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FOLHA DE S.PAULO
Bernardo Ajzenberg

"Crítica interna", copyright Folha Online <www.folha.com.br>

27/03/2002

Com as decisões tomadas ontem pelo TSE, começam a ficar mais claras as possibilidades concretas de reacomodação das alianças eleitorais. O assunto é manchete na Folha (‘TSE ameniza regra para coligações’) e no Globo (‘TSE decide liberar as alianças nos estados’). O Estado dedica manchete a um elogio do FMI (‘Para FMI, Brasil tem 'desempenho forte'‘), curiosamente baseado nas mesmas declarações que na Folha recebem apenas uma sub-retranca de Dinheiro, sob o título ‘Brasil terá oportunidade de baixar mais o juro, diz Krueger’. Questão de opção ‘político-editorial’. No JB, ataque aos congressistas: ‘Câmara favorece gazeteiros com truque do abono’.

Ovo de Colombo

Parece tão óbvia a idéia apresentada no texto ‘Governo quer acabar com prazo da CPMF’ (Brasil, pág. A4) --retirar do projeto a necessidade de 90 dias para aplicação da cobrança--, que o leitor se pergunta: como ninguém falou nisso antes? Nesse sentido, além de revelar a estratégia do governo, o jornal poderia ter avançado mais, na reportagem, quanto à viabilidade jurídica e à receptividade política desse verdadeiro passe de mágica.

Desequilíbrio

Por uma questão de equilíbrio editorial, a Folha -que publicou a íntegra do discurso de José Sarney semana passada- deveria ter dado, hoje, a íntegra da carta em que FHC responde ao senador. No mínimo, o correto teria sido que na retranca ‘FHC responde a Sarney uma semana depois’ (pág. A5) houvesse uma remissão para a Folha Online, que colocou no ar o texto inteiro desde o final da tarde de ontem.

Desarticulação

A reportagem ‘Pefelista afirma que tem 'sete fôlegos'‘ (pág. A5) afirma que, ‘segundo os assessores de Roseana, a queda (nas pesquisas) verificada após a ação da Polícia Federal... teria cessado’. Ora, o dado aparece completo (mostrando os números) na retranca imediatamente acima (‘PFL reconsidera estratégia e dá sobrevida a Roseana’). Ou seja: o jornal tinha a informação e não precisava, portanto, atribuí-la a assessores, passando ao leitor a idéia de estar ou mal-informado ou desarticulado. Questão de edição.

Serra no estádio

Ao contrário do que afirmam o Painel (pág. A4) e o abre de Esporte (pág. D1), a reportagem ‘Jogo do Brasil vira palco da sucessão’ (pág. A8) afirma que o pré-candidato tucano ‘cancelou sua ida ao estádio’ para ver o amistoso da seleção brasileira em Fortaleza. Aliás, neste último texto, faltou remissão para o material sobre a partida. Por falar em remissões, também o caderno de Esporte deveria ter feito uma para a contracapa de Informática, que traz hoje 110 sites sobre futebol, seleções, torcidas e a Copa 2002. Faltou articulação.

Sem-terra

1) Está ausente o ‘outro lado’ do MST nas reportagens ‘Para Virgílio, PT ficou 'em cima do muro' com MST’ (pág. A8), em que os membros do movimento são chamados de bandidos, celerados, proxenetas e gigolôs, e ‘Ato do MST foi 'irresponsável', diz Genoíno’ (pág. A7);

2) No perfil ‘Fazendeiro foi aluno de FHC na Sorbonne’ (Brasil, pág. A6), faltaram a idade de Jovelino Mineiro e sua formação acadêmica. Formou-se em quê? Teve aula de que com FHC?

3) A idade do líder sem-terra Sérgio Pantaleão é 21 anos no abre da pág. A6 e 22 anos na sub-retranca ‘Movimento adota 'lei seca'...’. Qual é o número correto?

4) O abre da pág. A6 afirma que houve em maio de 2000 uma série de invasões de terras e prédios em que o PT atuou como intermediário nas negociações. Em ‘PT rejeita mediar negociação entre o MST e o governo’, na mesma página, afirma-se que tudo aquilo aconteceu ‘há exatos dois anos...’. Ainda estamos em março, certo?

