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QUALIDADE NA TV
TV PAGA
Ivan Angelo
"A tevê paga e uma apresentadora bem-humorada", copyright Jornal da Tarde, 18/01/01
"Uma articulista norte-americana especializou-se em botar em circulação idéias sobre algo que ninguém havia percebido que tem outros lados. Falou, há algum tempo, umas coisas divertidas sobre televisão: mais exatamente sobre televisão paga. Esqueci-me de citá-la quando falei aqui do início da era do ibope na tevê por assinatura, que estamos vivendo neste momento. Como se sabe, o aparelhinho peoplemeter começa a medir neste mês a audiência dos canais pagos. O objetivo é fornecer dados mais seguros para as agências de publicidade e os programadores. Vamos à tal articulista.
O nome dela é Fran Lebowitz. Escreve em revistas chiques como Vanity Fair e influentes como a New Yorker. Deve estar com uns 55 anos, por aí. Poderia ter sido uma intelectual, como Camille Paglia, mas é ligeira, gosta de recados breves, diretos ao ponto, mordazes. É considerada por alguns uma humorista. Pratica um tipo de texto que existe mais na língua inglesa do que na nossa.
Sobre a tevê paga, disse que a coisa toda parecia-lhe um contra-senso, um passo para trás. Explicava mais ou menos como segue (não tenho mais o texto). Suponhamos que alguém, nos anos 40, anunciasse: olhem, fellows, acabamos de inventar um negócio genial, ge-ni-al. Para vocês entenderem, é uma espécie de rádio com imagens! É, com imagens, já imaginaram? Elas chegam na sua casa no momento em que o fato está acontecendo! Parece mágica, chega pelo ar, como o rádio. E o que é mais fantástico, fellows, é de graça!
Então, dizia a Lebowitz, tinha-se em princípio uma coisa perfeita. Aí, muitos anos depois, uma turma teve a idéia de cobrar pela coisa. O passo atrás não ficou nisso: foi preciso esburacar as ruas, enfiar cabos, quebrar paredes, botar conduítes, espichar fios - uma coisa ultrapassada tecnologicamente. E a última, diz ela, foi fazerem-nos pagar para ver anúncios. Aí, cita os heróicos anos 60 e 70, quando a moçada de Nova York começou uma guerra contra a exibição de anúncios em cinemas. Uma questão de princípios: ir a um cinema era um ato cultural e de entretenimento, uma escolha pessoal para ver determinado filme e não para ver uma peça publicitária que procurava convencer o público a comprar determinada coisa.
A guerra foi ganha, pelo menos naquele momento. Ela diz que as pessoas hoje estão anestesiadas e impotentes, aceitam tudo, até pagar para serem convencidas a comprar.
Gimenez - Depois de uns dois meses de preparação, ensaios, atualização digamos cultural, escolha de visual e pequenas adaptações, Luciana Gimenez assumiu a apresentação do Superpop (Rede TV!, 21h45, de segunda a sexta). Não é um programa difícil de fazer, nem um pouco. Basta figura, desembaraço e um ‘ponto’ no ouvido. O diretor vai dizendo faça isso, corta aquilo, não fica na frente, insista nesse assunto - e a coisa vai. Não pode, no entanto, ser uma Carla Perez. Para começar, Luciana corta a recente tradição das loiras: é morena. Saiu-se bem, está bonita, esguia, bem penteada, bem maquiada, peitão moderno, bem-humorada. Ainda se percebe um leve nervosismo, a voz parece às vezes melindrosa, mas isso passa. Deveria insistir em palavras mais dela, como chamar garotas da platéia de cocada, e evitar o batido ‘galera’. A pauta no segundo dia teve mais assuntos pesados do que leves, como a mãe que sumiu e o ‘Eurico Horror Show’ de São Januário. A matéria sobre artigos de sex shop esteve no limite para o horário, em termos de linguagem. Mas foi nesse quadro que Luciana Gimenez mostrou melhor que tem queda para o vídeo: maliciosa, natural, divertindo-se com os equipamentos, roubou a cena. O telespectador acabou interessado foi em saber como Luciana encarava aquilo tudo. Encarava bem."
Hélio Schwartsman
"Perigosa falsidade", copyright Folha de S. Paulo, 28/01/01
"É com dor no coração que vou falar mal de meu canal de TV favorito. O Discovery Channel está entre as melhores coisas da TV disponível no Brasil. Seus programas são, de um modo geral, informativos, educativos, interessantes e plasticamente agradáveis. É o que se espera de uma TV de qualidade.
