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LUNETA GIRATÓRIA
Debate da Band, Tom e
Vinicius, o pai de Lula e outros

Ricardo A. Setti (*)

1. Pai padrasto – Todo mundo acha que já sabe tudo sobre Lula. Pois a Época que está nas bancas publica uma antológica matéria sobre o falecido pai do candidato do PT à Presidência, Aristides Inácio da Silva, e sua possível influência – às avessas – na formação de um filho que só conheceu quando o garoto tinha 5 anos de idade e ao qual nunca dirigiu uma palavra ou um gesto de carinho, pelo contrário. "Pai Padrasto", da repórter especial Eliane Brum, tem além disso uma qualidade de texto como há tempos não se vê na imprensa. Goste você ou não de Lula, é de arrepiar.

2. Perguntas ao léu – Debates entre candidatos à presidência são importantíssimos, e viva a TV Bandeirantes por, uma vez mais, ter saído à frente das demais e promovido o encontro de domingo à noite [4/8/02]. Pena que o formato aprovado pelos candidatos, como sempre rígido, teve dessa vez o condão adicional de relegar os jornalistas da bancada de entrevistadores a segundo plano. Mas mesmo tendo que fazer a pergunta para só depois ser sorteado o destinatário dela, Augusto Nunes, como sempre agudo, e José Paulo de Andrade conseguiram cutucar Ciro Gomes e Lula, respectivamente, sobre a salada de alianças eleitorais e a eventualidade de um corralito para o dinheiro dos brasileiros.

3. Sem censura – Louvável sinal de transparência no Globo: a edição de sábado [3/8] publicou nota, com título de duas linhas em duas colunas, sobre o rebaixamento da avaliação da Globopar, holding das Organizações Globo, pela agência de classificação de risco americana Moody’s [veja íntegra sob o chapéu GLOBOPAR REBAIXADA, na rubrica Entre Aspas desta edição].

4. Não foi ela – Mais uma cravada do Globo, agora na edição de sexta-feira, 2/8: a matéria de João Máximo no Segundo Caderno indicando que Helô Pinheiro talvez não tenha sido a musa da celebérrima canção Garota de Ipanema. A Garota foi composta em 1962 e a revelação da possível inspiradora só se deu em 1965, na extinta Fatos & Fotos, pelo falecido jornalista Ronaldo Bôscoli. Bôscoli, conquistador inveterado, teria tido intenções, digamos, pouco jornalísticas com a reportagem. Tolerantes para com as fraquezas humanas, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, autores da Garota, não desmentiram e deixaram o barco correr [veja íntegra sob o chapéu GAROTA DE IPANEMA, na rubrica Entre Aspas desta edição].

5. SOS idioma – A expressão coloquial "por conta" avança de forma inarredável entre repórteres, copidesques e mesmo articulistas e colunistas de texto apurado, ocupando o lugar de uma série de sucedâneos mais elegantes, e muito mais precisos, como "em conseqüência de", "em razão de", "em virtude de" e "por causa de". O professor Pasquale Cipro Neto deve andar por conta.

6. Ponto para – ... as amarelas da Veja desta semana (edição 1.763, 7/8/02), tendo como alvo um brasileiro discreto, mas de destaque internacional, que precisava ser entrevistado: Sérgio Vieira de Mello, funcionário de carreira da ONU recém-indicado para dirigir o Alto Comissariado de Direitos Humanos da organização, depois de várias outras missões relevantes. Pena que, seguindo a prática empobrecedora adotada de forma generalizada pela mídia impressa, a entrevista tenha sido feita por telefone.

7. Visuais novos – Melhorou bastante o visual do Jornal da Record, de Boris Casoy. A reforma estética do quadro de meteorologia do Jornal Nacional, por sua vez, embora tenha incorporado algumas pirotecnias, esquematizou demais e empobreceu o mapa do Brasil onde se mostrava o andamento das condições do tempo.

8. Coisa sagrada – Vocês não acham que jornalista tem obrigação de saber grafar corretamente os títulos de jornais e revistas? É muito freqüente, por exemplo, ler-se em veículos de primeira grafia incorreta da Folha e do Estadão. O "S. Paulo" no título de ambas é muitas vezes grafado por extenso, "São Paulo", sem contar o artigo indevido que se coloca adiante de "Folha". Por falar nela, um dia desses um redator distraído atribuiu uma matéria sobre contabilidade fajuta nas empresas americanas, publicada premonitoriamente há mais de um ano, a um repórter da americana Harper’s Bazaar – a chiquérrima, mas futilíssima revista-altar da moda. O correto, claro, é Harper’s, a esplêndida revista mensal de Nova York que privilegia texto e reportagem e vem sendo editada por uma fundação desde 1850. Se não conhece, confira: http://www.harpers.org/

9. Ajuda ao leitor – Boa idéia do cada vez melhor jornal O Povo, de Fortaleza. Ao lado de toda matéria que contenha economês ou politiquês no texto, uma retranquinha explicativa, com verbetes, sob o título de "Dicionário".

10. Pauta que falta – Ciro Gomes já disputa cabeça a cabeça com Lula as pesquisas de intenção de voto para presidente. Um de seus irmãos, Lúcio, ex-chefe de gabinete do governador Ciro no Ceará (1991-1994) e ex-braço direito de sua campanha presidencial em 1998, é o guardião do caixa da atual campanha. Outro irmão, Cid Gomes, ex-deputado estadual, é prefeito de Sobral, cidade natal da família, com 150.000 habitantes. Onde é que estão os perfis dos dois na mídia? Aliás, quem viu uma foto de qualquer um deles levante a mão.

(*) Jornalista


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