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Bernardo Ajzenberg

"Crítica Interna", copyright Folha Online (www.folha.com.br)

05/08/2002

Como na semana passada, a crise econômica e a sucessão presidencial ocuparam o centro do noticiário nesse fim de semana. De um lado, a visita do secretário do Tesouro do EUA e as expectativas em torno das negociações em curso para um novo acerto com o FMI. Do outro, a preparação e a realização do primeiro debate entre os candidatos ao Planalto, em meio a rumores de que Garotinho (acidentado) não compareceria e de que o vice de Ciro, Paulinho, renunciaria (veja nota específica). Em assunto diferente, registro positivo para reportagem da Folha (ontem com suíte hoje) sobre suposta intermediação de contratos da Federação Paulista de Futebol envolvendo seu presidente, o cartola Eduardo josé Farah, naquilo que seria um esquema de desvio de dinheiro.

O debate

Decepcionei-me, francamente, com a cobertura anêmica que a Folha traz hoje do debate de ontem entre os candidatos na Bandeirantes. Em que pese a questão do horário e do pouco tempo para fechar a edição, se essa cobertura fosse um teste, seria necessário avaliar que a Folha foi bastante mal. De certa forma, mais do que cobrir de fato o evento, em textos e imagens, a Folha ocupou-se, majoritariamente, com reproduzir (de modo parcial) aquilo que se viu na tela da TV:

1) A começar pela chamada na Primeira (‘Ciro e Serra trocam acusações na TV’), o material publicado pela Folha simplesmente apaga mais da metade do que ocorreu efetivamente no debate -isso, para ficar no que se pôde ver na telinha. Uma coisa é a necessidade até mesmo técnica de optar por um lide e seu respectivo título, destacando algo que se julga o mais importante. E aí pode haver divergências. OK. Outra coisa é, a partir daí, ocultar inúmeros outros elementos relevantes do evento. O choque Serra-Ciro só aconteceu no quinto (penúltimo) bloco do debate. Antes disso, Garotinho, goste-se ou não, deu um ‘show’ de ‘provocações’ que literalmente tiraram o tucano do sério. Serra perdeu-se em dois blocos batendo boca com o ex-governador do Rio, quando seu alvo (como mostrou reportagem ontem na própria Folha) deveria ser Ciro. Registrar que Garotinho atuou como franco-atirador é certo e necessário, mas, creio, insuficiente. Sua atuação acabou fazendo revelar-se, no mínimo, um evidente despreparo do tucano em relação ao debate, o que não é coisa menor;

2) Em coluna hoje na Folha Online, Márcio Aith chama a atenção para o fato de que, antes do bate-boca Ciro-Serra, o tucano conseguiu arrancar de Lula uma espécie de anuência pública para novo acordo com o FMI. A Folha nem sequer registra o fato;

3) A Folha não traz nenhuma foto que não seja de imagens que já estavam na TV. E a platéia? E os ‘torcedores organizados’ do lado de fora, inclusive aquele apoiador de Serra que foi ferido em confronto com apoiadores de Ciro? Basta uma olhadela no ‘Estado’ e no ‘Globo’ para ver como fizeram falta, na Folha, fotos do que aconteceu por trás das câmeras (aliás, a cobertura de um jornal deve servir justamente para acrescentar coisas, mostrar o que a TV não mostra, certo?);

4) As notinhas de ‘Bastidores’ são válidas, como se diz, mas nem é preciso ter estado lá para saber que são poucas, bem longe da narração daquilo que, em fauna e flora, frequentou a platéia. Como se comportou esta nos intervalos? Quem comandava as bancadas de assessores de cada candidato?

5) Não vi na Folha a informação, significativa, de que foi José Dirceu quem insistiu para que fosse concedido a Ciro direito de resposta contra Serra (a verificar);

6) Por que os famosos ‘dossiês’ ou as questões de ordem mais pessoal, alardeados durante meses, não foram levantadas? Pura questão de civilidade? Não caberia uma explicação ao leitor?

7) O texto principal e a coluna ‘No Ar’ informam que o governo FHC foi duramente criticado. OK. Pergunto: por que o jornal não teve agilidade suficiente para apresentar ao menos uma análise política inicial a respeito do ocorrido? O governo FHC (grande personagem oculto do programa), ali, foi claramente ‘esmagado’... Ou não?