Na comparação com as bobagens exibidas em outros canais, especialmente da TV aberta, o Discovery se torna um oásis no deserto, um sol no Oriente, o grande ‘default’ do controle remoto.
É claro que eu exagero um bocadinho. O Discovery também é capaz de transmitir informação de valor duvidoso. Foi num documentário sobre o Antigo Egito, por exemplo, que eu aprendi que fezes de crocodilo do Nilo são um excelente contraceptivo. Duvido um pouco. Embora as fezes crocodilianas sejam ricas em ácido lático, que pode funcionar como espermicida, é pouco provável que o método oferecesse um mínimo de segurança.
Mesmo duvidando da informação, podemos nos maravilhar com a capacidade investigativa do ser humano. O que será que passou na cabeça do egípcio que primeiro teve a idéia de catar fezes de crocodilo e passá-las ali onde podem exercer sua função espermicida?
O problema do Discovery é que de sua programação emerge uma mensagem, jamais explicitamente enunciada, que diz mais ou menos: a ciência vai resolver todos os problemas da humanidade. Nada mais falso.
É claro que 90% do que passa na TV traz uma mensagem falsa e isso normalmente não constitui dificuldade. No caso do Discovery, porém, a falsidade é perigosa porque ela não se coloca como algo ficcional, mas sim como meta realizável, talvez inexorável.
A abordagem da maioria dos programas é tão acrítica no que tange aos fundamentos da ciência que fica a sensação de que ela é algo neutro, natural, que está no mundo -se é que não o engendrou- para promover a felicidade humana.
No Discovery, a ciência salva vidas, dá-lhes qualidade, explica praticamente tudo o que queremos saber e ainda ajuda a combater o crime, até assassinatos ocorridos séculos atrás, que puderam ser desvendados graças aos avanços da medicina forense. É como se a ciência ocupasse um lugar entre o do super-homem e o de Deus.
Não pretendo aqui, é óbvio, demonstrar que a ciência é algo intrinsecamente mau. Ao contrário, reconheço a utilidade do forno de microondas. O saber técnico melhorou e prolongou a vida do homem. Isso é indiscutível. Na pior das hipóteses, a humanidade já conta com métodos contraceptivos mais práticos do que as fezes de crocodilo do Nilo.
Subjaz ao Discovery um positivismo do tipo mais tacanho. E o risco de tomar a ciência tão acriticamente e atribuir-lhe um valor tão elevado é que deixamos de considerar outras formas de pensamento, não-científicas, mas nem por isso menos válidas.
O filósofo alemão Martin Heidegger elaborou uma feroz crítica à ciência. Para Heidegger, o pensamento científico é um pensamento calculista (‘rechnendes Denken’) que procura organizar o mundo em instantâneos, compartimentalizando-o para dele tirar proveito. Segundo Heidegger, ‘a ciência não pensa’. No máximo, ela conta, calcula.
O filósofo contrapõe ao pensamento científico um outro tipo de pensamento, que chama de contemplativo (‘besinnliches Denken’). Ele está na base da filosofia, que permite apreender o mundo em seus significados ‘autênticos’.
Obviamente, perpetrei uma simplificação criminosa de Heidegger, mas a idéia que pretendia fixar é apenas a de que o pensamento científico não é a única forma rigorosa de pensar.
Na verdade, os três princípios que, ‘grosso modo’, fundamentam o edifício lógico científico são infantis. O princípio de identidade afirma que ‘O que é, é; o que não é, não é’. O princípio de não-contradição assevera que ‘O que é não é o que não é’. O princípio do terceiro excluído nos garante que uma proposição ou é afirmativa ou é negativa, não havendo meio-termo.
Convenhamos que não são idéias particularmente brilhantes. Se limitássemos todas as nossas reflexões a essas diretrizes, certamente nos veríamos em apuros. É claro que a ciência é algo mais complexa e não opera apenas com esses três princípios.
Mas a questão dos fundamentos conceituais é apenas um dos problemas da ciência. Na medida em que ela é feita por homens, está sujeita aos mesmos vícios de que padece a humanidade. Afirmar ou mesmo sugerir que a ciência seja neutra, por exemplo, é piada.
