QUALIDADE NA TV


CRÍTICA / JERRY SEINFELD
Joaquim Ferreira dos Santos

"Esse cara é doido", copyright no. (www.no.com.br), 30/11/00

"Já aconteceu com você. Na garagem do shopping, caminhando em direção ao seu carro, eis que surge sorrateiro, como quem não quer nada, tolinho songamonga, um outro carro nas suas costas - e começa a acompanhá-lo, devagarzinho. É o banal, o tédio cotidiano. O cara quer apenas a sua vaga no estacionamento lotado. Nas mãos de Jerry Seinfeld isso pode se transformar num esquete absurdo. Ele sugere que você comece a correr em zigue-zague, obrigando o sujeito a engrenar uma terceira e se arriscar a perder a carteira em pleno estacionamento do Rio Sul. Que tal, continua Seinfeld, se você brincar de parar-e-andar, parar-e-andar, até acabar com a engrenagem daquele incauto que só queria da vida uma vaga e você, doido rato Jerry, o transformou num atarantado, infeliz gato Tom?

O humor do americano Jerry Seinfeld, um judeu que já foi flagrado pela mãe namorando no cinema durante A Lista de Schindler e ao contrário de Woody Allen não está nem aí para culpas depressivas, é todo calcado na deformação da lente com que se costuma mirar o dia-a-dia. Não está acontecendo nada de especial, parece dizer o tempo todo, mas repare bem como é engraçado. A grande questão de sua série (diariamente na Sony, 10h30, com reprise às 24h) não é o ser ou não ser shakespeariano. O mistério fundamental de Seinfeld e seus amigos George e Kramer é saber como uma mulher é capaz de derramar cera quente nas pernas, arrancar os pelos pela raiz, e no entanto morrer de medo de uma aranha.

Quase tudo que acontece com Seinfeld já rolou em sua, leitor, vida - ou você nunca comprou uma faca Ginsu e agora está aí com o sapato todo cortado ao meio? Ele está em primeiro lugar na lista dos best-sellers no Brasil com O Melhor Livro Sobre o Nada, uma coletânea de pensatas, muitas delas utilizadas na televisão e que certamente já passaram por sua, leitor, cabeça. Onde, por exemplo, esse pessoal dos anúncios de refrigerante arruma tanto entusiasmo? Eles andam de jet-ski, jogam vôlei, se atiram de asa-delta, sempre com garotas incríveis de biquíni, e você ali, sozinho, acabrunhado na poltrona, tomando o mesmo refrigerante. Será que é porque você está botando gelo demais no copo?

Pedro Cardoso, o magricela dos esquetes do Fantástico e figurinha onipresente no horário comercial, daria um naco das suas escassas gramas para ser Jerry Seinfeld. É uma das vantagens destes tempos. Se você não pode ser a Giselle Bündchen e lá de cima, sílfide suprema, cavalgar sobre a humanidade, vá na contramão e emule a gordota Claudia Jimenez. Tem dado certo. Pedro Cardoso, por exemplo, desistiu desde sempre de ser qualquer um desses vitoriosos bonitões do cinema. Herói para ele, e Millôr Fernandes, é aquele que não teve tempo de fugir. Nunca conheceu, como Fernando Pessoa, quem tivesse levado tanta porrada da vida. Cardoso é o homem comum, por isso cartões de crédito, supermercados, planos de saúde apostam tanto nele. Deu certo. É a moda possível. Não há mais dragões a serem mortos. A Normandia já foi tomada. Para Seinfeld e Cardoso a guerra agora é conseguir não enrolar o punho, nem enforcar o dedo, naquela correntinha com que os bancos prendem a esferográfica no balcão.

A série não é gravada há mais de dois anos, desde que Seinfeld alegou o saco cheio e necessidade de tempo para contar o imenso ervanário que recolheu depois de uma década reinventando o humor televisivo. A Sony percebeu que tem um clássico nas mãos, assim como I Love Lucy ou o Papai Sabe Tudo, e repete, sem constrangimento, os capítulos ao infinito. Ninguém reclama. Vai rolar sempre um stress na fila de espera do restaurante chinês, como aconteceu numa reprise desta semana, e a recepcionista vai chamar um segundo depois de você ter batido em retirada com sua turma para comer um Supreme no Mac Donald´s. O mundo muda muito devagar. Dias atrás, pelos jornais, Luís Fernando Veríssimo começou a travar contra a salsa, o nada na gastronomia, a mesma batalha que já era obsessão de Seinfeld na década passada. Se os cassetas implicam agora com o pum no elevador, Seinfeld invocava com o cecê. Tudo na natureza tem um propósito e uma função, acreditava ele, menos o cecê. Por que o suor não pode cheirar bem?