8) Por que não há um único side sobre o clima, sobre a lotação da platéia, que tipo de roupas se usava, algo que escapasse do óbvio e que a Folha tem tradição de produzir mesmo nas condições mais difíceis?

9) Vale ressaltar o fato de que ‘O Globo’ deu manchete e três páginas internas para o debate, promovido por uma emissora, afinal, concorrente. A Folha nem sequer menciona perguntas feitas por jornalistas. O nome da mediadora, Márcia Peltier, não aparece nem ao menos na legenda da foto em que ela está;

10) Um detalhe: No terceiro parágrafo do texto ‘Equipe tucana avalia que pôs 'guizo no gato'‘, escreve-se que ‘...Ciro costumaria faltar com a vontade...’. É faltar com a verdade, certo?

Militares

Faltou o outro lado do governo federal (responsável pela liberação de verbas) na reportagem ‘Militares fazem 'bicos' para sobreviver’ (Brasil, pág. A10).

Alarmismo

O caráter de serviço ao leitor investidor é positivo, mas adquire um tom alarmista a arte ‘Veja o risco das aplicações financeiras’ (Dinheiro, pág. B3) ao dividir os tipos de investimento em categorias como ‘Correm risco de confisco’, ‘Correm risco parcial de confisco’ e ‘Não correm risco de confisco’. Principalmente porque, como diz o lide da respectiva reportagem, ‘a maioria dos consultores especializados em finanças pessoais acha que o Brasil está longe de chegar a essa situação (confisco)’.

Números

1) A seção ‘Brasas’ (pág. 4 do Folhateen) informa que a revista ‘The Face’ custa R$ 6.732,05. É isso mesmo?

2) O texto ‘Família é 'tudo'‘ (pág. 8 do Folhateen) afirma que 95% dos adolescentes entrevistados consideram a família a instituição mais importante. No quadro, o número que aparece é 85%. Qual é a porcentagem correta?

3) O texto ‘Eleitor liga Lula a emprego e Serra à Saúde’ (pág. A22 de domingo) afirma que 16% dos que dizem votar em Ciro alegam, para tanto, a experiência de governo do candidato. Na respectiva arte, porém, o que aparece nesse item é 20%. Qual é o certo?

Desarticulação

Mundo traz (domingo) duas páginas (A28 e A29) com interessante material sobre ONGs (‘Cidadão do mundo’), inclusive com dicas de alguns sites. Senti falta, porém, de uma remissão para a Folha Online, que ainda guarda, com possibilidade de acesso, a edição da última quarta-feira da Folha Informática que traz uma seleção bem mais ampla, de 110 sites relacionados exatamente ao mesmo assunto (‘Ciberativismo’).

Sísifo

1) Termos como ‘emissão de papéis’, ‘cupom de juros’ ou ‘hedge natural’ não são explicados na página encabeçada pela reportagem ‘BNDES avisou governo sobre crise do dólar’ (Dinheiro, pág. B4, domingo). Trata-se de uma pauta bem-elaborada e pertinente, mas cuja compreensão pelo leitor médio fica prejudicada por causa da ausência de mais didatismo;

2) Faltaram as idades de Quentin Skinner (reportagem/artigo de capa do Mais!) e de Marcelo Carvalho (entrevistado, com pingue-pongue, na pág. 13 do TV Folha).

Campinas

Uma leitora da Folha Campinas afirma que a imagem de satélite publicada na pág. C1 de domingo (Folha Campinas) traz em destaque área vizinha ao aeroporto de Viracopos indicando ser esta a área de ocupação do Parque Oziel (objeto da reportagem), o que não corresponde, segundo ela, à realidade. A verificar.

31/07/2002

Difícil imaginar outra opção a essa altura, mas não há como negar a sensação de algo ‘amanhecido’, não inédito, na manchete de hoje, sobre os resultados da pesquisa Datafolha. Com sua credibilidade, o instituto ratifica a tendência já apontada por pesquisas de outros institutos. Jornalisticamente, porém, o que mais chama a atenção, além da continuidade da subida do dólar, é a pesquisa Ibope, segundo a qual Ciro parou de crescer. De novo a Folha subestima, na capa, o jogo de hoje da final da Libertadores. Mais do que Guga (no caso da edição SP), a apresentação desse evento merecia uma imagem.

