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ENTREVISTA-BOMBA NA AOL
A singeleza de um furo

Era voz corrente que Octavio Frias de Oliveira não concedia entrevistas. A única de que se tinha notícia recente ocorreu no segundo semestre de 1988, quando o publisher da Folha de S.Paulo reuniu, num fim de semana, em sua granja em São José dos Campos (SP), um grupo de jornalistas para uma conversa gravada - cujo teor, especulava-se, seria utilizado num futuro livro de memórias ou serviria tão-somente como registro histórico de sua trajetória até então.

Fizeram parte daquele grupo de privilegiados entrevistadores Otavio Frias Filho (diretor de Redação da Folha), Carlos Eduardo Lins da Silva (diretor-adjunto de Redação do Valor Econômico), Clóvis Rossi (editorialista e repórter especial da Folha), Boris Casoy (âncora do Jornal da Record) e Leão Serva (diretor do portal iG), todos à época vinculados apenas à Folha. As conversas se deram durante a tarde e a noite de um sábado, e pela manhã e tarde do dia seguinte. Nada de concreto a imprensa soube ou sabe do que foi dito e registrado naquelas tertúlias jornalístico-empresariais.

Passaram-se 15 anos até que o jornalista Jorge Felix, da AOL Notícias <http://noticias.aol.com.br>, fizesse o que nenhum repórter fizera nesse período: no início de outubro, solicitou uma entrevista com Frias, hoje com 91 anos, o último tycoon da imprensa brasileira. Seu pedido foi atendido com inusitada naturalidade – e o repórter, seu editor e a AOL puderam oferecer aos leitores uma matéria jornalística da maior relevância pública. Um furo, com todas as letras.

Eis o relato de Jorge Felix ao Observatório:

"Eu liguei para a secretária dele, dona Vera, e pedi a entrevista. Ela disse que ele não costumava falar, mas que eu enviasse um e-mail com o meu currÍculo resumido, os principais temas da matéria e um pedido formal. Fiz isso, disse que ele era uma personalidade na mídia, principalmente depois da morte de três donos de jornais este ano, e que nós, da AOL, achamos que era importante ouvi-lo neste momento de crise do setor. No dia seguinte, dona Vera me ligou e marcou para segunda-feira, dia 13, mas depois ligou de novo e adiou para o dia 15, quando foi feita a entrevista.

"Não tive nenhuma dificuldade além dessa e não cheguei – para meu espanto – a ter necessidade de procurar alguém para me ajudar nas tratativas. Acho que os filhos [Otavio, Luís e Cristina] nem ficaram sabendo da entrevista.

Cheguei à sede da Folha na hora marcada, 16h, subi e conversamos tomando café. Foi tudo bem descontraído, um bate-papo sobre a mídia. Acredito que ele queria falar, só não tinha sido procurado antes por nenhum outro repórter. Às 17h em ponto eu saí de lá."

A matéria foi publicada em duas partes, nos dias 21 e 22/10. Por sua importância no debate sobre o financiamento público das empresas de mídia, e pela proeminência do personagem, a entrevista de Octavio Frias de Oliveira à AOL e os links originais são reproduzidos a seguir. (Luiz Egypto)

 

"O governo quer a mídia de joelhos"

Jorge Felix

Publicado originalmente no AOL Notícias, em 21/10/03, em <http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/
2003/10/21/0004.adp
>

Ele é o último barão da imprensa. Neste ano de 2003 viu seus congêneres morrerem: os donos de O Globo, O Dia e Jornal do Brasil. O Estado de S. Paulo há muito é administrado por herdeiros. Aos 91 anos, o jornalista Octavio Frias de Oliveira, há mais de 40 anos à frente da Folha de S. Paulo, é o único dos históricos donos de jornais em atuação no país.

Filho de família rica, descendente dos barões de Itaboraí e Itambi, Octavio Frias de Oliveira teve uma adolescência pobre depois que o pai e um tio quebraram e foi obrigado a empregar-se como office-boy aos 14 anos. Aos 21, no entanto, já era um próspero funcionário público da Receita Federal. Depois, seguiu a tradição da família e fundou um banco, o BNI, mais tarde comprado pelo Bradesco. Foi com o dinheiro de uma aventura, a construção de uma rodoviária em São Paulo, que ele e o sócio Carlos Caldeira compraram a Folha de S.Paulo, em 1962. Com mais de 50 anos, descobriu a carreira de jornalista e transformou seu jornal em um forte concorrente do Estado de S. Paulo, que fazia feroz oposição a seus negócios. De lá para cá, o jornal cresceu, tornou-se um dos mais influentes do país.

