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TIMOR LOROSAE

ENTREVISTA: XANANA GUSMÃO
"Pátria nossa, terra nossa"

 

Beatriz Wagner (*), de Sidnei, Austrália

José Alexandre Gusmão deverá ser o primeiro presidente de Timor Lorosae. Nascido em Manatuto, Timor Leste, em junho de 1946, ele adotou o nome de guerrilha, Kai Rala Xanana Gusmão, aos 32 anos, quando assumiu o Comando Supremo das Falintil (Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor Leste), após o assassinato do comandante Nicolau Lobato, em 1978. Agora, aos 53 anos, o ex-seminarista e ainda poeta, escritor, jornalista, professor, guerrilheiro, comandante das Falintil e presidente do CNRT (Conselho Nacional da Resistência Timorense) vai liderar a nação mais jovem e também a mais pobre do planeta.

Preso em 1992, Xanana foi condenado à prisão perpétua pela Indonésia, que ocupou sua terra em 1975, logo após a retirada dos portugueses, e matou 200 mil timorenses – pelo que se pôde contar. Cumpriu sete anos da pena na penitenciária de segurança máxima de Cipinang, em Jacarta. Sob pressão da comunidade internacional, que pedia sua libertação, foi posto em prisão domiciliar numa casa escolhida pelas autoridades indonésias até que, em 7 de setembro – três dias após a explosão máxima da ferocidade pro-integracionista em Timor Leste –, foi finalmente libertado.

O momento oficial da libertação aconteceu dentro da embaixada britânica em Jacarta. Na pratica, nada mudou – só a prisão, que ficou mais confortável. Onze dias depois, Xanana deixou o território indonésio pela primeira vez na vida, direto para Darwin. De lá foi a Washington, Nova York – onde discursou perante a 54ª Assembléia Geral das Nações Unidas –, depois a Lisboa e Londres. De volta à Austrália, esteve em Melbourne, Sidnei e Darwin, outra vez.

Na semana passada [17-23/10], ele regressou a sua terra, numa uma operação secreta, e em seu uniforme militar fez um discurso emocionado em Díli, a capital, para milhares de pessoas em frente ao palácio do governo – uma das raras construções ainda de pé na capital destruída pela violência das milícias pró-integração e das forças indonésias. Uma destruição a que a comunidade internacional assistiu de camarote por alguns dias, até que a mídia também abandonasse a área de alto risco. A portas quase cerradas, o reino do terror deixou pouca pedra sobre pedra.

Em Sidnei, conversei com Xanana Gusmão. Ele falou do novo genocídio em Timor – mais um. E embora em Díli seu primeiro discurso tenha sido em tétum, a língua local, Xanana afirma que Timor Lorosae será o oitavo pais de língua portuguesa no mundo. Ou pelo menos estes são os planos das lideranças. José Ramos-Horta, vice-presidente do CNRT, co-laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 1996, diz que a adoção do português será uma forma de reafirmar as raízes históricas de Timor e também de homenagear todos os povos lusófonos: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Os desafios à frente de Xanana Gusmão são muito grandes. E ao lado também. Na pontinha do maior país muçulmano do mundo, o quarto maior em população e uma bomba-relógio nesta parte do mundo, Timor terá que conviver com sua poderosa vizinha, a Indonésia, mais de 200 milhões de habitantes, dos quais meio milhão pertencem às Forcas Armadas, incluindo a polícia. Timor Leste, no dia da consulta popular da independência, 30 de agosto, deveria ter em torno dos 800 mil habitantes. Quantos terá agora? Ninguém sabe. O tempo dirá.

Qual é a situação dos refugiados em Timor Ocidental?

Xanana Gusmão – Esta é uma enorme preocupação, porque estamos falando aqui de quase um terço da população de Timor. Temos vindo a insistir com a comunidade internacional para uma operação em grande escala, a fim de retirar imediatamente aqueles a quem nós chamamos de reféns. O problema lá é que eles não necessitam muito de comer. O que necessitam é de regressar à casa para ver, procurar seus maridos, seus pais. Como sabe, há mais mulheres e crianças naqueles campos. Esta é que é a necessidade premente deles, e não realmente o comer ou os medicamentos. Tem havido um retorno em aviões, aos poucos. Isso levará anos. Com navios, com dois, três mil de uma vez, talvez em um mês eles regressem. É mais barato de alugar do que aviões e é nisso que temos insistido com a comunidade internacional.

Continuamos a insistir no regresso de todos os reféns, numa operação que possa levar de volta os timorenses vivendo na Indonésia e também no aumento das forças multinacionais para que a segurança possa vir a condicionar o rápido retorno da população deslocada no mato e nas montanhas. Estamos a fazer face a enormes dificuldades não só na questão de assistir à população, como na questão de proceder a uma administração provisória em nível local e regional. As dificuldades são tantas que temos de andar de país a país a pedir a organizações, sindicatos, grupos de solidariedade, como podem concretamente apoiar o CNRT na execução das atividades que são muito, muito urgentes.

Por que reféns?

X. G. – Reféns dentro da percepção de uma estratégia que os generais fizeram. A destruição, a violência, tudo isto estava dentro de uma estratégia em que forçaram aquele número de pessoas a ir para Timor Ocidental para dizer que a Unamet não foi justa, que toda a população que passou para o outro lado eram aqueles que deveriam votar pela autonomia. Uma estratégia muito suja dos generais indonésios. Às vezes podemos pensar "que raios de estratégia foi esta?" Eles não têm estratégias muito claras, as tem é muito escuras. Esta é uma delas. O problema do lado indonésio é que eles subestimaram totalmente a reação internacional. Porque eles fizeram o que queriam por 23 anos, pensaram, de maneira muito simplista, que se levassem 300 mil timorenses para Timor Ocidental poderiam impor uma partilha do território, ou invalidar a votação. Treinaram as milícias só para continuar esta estratégia. Já se ouviu de novo falar em "divisão de Timor". Quer dizer, uma grande, imensa Indonésia ainda conseguiu elaborar a estratégia de dividir Timor, para colocar tantos milhares que querem a integração. São mantidos lá contra a sua vontade. São reféns.

