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FOLHA DE S.PAULO
Bernardo Ajzenberg

"Crítica interna", copyright Folha Online (www.folhaonline.com.br)

"05/04/2002

A mudança de atitude dos EUA com relação ao conflito israelo-palestino é a manchete nos principais diários. Folha: ‘Bush cobra recuo, Sharon ignora e mantém ofensiva’; ‘Estado’: ‘Bush pede a israel que saia das cidades palestinas’; ‘Globo’: ‘Bush exige retirada de Israel mas chama Arafat de traidor’; ‘JB’: ‘EUA saem da inércia e pedem paz’. A unanimidade se repete na escolha de um Romário lacrimejante como principal imagem do dia.

Destaque: O lançamento da revista ‘Moda’ é saudável, bem-vindo. Resta acompanhar a reação dos leitores (ver mais abaixo nota específica).

O vice de Serra

Mais do que qualquer concorrente, a Folha aposta na edição de hoje em Luiz Henrique, ex-prefeito de Joinville, como vice na chapa de Serra. Agora, é aguardar.

Detalhe: no penúltimo parágrafo do abre desse material (‘FHC tenta desobstruir vetos à aliança entre PSDB e PMDB’, pág. A4), ficou esquisito o uso de duas metáforas ‘opostas’ numa mesma frase: ‘Devido à chuva de candidatos a vice, ontem foi um dia de apagar incêndios’.

E a imprensa?

Dois problemas em ‘Opinião de Reale Jr. pode pesar em decisão, diz STF’ (pág. A6):

1) O título faz uso indevido da sigla. A avaliação em questão é de Mello, presidente do STF, não do tribunal;

2) O texto afirma que ‘no final de fevereiro, congressistas avaliaram que a medida (verticalização) favoreceria Serra e prejudicaria outros candidatos...’. Ora, que avaliou dessa forma não foram só congressistas, mas a imprensa e, em especial, a própria Folha, sendo que, na ocasião, o PMDB já constava como o principal parceiro na aliança presidencial. É importante esse registro agora, quando aparentemente começa-se a perceber que a Serra talvez interesse, justamente, o contrário: a revogação da verticalização.

Medida revogatória

O título é ‘Fundo partidário vai receber mais R$ 26 mi’ (pág. A13). Tal dado está no lide, mas a principal notícia, que, aliás, ocupa quase três quartos da reportagem, diz respeito à proposta do governo de criar a chamada MP revogatória, ou seja, uma medida provisória que anula as já editadas pelo governo, de modo a desobstruir a pauta de votações no Congresso. Houve inversão. Além disso, essa nova modalidade de MP mereceria ampla discussão.

O R$ 1,34 mi

O texto ‘PFL pressiona Roseana a revelar doadores’ (pág. A15) dá de barato que o dinheiro encontrado na Lunus é mesmo verba de campanha, faltando, apenas, esclarecer sua origem. Acho que o jornal não deveria bancar assim essa versão. Não há comprovação de que ela seja a verdadeira, isto é, de que o montante seria mesmo para a campanha eleitoral.

O caso do Rio

1) Faltou o perfil político e pessoal de Benedita da Silva, que assume nestes dias o governo do Rio, com a saída de Garotinho (textos na pág. A14);

2) Salvo referência genérica na retranca ‘Governador vai renunciar com culto no jardim’, sumiu do noticiário, sem motivo, a divergência entre PT e PSB a respeito do suposto rombo nas contas do governo.

Protesto

Não há, em ‘Ato pró-palestinos em SP justifica atentados’ (pág. A22), informação sobre quem ou quais entidades organizaram a manifestação realizada ontem na cidade. Não é dado secundário dentro do complicado xadrez político que envolve o conflito israelo-palestino internacionalmente.

