|
LUNETA GIRATÓRIA
Olho no voto ajuda o (e)leitor
Mas ele continua sem saber o que houve entre Ciro e Mangabeira Unger
Ricardo A. Setti (*)
1. Esforço editorial – É de tirar o chapéu o esforço editorial feito pela Folha de S.Paulo para colocar nas mãos do (e)leitor em 56 páginas, tamanho tablóide, o Olho no Voto, minuciosa avaliação da atuação dos 513 deputados e 81 senadores que formam o Congresso Nacional. Publicado na sexta-feira, 27 de setembro, está disponível em <www.folha.com.br/022391>. É o resultado de quase quatro anos de trabalho do Datafolha – o levantamento começou junto com o início da atual legislatura, em 15 de fevereiro de 1999.
É claro que não há como fugir a um considerável grau de subjetividade num trabalho que, como explica o jornal, "abrange praticamente todos os aspectos da atividade parlamentar – desde a negociação política até a presença no plenário e nas comissões". Tanto é que a própria Folha corretamente registra objeções de vários parlamentares aos critérios adotados na avaliação.
Mas há uma enorme massa de informações úteis ao eleitor nesses últimos dias de campanha eleitoral: cargos ocupados por cada congressista, funções exercidas, presença em plenário e comissões, atuação nesses fóruns, projetos apresentados e relatados, votações de que participou, uso da palavra – e por aí vai.
Pena que o leitor não tenha uma avaliação dos candidatos ao Congresso que não estão exercendo mandato. Mas como a imprensa pode resolver esse problema com a generosidade maluca da atual legislação eleitoral, que facilita de tal forma a criação de partidos que já há 30 em atividade? Só em São Paulo – para ficar em um único exemplo – há 793 candidatos a deputado federal e 1.572 a estadual.
2. Menor
esforço –
Falando na Folha: podem reparar: um em cada quatro ou cinco de seus editoriais
tem um "... resta saber..." na conclusão. E, em virtualmente todos os
casos, os editoriais tratam dos assuntos lançando mão apenas de
informações publicadas pelo próprio jornal – de preferência,
na mesma semana. Não se pesquisa mais nada, ao contrário do que
costumam fazer, em seus editoriais, jornais do mesmo porte.
3. Vanguarda
do atraso – Amargo comentário de Arnaldo Bloch sobre o horário
eleitoral gratuito no Rio de Janeiro – e as próprias eleições
–, no Globo de quinta-feira, 26/9: "[O prefeito] César
Maia e [o senador tucano] Artur da Távola estão entre os
poucos motivos para ficar acordado, pois são oradores, sabem refletir
as palavras, dar ganchos ao ouvinte. Falta o [ex-governador Leonel] Brizola,
recolhido. O que é de lamentar, sob risco de o tribuno [bispo da Igreja
Universal Marcelo] Crivella triunfar. Loquaz indício de que o Rio
é hoje a vanguarda do atraso cívico, num país que enterra
Maluf, Newton e Collor".
4. A
imprensa e a polícia – Não menos amargo para nós,
jornalistas, é o fecho do artigo do advogado Luís Francisco Carvalho
Filho, na edição de 25/9 da Folha, citando trecho de reportagem
publicada dias antes: "Ao final da apresentação [do bandido
Elias ‘Maluco’ à imprensa], após a saída das autoridades,
jornalistas xingaram Maluco, insistindo que ele levantasse a cabeça.
Um policial apertou as nádegas do traficante, que reagiu a chutes. Ele
não consegui acertar o policial. Ninguém liga porque se trata
de Elias Maluco, o suposto assassino de Tim Lopes, da TV Globo. É a imprensa
e a polícia de mãos dadas. Salve-se quem puder".