Quantas pessoas morreram em Timor Leste desde a votação?

X. G. – Não será por nós que se terá este resultado. Deixaremos a grupos independentes de investigação a avaliação sobre o novo genocídio em Timor.

O ministro indonésio Haryono Suryono, do Bem-Estar Social, disse há alguns dias que os timorenses em Timor Ocidental estão com muito medo de voltar a Timor Leste por causa dos confrontos na fronteira entre a Interfet e as milicias pró-integração. O senhor acha que a guerra da contra-informação da Indonésia ainda tem chances de ser bem-sucedida?

X. G. – Eu creio que os governantes indonésios são das pessoas que mais sabem mentir e nunca tomaram consciência de que o mundo já está farto de suas mentiras, de sua propaganda. Isto é apenas um meio de salvar a face, um meio de o governo indonésio dizer que não tem nada a ver com a ida forçada deles e um meio de justificar aquela forma de inquérito que fizeram, o de perguntarem se os refugiados, os reféns, querem ou não voltar. Eles tentam, sempre tentaram. E ainda não conseguiram mudar de comportamento.

No momento, na guerra da contra-informação, todas as baterias estão voltadas contra a Interfet. A própria agência de notícias Antara acusa o exército australiano, que lidera as tropas de paz, de estar matando, torturando e queimando pessoas. Quem se convence com isso? O povo indonésio?

X. G. – É mais o povo indonésio, mas também as forcas pró-status quo. Os militares indonésios são a força dominante lá no país, e os políticos, os da componente civil, têm, de uma outra forma, tentar agradá-los. Então têm que fazer declarações que não são do seu agrado mesmo. É tudo um jogo complicado. Todo mundo tem que dizer qualquer coisa para agradar aos militares.

O senhor já ofereceu que as Falintil cooperem intimamente com a Interfet. Isso pode acontecer?

X. G. – O problema é do mandato da ONU à Interfet [Força Multinacional de Paz das Nações Unidas para Timor Leste], que ordena, para nós erradamente, mas aceitamos, o desarmamento de, digamos assim, todos os timorenses. Temos vindo a defender o não-desarmamento das Falintil e o seu reconhecimento como o exército de libertação. Com esta legitimidade, ela não pode ser desarmada da mesma maneira que um grupo de bandidos como as milícias ou um bando de criminosos como os Kopassus [tropa de elite indonésia criada por Suharto para torturar e matar]. O mandato não permite que as Falintil, como era sua intenção desde o início, participem da pacificação, estando na linha de frente de combate. Pensamos que a pátria é nossa, a terra é nossa, e para permitir vítimas baixas deveríamos ser os primeiros a aceitar estas baixas, e não as forças internacionais, embora apreciemos imenso a presença das forças multinacionais.

Mas o mandato já mostrou ser flexível, a partir do momento em que a Interfet aceitou não desarmar as Falintil.

X. G. – É, mas até ao ponto de participarmos ativamente na operação de pacificação já é, eu creio, um bocado complicado.

E não há negociações no momento?

X. G. – Em princípio não há, na medida em que isto vai dar mais motivos à Indonésia em lançar acusações à Interfet.

O senhor veio à Austrália agora pela primeira vez: Darwin, Melbourne e Sidnei. Qual é sua opinião sobre a Austrália?

X. G. – A Austrália teve dois comportamentos. Em nível do governo foi o único país talvez que reconheceu a integração, mas em nível do povo foi de uma extraordinária solidariedade em momentos difíceis, desde o começo da nossa luta. Já que agora estamos num presente muito positivo e o governo também atuou de uma forma completamente diferente das políticas anteriores, a opinião é de que é hora de a Austrália apoiar a reconstrução em todos os aspectos, e é por isso que nós viemos aqui.

O que o senhor espera da comunidade timorense no exílio?

X. G. – O que eu percebi de encontros que tive com a comunidade é que há uma vontade total de voltar a Timor, de oferecer a disponibibilidade em capacidades, a disponibilidade em outras áreas. Eu espero um plano muito mais bem-feito para o regresso dos timorenses – seja para participar ativamente na reconstrução, seja para morrer na sua terra natal.

Há muitas forças decidindo muita coisa para Timor: ONU, Interfet, Portugal, Austrália. O senhor está satisfeito com a participação das lideranças timorenses na tomada de decisões?

X. G. – (em tom de brincadeira) Não é bem toda a gente mexendo. Não se preocupe, nós vamos ao Brasil também pedir ajuda.

(*) Jornalista, diretora do Programa de Língua Portuguesa da Rádio SBS em Sidnei, Austrália, onde mora desde 1993

 

Emoção entre horrores

Fui a Darwin logo após a chegada de Xanana Gusmão – e lá o conheci. Primeiro numa festa no clube da comunidade chinesa timorense. Todos nós pudemos abraçá-lo e trocar meia dúzia de palavras com ele. Pedi entrevista e ele disse que sim. Mas foi só: uma das famosas ‘Xanana's angels’, exatamente a que conheço há anos por telefone, tapou meu microfone com a mão, e alguém já o puxou para o outro lado. No dia seguinte, o governo português ofereceu um jantar exclusivo a Xanana, com autoridades australianas, lideranças timorenses e jornalistas. Condição para entrar: nada de equipamentos. Só convivência relax. Um jornalista, só um – da RTP [Rádio e Televisão Portuguesa] –, pôde fazer entrevista.

Num breve momento, conversamos um pouco, ele deu autógrafos para as minhas duas meninas, e eu tremia da cabeça aos pés. Foi muita emoção. Há anos coloco cassetes com mensagens do Xanana no ar, acompanhando o dia-a-dia dele. Foi muito legal. Mas ainda não tinha conseguido a minha entrevista. Nesta noite, no hotel, ele gravou mensagem para os ouvintes do programa da Radio SBS, na fita de vídeo de um outro repórter. Eu já tinha mensagem personalizada dele para o meu programa.