5) Ao justificar a retirada de José Rainha de Teodoro Sampaio por causa de ameaça de prisão, a mulher dele, Deolinda, afirma, no abre da pág. A5: ‘Rainha preferiu correr o risco’. Pela lógica, na frase faltou um NÃO;

6) Não vi na Folha a informação de que a filha de FHC Luciana viajou à fazenda Córrego da Ponte para vistoria a bordo de um avião da FAB, o que, segundo o ‘Correio Braziliense’, configuraria irregularidade a ser apurada pelo Ministério Público;

7) O Estado traz hoje a opinião do PL sobre as ações do MST. Bola dentro na discussão política em curso.

Contradição

A reportagem ‘Ação nos EUA quer reparação por escravidão’ (Mundo, pág. A12) informa que essa é a ‘primeira ação de reparação nos EUA contra empresas que teriam lucrado com o trabalho escravo negro’. Mais adiante, afirma: ‘As cortes americanas não têm sido muito receptivas a esses casos...’. Mas essa não é a primeira ação?

Em dívida...

Por mais que tenha dado sequência ao noticiário (hoje na pág. A12), o jornal ainda não conseguiu mostrar o que há efetivamente por trás da pressão tão obstinada dos EUA para tirar o embaixador brasileiro Bustani da presidência da Organização para a Proibição de Armas Químicas. Má administração? Apoio ao ‘eixo do mal’? Demissão de subalterno americano? Falta aprofundar.

Represália?

Certamente não se trata de uma questão militar. Por isso, é inadequado, creio, afirmar que a União Européia adotou sobretaxas ao aço em ‘represália’ a posição semelhante adotada pelos EUA, como está em ‘Diretor da Vale diz que país não deve retaliar’ (Dinheiro, pág. B4). Se o Brasil fizer algo parecido, tampouco será ‘em represália’, mas sim, como uma reação comercial, como única forma possível para salvaguardar, proteger, defender a sua própria indústria.

Ambíguo

O título ‘Consumo cai após fim do racionamento’ (Dinheiro, pág. B10) é infeliz. O consumo de energia caiu em março de 2002 em relação a março 2001, mesmo considerando que no presente mês o racionamento já não vigora. É o que se quer destacar. OK. Mas a verdade, como também está no texto, é que entre fevereiro e março, justamente com o fim do racionamento, o consumo subiu.

Pastel

Diz-se no sétimo parágrafo de ‘Confiança do consumidor volta ao nível pré-atentados’ (Dinheiro, pág. B10) que ‘...a retomada das contrações tem contribuído para a ampliação da confiança dos americanos’. É a retomada das contraTAções, certo? Portanto, outro sentido.

Detalhes

1) Faltou o crédito do autor na coluna ‘Urbanidade’ (Cotidiano, pág. C2);

2) O texto ‘Suspeito de atacar ex-mulher é preso em SP’ (Cotidiano, pág. C8) afirma que o crime teria ocorrido anteontem por volta das 21h. Já a respectiva arte fala em 22h. Qual é o dado certo?

E a cúmplice?

Em ‘Rapaz é acusado de matar os pais e 3 irmãos’ (Cotidiano, pág. C$, edição SP), faltou a foto da namorada e cúmplice do pintor. Só ele aparece. A imagem dela, que assumiu lugar importante na chacina, está na edição regional (Ribeirão) e deveria estar nas demais, ao menos num ‘destaque’.

Aviso

Devido à Semana Santa, não haverá crítica interna amanhã e sexta-feira.

26/03/2002

Só a Folha deixa de dar hoje manchete para a segunda invasão de fazenda relacionada a FHC em quatro dias. Opta pela Argentina (‘Pânico cresce, e dólar vai a 3,90 pesos’), reservando uma ‘segunda manchete’, pouco acima da dobra, para os sem-terra (‘MST invade propriedade de amigo de FHC’), tema do Estado (‘Em represália a prisões, MST invade terras de amigo de FHC’), Globo (‘MST radicaliza discurso e promove nova invasão’) e JB (‘MST desafia FH em nova invasão’).

Nova invasão

1) A reportagem ‘FHC disse que não queria 'Carajás' dentro de sua casa’ (Brasil, pág. A7) dá a entender que o ministro do Desenvolvimento Agrário ficou, como se diz, com a brocha na mão, na madrugada de sábado para domingo. Ou seja: enquanto ele e seus ouvidores negociavam com os invasores em Buritis, a PF já decidira que haveria prisão. Essa versão, creio, precisa ser mais bem explorada pelo jornal, pois contraria a do fim de semana e pode expor uma eventual discordância dentro do governo (entre ministros) quanto à forma de ação naquela noite;

2) Detalhe: essa mesma retranca, ao rememorar o episódio de Carajás, não informa onde ele ocorreu (no Pará, certo?)