5. Segredo
de Fátima e William – A edição de aniversário
de Nova, nas bancas, traz um perfil de Fátima Bernardes, apresentadora
do Jornal Nacional da Globo, que também está na capa da
revista. Sempre hábil em conseguir informações dos entrevistados,
a autora, Dalila Magarian, conseguiu um feito: extrair das profundezas da intimidade
do casal Fátima Bernardes e William Bonner a razão pela qual eles
recorreram à inseminação artificial para ter filhos. A
matéria não está disponível na internet.
6. Roriz
vs. Noblat – A grande mídia está cobrindo muito timidamente
a briga que o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), mantém
contra o Correio Braziliense e seu diretor de Redação,
Ricardo Noblat. O jornal tem dado cobertura a acusações de um
vasto esquema de grilagem de terras públicas envolvendo pessoas ligadas
ao governador, que concorre à reeleição [nesta edição
do OI, leia "Roriz, Correio e a volta da censura", na rubrica
Imprensa em Questão].
Roriz, acostumado a uma imprensa local majoritariamente dócil e compreensiva, atribui a independência editorial do Correio a supostos interesses pessoais de Noblat numa vitória petista. E passou a atacar o jornalista no horário eleitoral – a ponto de a Justiça Eleitoral dar sucessivos direitos de resposta a Noblat e ao Correio.
A edição de Veja desta semana entra no caso com uma revelação explosiva: em telefonemas gravados pela polícia com autorização judicial, Roriz se compromete. Veja registra: "Entre 45 telefonemas gravados (...), um deixa evidente que o governador do DF (...) protege os interesses fundiários de Pedro Passos, o maior grileiro de terras públicas em Brasília". A transcrição de trecho da conversa mostra o governador silenciando diante da informação de que um funcionário de sua administração recebeu suborno e prometendo deter uma fiscalização em curso.
7. Microfonia
– Quando surgiram, em meados dos anos 90, as emissoras de TVs de órgãos
públicos – começando pela TV Senado – assustaram pela possibilidade,
sempre presente no Brasil, de se tornarem meros cabides de empregos encarregados
de lustrar egos de políticos e altos funcionários. Na verdade,
foram aos poucos encontrando seu espaço e sua credibilidade.
Isso, porém, não as exime de preocupação com aspectos técnicos. Por exemplo: ai do telespectador que, dias atrás, se interessasse por uma transmissão da TV Câmara de um seminário que discutiu um tema relevante, "Política de Defesa para o Século XXI", e levou a Brasília vários participantes de peso, tal era a má qualidade do som.
8. O
crucial debate na Globo – Se não fosse a edição
de Época que está nas bancas, a grande imprensa teria chegado
ao fim de semana meio esquecida do crucial, importantíssimo debate entre
os presidenciáveis que a Rede Globo leva ao ar nesta quinta-feira, 3,
depois do encerramento do último programa eleitoral obrigatório.
Como os indecisos estão por volta de 25% do eleitorado, significa que
mais de 28 milhões de eleitores ainda não escolheram seus candidatos
– e que o debate pode, sim, mudar o quadro que temos hoje.
9. Pauta
que falta – O que, afinal, aconteceu entre Ciro Gomes e seu guru
Roberto Mangabeira Unger? Uma amizade e parceria de uma década se esfumam
no ar, o filósofo volta para os Estados Unidos com seu espantoso sotaque
e o leitor fica sem saber nada. Nós, jornalistas, estamos devendo essa.
10. Made
in Brazil – Continua uma maravilha a edição brasileira
da National Geographic, dirigida pelo brasileiríssimo norte-americano
Matthew Shirts. Lançada em maio de 2000, a brasileira é uma das
22 edições internacionais da revista – a 22ª, da Hungria, vem
à luz justamente esta semana. A National Geographic, fundada em
1888, é extremamente ciosa de seu material, de alta qualidade, e historicamente
relutava em permitir que as edições locais publicassem textos
e fotos produzidas localmente. A edição brasileira, que hoje publica
10% de material brasileiro, vai lançar ainda este ano uma rara edição
especial com 100% de reportagens produzidas no país.
(*) Jornalista
|