Fui encontrar Xanana novamente na semana retrasada [10-16/10], em Sidnei, onde ele também chegou de surpresa. Uma hora antes da coletiva recebi o telefonema. Sai correndo, fiz várias perguntas durante a entrevista. E depois dei uma de penetra na reunião dele com o movimento de solidariedade, na qual não havia jornalistas. Como ele fuma feito chaminé, e eu também, e já estávamos há horas dentro do parlamento onde é proibido fumar em qualquer lugar, vislumbrei uma sacada no salão em que estávamos. Falei no ouvido do Xanana: ‘Estou com pena de nós dois. Tem uma sacada ali onde podemos fumar. Que tal?’ Ele respondeu: ‘Sim, sim, sem duvida’. E lá fomos nós. Baforada pra cá, baforada pra lá, saiu esta entrevista para o Observatório da Imprensa.

Parece que as coisas não vão acalmar tão cedo. Depois de uma semana em Darwin, voltei supermal. Nem conseguia comer mais. Entrevistando refugiados, mais ainda conversando com timorenses nos restaurantes à noite, aquelas historias de arrepiar, um horror atrás do outro.

A milícias trouxeram escravas sexuais, umas 60 só para Dili, antes da votação de 30 de agosto. Davam pílulas aos caras das milícias, com vinho, e eles saíam só para matar. O que tem na pílula? Ninguém sabe, só os indonésios; quando recebem, têm que engolir. Tentaram fazer testes para descobrir o que era, não conseguiram. Os milicianos abriram a barriga de uma grávida com uma faca do pescoço até o púbis, tiraram o nenê e o mataram com pedradas na cabeça.

Outro dia um jornalista português chegou de Dili – encontrei-o na porta do hotel, recém-chegando do aeroporto. (Sabia quem era ele porque ouvira falar que um português tinha tido um acidente de carro em Dili, e tinha quebrado o braço. Quando vi um homem com tipóia, perguntei: "És o Luis Castro, não?" Pois o Luis foi ver o corpo do jornalista holandês [que foi mutilado] na hora em que foi encontrado, e fez o relato ali, no saguão do hotel, do que viu. Já éramos então um grupo de cinco, seis jornalistas. Uns indo, outros vindo de Díli. Já não consegui jantar naquela noite.

No meio da loucura de Darwin, uma madrugada vi, do meu quarto de hotel, num quarto do hotel vizinho, uma cena horrorosa. Cinco ou seis caras, todos nus, acho que bêbados ou drogados, com uma boneca de espuma, tamanho de mulher, trepando com a boneca e depois batendo nela, no rosto, nos seios, no sexo. Vinha outro e fazia o mesmo. Aí outro chutava a boneca em todos os lugares, e de repente eu me dei conta de que um estupro era algo daquele gênero.

Perguntei na portaria do hotel: "O que é isso aqui ao lado?" A mocinha disse que Darwin não era mais a mesma, com soldados de todo lugar havia muita loucura na cidade. No meu hotel, segundo ela, soldados da Nova Zelândia bebiam muito e arranjavam confusão todos os dias. Se é assim em Darwin, imaginei em Timor...

Foi tudo muito forte, eu estava muito envolvida, um grande amigo meu, australiano, foi preso pelos indonésios e só apareceu dois dias depois. Mas passou. Aqui em Sidnei não é a mesma coisa. Na redação da SBS, o Timor real está muito longe. Acho que Darwin também ainda está longe, mesmo que no meio do caminho.

Ontem [22/10], na SBS, emissora em que trabalho, em Sidnei, voltei do almoço, à uma da tarde, e vi numa televisão (na redação temos todos os canais ligados o tempo todo, um painel de televisores) o Xanana falando emocionado em tétum. Tinha um timorense comigo, perguntei a ele – isso é em Díli, não? Era. Ficamos os dois vendo as imagens, ao vivo, do discurso, milhares de pessoas, Viva Xanana, Viva Timor Lorosae, Viva o CNRT. Foi emocionante. Eu tinha acabado de colocar o meu programa no ar dizendo que ele iria mais tarde a Timor... enfim, ele foi. Mas volta a Darwin. E disse que da próxima vez que for a Timor será a definitiva.

Na semana que vem vou fazer uma reportagem para o meu programa na rádio com os timorenses refugiados que chegaram a Sidnei, via Darwin. São uns 200 e estão num campo especial de refugiados. E vou fazer também uma matéria com um menino timorense de 6 anos que chega segunda-feira a Sidnei, vindo de Darwin, com os pais. Ele teve uma perna amputada depois que um pacote de alimentos caiu em cima dele, do avião, quando começaram os food drops antes da chegada da Interfet. O governo australiano "adotou" o menino. Ele vai para o hospital infantil de Sidnei, um hospital bem novo e maravilhoso, parece um grande parque de diversões, as crianças adoram. Lá o menino vai ganhar uma prótese para a perna e fazer toda a reabilitação. Depois de mais esta tragédia, resolveram parar com a distribuição de alimentos por avião em Timor – agora, só por terra. E isso foi bem no inicio da ação internacional.

Quando Xanana disse que ia buscar ajuda no Brasil, ele me piscou o olho e deu uma grande risada. Ele é um cara fascinante. Espero vê-lo novamente. (Beatriz Wagner)

Nota do O.I.: Fotos sobre ação das milícias pró-Indonésia em Timor Leste estão disponíveis em <www.easttimor.com/html/gallery/>. Alerta: a maioria não é agradável.

 

ASPAS

TIMOR NA MÍDIA
Jornal do Brasil

"DíliO líder independentista Xanana Gusmão foi recebido ontem em Timor Leste, ao retornar ao território depois de sete anos no exílio, por uma multidão de 5 mil pessoas. ‘Já sofremos durante muitos anos. Agora a independência está em nossas mãos, e será para sempre’, disse, emocionado, o líder guerrilheiro capturado por soldados indonésios em 1992 e libertado este ano, depois do referendo de 30 de agosto, em que os timorenses votaram pela independência do Timor Leste.