3) Falta na edição um glossário dos termos ‘do campo’: assentamento, arrendamento, grilagem, terra devoluta, ‘manutenção da posse’, ‘reintegração da posse’ etc. São palavras cujo significado boa parte do leitorado ignora;

4) Faltaram, também, as idades dos sem-terra presos e do fazendeiro Jovelino Mineiro, o amigo de FHC;

5) No quarto parágrafo de ‘Um dos detidos em MG é filiado ao PT’ (pág. A4), mencionam-se quatro nomes e, em seguida, afirma-se que ‘...os três vivem e têm plantações em lotes...’. Ficou confuso;

6) O item ‘Arapuca’, ao pé da retranca ‘'Foi o desespero', diz líder do MST sobre a invasão’ (pág. A6), é, na verdade, um pedaço de reportagem, e não um trecho da entrevista com esse líder, como faz supor a diagramação.

O ‘outro lado’ inventou

Não sei se o erro estava no original ou se foi introduzido pela Redação (a verificar), mas basta ler a crítica interna de ontem para constatar que, ao criticar o uso do advérbio ‘ainda’ em reportagem sobre o caso Jersey, eu não escrevi, como complemento, ‘...que Maluf seja acusado formalmente DE UMA COISA QUE ELE NUNCA FEZ’. Essas últimas cinco palavras não são da lavra do ombudsman, citado como seu autor, no entanto, no ‘outro lado’ da pág. A10.

Serra e os EUA

Chamo atenção para a coluna da pág. A6 do ‘Valor’ que relata preocupação contundente por parte do governo norte-americano (ao menos de um representante importante dele) com relação à candidatura Serra.

Sísifo

1) Faltou a idade da protagonista do curioso caso ‘Tribunal absolve nigeriana condenada à morte’ (Mundo, pág. A12). Segundo o New York Times, Safiya Hussaini, mãe de cinco filhos que morreria apedrejada por ter cometido adultério, tem 35 anos;

2) O texto ‘Teste questiona potencial de biofábricas’ (Ciência, pág. A14) utiliza no quarto parágrafo o verbo garantir de modo inadequado (‘A comunidade científica garante que não há razão para descrédito’). Como ela poderia dar essa garantia? O ideal teria sido usar ‘considera’, ‘avalia’, algo assim;

3) Faltaram as idades da secretária Regina Celia e do pediatra Chipkevitch em ‘Secretária reconhece sete pacientes’ (Cotidiano, pág. C6).

Gráfico solto

Não entendi a que serve o gráfico ‘A queda da moeda brasileira na crise cambial de 1999’ (capa de Dinheiro). Nenhuma retranca faz referência à questão, e sua relação com a crise argentina (objeto da reportagem) fica, portanto, obscura para o leitor.

Alíquota e valor

‘Uso pode ser liberado para carros’ (Dinheiro, pág. B6) informa que a ‘alíquota da Cide... sobre a gasolina é de R$ 0,50...’. Alíquota não é uma taxa (percentual)? Esse seria, mais, o valor da alíquota, certo?

Não contestou

O título ‘Procuradoria contesta acordo da Força Sindical que flexibiliza leis trabalhistas’ (Dinheiro, pág. B6) não combina com o texto, segundo o qual o Ministério Público formalmente pediu cópia do tal acordo e ainda vai analisá-lo para verificar se ele prejudica ou não os trabalhadores.

Forçada

A sub-retranca ‘Arquitetos fazem objeções ao projeto’ (Cotidiano, pág. C3) tenta arrancar críticas ao novo estilo da Cohab, apresentado em reportagem de capa. Infelizmente, não foi feliz. A única objeção, de fato, é feita por uma especialista que não teve acesso ao projeto. Certamente há especialistas que possuem críticas, mas essa retranca não conseguiu sustentar à altura o necessário ‘outro lado’.

Reconhecer como?

Não deu para entender a Panorâmica sobre o caso Celso Daniel ‘Empresário não reconhece suspeitos’ (Cotidiano, pág. C3). O texto diz que Sérgio Gomes da Silva ‘não reconheceu ontem os suspeitos presos pela polícia...’ e, mais adiante, que ‘...a possibilidade de reconhecimento pessoal não é cogitada pela polícia’. Supõe-se que ele então teria sido chamado a reconhecê-los ontem por fotos, ou imagem de vídeo... É isso? Faltou clareza.