Está tudo ainda muito engraçado, new yorker e atual na série, embora jeans apertados demais e camisas de madra às vezes dêem a impressão de que os anos 80 conseguiram ser mais cafonas ainda que os punhos boca de sino dos 70. No livro, às vezes falta a inflexão dos atores, falta também a brincadeira de tentar encontrar o Super-Homem nas cenas (tem sempre um em algum canto, como Hitchcock dando aquela passadinha para assinar seus filmes). Mas os sinais vitais também estão preservados e, atenção, o livro não vem acompanhado das risadas mecânicas da claque da Sony. Ninguém precisa dizer que é hora de rir quando Seinfeld, o homem comum mais esquisito do mundo, escreve que o chato de ficar nu é que você não pode fazer aqueles ajustezinhos de quando está vestido. Por isso é que ele, quando pelado, gosta sempre de usar um cintinho básico."




CRÍTICA / BORIS CASOY
Ivan Angelo

"FHC fez a melhor crítica a Boris Casoy", copyright Jornal da Tarde, 28/11/00

"Na entrevista que deu ao vivo ao programa Passando a Limpo, domingo passado, o presidente Fernando Henrique Cardoso não fez nenhuma revelação importante. Se mostrou algo de novo foi sinceridade. Nas entrevistas comuns, feitas durante as andanças presidenciais, entre um avião e um jantar, ou entre uma conferência e um jatinho, FHC ou passa irritação ou um jeito de velhaco. Na conversa com Boris Casoy e com os telespectadores (estes, por meio de fax) ele mostrou-se até tímido num determinado momento, não procurou enrolar, evitou a propaganda e a auto-indulgência, defendeu-se com alguma modéstia, valorizou os adversários e queixou-se dos interesses de grupos que frustraram no Congresso tentativas progressistas do governo.

A melhor crítica ao entrevistador foi feita pelo próprio entrevistado, ao final do programa: disse que Boris faz perguntas francas, ‘sem cartas escondidas no bolso do colete’, aborda assuntos de interesse e dá tempo ao entrevistado para expor seu pensamento. Vindo de quem veio, é um baita elogio. Pois é bom lembrar que uma pergunta feita por Boris a FHC, quando este foi candidado a prefeito de São Paulo, contribuiu, e muito, para sua derrota frente a Jânio Quadros. O candidato, tomado de surpresa, atrapalhou-se todo e deixou o eleitor desconfiado porque não soube responder a pergunta: ‘O senhor acredita em Deus?’

MTV - Muito bom o programa do último domingo da série 20 e Poucos Anos, às 23 h. Mostra jovens acompanhados em suas atividades, bem diversificadas, e também reunidos num bate-papo. Na reunião, ressalta a dureza de grana e nem por isso os jovens deixam de fazer o que acham importante para eles, e o papo remete o telespectador à falsidade das necessidades da Capitu da novela. A linguagem do programa tem a agilidade habitual da MTV, boa marcação musical, e transmite um otimismo sem caretice nem discurso, muito melhor do que as matérias edificantes das emissoras ‘grandes’.

Chico Mendes - Quadro forte no Fantástico: a viúva de Chico Mendes defronta-se com o assassino do marido. Sentados frente a frente diante de uma mesa, câmaras focando os dois, edição em campo e contracampo, mostrando a fala e as reações de cada um. Ele hoje arrependido, evangélico, buscando perdão, diz que Deus tirou tudo aquilo que estava em seu coração. Ela, sofrida, exigindo dele o porquê e os nomes de quem estava por trás do crime. Ele não quer falar do passado, só do homem que diz ser hoje, procurando recompor sua família. Ela diz que não adianta pedir perdão sem contar quem estava por trás. Diz que é muito fácil se arrepender e falar em Deus quando tem ao lado dele a família, ‘mas isso não traz de volta nosso ente querido’. Bate a porta e sai, deixando perplexo o criminoso arrependido. ‘Sabemos que vem dando uma de bonzinho mas no fundo coração é de serpente’.

Capitu - Uma leitora telefona para esclarecer-me que o cafajeste Orlando estava na festa de casamento de Edu e Camila (que achei sem explicação) porque é amigo da Alma. Falha de quem não acompanha folhetins com muita paciência.

Voltando a Capitu. Ela preferiu continuar na prostituição, com Orlando, e recusar a proposta do seu amorzinho Fred, de ficarem juntos. Por que não escolheu Fred? Por que não uma vida honrada? Por que escolheu o dinheiro de Orlando, mesmo com nojo dele? Orlando é um prolongamento da sua vida de prostituta. Esta escolha não combina com a garota boazinha e vítima que o autor pinta. A incoerência existe porque o autor a constrói com atitudes de outra personagem.

Uma garota de programa ouvida pelo Caderno de TV no último domingo explica claramente o problema: o que move uma garota dessas é o materialismo, não a necessidade. ‘Pelo que aparece na novela, o pai trabalha, a mãe costura para fora. Ela poderia ter uma vida com menos conforto, com outro trabalho.’ Não teria sentido, diz a garota ao JT, recusar um homem como Orlando, que lhe dá jóias e bens. Portanto, concluo: agora, ao escolher Orlando, Capitu está sendo coerente, mas isso briga com o discurso de heroína que o autor colou nela."