O caso da Estação Espacial Internacional (EEI) é emblemático. Para o Discovery, ela é a ‘mais ambiciosa obra de engenharia’ já concebida. Os experimentos realizados em microgravidade poderão revolucionar a indústria de medicamentos. Pode ser. Até a conquista da Lua, outro elefante branco, gerou subprodutos úteis. Mas uma outra leitura possível da EEI assegura que ela é a maior, mais cara e mais brilhante inutilidade já concebida pelo homem. Seu real propósito seria o de manter ocupados em projetos inofensivos os cientistas do programa espacial soviético, que, desempregados, poderiam ajudar Saddam Hussein a ampliar o alcance de seus mísseis.
Na verdade ambas as leituras, a do Discovery e a mais cética, coexistem. Isso já mostra que não podemos nos sujeitar cegamente ao princípio de não-contradição. Às vezes, as coisas parecem contraditórias sem realmente sê-lo e, às vezes, a contradição de fato ocorre, seja com coisas humanas ou da natureza. O mundo não acaba por causa de uma contradiçãozinha.
Aliás, o que apreciamos na boa arte, num bom romance é justamente a suspensão dos princípios ditos científicos: o personagem contraditório, a frase ambígua, sentimentos ambivalentes.
Mesmo com todos esses problemas de ordem filosófica -e talvez exatamente por isso-, o Discovery segue sendo meu canal preferido."
Hélio Guimarães
"Os jovens não pensam só naquilo", copyright Valor Econômico, 26 a 28/01/01
"Os adultos que tiveram a sorte de crescer com enciclopédias e almanaques à mão compreendem a delícia de assistir a ‘Mecânica Popular para Jovens’, série produzida no Canadá e exibida no Brasil pelo canal Discovery Kids de segunda a sábado em horários variados. O programa tem a estrutura equivalente e oferece o mesmo tipo de conhecimento prazeroso que publicações juvenis como ‘Tesouro da Juventude’, ‘Delta Larousse’, ‘Barsa’ e ‘Conhecer’ propiciaram a muitos adultos de hoje.
Apesar do que pode sugerir o título, originário da quase centenária ‘Popular Mechanics’, uma das publicações mais tradicionais e populares dos EUA, o programa extrapola o interesse por máquinas e motores. Como a revista, que começou a circular em 1902, ele tem o objetivo de apresentar ao público, em linguagem acessível, informações sobre ciência e tecnologia partindo da experiência cotidiana do público.
A idéia é ilustrar conceitos e mostrar como funcionam princípios da arte ou da ciência. Isso pode incluir a imagem de uma égua dando à luz uma zebra, e as explicações sobre como esse fenômeno é possível, e reportagens sobre o funcionamento de um detector de mentiras ou sobre a elaboração de efeitos especiais no cinema. Embora alguns programas sejam organizados em torno de um único tema, a condução de um assunto a outro é muitas vezes errática, como ocorre na leitura de uma boa enciclopédia, em que um assunto inevitavelmente remete a outro, produzindo um percurso circular pelos assuntos mais variados. Esse, aliás, é o sentido original da palavra enciclopédia: instrução circular, geral.
No programa, que manipula com habilidade algumas das características humanas mais saudáveis, como a curiosidade e a vontade de aprender, um experimento ou uma demonstração podem ser interrompidos para a introdução de um novo assunto, que enreda o espectador ao mesmo tempo que o mantém em suspense, à espera da conclusão do assunto anterior.
Com ritmo dinâmico, assuntos variados, uma câmera superesperta que conduz o telespectadores em aventuras de conhecimento e apoio didático de animações bem-feitas, o programa é ágil, fácil de ver, informativo e divertido. O telespectador, não importa a idade, fica morrendo de inveja dos apresentadores Jay, Elisha e Tyler, todos jovens e muito simpáticos e que têm acesso às máquinas mais maravilhosas e modernas e participam das experiências mais bacanas do mundo. Eles podem voar no C-5, o maior avião do mundo, ou fazer uma visita ao sistema de esgotos de uma grande cidade. Além disso, podem contar com a ajuda do habilidoso e sempre disposto Charlie, uma espécie de conserta-tudo que está sempre por perto.
A série, que nos Estados Unidos e Canadá está entrando em sua terceira temporada, faz pensar no porquê de as emissoras comerciais brasileiras não investirem em programas juvenis que ofereçam informação e conhecimento, consistente ainda que ligeiro, para o telespectador adolescente e pré-adolescente. Afinal, os jovens pensam muito, mas não exclusivamente ‘naquilo’."
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