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Bernardo Ajzenberg
"Crítica Interna", copyright Folha Online (www.folha.com.br)

"29/11/2002

É difícil imaginar que a manchete de hoje fosse voltada para outro assunto que não os atentados no Quênia e em Israel, como fizeram os dois principais diários paulistas. Curiosamente, os dois principais do Rio subestimaram esses acontecimentos e priorizaram, em suas capas, a inflação. Destaque especial merece a reportagem do ‘Valor’, com chamada na capa, sobre o aparente descumprimento de um acordo com Itamar Franco (liberação de verbas para Minas) por parte do governo atual, posição tomada por FHC com base em parecer do governo eleito. O caso ‘promete’.

Obscuro

O texto ‘Siglas querem fim do PSI/Pasep em cascata’ (Brasil, pág. A4) é caracterizado pela falta de didatismo e de clareza. O que é ‘projeto de conversão’? Por que o setor de serviços é o maior lobista contra o fim da cumulatividade? O que é valor agregado?

O jornal, vale sempre lembrar, não é lido apenas por especialistas.

Fidel Castro

O side ‘Lula recebe charutos de Fidel’ (Brasil, pág. A6) trata o governante apenas como ‘líder cubano’. Ele não é mais ditador, como recomenda verbete da pág. 63 do ‘Manual da Redação’?

Esquisito

Claro que a interdependência temática não deve ser sempre absoluta, mas ficou bem estranha a edição da charge ‘Risco-nanquim’, sobre inflação, ilustrando material sobre questão agrária, na pág. A7.

Crise no DF

Merecia sem dúvida mais destaque do que um pequeno pirulito ao pé da página A8 o caso da crise política no DF, marcada, ontem, pela demissão do secretariado.

Ronivon

Diz o texto ‘Câmara faz sorteio de gabinetes’ (Brasil, pág. A9) que o deputado Ronivon Santiago estava sentado ‘numa das primeiras fileiras’ do auditório onde se realizou o sorteio. A foto, porém, mostra-o, claramente, em outra posição, bem distante das primeiras fileiras. Não deu para entender.

Recurso

O jornal não informa, em ‘Justiça condena 11 acusados de fraude no caso do Banco Nacional’ (pág. A9), que, por se tratar de uma decisão de primeira instância (1a Vara Federal Criminal), ainda cabe recurso (salvo engano meu).

Atentados

Não se diferenciam significativamente as coberturas dos diferentes jornais sobre os três atentados de ontem no Quênia e em Israel. Algumas observações:

1) Faltou na Folha uma foto em plano aberto que desse uma idéia mais clara dos estragos causados no Hotel Paradise. A foto publicada pelo ‘Estado’, nesse sentido, é bem mais feliz e ilustrativa;

2) O textos principais da Folha (pág. A10) não deixam claro se, afinal, o avião israelense foi ou não alcançado pelos dois mísseis. O abre chega a afirmar que a aeronave não foi ‘danificada’ -o que não quer dizer que não tenha sido atingida. O fato de que ela não foi atingida só fica claro na subretranca ‘No avião’, da pág. seguinte;

3) O ‘Estado’ informa que os mísseis eram Strela, uma versão atualizada do SAM 7 russo. A Folha edita retranca que especula a respeito de quais poderiam ter sido os mísseis usados, mas não traz essa informação.

Consulta consultiva?

Faltou revisão do sobretítulo do abre da pág. A12, sobre referendo aprovado a respeito da permanência de Hugo Chávez da Presidência da Venezuela:

‘Governo rejeita consulta convocada por órgão eleitoral, com caráter consultivo, e a descreve como ‘golpezinho’.

Didatismo

O texto ‘Raelianos anunciam clones para dezembro’ (Ciência, pág. A13) não explica o que é essa seita, suas origens, seu nome, suas crenças etc.

Números

Diz a arte da página B1 (Dinheiro) que a tolerância para as metas de inflação é de 2%. Ela é, na verdade, de dois pontos percentuais, certo?

Sem vida

A Folha deu mal, creio, o noticiário sobre os transtornos causados na cidade ontem à tarde por causa das chuvas. Mesmo sem registro, conforme o texto, de ocorrências ou vítimas graves, a cidade, como se diz, ‘ficou toda parada’. Eu mesmo levei literalmente mais de duas horas para chegar em casa (zona oeste). Faltou mapa mostrando as localidades mais atingidas. Faltaram depoimentos de moradores, motoristas etc. E a Prefeitura? A quem ela atribui a responsabilidade pelo ocorrido? Não vi no jornal, também, a informação de que o rodízio foi suspenso. Ainda para dar um exemplo pessoal, agora sobre as chuvas de anteontem: a luz, na minha casa, só voltou por volta das 8h30 da manhã de ontem, bem depois, portanto, das 3h30, como registrado ao pé do abre de Cotidiano.