Sucessão

1) Ninguém em sã consciência esperaria que Lula saísse ovacionado do encontro na Fiesp, mas o texto da retranca ‘Platéia sai de palestra insatisfeita’ (pág. A4) não sustenta esse título tão incisivo. Foram ouvidos, ali, apenas três empresários (o quarto, Lafer Piva, anfitrião, dá declaração neutra), e nem são dos mais conhecidos. Como calcar nisso a avaliação estampada no título? E os outros mais de 400 presentes? Ao lado do título de outra retranca, ‘Empresariado contesta fala de candidato’, e do side que mostra a ausência de Mário Amato, a retranca transmite a impressão de o jornal forçou a barra para traçar um quadro negativo da visita de Lula à Fiesp. Este quadro pode até ter ocorrido (e seria previsível), mas tal avaliação não consegue ser efetivamente sustentada pela cobertura;

2) A reportagem sobre o tour de Guido Mantega em Londres (pág. A5) relata que o assessor econômico de Lula está ali mantendo contato com investidores e autoridades do banco central local. Não daria para ser mais preciso? Quais investidores, por exemplo? Que nível de autoridades?

3) A Folha deve a seus leitores informações mais consistentes a respeito do engajamento do PFL na candidatura Ciro. Ainda não está claro, no jornal, o conteúdo das conversações de anteontem entre o presidenciável e ACM. O ‘Estado’ traz hoje declaração de Bornhausen de que a maioria de seu partido está com Ciro. No ‘Globo’, registra-se que César Maia liberou parte do PFL para ir na mesma direção. Tudo isso no momento em que se discute o afastamento de Martinez (PTB) da coordenação da campanha da Frente Trabalhista, em que Tasso Jereissati visita FHC e em que Ciro dá entrevista exclusiva ao ‘Globo’ com claros recados ao presidente da República. Algo parece estar acontecendo nesse terreno, e não vejo que a Folha esteja dando conta dessa movimentação política em torno (e dentro) da campanha de Ciro;

4) Ainda sobre Ciro, nada contra a reportagem em si, mas me pareceu exagerado o destaque (abre de página ímpar) concedido à declaração do deputado Herrmann Neto (‘Líder de Ciro vê risco de 'alfonsinização'‘, pág. A7). Não entendo que o vice-presidente do PPS esteja com essa bola toda.

Pesquisa

1) Creio que, para ajudar o leitor a visualizar melhor os dados, os quatro quadrinhos que, dispostos verticalmente, destacam mudanças expressivas em relação a cada candidato (pág. A8) deveriam conter não apenas as curvas mas também os números cuja evolução elas representam;

2) Na retranca sobre avaliação do governo FHC (pág. A9), fala-se em dados de janeiro, quando, na verdade, não houve pesquisa naquele mês, mas apenas em dezembro de 2001 e a partir de fevereiro deste ano. O texto também se refere ‘ao levantamento anterior’ como sendo o publicado em 9 de junho, quando houve outro, mais recente, ainda em julho. O resultado é o mesmo, mas trata-se, aqui, apenas de um questão de precisão.

Desafio

Além de revelarem elevado grau de autoconfiança e alto teor de prepotência, as declarações de Nelson Biondi (‘Em jantar, PIB dá poio a Serra, mas pede mudanças’, pág. A10) constituem uma provocação e um desafio para a imprensa. Para acalmar seus pares, o marqueteiro disse a serristas que a campanha não tem hoje o ‘controle da comunicação’ e que a imagem do candidato (Serra) que aparece é a que a mídia transmite; que, quando a propaganda na TV começar, ‘vamos ter o controle novamente’, como tiveram, segundo ele, em março, com o horário do partido na TV. Em suma: a propaganda eleitoral se constrói em oposição à mídia, numa disputa com ela pelo ‘controle da comunicação’. Eis uma visão cristalina. E ele, no fundo, está certo. Resta ver se os jornais (a Folha, em especial) têm ânimo, competência, fôlego e instrumentos para comprar essa briga e continuar apresentando, em defesa dos interesses dos leitores, aquilo que ela (a imprensa) considera ser a verdadeira imagem dos candidatos.

Caso Santo André

Segundo o ‘Globo’, a CPI que apura o suposto esquema de propina na administração petista vai apurar também suposto esquema de lavagem de dinheiro por parte dos empresários responsáveis pelo esquema. Segundo o ‘Estado’, o juiz Porto Alves determinou envio das fitas gravadas (grampos) pela PF, no caso, para que integrem o processo em curso na Justiça. A Folha, hoje, não traz nada sobre o assunto.

