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PRODUÇÃO AUDIOVISUAL
Um povo sem espelho e sem cara
Fernando Zornitta (*)
O cinema como veículo da manifestação artística foi uma das mais importantes formas de expressão de que dispôs o homem do século 20 o século da tecnologia, das comunicações, da aldeia global para o registro, a divulgação, a valorização e a difusão cultural. Para o povo americano representou ainda a possibilidade de difusão da sua cultura pelo mundo e o seu mais eficaz veículo de mídia.
Em épocas distintas e nos mais remotos recantos do planeta Terra, Chaplin e Schwarzenegger nos pareceram mais familiares do que um importante personagem do nosso próprio meio local ou regional; talvez Los Angeles e Hollywood hoje nos sejam mais próximas do que a nossa própria cidade ou o nosso bairro e a cultura americana, mais enraizada em cada um de nós do que a nossa própria cultura, tão descaracterizada.
O cinema, na televisão ou na tela, tem esse poder. Magnífico e mágico poder de subliminarmente atingir e formatar o nosso cérebro e o inconsciente coletivo, enquanto conta uma estória ou uma história, e de mudar padrões socioculturais, pré-estabelecidos pela evolução na linha do tempo.
Embora o seu importante papel, as pessoas de todas as faixas etárias, e mormente aquelas que dispõem de mais tempo livre, se postam a sua frente, assistindo passivamente as suas mensagens.
A dominação cultural pela pequena ou pela grande tela é uma luta desigual, onde o indivíduo é coagido psicologicamente e dominado intelectualmente, quando assiste a suas mensagens passivamente. Ele é passivo porque a trama o envolve, e o envolvimento faz parte da mágica do cinema, que sublima as suas mensagens justamente quando o indivíduo está mais receptivo e em estado letárgico, livre dos condicionantes do trabalho e do "tempo comprometido" social, familiar e biológico: "nos seus momentos de lazer".
Embutidas nas mensagens estão os modelos culturais, que hoje são transmitidos de um pólo a outro do mundo e são cada vez menos determinados unicamente pela experiência do meio local e cada vez mais pelas mensagens vindas das sociedades que se apresentam como a mais poderosa, a mais rica e a de maior prestígio.
Vivemos no século 21, o século da civilização alienada, que venerou o fantástico, o super, o máximo, a riqueza, o poder; e perdeu a visão do simples e da sua própria realidade social e, por isso mesmo, ficou muito mais suscetível a assimilação destes padrões alienígenas e descompromissados de qualquer papel social relevante.
Mentalidade do cinema-indústria
O homem da civilização industrial foi compelido a substituir padrões culturais, assimilando alienadamente outros padrões de cultura e sendo forçado a viver em completo paradoxo: buscou a paz e investiu cada vez mais em armamentos e em guerras; cultuou a natureza e cada vez mais a destruiu; buscou a riqueza e praticou o desperdício; endeusou o absurdo e ridicularizou o lógico.
A linha evolutiva da humanidade esteve consubstanciada no paradigma da mais valia, do progresso e "desenvolvimento", alicerçados na economia, na concentração e no domínio da ciência e da tecnologia, no subjugo de povos e nações e neste avançar sem rumo.
O homem que adentra o século 21, efetivamente, não apreendeu nada para orientar a sua evolução e contraria todas as leis que o colocaram erroneamente num patamar de superioridade na classificação das espécies. Enquanto nossos ancestrais das cavernas socializaram as suas descobertas, o Homo Sapiens cada vez mais quer se apropriar do conhecimento em benefício de poucos e de grupos.
O motor da evolução da sociedade é a tecnologia, salientou Darcy Ribeiro. Os blocos econômicos e o poder de fogo das nações que atingiram um elevado padrão social nutriram-se primeiro de tecnologia, que as conduziu junto com outros fatores a um processo de industrialização acelerada e a um sistema de supremacia e dominação econômica, que hoje move e promove todas as boas e más ações no planeta.
No começo do século passado e enquanto os Estados Unidos rapidamente percebiam o potencial do cinema e estruturavam sua indústria cinematográfica, fazendo nascer os poderosos estúdios, a Europa incorporava uma preocupação maior com a arte que lhe é afim, gerando correntes que se espalharam pelo mundo e fecundaram outras vertentes que revelaram talentos desconhecidos, os quais depois se projetaram pelo mundo.
