8/8

Envie para um amigo  Procure no arquivo

FOLHA DE S. PAULO
Bernardo Ajzenberg

"Crítica Interna", copyright Folha Online (www.folha.com.br/ombudsman)

"03/01/2003

A tonalidade e a retórica ‘mais petista’ do discurso de posse de José Dirceu na Casa Civil merecem mesmo atenção, como expressa a Folha ao levá-lo à manchete do jornal (‘Dirceu defende revolução social para país se afirmar’). Os outros jornais optaram pela área econômica, na linha de reforçar o discurso petista (no caso, o de Palocci Filho na Fazenda) em outra direção: a da estabilidade etc.

Discurso

1) Ao reportar o discurso de improviso do novo chefe da Casa Civil, o texto que abre a página A7 (‘Dirceu defende ‘revolução social’ que distribua renda’) não registra a frase em que ele se refere ao PT (está na íntegra do texto, na mesma página): ‘Nós, um partido de esquerda socialista, e é sempre bom lembrar isso...’. Essa frase vai na mesma linha ‘mais petista’ e tem todo o jeito, também, de um discurso para o ‘público interno’ do partido;

2) Senti falta de repercussão (junto a empresários, por exemplo) do discurso de Dirceu, no qual o jornal, de modo correto, decidiu investir tanto editorialmente.

Agenda

O que o ator Marcos Frota foi falar com Lula? Por que, num dia agendado para receber representantes de outros países, a agenda do presidente incluiu 15 minutos com ele, como está na página A6? Cabe esclarecer. Sobre a arte ‘O primeiro dia’, na mesma página, um detalhe de acabamento: no horário das 13h, o relógio está marcando meio-dia. O mesmo ‘atraso’ está no caso do compromisso das 13h45.

Observações

1) Boa a idéia de uma faixa preta com remissões sob o lidão que abre a página A4. Orienta o leitor. Faltaram, porém, os casos de Ciência e Tecnologia (na A14) e do Esporte (na D3);

2) O abre da página A8 (‘Ciro suspende pagamentos da Integração’) registra que essa decisão foi tomada por intermédio da portaria 02/2002. Não seria 02/2003? A verificar;

3) É José Abrão (com apenas um ‘a’), e não Abraão, o nome do ex-ministro do Desenvolvimento Agrário. A grafia incorreta está em sub-retranca da pág. A8 e no lidão da página A4;

4) O mesmo texto da pág. A8 menciona, no segundo parágrafo, a medida provisória que exclui da reforma agrária as famílias que ‘ocuparem’ terras. O mais adequado, aqui, teria sido usar ‘invadirem’ terras, como o jornal costuma fazer;

5) Há um pastel no título da sub ‘‘Não há espaço leviandades’, afirma Miro’ (pág. A9). Faltou o ‘para’, certo? O mesmo texto também fala em ‘concessão concedida...’. Cabia mais cuidado na sua finalização;

6) No segundo parágrafo da retranca ‘Viegas reafirma Forças Armadas no Fome Zero’ (pág. A9), aparece o nome Dulci, inclusive com uma frase entre aspas a ele atribuída. Esse nome, porém, aparentemente, não tem nada a ver com essa retranca. A verificar;

7) Salvo engano, é Eduardo Guardia e não Antonio Guardia o nome do novo secretário da Fazenda paulista (‘Alckmin prega ‘rebeldia’ a secretários’ (pág. A10);

8) Roberto Costa de Abreu Sodré deveria ser chamado de ex-governador e não de governador, como está em ‘FHC chega à França e viaja para o interior’ (pág. A10). Ele não morreu (em 1999) no exercício da função, certo?

Perfil

Chama a atenção o fato de que o futuro titular da Secretaria do Direito Econômico (ligada ao Ministério da Justiça), Daniel Goldemberg, tenha apenas 27 anos de idade, como está em pequena nota na pág. B3 (Dinheiro). Não valeria a pena um perfil?

Sob, sobre

Arte na capa de Cotidiano tem como título ‘Entenda a contribuição sob a iluminação’. Não deveria ser ‘...sobre a iluminação’?

Fuvest

O jornal registra ao pé de uma retranca sobre o vestibular da Unicamp, na página C3, a lembrança de que neste domingo começa a segunda fase da Fuvest. Parece-me pouco destaque, a dois dias do exame, para uma prova dessa envergadura, ainda mais numa semana sem o suplemento Fovest.