Petróleo nos EUA

Afirma a retranca ‘Bush derruba preço do petróleo’ (pág. B3) que a Venezuela é o principal fornecedor do produto dos EUA. Segundo tabela publicada ontem, no entanto, esse país vinha em terceiro lugar, atrás do Canadá e da Arábia Saudita. Os dados do quadro são de 2000. Se o da matéria de hoje está correto, teria sido o caso, então, de esclarecer. A verificar

Criptografia

Tenho dúvida se mesmo os especialistas conseguiriam entender o que está em jogo e o que é realmente a notícia sob o título ‘Anatel quer saber se dissolução de fundo muda sócios do Opportunity’ (pág. B9). O que é esse conflito entre Demarco Almeida e o banco (sei que tempos atrás houve material a respeito, mas quem se lembra?)? Qual é a participação do grupo nas operações de telecomunicações no país? O material está muito cifrado.

Globo Cabo

Faltou ouvir as Organizações Globo em ‘BB negou empréstimo à Globo Cabo’ (pág. B9).

Bial

Por falar em Globo, está ausente do material ‘Jornalista Pedro Bial é assaltado’ (pág. C3) o mais inusitado: um assaltante, segundo ele, teria puxado o gatilho contra o seu ouvido mas a arma, ‘por obra de Deus, Alá etc’, não disparou. Foi o que ouvi em entrevista no rádio, e é o que consta em outros relatos. Isso não fica claro nem mesmo na edição nacional, que trouxe texto mais extenso do que a edição SP.

Moda

Leitores da edição nacional contataram o ombudsman hoje para reclamar da ausência da nova revista em seus exemplares. E têm razão, já que ela foi anunciada ao longo de pelo menos três edições (de circulação nacional) da Ilustrada nessa semana, sem qualquer menção ao fato de que circularia apenas na edição SP/DF.

Pequenas observações editoriais sobre a nova revista, lançada hoje:

1) Não há em nenhum lugar, nem na chamada da Primeira Página, informação clara a respeito da sua periodicidade, embora o seu editorial afirme que este é o ‘primeiro número’. Será semanal? Mensal? Se, por acaso, não há periodicidade, isso também deveria ser mencionado;

2) O projeto gráfico é ao mesmo tempo simples e arrojado, embora o tipo de papel utilizado não ajude em nada uma publicação em que a essência está no visual. Sem dúvida, o ideal seria outro papel, no mínimo como o da Revista da Folha;

3) Parece-me que o tamanho das letras (o corpo) nos textos está pequeno demais, o que pode tornar sua leitura cansativa;

4) É natural, em publicações sobre o assunto, a possibilidade de confusão, no leitor mais desavisado, entre o que é publicidade e o que é jornalismo, já que a tendência é de os anunciantes serem do setor de moda e exibirem, portanto, em tese, vestimentas. Muitas vezes, mesmo sem intenção, a peça publicitária propicia essa confusão; outras, não. Nesse sentido, uma contribuição importante da nova revista e de seu projeto gráfico seria encontrar uma fórmula criativa de explicitar o que é uma coisa e o que é outra sempre que essa mistura tiver chance de ocorrer. O julgamento é obviamente subjetivo, mas vejo essa possibilidade, por exemplo, nas páginas 3 e 4 e na 41 desta primeira edição.

Contestação

Recebo do editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva, via SR, as seguintes contestações, relativas à crítica interna de ontem: ‘1)Em relação à nota ‘Imprecisões’, o uso da palavra ‘suspeição’ é correto. Conforme o Aurélio, suspeição também significa: ‘Situação, expressa em lei, que impede os juízes, representantes do Ministério Público, advogados, serventuários ou qualquer outro auxiliar da Justiça de, em certos casos, funcionarem no processo em que ela ocorra, em face da dúvida de que não possam exercer suas funções com a imparcialidade ou independência que lhes competem’. Concordo que a expressão, correta, deveria ter sido trocada em miúdos para o leitor. 2. Em relação à nota ‘Ministros e FHC’, a informação de que houve manifestação em Brasília com faixa chamando Serra de ‘presidengue’ saiu publicada na edição nacional da Folha, em TL na página A12. A manifestação foi, sim, inexpressiva e o TL foi derrubado por mim na edição SP. No seu lugar, publicamos uma foto quente do Lula (que não tínhamos até o horário de fechamento da edição nacional), que entendi ser mais importante.’