Xanana chegou ao Timor Leste, vindo de Darwin, na Austrália, na quinta-feira à noite. A chegada já era esperada, mas a operação de transporte do líder timorense foi mantida secreta por segurança. Inicialmente, Xanana desembarcou em Bacau e depois foi levado de helicóptero à capital, Díli. Quando seu retorno foi anunciado, uma multidão logo se dirigiu ao centro de Díli para ouvi-lo. ‘Demonstramos ao mundo, ao governo da Indonésia e a nós mesmos que tivemos coragem de lutar pela independência durante 24 anos’, disse em tétum, sua língua materna.

O líder timorense prestou homenagem aos que morreram na luta pela libertação do Timor, invadido pela Indonésia em 1975, pouco depois de ter-se declarado independente de Portugal. No entanto, fez também um chamamento à reconciliação do povo. ‘Temos que aprender a escutar os outros.’ A independência do Timor Leste foi ratificada pelo parlamento indonésio no dia 20 de outunro.

Há três semanas, um menino de 14 anos chegou ao Timor Leste vindo de Oecussi – enclave de Timor Leste em pleno lado ocidental da Ilha de Timor, que pertence à Indonésia, e onde estão milhares de refugiados, ou ‘reféns’, timorenses orientais). Ele cruzou o território indonésio se fazendo passar por miliciano pró-Jacarta. O garoto levava uma carta de líderes locais pedindo proteção para os 50 mil moradores da região. Recentemente, a guerrilha pró-independência denunciou a morte de 70 pessoas em Oecussi.

Na segunda-feira, o Conselho de Segurança da ONU deve aprovar o plano de administração provisória do Timor Leste pelas Nações Unidas até que se constitua o primeiro governo do novo país independente. A Administração Transitória da ONU no Timor Leste (Untaet, a partir do nome em inglês) contará com 9 mil soldados, além de observadores, policiais e funcionários civis. A princípio, seu mandato valerá até janeiro de 2001, mas pode ser renovado. O brasileiro Sérgio Vieira de Mello deve ser designado como responsável pela administração.

A chegada de Xanana coincidiu com o desembarque do primeiro barco com 1.996 refugiados, que haviam fugido do território depois que as milícias pró-Jacarta iniciaram seus sangrentos ataques. Os refugiados estavam na província indonésia de Nussa Tengara, em Timor Ocidental. Há ainda 232 mil timorenses refugiados, que devem retornar nas próximas semanas.

Ontem, um líder da resistência timorense, Luís Cardoso Pacheco de Noronha, foi recebido em Brasília pelo secretário-geral das Relações Exteriores, Luiz Felipe de Seixas Corrêa. Noronha pediu que o Brasil ajude na reconstrução do Timor e na reabilitação da infra-estrutura do território."

"Xanana retorna ao Timor Leste", copyright Jornal do Brasil, 23/10/99

 

Uma missa nas cinzas de Suai (*)

 

João Pedro Henriques

Público

"Ontem, pela primeira vez depois de regressar a Timor, o bispo de Díli, Carlos Ximenes Belo, saiu da capital. Foi a Suai, a vila mais devastada do território, onde três padres foram assassinados em setembro. Ximenes Belo quer agora dar alento para a reconstrução. Em Suai ela avança velozmente.

Suai, no Sudoeste de Timor, foi o último sítio fora de Díli visitado pelo bispo Ximenes Belo antes do referendo da autodeterminação, em 30 de Agosto. Na véspera, Ximenes esteve na igreja da vila, falou com o padre da paróquia, Hilário, e depois regressou a Díli. Percebeu que a situação ali era explosiva. Já havia muitos refugiados no enorme recinto, com vários edifícios – entre os quais uma catedral em construção – onde estava (depois ardeu) a igreja. A intimidação das tropas indonésias e das milícias aumentava hora a hora.

Esta foi a última vez que o bispo de Díli viu o padre Hilário. O sacerdote, bem como outros dois padres indonésios – um dos quais, Francisco Diwanto, ordenado há semanas – foram assassinados na igreja de Suai por milícias, em 6 de setembro. Mas não foram as únicas vítimas da raiva integracionista, que ali atingiu a sua máxima violência. Fala-se num massacre de largas proporções, com um número de vítimas que pode ir até às seis centenas. A melhor de todas as testemunhas, a madre Alice, canossiana, está agora em Roma e ainda não falou.

Foi em Suai que a Igreja mais sofreu – todos os seus edifícios foram incendiados e ali ocorreram três das quatro mortes registadas e confirmadas entre sacerdotes católicos durante a violência pós-referendo. Foi por isso a esta vila que o bispo Ximenes Belo decidiu ir na sua primeira saída de Díli, após o regresso a Timor. Isso aconteceu ontem e o Público acompanhou a visita, tornada possível por uma conjugação de vontades entre a Timor Aid e o Programa Mundial Alimentar, que forneceu o helicóptero onde o prelado viajou. Ao lado da igreja incendiada, ao ar livre, Ximenes rezou uma missa. Deu a quem o ouviu – à volta de umas mil pessoas – algo que nenhuma organização humanitária pode dar: alento para se recomeçar tudo outra vez, do zero.

A missa foi em tétum. Mas nela o bispo de Díli fez um apelo forte: que quem não sabe comece assim que puder a aprender a falar português. Garante Ximenes que o português vai ser uma das línguas oficiais de Timor – e até diz que dentro de uns cinco anos as missas serão em português.

Aliás, o bispo deu outras instruções similares. Como afirma que o escudo português será a moeda de Timor durante a transição, recomendou fortemente que as pessoas que têm reformas portuguesas pagas em rúpias e depositadas em bancos indonésios comecem a tratar dos papéis para se adaptar às novas regras e mudarem-se para o Banco Nacional Ultramarino.

Foi a primeira vez que um líder timorense foi a Suai desde o referendo. Na chegada ao recinto católico, Ximenes foi imediatamente submerso num mar de timorenses ansiosos da sua bênção. O seu anel foi beijado por centenas de bocas. Não houve histerias nem choros – a tranqüilidade do bispo dissuadia tudo isso. Devagarinho, foi caminhando pelo recinto, sempre rodeado de dezenas de habitantes a pedirem-lhe a bênção. Sorria e ia sussurrando palavras de conforto. Às vezes dizia uma piada e o povo ria.