PMs

Diz o texto ‘Elo com tráfico leva 16 PMs à prisão’ (pág. C4, edição SP) que não foram divulgados os nomes dos policiais acusados. Mas a relação completa está no ‘Globo’...

Aviso

Estarei fora na próxima semana, para participar de seminário internacional no México sobre o exercício da função de ombudsman. A crítica interna volta a circular, por isso, no dia 9 de dezembro.

28/11/2002

À véspera das Festas, a notícia da alta taxa de juros anualizada de outubro (manchete na Folha, ‘Globo’ e ‘JB’), ao lado do surto da inflação, é mesmo a mais relevante do dia. Nesse terreno da economia, não deixa de ser curioso observar, porém, o contraste entre o cenário perigoso indicado pela chamada da Folha sobre alta de preços (‘Inflação é ‘generalizada e assustadora’, diz Fipe’) e o mais brando, apontado pela manchete do ‘Valor’: ‘Pressões inflacionárias diminuem em dezembro’.

Energia

1) Faz bem o jornal em tentar revelar o conteúdo daquilo que vem sendo apurado pela equipe de transição, como no caso de hoje, sobre o setor de energia elétrica. O título e o lide do abre (‘Governo Lula pode começar com risco de racionamento’), porém, parecem ir muito além da notícia e quase caem numa espécie de alarmismo. O relatório em questão aponta para ‘problemas de abastecimento no Norte e no Nordeste em um horizonte de 1,5 a 2 anos’. Portanto, não é bem no ‘começo’ do governo Lula. Além disso, conforme a subretranca ‘Programa de emergência tem obras atrasadas’, os riscos de racionamento ‘são reduzidos’: 6,1% de chances de faltar energia no NE em 2003, 0,7% no Sudeste, por exemplo;

2) Nessa sub, aliás, não fica claro o que significa dizer que ‘o PT tentará anular os contratos’ relativos à energia emergencial das termelétricas e ao seguro anti-racionamento (parágrafo 4o do texto). Essa delicada questão --’anular contratos’--, acredito, tem de estar sempre bem explicada.

Transição

1) O texto ‘Fiesp prevê 2003 de ‘sacrifícios’ (pág. A4) traz declarações sobre diversos assuntos dadas por Horácio Lafer Piva depois de encontro de uma hora com José Dirceu. Nada se informa, no entanto, sobre o conteúdo desse encontro --que seria, na verdade, o mais importante. Segundo o ‘Estado’, eles conversaram sobre passos concretos relativos ao ‘pacto social’. O que terá sido?

2) Reportagem no ‘Valor’ e coluna política no ‘Globo’ afirmam categoricamente que Antônio Palocci irá mesmo para o Ministério da Fazenda e que essa informação foi transmitida por Lula aos governadores do PSDB no encontro que tiveram segunda-feira em Araxá. A verificar;

3) Ao reportar as declarações do presidente da República em entrevista à RBS/’Zero Hora’, o texto ‘FHC estranha atuação do MST nas eleições’ (pág. A8) não registra a afirmação dele de que a divulgação do Dossiê Caribe/Cayman teria sido a ‘maior injustiça’ cometida contra ele nos oito anos de mandato. A respeito disso, aliás, registre-se reportagem do ‘JB’ informando sobre a prisão, no México, terça à noite, de Honor da Silva, empresário que seria o principal idealizador do Dossiê.

Sísifo

1) O side ‘Petista terá de reduzir colesterol’ (pág. A8) traz em detalhes os exames e a situação de saúde do presidente eleito. Não informa, porém, a idade dele;

2) Em nenhuma das retrancas sobre a Varig, na página B15, explica-se qual é a relação entre a empresa e a Fundação Rubem Berta, três vezes mencionada nos textos.

Oriente Médio

O abre ‘Número 2 de Arafat pede fim da Intifada’ (Mundo, pág. A13) afirma no décimo parágrafo que serão hoje as eleições primárias do Likud (partido de Ariel Sharon). No 11o, fala-se que elas serão amanhã. Não deu para entender, pelo texto, quando, afinal, elas serão.

Edição

1) Merecia bem mais destaque do que algo abaixo da dobra da pág. B2 a notícia da retomada da venda das ações do BB e a ampliação de seu prazo para 10 de dezembro. É notícia e serviço, diretamente, para boa parcela do leitorado;

2) A retranca ‘No ano, lucro de banco não pára de aumentar’ (pág. B4) está editada como se fosse notícia mas não é. Trata-se, na verdade, de uma pequena análise ou de uma ‘memória’;

3) Os fatos revelados na retranca ‘Dona-de-casa congela preço no RS’ (acordo entre uma associação delas e supermercados em Bagé) são daqueles que mereciam tratamento de side, com foto, mapa e um texto diferenciado. O modo como está (pág. B6) ‘mata’ burocraticamente a curiosa revelação.