E o bolso do leitor?

Pelo menos uma das cabeças de página de Dinheiro hoje merecia ter sido ocupada pelas notícias trazidas em três retrancas menores da pág. B5 sobre aumentos de preços de produtos ligados diretamente ao consumidor (embalagens, pão etc) e índice recorde do IGP-M. Seria uma forma de dar um pouco mais de atenção, também, para o chamado ‘micro’.

BC falando

A retranca ‘BC não comenta câmbio, afirma diretor’ (pág. B3) não bate com ‘BC muda estratégia e vai vender mais dólares’ (mesma página), na qual o mesmo diretor (Luiz Fernando Figueiredo) comenta, e bastante, a situação do mercado de câmbio.

Reservas

O material da capa de Dinheiro e texto na pág. B3 explicam claramente a diferença entre reservas brutas e reservas líquidas do Brasil. Ponto para o jornal. Dois textos da pág. B6, no entanto, mencionam o valor das reservas líquidas (US$ 27 bi) como sendo das reservas como um todo. Faltou, nestes dois últimos casos, precisão.

USP

Por falar em precisão, a retranca ‘Congregação diz que proposta é 'aceitável'‘ (Cotidiano, pág. C4), sobre a USP, não diz nem sequer a que proposta (números, dados) se refere.

Por quem?

Afirma o texto ‘Babá é flagrada espancando três crianças’ (pág. C5) que gravação com imagens do crime ‘foi exibida nacionalmente’. Exibida por quem? Quando?

Sísifo

Faltaram as idades do tenista brasileiro em ‘Cansaço faz Guga cair na estréia no Canadá’ (Esporte, pág. D5) e do pesquisador norte-americano entrevistado em ‘Universidade vai estudar impacto social da internet’ (Informática, pág. F4).

Aviso

Em razão de minha participação, como palestrante, em seminário sobre jornalismo na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, não haverá crítica interna amanhã e sexta-feira.

30/07/2002

Era uma questão de tempo, e aconteceu: uma nova missão brasileira vai a Washington tentar alinhavar mais um acerto com o FMI. Ao lado de mais uma disparada do dólar, é esse o assunto das manchetes hoje. A Folha é o único dos principais jornais a pôr no título da manchete uma porcentagem (5,5%) que, a rigor, pouco significa, em si, para o leitor médio. Na política, afora os movimentos de campanha, todos os jornais destacam em suas capas o acatamento, pela justiça, de denúncia contra os envolvidos no caso Santo André.

Sucessão

1) Nota no Painel (‘Esforço em dobro’) registra que Rita Camata terá uma agenda própria de campanha. Vale acrescentar que, segundo reportagem do ‘JB’, Ruth Cardoso deverá se integrar nessa agenda. A verificar;

2) O texto ‘Lula não obtém apoio de grandes do PIB’ (pág. A6) faz bem, a meu ver, em mostrar que o leque de apoio a Lula entre empresários, apesar de todo o esforço petista nessa direção, não se expandiu significativamente, ao menos até agora. Há, no entanto, uma referência nitidamente desrespeitosa a Lawrence Pih que destoa. É quando, ao falar de sua empresa (Moinho Paulista), se escreve: ‘...que diz ser a maior fabricante de farinha de trigo do país’. É ou não a maior? Por que a ironia?

3) O leitor da Folha sai da leitura do jornal com informações parciais, hoje, a respeito do encontro entre Ciro e ACM. O side ‘Amigos para sempre’ (pág. A8) reúne várias declarações genéricas, mas não mostra dados palpáveis que teriam sido acertados entre os dois políticos. O que foi acertado de concreto? O texto do ‘Estado’ sobre o evento traz elementos ‘contábeis’, números, de como se dará o apoio do ex-senador ao presidenciável e de como, em tese, o PFL, segundo ACM, se comportaria;

4) Acabamento: nesse mesmo side, o crédito do texto foi trocado por um crédito de material iconográfico;

5) O abre ‘Coordenador da campanha de Ciro se contradiz em nota’ (mesma página) atribui à nota de José Carlos Martinez a informação de que o empréstimo feito por ele junto a PC Farias teria sido para comprar a TV Corcovado. Já a retranca ‘Empréstimo consta no IR, diz deputado’ assume como verídica essa informação, no terceiro parágrafo, ao dizer que ‘no início da década de 90, Martinez fez um empréstimo com PC Farias para comprar a TC Corcovado...’. Melhor teria sido manter a condicional, na boca do coordenador;

6) Sobre este caso, um registro positivo para a reprodução, pelo ‘Globo’, do fac símile de uma das declarações de IR do deputado do PTB.