Junto à igreja, estava colocada uma mesa, coberta por um lenço timorense, e quatro cadeiras – a maior, ao centro, de bambu, para o bispo. Um megafone militar dos australianos propagou o som. Antes da missa, Ximenes e outros dois sacerdotes ouviram dezenas de confissões, cada uma aí de uns 30 segundos. E tudo foi decorrendo sempre de uma forma muito tranqüila, organizada e disciplinada.

O bispo partiu depois para a homilia. Segundo o próprio traduziu depois ao Público, falou da necessidade de os timorenses se empenharem na reconstrução da sua terra, de demonstrarem que são ‘mais educados do que os indonésios’, de os jovens não se deixarem levar por caminhos que façam deles ‘novas milícias’. Falou também da reconciliação – mas para afirmar que isso só é possível se quem tiver cometido crimes venha a ‘beijar os pés dos timorenses e pedir perdão’. A missa terminou em alegria: o bispo pediu um ‘viva à Interfet’ e o povo respondeu da forma o mais entusiástica possível.

A missa acabou, mas o bispo e outros sacerdotes não saíram do sítio onde estavam – a sombra, temperada por uma suave brisa vinda do mar, era acolhedora. Não demorou muito para que Ximenes e a sua comitiva fossem presenteados com cocos abertos no topo, de onde beberam a sua água. Muitos ficaram ali à volta a conversar com o prelado. Apareceram duas testemunhas do massacre de Suai e contaram o que viram. Ximenes percorreu depois a casa incendiada onde vivia o padre Hilário, nas traseiras da igreja. Recomendou fortemente às testemunhas que registassem o que presenciaram, para depois, eventualmente, com base nesses testemunhos se fazer justiça aos mortos. Depois do almoço, tranqüilamente, o bispo voltou a partir. Agora quer ir a Oecussi (o enclave timorense na parte indonésia da ilha) e a Same. Dentro em breve, Suai terá um novo padre, ‘um filipino, de nome Renée’. A reconstrução de Timor também passa pela reconstrução da sua Igreja Católica. Ximenes sabe-o melhor do que ninguém."

(*) Copyright Público, 27/10/99

 

Ximenes quer justiça (*)

"Para os generais indonésios não há reconciliação possível. Este é, pelo menos, o pensamento do administrador apostólico de Díli, Ximenes Belo. O bispo continua a exigir a criação de um Tribunal Internacional Criminal para julgar os crimes contra a humanidade de que foram alvo os timorenses. E diz que na lista dos julgados devem constar todos os envolvidos: ou seja, do principal general indonésio, Wiranto, aos chefes timorenses das milícias.

Ontem, falando em Suai com alguns jornalistas, Ximenes Belo referiu explicitamente três nomes de generais indonésios que, no seu entender, devem ser julgados: além de Wiranto, até agora ministro da Defesa, Zaki Anwar e Adam Damiri, comandante da região militar indonésia que englobava Timor-Leste até à ratificação do referendo. A reconciliação de que o bispo de Díli fala só se aplica, aparentemente, aos ‘pés descalços’, que, em muitos casos, foram forçados a juntar-se às milícias – porque podiam pagar com a vida uma recusa.

Além de Wiranto, Zaki Anwar era o nome mais temido pelos timorenses. Durante o final da era Suharto, foi o responsável máximo pelos serviços secretos militares indonésios. Depois saiu, mas Wiranto recuperou-o para o seu gabinete ministerial, igualmente com a pasta das informações. ‘Nunca tomo o pequeno-almoço sem antes ler os relatórios de Zaki’, disse um dia o número um das Forças Armadas indonésias. A partir do gabinete, Zaki foi nomeado para uma ‘task-force’ indonésia para debater o problema dos refugiados e dos repatriados dentro do território. Há, portanto, quem ache que foi ele o ‘master mind’ de toda a operação de deportação de timorenses de Timor-Leste para Timor Ocidental depois do anúncio da vitória independentista. Os números de deportados variam entre 200 mil e 250 mil. Só uma ínfima minoria regressou. É no sudeste de Timor Ocidental, relativamente perto de Suai, numa vila chamada Betun que se vive agora a situação mais dramática. Nenhuma organização humanitária conseguiu entrar nos campos de Betun. (João Pedro Henriques)"

(*) Copyright Público, 27/10/99

 

Diário Digital

"O administrador da ONU para Timor-Leste, Sérgio Vieira de Mello, anunciou terça-feira que vai deixar Nova Iorque a 7 ou 8 de Novembro. Antes de assumir funções em Timor, o diplomata brasileiro deverá passar por Lisboa e Genebra. A nomeação de Vieira de Mello para o cargo de administrador da UNTAET (Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste) mereceu, entretanto, o apoio do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), que realça, além da competência do diplomata, o facto de Vieira de Mello ser de um país de língua oficial portuguesa.

‘É um nome que agrada muito ao CNRT e que, sendo brasileiro, ajuda ao contacto com os timorenses. Além da reconhecida competência, existe ainda o laço emocional para com a causa timorense, que vem também da própria língua’, afirmou à agência Lusa o vice-presidente do Conselho Nacional da Resistência Timorense, Mário Carrascalão.

Já em setembro, à data da deslocação de uma delegação de alto nível do CNRT às Nações Unidas, ficou expresso o apoio dos responsáveis timorenses à eventual nomeação do diplomata brasileiro. ‘Quando soubemos que Vieira de Mello era um dos nomes possíveis para este cargo demos o nosso apoio’, afirmou Mário Carrascalão. O vice-presidente do CNRT destaca a importância do ‘laço emocional’ do Vieira de Mello à causa timorense, numa alusão ao facto do diplomata ser de um país lusófono.

Quanto à liderança da força militar que seguirá para Timor, uma decisão em que será ouvida a opinião de Xanana Gusmão, Mário Carrascalão afirmou que o líder do CNRT considera que ‘o ideal seria Portugal, mas na impossibilidade de tal, o preferível é que a Austrália mantenha a liderança militar’.

