anos seria ‘um ato de inequívoca censura’.
Em despacho de 27 páginas, o ministro Pádua Ribeiro recusou ‘os argumentos emocionais e sem embasamento jurídico’ entendendo que, ao contrário das alegações da Rede Globo, ‘a liberdade de imprensa e de criação artística não pode ser considerada como um valor absoluto, mas no mesmo plano de outros direitos constitucionalmente assegurados, como a difusão de programas educativos, artísticos, culturais e informativos, e o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família’.
O despacho do ministro Pádua Ribeiro é de caráter liminar, o que permite à Rede Globo ingressar com o recurso de agravo regimental contra a decisão. Nesse caso, a matéria será examinada pela 3ª Turma do STJ, formada também pelos ministros Ari Pargendler, Waldemar Zveiter, Carlos Alberto Direito e Nancy Andrighi."
CINQUENT’ANOS
Cléber Eduardo
"Dentro das imagens", copyright Época, 28/11/00
"Sob a proteção da penumbra e do anonimato, uma moça fala minúcias de seu passado. Lembra da infância e da adolescência, de shows de música e outros eventos. Embora sejam passagens da biografia da jovem, esses acontecimentos foram vistos apenas pela TV. ‘É minha maior companheira. Não consigo dormir sem ela’, diz a voz, sintetizando a estreita relação com o veículo de comunicação e entretenimento. O depoimento faz parte de um dos vídeos da mostra 50 Anos de TV e Mais, em cartaz a partir de 28 de novembro em São Paulo, e resume a principal questão levantada pela exposição: por que a televisão desperta reações tão intensas? Uma das possíveis respostas é sugerida por outra projeção, feita com tecnologia avançada, de alta definição (o HDTV), sobre a vocação do homem para se conectar com redes de comunicação - a começar pelo idioma.
Organizada pelo portal da internet Globo.com e pela Fundação Brasil 500 Anos, a mostra apresenta grande variedade de módulos. Todo o material é virtual. Parte das imagens foi recolhida em arquivos. Também foram encomendados vídeos e instalações a alguns realizadores. A exposição de imagens eletrônicas tem como cenário a Oca, prédio arquitetado por Oscar Niemeyer em 1950, ano de estréia da TV no país, situado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Trechos de grandes momentos da televisão brasileira, vídeos sobre a ligação afetiva entre o veículo e o público, debates sobre os principais aspectos da produção são projetados em monitores, telões, paredes, janelas e no teto da construção modernista.
‘A Oca se tornou a própria TV’, afirma Marcello Dantas, curador da mostra, referindo-se ao formato da exposição: fragmentado, dinâmico, superficial, com muitas opções. Dantas coordenou uma equipe de 56 pessoas nas etapas de elaboração, pesquisa, seleção e edição das diversas atrações. A parafernália tecnológica e cenográfica, como telas de última geração, cadeiras especiais e fones de ouvido, ficou por conta de Ralph Appelbaum, o curador americano, dono de um currículo em que desponta a criação do Planetário de Nova York. O ambiente tem ares futuristas, pouca luminosidade e grande multiplicidade de imagens. Em qualquer canto ou andar, assiste-se a alguma projeção. Pode-se ver até a programação de emissoras de 34 países, entre os quais Palestina, Emirados Árabes, Líbano e Irã, projetada ao vivo nas janelas arredondadas da Oca.
O Brasil é o terceiro maior consumidor de televisores, atrás apenas de Japão e Estados Unidos. Em 42 milhões de lares do país há pelo menos um aparelho ligado na tomada. Embora tenha somente 50 anos de existência, a TV parece ter chegado com as caravelas dos portugueses, tamanha a proximidade mantida com os brasileiros. ‘A televisão nos transforma em sociedade’, afirma Marcello Dantas. ‘Ela dá unidade cultural a um país cheio de contrastes e faz parte da educação afetiva das pessoas.’ Essa situação é bem ilustrada por um conjunto de vídeos sobre o impacto da TV na vida nacional. As imagens foram captadas em 18 de setembro de 2000, data do 50º aniversário da estréia da televisão no país, e trazem depoimentos nos quais o veículo é tratado com devoção ou ódio. Um rapper a acusa de manipuladora e de fabricar mentiras. Uma senhora a considera parte da família. Outra lamenta não ter tempo para ver mais TV.
‘A televisão espelha a cara do brasileiro e, em matéria de identificação, só é igualada ao futebol’, avalia o videomaker Marcelo Tas, um dos realizadores contratados para a mostra. ‘Todo espectador é um crítico de TV no dia-a-dia, assim como todo torcedor é um técnico de futebol.’ Esse vínculo entre a tecnologia e seus usuários ganha dimensão intimista em alguns trabalhos. As videoinstalações dos diretores Carlos Nader, brasileiro, e Bill Viola, americano, por exemplo, buscam a relação entre a linguagem televisiva e o inconsciente. ‘Se tirarmos o som dos telejornais e prestarmos atenção nas imagens, veremos como aquela linguagem fragmentada, cheia de saltos entre um assunto e outro, é similar à dos sonhos’, afirma Nader.
A mostra traz ainda uma retrospectiva dos grandes momentos televisivos de cada década, no jornalismo e na ficção, e uma seleção de notícias e cenas responsáveis por comoções coletivas - como o assassinato de Odete Roithman na novela Vale Tudo, a morte de Ayrton Senna e o enterro da princesa Diana. Também serão exibidos depoimentos de quem faz TV e de quem assiste aos programas sobre pontos controversos e atuais: manipulação, censura, limites éticos e abusos. ‘A TV é o que queremos dela’, conclui Dantas."
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