CRÍTICA / HUMORÍSTICOS
Nelson Ascher

"Crise de humor na TV", copyright Folha de S. Paulo, 26/11/00

"Os programas humorísticos como ‘Casseta & Planeta Urgente’ estão cada vez mais chatos. Há mesmo uma crise ou uma acentuada pauperização do humor televisivo nacional, algo que se traduz em resultados mais grosseiros e menos imaginativos.

Existe uma lei que costuma frequentemente prevalecer no exercício das mais diversas atividades: a do menor esforço. Isso é algo que salta aos olhos na televisão, onde muitos profissionais até começam cheios de planos e de boas intenções, mas logo acham uma maneira de transformar em fórmula qualquer idéia que tenha dado minimamente certo.

Assim, na publicidade, por exemplo, qual seria a fórmula quase absolutamente garantida que, não importa o produto, ocorre sempre aos espíritos preguiçosos? Obviamente, a nudez feminina. Com esta, pode-se anunciar de tudo: sabonete, relógios, automóveis etc. Bom, talvez nem a marca nem mesmo a identidade do produto anunciado se fixem na mente do espectador, mas a atenção da platéia (pelo menos de sua parcela heterossexual masculina) estará assegurada durante aqueles segundos nos quais, seguindo um script ancestral, o reflexo substitui a reflexão. Quando esta retorna, porém, uma conclusão é inescapável: alguém na agência tal ou qual de publicidade não está fazendo jus a seu salário.

Coisa semelhante ou idêntica ocorre com os programas humorísticos, pois neles o uso de fórmulas é obrigatório. É provável que, em qualquer circunstância e em todos os meios, o humor dependa de um número limitado de fórmulas. Um levantamento estatístico mostraria que, numa época e lugar determinados, 80/ 90% das piadas não passam de variações previsíveis sobre meia dúzia de assuntos: a zombaria de quem está no poder, os estereótipos étnicos (o português burro, o judeu muquirana, o baiano preguiçoso, o argentino convencido etc.), o que os homens pensam sobre as mulheres e vice-versa.

Parece que no Brasil uma fatia importantíssima do humor depende de tudo aquilo que diga respeito à masculinidade duvidosa, os principais alvos da caçoada sendo o homossexual e o marido traído. E um dos recursos mais fáceis para fazer o público gargalhar é colocar em cena um homem vestido de mulher. As mulheres poderiam até pensar, com alguma justiça, que elas é que estão sendo caricaturadas, mas isso equivaleria a concluir que esse tipo de humor as leva em consideração, quando de fato ele tematiza a virilidade e se volta preponderantemente para a audiência masculina. Valeria, aliás, a pena tentar descobrir por que, neste país, o humor se dirige antes de mais nada aos homens e por que as raras tentativas de dirigi-lo às mulheres, como no caso infeliz (desde o trocadilho infame do título) do ‘Garotas do Programa’, habitualmente fracassam. Seja como for, tanto faz se o humorista é Jô Soares ou Tom Cavalcante, o número do sujeito travestido se repete, se repete, se repete...

No ‘Casseta & Planeta Urgente’ essa é a tecla mais insistentemente batida: quem quer que não role de rir com o Bussunda vestido de Helena/Vera Fischer ou com a palavra ‘boiola’ e seus derivados em todos os contextos e a qualquer hora tenderá a não ver muita graça no programa. É verdade que o ‘Casseta’ não se resume só nos recursos em questão. Ele vem se tornando também uma espécie de linha auxiliar da novela das oito, pois, a despeito de ares de paródia, ele não tanto zomba dela quanto tenta pegar uma carona em seu vácuo enquanto ajuda concomitantemente a promovê-la. Além disso, volta e meia o programa recorre a um outro tema, favorito perene de crianças e pré-adolescentes, a saber, a escatologia. Só que tal mistura aponta menos para a versatilidade que para uma indecisão de fundo a propósito de seu público-alvo.

O ‘Casseta’ não é o pior nem o melhor programa humorístico da televisão brasileira. Situando-se entre ambos os extremos, ele é, por isso mesmo, particularmente exemplar de uma maneira cediça e cansada de pensar (e encenar) o que é que deve ou pode ser cômico, engraçado, divertido. Entre outras coisas, o humor desempenhou muitas vezes a função de um espelho que a sociedade colocava diante de si para, por meio da própria imagem deformada, compreender-se melhor. Quando se chega, no entanto, ao ponto em que se está, tudo indica que as formas do humor, tendo sobrevivido a seus conteúdos, não têm mais utilidade e tornaram-se, inclusive, contraprodutivas, atrapalhando o surgimento de coisas mais interessantes."



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