Caso Santo André

Dada a relevância do caso, a Folha fez bem em subir a chamada, na Primeira, de um pirulito abaixo da dobra (edição nacional) para um título de três linhas acima da dobra na edição SP/DF. Algumas observações:

1) Uma questão fica obscura no noticiário sobre o assunto , não só na Folha: de que modo a denúncia dos promotores e a decisão do juiz de acatá-la abrigam (ou não) formalmente o envolvimento do PT (leia-se José Dirceu) no suposto esquema de propina? Como esse suposto envolvimento aparece? O texto da reportagem principal (‘Juiz aceita denúncia contra petista no caso Santo André’, pág. A4) informa que, de acordo com testemunhas ouvidas pelos promotores, parte do dinheiro ia para campanhas do partido. OK. Mas qual é o peso jurídico disso? Por que Gilberto Carvalho ou Dirceu não aparecem como réus? Acho que o jornal deveria ir mais fundo, no sentido de deixar clara a diferença que existe (ou não) no andamento formal da ação entre uma coisa (sistema de extorsão) e o destino do dinheiro (campanha política);

2) Na arte que resume o caso (mesma página), não há explicação sobre quem é João Francisco Daniel. Seu nome aparece solto. Quem estiver entrando no assunto hoje terá muita dificuldade para visualizar seu papel na história;

3) Um detalhe: a redação do final do sétimo parágrafo do abre ficou confusa, parecendo que os advogados dos acusados defendem a imparcialidade dos acusadores, quando, como se sabe, eles os consideram, ao contrário, parciais;

4) Aliás, não vejo motivo para que o (não) pronunciamento dos advogados seja um abre de página (A5), cujo título (‘Acusados só falarão depois de saber do teor da decisão’) é, por si só, uma não-notícia. A retranca que vem embaixo, sobre suspensão de licitação suspeita em Ribeirão Preto, merecia, a meu ver, mais destaque.

Acabamento

1) Na entrevista ‘Comunidade Portuguesa firma acordos’ (Mundo, pág. A10), não se informa qual é a nacionalidade da secretária-executiva da CPLP, Dulce Maria Pereira;

2) O título ‘EUA cancelam turnê de orquestra israelense’ (pág. A10) parece-me equivocado. Fica claro, pelo texto, que a turnê foi suspensa porque nenhuma empresa, nos EUA, aceitou assumir a segurança dos músicos. O diretor da orquestra, ao dizer ‘não fomos nós que cancelamos a turnê. Eles (os EUA) cancelaram nossa ida’, usou uma forma figurada de dizer que não se conseguiu a segurança. Mas não houve, a rigor, nenhum cancelamento por parte dos EUA. A decisão, parece-me claro no texto, foi da orquestra;

3) Faltou a idade do protagonista do texto ‘Deputado do Partido Conservador assume sua homossexualidade’ (pág. A11).

Em transe

O jornal não tem conseguido deixar claro para o leitor o que são, afinal, as tais reservas internacionais líquidas do país. Diz-se que são as que não incluem os recursos emprestados pelo FMI (texto á pág. B3). Mas de quanto são hoje esses recursos? Por que no quadro fixo da pág. B2 aparece valor de US$ 42 bi para as reservas e estas, na sua forma ‘líquida’, caem para algo em torno de US$ 27 bi? Qual a origem da diferença? Falta didatismo.

Ano?

O superávit de US$ 1,052 bi até agora em julho só não superou o de janeiro de 97, diz o texto ‘Balança já tem superávit de US$ 1 bi’ (pág. B4). Mesmo assim, há dúvidas sobre este (de 97), pois na ocasião havia imprecisões no resultado. Isso posto, entendo, então, que o atual resultado deve ser o melhor (mensal) da era FHC, não apenas o melhor ‘do ano’, como está na reportagem. Essa é, ao menos, a lógica do texto. A verificar.

Quilo a US$ 100?