Uma hipótese que não agrada a Xanana Gusmão é a possibilidade da liderança da força militar vir a ser atribuída a um país da ASEAN (Associação dos Países do Sudoeste Asiático). A ‘Malásia nunca’, afirma Mário Carrascalão, actualmente em Darwin, mas que deverá seguir na sexta-feira para Timor, conjuntamnte com a missão do Banco Mundial.

(*)"Vieira de Mello em Timor", copyright Diário Digital <www.diariodigital.pt>, 27/10/99

 

MÍDIA EM TIMOR
Jornalistas: profissão de risco
(*)

 

Filipe Rodrigues da Silva

Diário Digital

"Díli – Em Díli, os jornalistas arriscam (como é costume dizer-se) o ‘coiro’ todos os dias. Não adianta dizer que a cidade está segura e patati patata. Andamos por Díli com um sorriso nos lábios, a cumprimentar em bom português toda e qualquer pessoa que passe por nós. Mas o risco existe, e ninguém gosta de andar na rua depois das cinco da tarde. Mas, nesta profissão, os pequenos acidentes de trabalho também acontecem. Não são tão comuns como em outras profissões, mas existem.

Dos cerca de 40 jornalistas portugueses, presentes em Díli, dois tiveram menos sorte: o Luís Castro, repórter da RTP, e o Almeida, fotógrafo da Lusa. Um, o Luís, caiu desamparado de um carro devido a uma manobra mais ousada (uma curva em 90 graus...) do condutor timorense. O outro, caiu num buraco no estádio da capital timorense, quando fotografava a azáfama da confusão da distribuição de água e arroz.

No final, no meio de tanta infelicidade, ambos tiveram muita sorte por não terem sofrido mazelas mais graves do que um braço partido, uma perna partida e uns quantos pontos. O suficiente, contudo, para serem evacuados para Darwin e regressarem a Lisboa. Para quem tanto fez, e tantos obstáculos ultrapassou para chegar a Díli, o regresso nestes moldes nunca é motivo de satisfação. Em especial quando se é jornalista.

À entrada para a ambulância, o Almeida ainda dizia que, após ser radiografado, tinha a certeza de que ia voltar. Mas, quem olhasse para a sua perna, via claramente que tal não ia acontecer. Um sentimento que só o ‘bichinho do jornalismo’ justifica. Para estes camaradas de profissão, as rápidas melhoras e a certeza de que os que cá ficam vão continuar fiéis aos factos e a contar por imagens, sons e palavras, a história deste povo resistente."

(*) Copyright Diário Digital <www.diariodigital.pt>, 29/9/99

 

Meu reino por um avião (*)

 

Nuno Pedro Vinha

Diário Digital

"Há dois dias, o título desta crónica seria ‘o meu reino por um visto’. Hoje não. Hoje tenho visto. Hoje tenho mochila, comida, medicamentos, moral, autorização, força. Hoje só não tenho vôo para Díli.

Na saga das burocracias, cada dia é um acto de uma comédia que parece não ter fim. Ontem eram os vistos, hoje são as listas. Cada organização governamental, não-governamental, humanitária, militar ou civil organiza voos que saem de Darwin rumo a Timor Lorosae, rumo às notícias, rumo à vontade e ao dever de informar o mundo do que se passou e passa na arrasada cidade de Díli.

Cada um destes ‘vôos mágicos’ reserva uns (poucos) lugares para jornalistas. E em Darwin encontram-se cerca de 400 jornalistas com muito para fazer e pouco tempo para o conseguir. Os atropelos são inevitáveis e a paciência no limite também. Para conseguir o visto foi o que se viu, corridas, ‘cunhas’, falcatruas, ‘trinta por uma linha’. E para quê? E por quê? Por um selo oficial que nem sequer pode ser carimbado no meu passaporte, pois a Indonésia já não mantém relações diplomáticas com Portugal. No fundo não passa de um ‘souvenir’ de 100 dólares, um último ‘tomem lá, para ver se aprendem...’ da diplomacia indonésia. Claro, com a conivência das organizações Unamet e Interfet.

Por um visto, foi o que se viu. Por um lugar no avião mágico, nem quero imaginar. Aliás, está mais que visto: listas de nomes, dados, números de telefone de todos os jornalistas. Lista da Interfet, lista da Unamet, lista da embaixada portuguesa em Camberra. Lista para o avião da Protecção Civil. Lista para o avião da Community Aid Abroad. Lista destes, lista daqueles. ‘Já estás na lista dos ingleses? Não? Então corre, estão a passar agora uma folhinha de papel.’ Mais corrida. Mais jogos sem fronteiras. Mais uma lista.

Jogos sem fronteiras? Nem por isso... Jogos de amizade, jogos de competição, de conveniência. Jogos de nacionalidades. Porque nestas circunstâncias, quem é americano, australiano ou inglês não tem problemas em embarcar. Quem tem avião regista em cinemascope, em digital áudio a chegada das tropas da forca multinacional de paz, a Díli.

E o que faz o governo português? Dá o apoio que uma diplomacia manietada pode dispensar. Quando se deve indignar, não faz nada. Quando deve agir sente-se indignada. De contratempo em contratempo haveremos de chegar a Díli.

Ainda este ano? Por favor?..."

(*) copyright Diário Digital <www.diariodigital.pt>, 21/9/99

 

Os filhos da mãe
e os filhos da outra
(*)

"Darwin – Um visto para a Indonésia é o papelinho mais valioso e desejado em Darwin. Tão vital que sonhamos acordados, em puros devaneios e descargas de adrenalina. A tensão e o dever profissional misturam-se nas quentes tardes de Darwin.

Desde que David Winhurst (porta-voz da Unamet) anunciou, na sexta-feira, que ‘os senhores jornalistas com visto de jornalista para a Indonésia que desejem ficar acreditados na Unamet’ deviam assinar uma folha com os seus dados e contactos, o papel com o carimbo no passaporte passou a ser a obsessão de toda e qualquer pessoa que queira deslocar-se a Timor Lorosae.