Surra

A Panorâmica ‘Ex de Gretchen é assassinado a tiros’ (Cotidiano, pág. C5) não lembra ao leitor que esse ‘ex’, o cabeleireiro Cláudio Farias, é o mesmo que, segundo a cantora, a teria espancado seriamente meses atrás. Faltou a chamada ‘contextualização’.

02/01/2003

Registro das principais manchetes de hoje: Folha: ‘Lula assume Presidência e pede ‘controle das ansiedades sociais’’; ‘Estado’: ‘ ‘Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e com cuidado’’; ‘Globo’: ‘Povo segue Lula e testemunha o seu compromisso por mudanças’; ‘JB’: ‘Lula: ‘Nada impedirá que façamos as reformas’’. É evidente a diferença de tom entre a Folha --contida, descritiva-- e a concorrência --épica, mais ou menos entusiasmada. Essa constatação se confirma nos textos das reportagens. Cabe registrar que até mesmo o ‘Valor’, apesar da manchete recatada (‘Lula assume e pede paciência’), cedeu à emoção em alguns textos que, na edição de hoje, narram a festa da posse em Brasília.

A posse

1) O tom menos adjetivado das reportagens da Folha contrasta com a força emocional das imagens do dia de ontem publicadas nas páginas do jornal -o que não é ruim, ao contrário. Essa combinação acaba dando à cobertura, como um todo, maior equilíbrio em termos jornalísticos;

2) Dentre os principais jornais, a Folha foi o que menos espaço dedicou ao acontecimento (incluídas as posses estaduais): 17 páginas (15 do caderno especial, 1 em Dinheiro e 1 em Brasil -pág. A4). Para comparação, ‘Estado’ e ‘Globo’ publicaram 24 páginas. AFolha deu menos, até mesmo, do que o ‘Valor’: 19 páginas;

3) É uma pena, mas ninguém, mais uma vez, poderá saber com algum grau de ‘cientificidade’ quantas pessoas participaram das cerimônias de posse de Lula ontem no DF. A Folha cita PM, PF e Defesa Civil para bancar 150 mil. O ‘Globo’ diz que a PM falou em 70 mil e os organizadores, em 150 mil ou 200 mil. O ‘Estado’ registra 200 mil segundo a PM e 110 mil (70 mil na Esplanada e 40 mil na praça dos Três Poderes) segundo o policiamento do DF. A depender dos jornais e das autoridades, os historiadores, no futuro, que se virem...

4) Por falar em multidões, o lidão da capa do caderno ‘Governo Lula’ afirma que havia cerca de 10 mil pessoas na posse de FHC em 1995. Já a reportagem ‘Posse é vista por 150 mil’, na pág. 9, registra que foram 4.000 naquela ocasião. Qual é o dado correto, ao menos para o jornal?

5) Texto-legenda ao pé da pág. 9 diz que havia cerca de 2 mil pessoas na avenida Paulista ontem para a versão paulistana da festa da posse de Lula. De quem é a estimativa? Não há informação;

6) A Folha conseguiu retirar de seus textos excessos de emoção, mas não deixou de ‘cometer’ um ou outro jargão, algo a ser, sempre, evitado. O texto da pág. 3 (‘Multidão rompe segurança para celebrar posse de Lula’), por exemplo, testemunha ‘um Lula visivelmente emocionado...’ e informa que ‘uma salva de palmas das pessoas que estavam na praça... saudou a informação’ (de que FHC estava saindo do Planalto);

7) Desencontro de registro histórico, que exige precisão factual: o abre da pág. 4 informa que Lula fechou seu discurso no Congresso dizendo ‘Viva o povo do Brasil’; a íntegra do texto (na pág. A13, para a qual, aliás, não se fez remissão), porém, registra ‘Viva o povo brasileiro’. Em qual informação deve o leitor (e o historiador) acreditar?

8) O mesmo abre afirma que o senador Ramez Tebet é do PMDB de MT. Ele do MS, certo?