25/03/2002

Foi um fim de semana ‘quente’, daqueles capazes de ‘congelar’, em horas, as revistas semanais. Nas manchetes de hoje, o desfecho do episódio da invasão da fazenda Córrego da Ponte pelo MST ganhou duas vertentes. Folha (‘PF rende 16 após acordo em Buritis’) e JB (‘Polícia retoma fazenda de FH após negociação e prende 16’) destacam nos títulos a polêmica questão do acordo que possibilitou a desocupação sem maiores confrontos. Esse aspecto fica de fora no Estado (‘Invasão termina com prisão de 16 do MST’) e no Globo (‘Líderes do MST são presos e responderão por 5 crimes’), sendo tais posicionamentos reflexo direto dos respectivos noticiários (ver nota). Um registro: ironicamente, o New York Times traz hoje chamada de duas colunas em sua capa para reportagem sobre trabalho escravo na Amazônia brasileira.

O caso Buritis

1) As fotos dos sem-terra na casa da família de FHC são candidatas a perfilar com o R$ 1,34 mi da Lunus e os abraços Lula L dentre as imagens que marcarão a campanha eleitoral. Por isso, há que se registrar ter a Folha perdido claramente, nesse quesito, para a concorrência (Globo e Estado), em especial na edição de domingo. O jornal não teve foto própria nem ao menos na capa. A reportagem ‘PF prende 16; para ouvidores agrários, acordo foi violado’ (pág. A4, hoje) afirma que a entrada de fotógrafos e cinegrafistas na fazenda só foi autorizada no amanhecer do domingo. Não deu para entender;

2) Outro destaque foram os relatos cheios de detalhes do que aconteceu dentro da casa no Globo de ontem e de hoje. Fica evidente que o jornal carioca, de alguma forma, conseguiu manter jornalistas ali (seu texto na edição de hoje, creditado a um repórter fotográfico, fala em ‘dois jornalistas’). Entraram e ficaram de forma ilícita ou simplesmente tiverem mais competência?

3) Sobre o acordo de ‘não-prisão’ entre governo e MST para a saída dos invasores da casa: na Folha o ministro da Justiça afirma que ‘isso é inegociável’ (‘Governo vê 'erros' na proteção da fazenda’, pág. A6, hoje) e o do Desenvolvimento Agrário aponta para um ‘mal-entendido’. Pela concorrência, porém, os dois teriam sido bem mais diretos e enfáticos, negando explicitamente que a ‘não-prisão’ tivesse sido negociada e desmentindo, assim, sem meias palavras, os ouvidores agrários. Sobre esse assunto, aliás, relato do jornalista-testemunha do Globo hoje afirma que antes de abandonarem a casa da fazenda os sem-terra já sabiam que acabariam presos. Será? Não bate com a ‘surpresa’ narrada na Folha. A verificar;

4) A legenda da foto do abre da pág. A15 de domingo afirma que a fazenda é de FHC, quando todo o noticiário deixa claro que ela pertence aos filhos do presidente e mais um sócio;

5) Na arte ‘Como foi a invasão...’ (hoje, pág. A5), informa-se que às 18h do sábado os sem-terra foram avisados da existência de um mandado de reintegração de posse. Pelo restante do noticiário, o mandado era de ‘manutenção de posse’, ou ‘interdito proibitório’. Seriam coisas diferentes e com diferentes implicações legais;

6) Na Folha (‘Juristas criticam a maneira como a desocupação foi feita’, pág. A7 de hoje), o presidente da OAB, Approbato Machado, avalia que ‘a legalidade da prisão tem de ser verificada’. Já no concorrente local, o mesmo personagem considera que não houve qualquer ilegalidade. A verificar, pois a polêmica deve prosseguir;

7) Faltou informar, na Folha, as penas às quais estarão sujeitos os dirigentes presos, conforme as cinco acusações que lhes são imputadas até agora;

8) O Globo traz hoje retranca que mostra quais seriam as ligações entre alguns líderes invasores e o PT. A verificar;

9) Registre-se, por fim, que o Estado e o JB deram editoriais sobre o assunto hoje, transmitindo uma sensação de agilidade que faltou à Folha.

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