Fomos quase todos apanhados de surpresa. Ou mais ou menos de surpresa, dado os rumores que circulavam há algumas horas. O acto chega a ter traços de surrealismo se virmos bem para onde se quer ir. Mas o facto não importa para o caso. Falemos claro: o visto ganhou um símbolo e um estatuto.

A partir daquela tarde, os jornalistas guerreiam pelo papelinho mágico. Desesperam em contactos para os seus órgãos de comunicação. Passam horas em filas ao Sol, junto ao consulado indonésio. Esperam poder pedir, receber ou ser ‘informados da demora do processo’. E nisto se gastam horas e horas. A paciência vai-se perdendo aos poucos – mas resiste-se. Aguenta-se e tenta-se manobrar o barco da melhor forma possível: mesmo quando se sabe que tudo se trata de diplomacia e das tricas e trocas, baldricas e baldrocas dos ‘senhores do mundo’.

Afinal, só eles impedem os jornalistas (ou parte deles) de chegar a Díli nas horas imediatamente a seguir a entrada das forças de paz em Timor Lorosae. Mas esta história não é nova. Já a vimos vezes sem conta em múltiplos cenários. É um ‘dejá-vu’. Um visto já visto. Só que, neste caso, o visto mais visto não há!

Aos ditos por não ditos típicos da burocracia dos serviços públicos em Portugal, juntam-se uns pózinhos das histórias do Kafka e uma elevada carga política. E o medo de revelar ao mundo um drama que talvez só os portugueses (por terem a confiança dos timorenses) podem contar.

Aos olhos da Indonésia, os jornalistas têm diversas origens, tal como as peças de fruta: uns são filhos da (mesma) mãe, os outros são filhos da… outra. É fácil perceber onde se incluem os portugueses e a maioria dos jornalistas ocidentais.

O ‘papelinho mágico’ já não é mais a entrada para outro país. Não é apenas o bilhete abençoado de uma obrigação diplomática. Não! Com o anúncio de David Winhurst, o visto tornou-se o símbolo da impotência da ONU e a imagem da vergonha do mundo. (Nuno Pedro Vinha)"

(*) Copyright Diário Digital <www.diariodigital.pt>, 19/9/99

 

A caminho de Timor (*)

"Singapura Aeroporto de Singapura. Um final de tarde de quinta-feira no outro lado do mundo. Calor. Muito calor. E muita umidade. Um cheiro imenso a Ásia. Timor sempre no pensamento. Tão longe e tão perto. Nesta terra desconhecida, o tempo perde o tempo. Em menos de um dia, dois sóis e duas luas. O espaço parece infinito. As horas-minutos misturam-se com os minutos-horas. Viajo contra o tempo no meu corpo. Um tempo cheio, feito de vontade e esperança. Darwin é a próxima paragem – a casa escolhida para aguardar para a partida para Díli. Um caminho ansiado.

Desde Paris que viajo com o João Pedro Fonseca, do Diário de Notícias. Somos apenas dois dos muitos jornalistas portugueses que passaram pela embaixada da Austrália, na quarta-feira, para recolher o ambicionado visto.

Uma estada complexa na capital parisiense. Por entre faxes, confirmações e desconfirmações, assinaturas, pagamentos e incontáveis quilómetros de filas de automóveis, lá conseguimos chegar ao aeroporto Charles De Gaulle a tempo de apanhar o avião para Singapura. Uma correria louca iniciada poucas horas antes em Lisboa.

Em Paris, uma certeza: a portugalidade vive e Timor Lorosae não foi esquecido. O drama timorense direcciona as linhas dos média franceses. A opinião pública mostra-se chocada e a comunidade portuguesa promete uma grande manifestação no próximo domingo.

No avião para Singapura, parecia que íamos entrar noutro mundo. Uma enorme mescla de línguas, cores e feições. Os jornais da tarde dão-nos as últimas sobre Timor: a confirmação da força de paz no território e o inevitável desacerto indonésio quanto à decisão da ONU.

Os ecrãs de TV do Boeing da Air France davam-nos as imagens do noticiário da ABC. As tropas australianas prontas para partir. Um sinal de esperança. Seguiram-se 12 horas de ‘black out’. Incomunicáveis e ausentes do mundo até à chegada a Singapura.

Ao almoço, as primeiras notícias. Annan anuncia que as primeiras forças internacionais chegam no domingo. A resistência timorense rejeita a ajuda aérea para que esta não denuncie a sua localização nas montanhas em Timor. O drama dos 300 mil refugiados na parte ocidental da ilha agrava-se.

Por entre dois ou três cigarros na única sala de fumadores do aeroporto, um australiano ‘veterano’ nas idas e voltas do mundo asiático oferece-nos um isqueiro e um conselho: ‘Tenham cuidado, na Indonésia a vida não vale nada.’ Oxalá o mundo se despache. (Nuno Pedro Vinha)"

(*) Copyright Diário Digital <www.diariodigital.pt>, 16/9/99

 

RETIRADA
Últimas tropas indonésias
deixam o Timor
(*)

 

Seth Mydans

The New York Times

"Díli – Encerrando uma ocupação de 24 anos que culminou em selvagem destruição, os últimos 900 soldados indonésios que permaneciam em Timor Leste baixaram ontem sua bandeira vermelha e branca e voltaram para seu país.

Os oficiais foram acompanhados até o aeroporto pelas pessoas que assumiram seu lugar: o general australiano que chefia a força de paz internacional da ONU e José Alexandre Gusmão, o chefe guerrilheiro que liderou a guerra separatista contra a Indonésia.

‘Sinto-me sensacional’, disse Gusmão com um sorriso de felicidade depois de cumprimentar os oficiais que partiam. Libertado após sete anos de prisão na Indonésia, hoje ele é o líder efetivo da nação emergente. Gusmão e seus compatriotas combateram os indonésios desde que estes invadiram Timor Leste em 1975, um ano depois de Portugal abandonar sua antiga colônia.