Leão no Santos

Ao ler na retranca ‘Selecionável’ Oliveira vive 2o momento-chave’ (Esporte, pág. D1) que o técnico Emerson Leão é o ‘recordista de permanência (no Santos) em 20 vinte anos’, fiquei curioso para saber há quanto tempo ele está dirigindo aquela equipe. O texto, porém, não informa.

Aventura 1

O texto ‘Flu sobrevive à pressão no ABC e atinge as semifinais’ (pág. D3) conta como foi o jogo de ontem em São Caetano e termina dizendo: ‘Era o fim de mais uma aventura do São Caetano no Brasileiro’. Por que usar a palavra ‘aventura’, que tem uma conotação claramente negativa, no caso de uma equipe que pela terceira vez consecutiva chega perto das finais do campeonato?

Caso Pedrinho

Um registro para reportagem do ‘Globo’ sobre o fato de Vilma Martins (a suposta mãe adotiva de Pedrinho) responder a cinco processos, um deles por tentativa de homicídio. A imprensa não tem a função de demonizar pessoas, mas deve, certamente, registrar, como aqui, o que possa haver em relação a elas na Justiça.

Sem equilíbrio

A seção ‘Poucas e boas’ da Folha Equilíbrio, se bem entendo, visa revelar novidades na área de saúde, em especial tratamentos ou medicamentos. É inevitável, aí, que às vezes haja certa tonalidade de simples divulgação de um novo produto. Acho que o texto de hoje, porém, sobre o spa day Artemísia (pág. 4), ultrapassa a fronteira. Seu estilo, seu ‘entusiasmo’, têm forte coloração de release.

Mídia

Registro para reportagem de capa da ‘Gazeta Mercantil’ sobre a expansão internacional (inclusive América Latina) do grupo ‘New York Times’, publicada -coincidência-- justamente no dia em que se noticia, também, a aprovação da MP 70 (capital estrangeiro na mídia) pela Câmara.

Aventura 2

O especial ‘Aventura’ de Veículos expressa uma conjugação feliz, jornalisticamente, entre serviço, reportagem e o Comercial. Algo difícil de encontrar. Tem tom crítico em relação a veículos testados (os chamados 4x4), por exemplo, apesar do peso, simultâneo, da publicidade.

Uma observação: faltou uma retranca sobre os 4x4 usados. Vale a pena procurá-los? É um mercado no qual se pode confiar? Existe, aliás, esse mercado? Como serviço, seria algo importante para leitores que se sentem atraídos pelas ‘aventuras’ mas não têm poder aquisitivo para comprar 4x4 novos.

27/11/2002

O ‘puxão de orelhas’ dado por Lula ontem nos sindicalistas, manchete da Folha, faz interessante contraponto, na capa do jornal, com a foto da greve dos servidores franceses contra planos de privatização. Na cobertura sobre a transição, em especial quanto à equipe que está sendo montada pelo presidente eleito, a impressão é de que, hoje, o jornal está defasado em relação à concorrência (ver nota específica). Marca ponto positivo, no entanto, com a reportagem sobre a ida de Pedro Parente para o RBS.

Primeira Página

Apesar da manchete em quatro módulos, a capa de hoje me parece particularmente feliz, no conteúdo e no aspecto gráfico. Duas observações:

1) No quadro sobre os jogos do Brasileiro, faltou informar se haverá transmissão de TV;

2) Caberia referência na capa ao adiamento da definição, pela Petrobras, a respeito da construção de duas plataformas, tema candente da campanha eleitoral.

Transição

1) A Folha aborda a montagem do novo governo hoje com ênfase nas negociações entre partidos, mesmo quando, como com José Alencar (pág. A4), destaca um nome específico. Três casos de nomes concretos, porém, chamam a atenção na concorrência: a indicação tardia de Antoninho Marmo Trevisan (‘Estado’ hoje) para integrar a equipe de transição, a possível definição de Luciano Coutinho para presidir o BNDES (‘JB’ ontem) e a de frei Betto para coordenar a ‘mobilização’, na transição, em torno do projeto Fome Zero (‘Globo’ hoje);

2) Nas últimas linhas, o texto ‘PL entrega lista com 29 nomes para Dirceu’ (pág. A5) menciona explicação do presidente do PL segundo a qual a atuação de José Dirceu ‘...poderia causar constrangimentos em meio a esse exercício de ampliação da base de apoio do novo governo no Congresso’. De qual constrangimento se fala? Será a idéia, veiculada semana passada, de que o PFL pediu ao presidente petista que contivesse o aliciamento de parlamentares seus pelo PL? Faltou clareza;

3) Não vi na Folha notícia dada no ‘Estado’ de que o papa, ao falar a religiosos brasileiros, reprovou, mais uma vez, a invasão de terras.