Movimentos e escolas trouxeram luz para a evolução da arte, da técnica e da linguagem cinematográfica em várias correntes no Expressionismo Alemão, no Neo-Realismo Italiano, na Nouvelle Vague Francesa, no Cinema Novo Brasileiro e até no cinema americano que, por meio da poesia e do gênio artístico embutido em cada um dos autores, deram corpo a essa nova e mágica forma de arte e comunicação.
O "cinema-indústria" que faz parte da mentalidade e dos paradigmas que guiaram a lógica evolutiva da humanidade no século 20 traz como resultado do processo "produtos" cujo objetivo maior é a bilheteria, as prateleiras das videolocadoras, os espaços nas TVs (abertas e por assinatura) e as novas formas de veiculação pela internet e em DVD "o sucesso econômico do empreendimento", um produto para as massas, sem outros compromissos senão com o mercado e seu resultado econômico. O marketing tradicional de produto foi adaptado ao marketing da indústria cinematográfica e inteligentemente direcionado ao pretenso mercado consumidor.
Domínio das ferramentas
No produto final gerado estão embutidas as motivações de consumo audiovisual, dos gêneros que estão em voga e que fizeram com que o "produto" fosse criado, temperado com os recursos tecnológicos de ponta, que fazem a fantasia materializar-se nas telas e ser vista através da gigantesca e eficiente malha de distribuição criada, a garantia do "produto" chegar ao "mercado".
O Brasil, que já produziu 35% a 40% do que víamos nas telas, durante a década de 90, chegou a arrecadar menos de 1%, e hoje arrecada menos de 10% das suas próprias bilheterias. Naquela áurea época, os filmes eram populares e tínhamos três vezes mais salas do que hoje. Produziam-se de 40 a 50 filmes por ano que todos viam; hoje são em média 25 por ano, e muito poucos vêem, ou quase ninguém. O público que vai ao cinema no Brasil hoje representa apenas 6% da população, e é constituído pelo mesmo público que vai aos shoppings (que estão em todas as grandes metrópoles), com poder aquisitivo, e cujos interesses via de regra não são os mesmos que dizem respeito à promoção da cultura popular brasileira.
Estes se interessam por Titanics, Matrixes, Harry Potters e outras caras produções orquestradas por Hollywood, revestidas da mais pura e vazia fantasia, recheadas com os mais avançados recursos tecnológicos, são distribuídas e lançadas com altos investimentos, concorrendo com o restante da produção mundial e tupiniquim, como um trem em alta velocidade que atropela e esmaga o que se atravesse em sua frente.
O Brasil não tem uma política definida e nem regulamentação que proteja nossa produção audiovisual, e sempre se rende às ameaças dos poderosos concorrentes quando pensa numa política protecionista. É, por isso, um grande quintal onde crescem as ervas daninhas da cultura alienígena, porque estas não são podadas na raiz e porque não cuidamos das nossas próprias sementes e de valorizar a nossa cultura, já tão descaracterizada, que vai morrendo por esquecimento e aos poucos.
As boas iniciativas que poderiam mostrar a luz no fim do túnel sempre ficam legadas ao acaso e a ações acovardadas ou nunca são postas em prática; via de regra não têm continuidade e se volatizam. Também temos que conviver com a vergonhosa, desrespeitosa e antiética conduta de nossos legisladores e administradores, que parecem defender mais os interesses empresariais envolvidos do que a própria sociedade que deveriam representar.
A nossa televisão aberta, que poderia estar ajudando a mudar um pouco o quadro, é um ótimo deste péssimo exemplo. Toda a sociedade, seus legisladores e administradores convivem no dia-a-dia com o conteúdo das grades de programação das emissoras concessionadas que, em que pese a sua elogiada qualidade técnica, é um lixo em termos de programação sem entrarmos no mérito do monopólio da produção.
O sinal para o serviço de radiodifusão é uma concessão do Estado, e essas emissoras, que deveriam se ater às prerrogativas legais da concessão, atuam em desrespeito e fora de sintonia com o que prevê a lei sem que nenhuma esfera da administração pública se manifeste para cumprir seu papel e nem mesmo para fazer cumprir a lei.
O cinema brasileiro também não se afirma porque anda ao sabor das marés. E tem se afirmado como uma forma artística e de expressão elitista e deturpada, em que o domínio da ferramenta tem sido privilégio dos afortunados, que produzem filmes que ninguém vê, nem mesmo dentro do próprio país. Também por isso, o quadro não tem sido alterado.
A criatividade e o potencial criativo do brasileiro têm sido largamente elogiados e já projetaram talentos que hoje são estudados. Entretanto, o pressuposto básico para que o cinema e a produção audiovisual brasileira tenham uma chance de ocorrer em larga escala e de fato embora as barreiras, os entraves e os desincentivos é o domínio das ferramentas e da técnica do fazer, "do pintar a tela".
Anos-luz à frente
A arte é universal e o cinema, a sétima arte, o mais espetacular veículo de difusão cultural que a humanidade já conheceu. Mesmo a televisão e a internet, que, imaginava-se, fossem diminuir sua importância, hoje nutrem-se e ancoram-se nele.
O século 21 está trazendo do século passado um enfoque centrado no avanço acelerado da tecnologia, das comunicações, da filosofia da "aldeia global", e aponta para novas formas de comunicação e de difusão cultural.
Com a convergência de mídias, que aproxima o computador, a televisão e a internet, e o amplo espectro da parafernália eletroeletrônica e da informática que o Homo Sapiens desenvolveu até então, enfim, o domínio do conjunto das ferramentas da produção audiovisual, e não só do cinema, será agora determinante para a difusão cultural e para a construção do mosaico da história de um povo e da humanidade, numa proporção em muito maior grau do que o cinema trouxe e foi para o século 20.
Da mesma forma que o pintor domina suas ferramentas e uma técnica para expressar a sua arte, a produção audiovisual também tem um conjunto de ferramentas e de técnicas específicas que precisam ser dominadas para que falemos a sua linguagem e produzamos filmes, vídeos e a grande diversidade de produtos audiovisuais e em multimídia.
A hipermídia a arte colocada num novo contexto geral, a produção audiovisual e o cinema , fazendo parte deste contexto, tem papel universal a cumprir e pode ajudar a mudar o panorama catastrófico e de desigualdades que nos deparamos neste começo de século 21. O cinema, como arte ou como produto, neste contexto, teve e continuará tendo um papel muito maior a desempenhar, tanto no velho como nos novos suportes e mídias.
Herbert Marcuse, com propriedade, frisou: "A arte pode não mudar o mundo, mas pode mudar o homem, que pode mudar o mundo!" Para cumprir seu papel e contribuir para as urgentes e necessárias mudanças de paradigmas, para que a humanidade construa uma perspectiva de saída, a sétima arte e as novas composições artísticas que surgiram a partir dela não poderão continuar numa camisa de força.
O cinema, muito antes de ser produto, já foi arte; com Chaplin, Fellini, Godard, Glauber, Orson Welles e tantos outros. E, para continuar a cumprir seu papel, chegar à alma humana e ajudar a mudar o mundo, deve por premissa voltar a ser antes arte e depois produto.
O mundo que se maravilha com os recursos tecnológicos que o cinema desenvolveu se esquece de consumir qualidade e bons roteiros. Hoje consome os produtos de gêneros impostos e de gostos duvidosos, numa formatação padronizada para as grandes massas, que continuam a se maravilhar com o esterco resultante do processo. E tudo se consome num sistema de forças desproporcional e injusto do mundo globalizado, que nos faz viver um grande paradoxo. Não temos ética e nem justiça na nossa práxis social, quanto menos nas telas.
Enquanto precisamos nos capacitar para lutar em igualdade por espaço, competimos com quem histórica e tecnicamente está anos-luz à frente e, com isso, esquecemo-nos de um grande potencial que indiscutivelmente se encontra no Brasil: o dos brasileiros, e de incentivar, apoiar, financiar o nascimento e o crescimento destes novos valores, para que expressem a sua arte.