O texto ‘Reunião vai discutir algodão transgênico’ (Agrofolha, pág. B12) afirma que, ‘traduzindo em números’, a redução de 1 milhão de quilos no uso de inseticidas (nos EUA) para a produção algodoeira implica economia de US$ 100 milhões anualmente. Quer dizer que o quilo de inseticida custa US$ 100? Sou leigo no assunto, mas esse valor me pareceu excessivo. A verificar.

Obra na Eusébio

Quem vai fazer a obra de reconstituição de parte da ponte Eusébio Matoso? Haverá licitação? Já foi escolhida a empresa? Como será a escolha?

Leandro

Segundo um leitor, está equivocada a retranca ‘São Paulo fecha com Leandro para o Nacional’ (Esporte, pág. D2) ao dizer que o jogador ‘se destacou no último Torneio Rio-São Paulo, mas enfrentou na Lusa problemas como salários atrasados e queria deixar a equipe do Canindé’. Segundo o leitor, Leandro estava na Itália e foi cedido ao Grêmio, se machucou e não jogou neste ano, nem sequer no Rio-São Paulo, não tendo, inclusive, contrato com a Lusa. A verificar.

Alvorada

Diferentemente do que diz a nota ‘Chiclete 2’ (coluna Mônica Bergamo), FHC deu entrevista ao lado de Serra domingo nos jardins do Alvorada, não do Planalto, certo?

Esclarecimento

A seguir, esclarecimento do editor de Ciência, Marcelo Leite, via SR, sobre a nota ‘Plutão’, da crítica interna de ontem:

‘O ombudsman tem razão ao apontar deficiência na curta nota de Panorâmica (14 linhas) sobre financiamento de missão a Plutão, apoiado pelo Congresso dos EUA, mas não pela Nasa. Seria preciso ter explicado que a agência espacial considera a missão ineficiente e que o Congresso adota o ponto de vista de cientistas de outras instituições, segundo os quais é preciso aproveitar a oportunidade de observar até 2020 a atmosfera do planeta, o que só será possível de novo em dois séculos.’

29/07/2002

Sucessão e eventual novo acerto com o FMI foram os temas que se destacaram no fim de semana. Na campanha eleitoral, como se vê nas capas dos jornais de hoje, FHC inaugura abertamente seu engajamento na tentativa de reerguer a candidatura Serra. Todos deram no alto a imagem dos dois no jardim do Alvorada, com duas diferenças: a) o ‘Estado’ cortou da foto Rita e Ruth, das quais restaram apenas sombras no gramado; e b) a Folha trouxe, também, fotos de Lula e de Ciro em campanha. Destaque para a reportagem de ‘Época’ sobre acusações de irregularidades do vice de Ciro, Paulinho, ‘suitada’ pelos jornais.

Edição de segunda-feira, 29 de julho

Primeira página

O papa atraiu ontem cerca de 800 mil pessoas numa missa campal em Toronto e, pela primeira vez em público, segundo a reportagem, comentou a delicadíssima questão dos padres pedófilos. A Folha não deu nem sequer um registro na capa. Creio que houve, aí, uma avaliação inadequada a respeito da importância da notícia.

Sucessão

1) Sinceramente, não creio que adicione pontos ao histórico da Folha prestar-se como trampolim para campanhas eleitorais em seu espaço mais nobre. A coluna vertical (pág. A2), hoje, é um boletim pró-Serra, incondizente, inclusive, a meu ver, com o reconhecido brilho intelectual do autor;

2) Lula visitou ontem uma favela em São Bernardo do Campo. Segundo relatos do ‘Globo’ e do ‘Estado’, ele chorou ao dialogar com um dos moradores, desempregado. A Folha não traz essa informação. Se o relato é verdadeiro, creio que o jornal errou. A divulgação do choro pode ou não ser benéfica para Lula. Independentemente disso, terá sido a quarta vez que o petista chora na campanha, como registra o ‘Globo’. É um dado importante, para não dizer um dos marcos simbólicos da atual disputa sucessória, a quarta de Lula; 3) O texto ‘Para ajudar tucano, FHC fará autocrítica na TV’ (pág. A7) afirma haver pesquisas que mostram Serra com menos de 14% e Ciro em empate técnico com Lula. Posso estar enganado, mas, mesmo considerando margens de erro, não vi nenhuma pesquisa que registrasse esse empate técnico. No último Ibope a diferença entre os dois era de 7 pontos. No Vox Populi, 8.

Plutão

Conta uma Panorâmica em Ciência (pág. A12) que o Senado dos EUA incluiu verba milionária no orçamento da Nasa para que esta mantenha uma missão que planeja enviar uma sonda para Plutão em 2006. Isso, estranhamente, contra a posição da própria agência espacial, que quer acabar com a missão. Não consegui entender, pelo texto, essa aparente contradição.

Bolsas

1) O texto de abre de Dinheiro (‘Banco especula e lucra com aluguel de ações na Bolsa’) afirma que as pessoas físicas representam hoje 18% do volume de negócios da Bovespa. A ‘pizza’ da respectiva arte, porém, registra 19,9% para essa mesma parcela de investidores. Qual é o percentual correto?

2) Na continuidade desse material (Dinheiro, pág. B7), uma arte mostra que a mesma Bolsa teve volume médio diário negociado de US$ 203,1 mi no primeiro semestre deste ano e que o total negociado em ações no mesmo período foi US$ 237,4 mi. Não consegui entender.

Pontes

O jornal publica na pág. C6 balanço de quais pontes das marginais Tietê e Pinheiros têm placas sinalizando as respectivas alturas. Na tabela ‘Confira a situação das pontes das marginais’, porém, algumas aparecem com um traço no lugar em que deveria estar algum número referente à altura. Somente à leitura do texto se entende que o traço quer dizer justamente que não há placa. Faltou, creio, capricho na legenda da arte.

Loira?

O texto ‘Não tenho nada a ver com Britney’ (pág. 3 do Folhateen) informa que a jovem cantora norte-americana Avril Lavigne, de 17 anos, é ‘linda e loira’. Pela foto, na mesma página, vê-se que linda pode ser, mas loira, não. Os cabelos são de um nítido castanho-escuro.

Edição de domingo, 28 de julho

Primeira Página

Chama a atenção que não se tenha feito, neste caso, uma capa diferenciada, digamos, mais própria de uma edição dominical. O desenho dela é o de uma página comum de meio de semana.

Pró-Serra

Não há como escapar de uma constatação: trata-se de uma edição, objetiva e claramente, favorável ao candidato tucano. Sem nenhum demérito para as reportagens vistas isoladamente, é forçosos constatar que sua maioria ‘ataca’ os três adversários da Grande Aliança, sem nenhuma, em contrapeso, que ‘ataque’ seu candidato (salvo side sobre desencontro operacional entre Alckmin e Serra). As três chamadas de capa são sobre elas. A coluna Élio Gaspari se chama ‘Os programas de Lula e Ciro têm muita gordura’. Faltou equilíbrio político ao conjunto da edição sobre sucessão.

Segurança

Senti falta da palavra do governador Geraldo Alckmin na bela reportagem da capa de Cotidiano (‘Sem apoio da lei, PM recruta presos para operações de combate ao PCC’). O ex e o atual secretários da Segurança estão presentes (pág. C5), mas a gravidade das revelações trazidas pela Folha exigiam, a meu ver, declarações, também, do governador.

Edição de sábado, 27 de julho

USP

Noticia-se, em ‘Reitor se reúne com alunos pela primeira vez’ (Cotidiano, pág. C6), que, segundo os estudantes da FFLCH (que pedem contratação de 259 professores), houve um recuo da reitoria, a qual, depois de propor contratação de 91 professores, baixou para 79, e ‘falou-se até na contratação de 26’. Até aí, OK. Não dá para entender, porém, a conclusão que vem logo em seguida: ‘A expectativa, agora, é que haja conciliação’. Diante do recuo da reitoria, qual é a lógica que sustenta essa expectativa? Parece uma contradição. Não deu para entender.

São José, 235

Duas observações sobre fotos no caderno da Folha Vale que comemora o aniversário de São José dos Campos: a) a foto gigante da pág. Especial 7 (estudantes fazendo prova de vestibular no ITA), com uma cadeira vazia como ‘personagem’ central, é de qualidade bastante duvidosa para a Folha, ainda mais editada nessas dimensões; e b) a reportagem da página Especial 8 propõe-se a mostrar, como diz o título, que ‘Industrial, São José mantém qualidade do ar’. O que a respectiva foto exibe, porém, é uma ‘bruta’ poluição. Não deu para entender."

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