MS

O noticiário tem informado que os Estados comprometem cerca de 13% de suas receitas com o pagamento de dívidas à União (o abre da pág. A6 reafirma o dado hoje). Na retranca ‘Salário será ‘pago’ com empréstimo no MS’ (mesma página), porém, registra-se que aquele Estado tem comprometimento de 15%. Se o índice está certo, é curioso que MS se comprometa mais do que outros.

Valeria explicar o motivo. A verificar.

Básico

1) A Panorâmica ‘Em 1o depoimento, Klinger diz que investigação é equívoco de laudo pericial’ (pág. A6) não informa quando ocorreu a licitação supostamente dirigida entre a prefeitura de Santo André e a Projeção Engenharia. Fica sem entendimento, assim, a informação, mais adiante no texto, de que Ronan Maria Pinto alegou em depoimento estar fora dessa empresa desde 1998;

2) O abre ‘Lula dá ‘puxão de orelha’ em sindicalistas’ (pág. B6) não informa em que local de São Paulo o encontro foi realizado (um hotel?), quais as presenças majoritárias (havia mais CUT ou mais Força?), quem custeou o evento, quem o organizou.

Partidos

1) Ponto para o ‘Globo’, que trouxe side à parte com declarações de Luma de Oliveira, a maior colaboradora individual (pessoa física) em dinheiro da campanha petista, surpresa mais digna de nota, até o momento, na cobertura sobre as verbas usadas por Lula e por Serra;

2) Em caso de confirmação da sentença de primeira instância, quem entraria no lugar do deputado federal eleito? A pergunta não é respondida na reportagem ‘Eleito pelo Prona perde registro em SP’ (pág. A7).

Parente

Como afirmei na abertura, a reportagem ‘Comissão investiga ida de Parente para RBS’ (Brasil, pág. A8) é um dos pontos altos do jornal hoje. Duas observações pontuais:

1) afirma o segundo parágrafo que a medida provisória 70 (capital externo e controle acionário na mídia) foi aprovada no dia 2 de outubro. A rigor, naquele dia ela foi editada (por FHC), mas ela ainda não foi aprovada no Congresso (a votação, aliás, poderia ocorrer hoje);

2) é ‘head hunter’, e não ‘hed hunter’, como aparece no texto duas vezes, o termo referente à empresa de colocação de executivos, certo?

Aids e números

O texto ‘Órgão cita Brasil como modelo de prevenção’ (Mundo, pág. A9) afirma que 0,5% da população brasileira está infectada pelo HIV. Em números absolutos, diz o texto, seriam 597 mil pessoas. A dúvida: fazendo as contas, esse número é 0,5% de 120 milhões. Considerando uma população atual em torno de 170 milhões, a porcentagem seria, na verdade, 0,35%. Com que dados trabalha a ONU? A verificar.

Varig

A coluna Luís Nassif de ontem trouxe vários dados e informações sobre a ‘marcha da insensatez’ em vigor na Varig. Ela aponta, creio, para a necessidade de um aprofundamento investigativo, jornalístico, para tentar explicar ao leitor as causas dos atuais impasses nessa tradicional e simbolicamente importante empresa. O noticiário hoje (pág. B7) dá conta do factual e de um histórico recente resumido. Cabe, porém, ir bem mais fundo.

Educação

Merecia bem mais destaque, a meu ver, a notícia de que todas as escolas da rede estadual de SP terão de incluir aulas de filosofia, sociologia ou psicologia em seus currículos no ensino médio no ano que vem. Está num pirulito da pág. C6 (‘Currículo deve mudar em 2003’).

Acabamento

Meio esquisito o título ‘Juventude e Grêmio reeditam o duelo mais igual dos mata-matas’ (Esporte, pág. D3). O sentido é mostrar que essas equipes são equilibradas entre si, conforme se entende no texto. Mas é possível alguma coisa ser ‘mais igual’ ou ‘menos igual’ do que uma outra?

Sísifo

1) faltaram as idades do casal na sub ‘Lula e Marisa fazem exames de rotina em SP’ (Brasil, pág. A4);

2) O texto ‘PIB dos EUA cresce mais que o previsto; confiança sobe’ (Dinheiro, pág. B12) fala em ‘demanda agregada’. O que vem a ser isso? Não há explicação;

3) Faltaram as idades do atacante corintiano no perfil ‘Sensação, Deivid esteve em todos os jogos do time’ e do veterano treinador em ‘Zagallo faz tratamento cardíaco no Rio’, ambos na pág. D1 (Esporte)."

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