Simples, low-profile, "Seu" Frias, como prefere ser chamado, recebe pouca gente no nono andar do prédio da Rua Barão de Limeira. Quem tem esse privilégio nem precisa usar crachá de visitante ou passar pela catraca. Na ampla sala de reunião, anexa ao seu gabinete, mobiliada com mesa com oito cadeiras, poltronas e decorada com capas históricas da Folha, ele concedeu entrevista à AOL por quase uma hora. Lembrou dos colegas donos de jornais mortos neste ano e disse que assiste à maior crise financeira já enfrentada pela imprensa brasileira.

Sobre a operação de socorro financeiro criada pelo governo para sanear as empresas de comunicação com dinheiro do BNDES, Frias disse que é contra. Segundo ele, o chamado Promídia – analogia com o Proer, o programa de socorro aos bancos feito no primeira mandato do presidente Fernando Henrique – é uma estratégia do Palácio do Planalto para comprometer os veículos. "O governo quer a mídia de joelhos", afirmou o dono da Folha.

***

Como o senhor vê a discussão sobre um socorro especial para a mídia por meio de empréstimos concedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?

Octavio Frias de Oliveira – Eu tenho receio. Eu tenho um receio muito grande. Isso tende a interferir. Para falar claramente... [Pausa, olhar perdido] nem sei se deveria dizer isso... [olha no olho no repórter e fala firme] em todo caso vou arriscar: o que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum. Dentro desse princípio é difícil ver essa questão do BNDES. Por que criar um sistema assistencial, preferencial para os jornais, para mídia? Por quê? Se todo o empresariado está endividado, nunca vi uma situação tão difícil em toda a minha vida e estou apenas com 91 anos. Nunca vi uma situação igual. Mas nós vamos sair dela.

O senhor acredita no espetáculo do crescimento?

O.F.O. – Não, não. Isso está mais distante do que se supõe.

O senhor é contra, então, que os jornais recorram a esse socorro oficial?

O.F.O. – Acho lícito que eles recorram, mas devem ter o mesmo tratamento de todos os demais ramos da atividade industrial. Não entendo porque distinguir a mídia.

O senhor certamente teve grandes encontros com personagens do poder. Como foram os presidentes da República como interlocutores?

O.F.O. – O que eu tive relações melhores foi o Fernando Henrique, que foi nosso colaborador por mais de dez anos escrevendo no jornal. Eu sempre me mantive afastado do
poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante porque senão entra numa situação moral difícil. A independência no Brasil é muito mal compreendida ainda. Então não tenho histórias para contar a este respeito porque sempre procurei manter uma distância entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes do país.

O senhor já teve alguma conversa com o presidente Lula?

O.F.O. – Nunca tive nenhuma conversa com ele. Só um incidente que houve aqui na Folha.

Eu gostaria que o senhor contasse a sua versão para este episódio porque o senhor nunca falou e foi um encontro importante com quem está hoje na Presidência da República. Todo o meio jornalístico comentou muito sobre isso, mas pouco se sabe do que realmente ocorreu

O.F.O. – Nós o convidamos para almoçar aqui na Folha [durante a campanha eleitoral], ele veio. Na conversa, o Otavio, meu filho [Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal] perguntou a ele como ele se sentia no que dizia respeito ao preparo para exercer a presidência uma vez que ele não tinha curso superior. Ele não gostou da pergunta. Achou a pergunta impertinente. Não entendi porque tinha respostas facílimas a serem dadas, não? E se levantou da mesa no meio do almoço e saiu. Eu tive que acompanhá-lo até a porta. [Ri] Foi isso. Até hoje não entendi. Depois eu sei que ele mandou recado para esquecermos isto.

E o senhor esqueceu?

O.F.O. – Eu, da minha parte, esqueço. [Ri]

Voltando à questão do BNDES. O jornalista Alberto Dines, do Observatório de Imprensa, chegou a comentar que os jornais noticiaram o anúncio do socorro de uma forma muito tímida. Como o senhor vê essa postura dos jornais? Houve um tratamento privilegiado da mídia para com ela mesma?

O.F.O. – É normal da parte dos jornais. Eu creio que eles pretendem isso [o tratamento especial] e eu sou contrário.

[Clique abaixo em PRÓXIMO TEXTO para ler a segunda parte da entrevista de Octavio Frias de Oliveira ao AOL Notícias]

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