9) O saboroso texto de Danuza Leão na pág. 6 (‘Nunca um presidente foi tão feliz’) informa que Cristovam Buarque e Marina Silva foram os mais aplaudidos na cerimônia de apresentação oficial dos novos ministros. Já a reportagem da página seguinte (‘‘Sou o sonho de uma geração’, afirma Lula’) informa que José Dirceu foi o campeão de aplausos, seguido de Gushiken e Marina Silva. Os dois textos falam exatamente da mesma cerimônia. Como fica o leitor?

10) Quanto a essa cerimônia, aliás, o jornal comete, a meu ver, um erro: não faz nenhuma menção a Ciro Gomes (Integração Nacional). Pois foi, sem dúvida, o novo ministro que, além de ter feito uma pose eloquente para fotógrafos, mais rapidamente cumprimentou FHC e Ruth Cardoso, numa cena de evidente constrangimento;

11) Detalhe: saiu como Maria, em vez de Marisa, o nome da primeira-dama no 12o parágrafo do abre da pág. 7;

12) É boa a foto do texto-legenda da imagem aérea da Esplanada no centro das páginas 8 e 9. Para quem não conhece Brasília, porém, a legenda acaba sendo enganadora ao falar em milhares de pessoas ‘em torno do Congresso Nacional’. Ora, na imagem, que aparentemente foi feita antes da posse, é bem maior a aglomeração em torno do palco onde se realizaram os shows musicais. Perto do Congresso (alto, à direita), ao contrário, estão relativamente poucas pessoas;

13) O texto ‘Chávez compara petista a ‘libertador’’ (pág. 10) atribui ao presidente da Venezuela a frase ‘Brasileiros e bolivianos lutam pela integração e justiça na América Latina’. Ele disse ‘bolivianos’ mesmo? Não terá sido, talvez, ‘bolivarianos’, referência a Simon Bolívar? A verificar;

14) Faltou a idade de Samuel Pinheiro Guimarães, apontado como o segundo homem do Itamaraty, em ‘Amorim indica secretário avesso à Alca’, pág. 10);

15) Em matéria de repercussão do discurso de posse Lula, a Folha se limitou a ouvir congressistas (pág. 6). E os empresários? E os intelectuais e analistas? E os sindicalistas?

16) ‘Estado’ e ‘Globo’ mostram diferentes fotos em que Lula evidencia a dor que sente no ombro direito por causa de uma bursite. A Folha, equivocadamente, não investiu nisso;

17) Detalhe do tipo ‘registro histórico’: o ‘Globo’ afirma que Lula trocou, além da camisa (como diz a Folha), também o terno, no intervalo do trajeto entre o Congresso e o Planalto. A verificar;

18) O abre de Dinheiro, ao noticiar a equipe de Antonio Palocci Filho, na Fazenda, procura mostrar sua diversidade, ressaltando inclusive a existência de uma ‘ala direita’ no grupo. Nesse sentido, falha o jornal no perfil do jornalista Edmundo de Oliveira (Assuntos Estratégicos) ao omitir a informação, dada na concorrência, de que ele foi ‘companheiro’ de Palocci quando este era militante trotskista;

19) O noticiário sobre as posses dos governadores (págs. 14 e 15) mostra que o jornal realmente não consegue aplicar na prática o que determina seu ‘Manual’ num item absolutamente simples e quase prosaico: o da idade dos protagonistas da notícia. Apenas 7 dos 12 governadores que tiveram suas posses registradas pela Folha têm esse ponto de seu perfil revelado nos respectivos textos.

Para reflexão

Acredito, como muitos, que o ideal seria o jornal poder prescindir totalmente das famosas ‘viagens a convite’ em suas reportagens. Enquanto não se consegue fazê-lo, que se tente ao menos reduzir seu número e seu peso, gradativamente, além do registro do convite, ao pé dos textos, sempre que for o caso.

O ‘Manual’ (pág. 42) dá como exemplo o caso de um teste do serviço de um restaurante, e diz ser ‘conveniente que o repórter permaneça no anonimato e pague sua conta. De outro modo, sua avaliação poderia ficar comprometida por um atendimento especial ao qual seu leitor não teria acesso’. A Folha Equilíbrio inaugura hoje uma seção bimestral dedicada a spas. A idéia é boa. Mas, independentemente disso e do conteúdo dos textos, temo que ela possa indicar um retrocesso em relação a esse problema se for totalmente ‘bancada’ pelos próprios spas --como acontece hoje na estréia."

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe