QUALIDADE NA TV

MAIS UMA VITÓRIA DO IBOPE
Casa dos Artistas, retrato do Brasil

Alberto Dines

Há muito tempo que os jornalões paulistanos não atrasavam tanto as suas edições como na madrugada de segunda, 17/12. Catástrofes, oscares, guerras, finais de campeonato – nenhum motivo era suficientemente forte e convincente para levar O Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo a cumprirem com a obrigação comezinha de apresentar aos leitores a cobertura completa de um fato noturno.

O responsável pelo sensacional e consagrador feito jornalístico foi o encerramento do programa Casa dos Artistas, do SBT, que há 50 dias converteu-se no "fenômeno televisivo do ano" esmagando o Fantástico, tradicional atração dominical da Globo.

Os jornalões não estavam minimamente interessados em informar seus leitores no dia seguinte quem abocanhara o prêmio de 300 mil reais. Isso os próprios leitores saberiam antes mesmo de dormir. Os dois ex-figadais adversários e agora felizes parceiros numa empresa de distribuição estavam esperando outro resultado: os arrasadores índices de audiência fornecidos pelo Ibope. Para tripudiar em cima do mais poderoso grupo mediático brasileiro que ambos namoraram seriamente, sendo que a Folha num concubinato ostensivo mantido até hoje.

O Estadão, como vinha fazendo nas últimas segundas-feiras, abrigou a cobertura do evento no seu nobilíssimo primeiro caderno, junto do noticiário internacional. A Folha, menos aristocrática, desbundou: abriu página inteira no caderno "Cotidiano", com cinco fotos em cores. Ambos valorizaram o assunto com chamadas na primeira página.

À festa de encerramento do programa compareceram duas das três figuras nacionais do mais importante partido de esquerda do país – a prefeita da maior cidade brasileira e o seu ex-marido, senador da República, pré-candidato à sucessão presidencial. Embora mal se falando por causa da separação comemoraram juntos o segundo lugar obtido pelo primogênito no certame televisivo.

Perguntará aquele leitor que passou os últimos dois meses fora do Brasil sem ler nossos jornais ou revistas: por que tamanho escarcéu? Tratava-se, por acaso, de uma competição cultural? Contenda política? Duelo de inteligências? Disputa de talentos?

Casa dos Artistas, apesar do nome, nada teve de arte. E os "artistas" que dela participaram, só com aspas. Foi, na realidade, um show de voyeurismo, exibição gratuita de privacidades, coleção de bobagens improvisadas para excitar a imaginação da classe média paulistana convertida pelo Ibope no espelho distorcido da sociedade brasileira.

O frenesi todo, diga-se, tem mais a ver com o ressentimento contra a TV Globo do que com as qualidades do espetáculo. O espírito de rinha foi transferido para a telinha pelo dois jornalões paulistas, com a decisiva ajuda de Veja e do Jornal do Brasil. O que aconteceu nesses quase dois meses e certamente se desdobrará com lances mais violentos daqui para frente foi uma guerra entre grupos jornalísticos por questões não-jornalísticas, meramente empresariais. E agora também pessoais.

Nada a ver com o interesse público. Mesmo o interesse do público foi grosseiramente magnificado. Alimentaram-no com estatísticas e cifras provando que aquilo a que assistia era muito bom. E ele acabou convencido sem saber exatamente o que é bom.

O Ibope sabe o que convém ao povo brasileiro.

Ninguém se deu conta que esta submissão cega aos ibopes da vida é um traiçoeiro bumerangue que agora, eventualmente, deu um salutar safanão na arrogância do Grupo Globo mas que num ano eleitoral – como o próximo – poderá perverter completamente a disputa presidencial. Conviria pensar nisso depois da euforia e da ressaca.

Quando nos anos 1980 a TV Manchete bateu a Globo com a telenovela Pantanal criava-se uma alternativa de qualidade. Agora, quando Casa dos Artistas monta em cima do Fantástico, nivela-se por baixo consagrando o besteirol como aspiração nacional.

É evidente que a Globo fez por merecer esta mágoa generalizada. O sistema de rolo compressor contra todos os que recusam sujeitar-se à sua divina vontade criou um formidável consenso em torno da Vênus Platinada. Sua hegemonia no processo de difusão de informações no país, o quase monopólio que exerce nos principais estados e, sobretudo, a indisfarçável soberba com que atua no cenário brasileiro foram os ingredientes decisivos para alavancar um programa de segunda classe com protagonistas de terceira e colocá-lo no hall da fama.

Casa dos Artistas, clonada de uma produtora holandesa, no seu capítulo final acabou convertida em produto genuinamente nacional: retrato perfeito do nosso amado Brasil.