Amarras da expressão artística
No Brasil que também já fez cinema sempre se fala em recomeço. Mas nossa produção que sempre ocorre numa escala ínfima, se comparada à Índia, à China ou aos Estados Unidos, e sempre com gêneros ensimesmados ou desapropriados para um mercado mundial precisa se adequar às nossas necessidades, para que nos vejamos nas telas antes de procurarmos nos afirmar lá fora.
Não precisamos entrar numa guerra mundial que se trava pelos espaços mercadológicos. Precisamos, sim, de uma total mudança de paradigmas, que incentive o intercâmbio, a diversidade do nosso potencial expressivo e a experimentação. O sempre e promulgado recomeço que vem com as marés poderia se preocupar em trazer uma abordagem mais madura, por parte dos experientes e dos novos profissionais, para que o cinema e a produção audiovisual tenham os seus efetivos espaços, mas que também e principalmente sirvam para a aproximação dos povos, para a valorização e para a sedimentação das nossas raízes culturais.
E, se um dia viermos a produzir de fato, um dos nossos principais problemas certamente continuará sendo o da "distribuição" interna e externa pois, o filme e a produção audiovisual nacional hoje concorrem de forma desigual no nosso próprio mercado interno, com outros que chegam em avalanches de fora e principalmente dos Estados Unidos da América.
Enquanto estes foram produzidos com orçamentos centenas de vezes maiores do que os nacionais e com recursos técnicos de ponta que são hoje uma das principais motivações da demanda e que também enfrentam o poder de fogo das distribuidoras internacionais (que quase sempre são os próprios estúdios), que nos empurram goela abaixo o que querem, como, quando e nas condições que querem , lutamos com parcos recursos, com poucos profissionais, sem apoio e sem mercado.
O que move o quadro da exibição cinematográfica mundial (hoje contextualizado como "mercado cinematográfico de consumo") a partir da pré-existência e conceituação do "produto cinematográfico" o filme não tem sido outro senão o resultado econômico-financeiro destas produções. No Brasil, e para garantir a exibição dos seus pacotes, as distribuidoras internacionais implantam associações internas e continuarão a implantar do dia para a noite , como que num passe de mágica, centenas de sofisticadas salas de exibição, obrigando-nos a consumir seus produtos também a partir delas.
Através da horizontalização da produção e de uma preocupação a menos com a distribuição , a exibição da produção alienígena está garantida e chega ao consumidor desavisado, garantindo ainda, além do resultado econômico esperado, o espaço para a continuidade da formatação dos seus produtos, com o sagaz componente embutido: a sua cultura.
Neste contexto, como então garantir espaço para o cinema nacional e para que o cinema brasileiro cumpra o seu importante papel de difusor da nossa cultura, se os espaços para a exibição também se revestem de tecnologia e cada vez mais se rendem aos pacotes das produções internacionais e se as novas salas já nascem para garantir a exibição destas produções alienígenas? Novas e criativas formas além das de caráter legal (que tradicionalmente não privilegiam a nossa produção) poderão contribuir para que esta poderosa e mágica forma de expressão artística se desvencilhe das amarras que impedem a sua livre manifestação no cenário nacional, principalmente porque 94% da população brasileira não pode e nem está acostumada a ir ao cinema nos shoppings, o novo espaço no contexto urbano que abriga as salas do sistema Multiplex, enquanto vemos cinemas tradicionais e de bairros fecharem às pencas e na mesma proporção em que os de nova roupagem aparecem.
Barbárie, intolerância e fantasia
Estas novas salas e equipamentos para a exibição que nada mais são do que a garantia da exibição dos pacotes da produção alienígena e dos grandes estúdios nascem e se estabelecem numa rede de associações que garantem aos produtores a exibição (associação com o empresariado nacional nestes empreendimentos e para garantir a exibição das suas produções e os respectivos ganhos nas três fases: produção, distribuição e exibição).
A grande maioria das populações nos paises em desenvolvimento e, neste contexto a brasileira que luta pela sobrevivência e não tem atendidas as suas necessidades básicas e as subjetivas (que dizem respeito ao espírito ao lazer, à recreação, à cultura) não tem sequer consciência da importância desta forma de expressão, como meio de intercâmbio sociocultural e de comunicação.
Poderia ela exigir se ver nas telas, mas essa luta não está nas suas prioridades, e fica cada vez mais viciada em produtos da "contracultura audiovisual" sem conteúdo, em gêneros impostos que incentivam a violência, o terror e a superficialidade. No máximo, poder-se-ia esperar que legisladores, intelectuais, artistas e administradores da coisa pública orientassem as políticas e as estratégias de ação, e que lhes dessem as garantias da defesa de seus interesses relegados e que dizem respeito ao conjunto da sociedade e da defesa da sua própria cultura; mas isso, infelizmente, não ocorre.
A grande maioria de nossas TVs abertas não cumpre o seu papel social e nem as obrigações impostas pela legislação (que lhes concessionou o serviço público de radiodifusão que pressupõe um papel educativo e cultural); travam uma luta de morte pelos índices de audiência e enchem as telas dos nossos lares de lixo "made in Brazil" (produzido pelas próprias emissoras concessionadas) e de enlatados produzidos nos EUA, e não abrem um mínimo espaço para a produção das vertentes que vêm da sociedade, as quais poderiam estar contribuindo para a mudança deste triste paradigma.
Também não temos o nosso espaço nas nossas telas de cinema e mais de 90% da arrecadação do que assistimos vai para as produções estrangeiras, sendo a sua quase que totalidade americana que faz um lobby cerrado sobre nossos políticos para que a legislação lhes sempre seja favorável, mesmo que contra os interesses nacionais.
Por outro lado existe uma imensidão de profissionais que tenta produzir com consciência embora os que consigam talvez estejam numa mesma proporção dos milhares de espermatozóides que tentam fecundar um único óvulo pela ausência de incentivos e de reservas de mercado para as produções independentes. As leis de incentivo à produção e os inatingíveis programas de incentivo empresarial ao audiovisual brasileiro, gastam somas astronômicas na promoção, divulgação e publicidade e destinam gotas d água e nenhum adubo para o solo seco e árido e para o germinar de novos valores da produção nacional.
Embora existam as poucas e deficientes leis para o incentivo e para a proteção, comprovamos que não há ações práticas e corajosas do Poder Executivo que obriguem a trocar o lixo que somos obrigados a ver e ouvir por material de consumo adequado para a valorização cultural; não existe ou se faz vista grossa qualquer fiscalização sobre a qualidade do que vai às telas, principalmente das TVs abertas, que diariamente entra em nossos lares, participando do processo educativo dos nossos filhos.
Somos obrigados a assistir diariamente a produção do lixo doméstico que se baseia nos níveis de audiência e compete por quantidade, e não pela qualidade, e com produções que incentivam a violência, a barbárie, a intolerância, a fantasia sem rumo e a mais pura alienação.
Não faltam novos talentos
A nossa política de regulamentação pelo livre mercado só tem diminuído a qualidade da programação e do aberto espaço para o lixo produzido aqui dentro e para os enlatados produzidos lá fora, que aqui chegam já pagos pela excelente malha de distribuição criada pelos grande estúdios, a qual se estende por todo o planeta e, também, pelos preços irrisórios cobrados com os quais não podemos competir.
Nas televisões americanas embora a qualidade duvidosa , quase 70% do que vai ao ar é produzido fora da emissora. No Brasil quase 100% da produção audiovisual e da programação que vão ao ar é produzido e gerado por um pequeno grupo de empresas, que dominam os meios de comunicação e não abrem espaço para o amplo e diversificado potencial da produção e dos temas que a nossa cultura oportuniza; que faz questão de exibir os enlatados e se rende aos novos modelos de programação televisiva alienígena (pagando caro por isso, como o Big Brother), enquanto faz de conta que no país não existem recursos humanos para criar.
Além do que, agimos sempre nos efeitos, e não nas causas. Financiamos pouco e errado e não fazemos nada para mudar as estatísticas, para democratizar, para incentivar, para pulverizar os recursos para a plantação das novas sementes e para catalisarmos assim a produção, irrestritamente. Não temos uma política e um sistema de distribuição competente para colocação dos nossos produtos audiovisuais, nem para atender ao mercado interno e muito menos o externo. E, principalmente, não temos regras definidas e de proteção para a exibição do cinema e da produção audiovisual nacional.