‘Agora, a partir de hoje, aqui não é mais Indonésia’, disse um dos oficiais de partida, o tenente-coronel J. D. Sembiring, que disse acreditar que a população local errou ao votar pela independência, mas lhe deseja boa sorte. ‘Agora queremos deixar esta região porque muitas pessoas morreram na luta’, ele disse. Cerca de 200 mil timorenses foram mortos ou morreram de doenças e fome desde que a Indonésia invadiu e anexou o território como sua província. Dezenas de milhares de soldados indonésios também morreram.

Enquanto o sol baixava, rapazes dançavam em volta de uma fogueira na praia, entoando uma canção de liberdade e gritando ‘Viva Timor Leste!’ Santos Kosme, um deles, disse: ‘Rindo comemoramos nossa liberdade. Hoje é um dia feliz’.

Horas depois os últimos soldados indonésios embarcaram num navio de transporte, cada um carregando sua mochila, num silêncio quebrado apenas por murmúrios. No último ato de sua longa permanência aqui, uma pequena unidade armada de metralhadora guardava a cerca do porto.

A partida da tropa foi o passo final de uma dolorosa separação que começou com um plebiscito em 30 de agosto, no qual 78,5% da população votaram pela separação da Indonésia. A votação foi seguida de uma onda de terror e destruição por milícias apoiadas pelos militares indonésios, que destruíram ou danificaram cerca de 70% dos edifícios de Timor Leste e obrigaram a maioria dos 800 mil habitantes e se refugiar.

Em conseqüência disso, uma força internacional de paz de 7.500 soldados foi destacada para cá em 20 de setembro. O Parlamento da Indonésia decidiu em votação este mês aceitar a decisão de independência de Timor Leste. Há quatro dias a ONU votou por estabelecer na ilha uma administração interina durante dois ou três anos, que inclui o destacamento de 9 mil soldados.

A perda de Timor Leste e a presença de tropas estrangeiras humilharam a Indonésia e despertaram uma onda de nacionalismo defensivo. Mas estas foram questões colaterais num intenso levante político que terminou em 20 de outubro com a eleição parlamentar de Abdurrahman Wahid, um religioso muçulmano, como novo presidente do quarto maior país do mundo.

Num gesto de conciliação, Wahid disse que receberá Gusmão no aeroporto se ele viajar a Jacarta, a capital indonésia. Gusmão disse ontem que pretende aceitar o convite e também quer conversar com os líderes militares indonésios. Quase sussurrando ao falar com repórteres sob uma chuva fina, às vezes arregalando os olhos e às vezes abrindo um sorriso feliz, Gusmão disse que espera que a Indonésia e Timor Leste possam ser bons vizinhos. ‘Estamos numa posição de olhar para o futuro e esperamos que os dois países possam criar relações amigáveis e cooperativas’, ele disse.

Durante sua ocupação de quase 25 anos, a Indonésia investiu cerca de US$ 100 milhões por ano no pequeno território – a maior parte para tentar conter a pequena mas resistente guerrilha. ‘Houve muito sangue derramado ao longo dos anos para manter o império unido’, disse Eric Chamberlain, um ex-assessor militar australiano na Indonésia que hoje trabalha para uma organização de ajuda em Dili.

‘Eles gastaram uma fortuna tentando transformar esta ilha num lindo lugar’, disse Chamberlain. ‘Ouvi dizer que muitos soldados ficavam revoltados porque o governo gastava muito mais aqui que em suas cidades. Então o transformaram num belo lugar e agora o destruíram, com grande sentido de vingança.’

Entre os oficiais militares que coordenaram e participaram disso, segundo Chamberlain, a campanha de destruição tinha como claro objetivo mandar um recado, que também foi pintado em aerossol na parede de um prédio incendiado no bairro comercial de Dili: ‘A conseqüência de uma escolha errada’ -referindo-se ao voto pela independência.

Dili continua em ruínas, mas fervilha de vida com a volta dos refugiados das montanhas ou, em barcos e aviões, dos campos em Timor Oeste, na Indonésia, para onde fugiram ou foram obrigados a fugir pelas milícias. Os habitantes estão voltando para suas casas queimadas, e muitos têm de usar como teto as lonas azuis distribuídas pelos organismos de ajuda.

As tropas indonésias que partiram nas últimas semanas carregaram tudo o que puderam, incluindo móveis e até as redes das quadras de tênis. Os habitantes que agora assumem o lugar de senhores de Timor Leste terão que começar quase do zero. ‘Eles recebem o básico para viver’, disse Luciano Calestini, membro da organização de ajuda World Vision, que distribuía provisões ontem de manhã. ‘O básico para viver são uma folha de plástico, um cobertor, algumas barras de sabão, um cantil para água e cinco quilos de arroz.’"

(*) Copyright The New York Times/UOL, 31/10/99. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 

CARTAS
Ajudem Timor

A independência do Timor é resultado heróico de um povo que lutou sozinho, esquecido do mundo, pelo seu direito de ser livre. Sou estudante de Jornalismo e free surfer. Já estive duas vezes na Indonésia, e conheci um povo muito místico e com uma cultura riquíssima. Vítima de um sistema opressor, a maioria do povo só come arroz, quando come. Ouvi muitas histórias de estrangeiros que morreram no Timor e de como os timorenses eram hostilizados por falar português (conheci um deles no aeroporto, seu sotaque era como o dos portugueses). A independência de Timor pode criar uma bola de neve na Indonésia. A atual miséria, os conflitos étnicos e religiosos podem transformar o país num arquipélago do barulho.

A sociedade brasileira, por amor ao próximo, por respeito a sua cultura, a sua língua, deve se organizar (esperar pelo governo? É mas fácil o Cristo bater palmas) e ajudar a quem quer construir seu país em uma pequena ilha. Temos tantos profissionais competentes sem emprego, por que não ir para lá ajudar?

Renato Erber

Nota do O.I.: Cerca de mil brasileiros vinculados ao governo federal, IBGE, Rotary, Lions, governo do estado do Rio de Janeiro, prefeitura do Rio e Regiões Administrativas, várias ONGs (entre elas o Viva Rio) e Firjan estão se preparando para embarcar para Timor e ajudar na reconstrução.



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