Precisamos levar em consideração também que não temos muito a exibir, pois nossa produção em volume é mínima; não lidamos muito bem com a distribuição e a exibição interna e muito menos externa, e competimos comparativamente com uma avalanche de produções respaldadas por estratégias mercadológicas.
Num segmento superespecializado e para que aconteça de fato uma reversão, se faz urgente e necessário que plantemos as sementes, oferecendo o espaço para a experimentação. Também se faz mister que oportunizemos todas as iniciativas de formação de platéia, de intercâmbio de experiências, de associações e eventos, para que uma ebulição aconteça de fato e para que esta se faça sentir em todos os níveis e ecoe, enquanto não implantarmos as fórmulas para a total reversão do quadro que aí está.
Centenas de milhares de bons projetos de novos talentos se amontoam nos concursos públicos e de empresas privadas (que querem aproveitar-se dos incentivos fiscais das leis federais e estaduais). É gente que quer realizar suas consistentes e baratas produções audiovisuais, mas as políticas continuam incentivando pouco e priorizando as caras e insípidas produções, que sequer se pagam nas bilheterias.
Ética no exercício público
Alguém já disse que o cinema é o espelho de um povo, e que o povo que não tem cinema não tem espelho e não tem cara.
O povo que não domina as ferramentas audiovisuais e não consegue se fazer ver e reconhecer-se nas diversas mídias e veículos que o estágio tecnológico de desenvolvimento colocou em suas mãos é um povo dependente e guiado por aqueles que se apropriaram ilegitimamente e em seu nome destas ferramentas que, por conseqüência e "coincidência", também são os mesmos que dispõem das mídias e dos veículos de difusão e comunicação.
É humilhante ser visto através de um espelho caleidoscópico colorido, mas estereotipado como o nosso. São indecentes a permissividade e a libertinagem mascarada de "nossa cultura", passada através deste deturpado prisma. É ridículo e ofensivo o que a nossa sociedade vê como reflexo neste espelho, que não espelha a nossa cara e nem a nossa sociedade. Na verdade, o que vemos neste "nosso espelho deturpado" é nossa imagem numa camisa de força. Não conseguimos nos ver e ver a nossa verdadeira cara.
No cinema, os projetos que romperam fronteiras, como Central do Brasil, Eu, Tu, Eles, Ilha das Flores e tantos outros que ganham prêmios lá fora bem estão a demonstrar isso, com seus jovens diretores, brilhantes atores e equipes.
O Brasil tem Gugas, Pelés, Sennas, Drummonds, Raquéis, Quintanas, Lupicínios, Vinícius, Gils, Niemeyers, Glaubers, Nelsons, Salles Jrs, Fernandas, Duartes, Chacrinhas, Felipões e centenas de milhares de tantos outros valores. Mas, infelizmente, ainda não tiveram o solo fértil e a altura para se manifestarem
Todos que cavaram seu espaço aqui ou lá fora sabem que só conseguiram porque tiveram oportunidade "a bola e o campo para jogar" e, embora tenham saído do nada, do impossível, para só depois terem seus valores reconhecidos, aí estão hoje oferecendo milhares de frutos, exemplos e glória à arte e ao seu país.
Para que a nossa produção audiovisual para o cinema, para a televisão e para as novas mídias aconteça de fato basta que tenhamos "a bola para jogar", os espaços, as ferramentas, os incentivos e a proteção, para que o amplo espectro da nossa produção ocorra de fato. Precisamos de habilidade, de técnica, de espaços, de incentivos, de legislação que proteja nossos interesses e nossa integridade, de espaço para a manifestação (veiculação e exibição) e, também, de público.
Precisamos de ética no exercício público e de comprometimento e, principalmente, precisamos deixar de hipocrisia e efetivamente oportunizarmos o incentivo à produção. E, para que tenhamos num futuro o nosso espelho, verdadeiro, mágico espelho, tudo isso tem que andar junto.
(*) Arquiteto e urbanista, pós-graduado em Lazer e Recreação (UFRGS), em Turismo (OMT/Governo Italiano, Roma); técnico de Realização Audiovisual (Instituto Dragão do Mar, Fortaleza) e doutorando pela Universidade de Barcelona; co-idealizador da Green Wave Org/Apolo; co-idealizador e diretor desde a fundação da Associação de Cinema e Vídeo
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