Comento o seguinte, sobre o segundo ponto: se a manifestação foi inexpressiva, como argumenta o editor, não fazia sentido colocá-la na edição Nacional de um jornal como a Folha, a não ser que se conceba essa edição como algo em que cabe qualquer coisa para preencher espaço.

04/04/2002

Correta, a meu ver, a opção da Folha de sair da inércia e dar manchete para informação que mexe diretamente no bolso do leitor (‘Gasolina tem 3o reajuste em 35 dias’) sem, no entanto, deixar de conferir peso significativo para a tensão no Oriente Médio. Este assunto é manchete no ‘Estado’ (‘Israel sitia 200 palestinos na Basílica de Belém’) e no ‘Globo’ (‘Egito rompe com Israel e o conflito se expande’). No ‘JB’, o aumento do preço do combustível também virou manchete (‘Gasolina sobe pela terceira vez no ano’).

Destaque: Louvável a iniciativa do jornal de investir num enviado especial a Jerusalém apesar dos entraves econômicos daqui e das dificuldades logísticas de lá.

As razões de Jarbas

Na edição de ontem, reportagem do jornal procurava trazer explicações para a recusa do governador pernambucano de sair candidato a vice na chapa de José Serra: política regional, falta de apoio total no PMDB, ‘telhado de vidro’. Hoje, o Painel, pág. A4, descarta todas elas de uma penada só e afirma, na nota ‘Exemplo baiano’: ‘Jarbas Vasconcelos não aceitou a vice por temer a derrota de Serra’. Afinal, o que há por trás, de fato, dessa importante abdicação? Falta dar mais esclarecimentos ao leitor.

Maus exemplos

1) O título ‘CCJ aprova PEC que derruba decisão do TSE’ (pág. A4), com sua salada de siglas, é um exemplo do que deve ser evitado em jornalismo;

2) Da mesma forma o é, por seu aspecto burocrático, a legenda da foto do novo ministro da Justiça, na mesma página. Em vez de escrever o óbvio, por que não indicar o que vem a ser o adesivo que Miguel Reali Jr. traz na lapela?

Bom exemplo

Apesar de alguns leitores terem reclamado (por acharem desrespeitosa), considero muito feliz a foto da posse dos ministros na Primeira Página de hoje. É exemplo de como fugir da padronização na cobertura de um episódio de atitudes previsíveis e esteticamente pouco atraente.

Imprecisões

O texto ‘Garotinho diz que Jobim, é parcial e pede renúncia’ (pág. A4) dá a entender que a decisão de verticalização das coligações foi tomada apenas pelo ministro Nelson Jobim. Fala-se que ela foi ‘determinada pelo ministro’. Como é evidente, trata-se de uma decisão de tribunal, coletiva. Houve uma votação no TSE.

O mesmo texto, aliás, requer uma correção. Saiu a palavra ‘suspeição’ (primeiro parágrafo) em vez de ‘suspensão’.

Ministros e FHC

1) O ‘Globo’ teve a mesma idéia da Folha de reproduzir declarações para ilustrar rusgas entre FHC e Itamar Franco (pág. A9). Só que as escolhidas pelo jornal do Rio são muito mais expressivas e contundentes do que as escolhidas pela Folha. Basta comparar;

2) O lide de ‘FHC elogia Itamar na posse do ministério’ não responde ao básico: onde foi o evento? A que horas ele aconteceu?

3) Na arte ‘Os novos ministros de FHC’, faltaram as idades dos respectivos;

4) Não vi na Folha informação (publicada no ‘Globo’) de que houve uma manifestação, com faixa que chamava Serra de ‘presidengue’, diante do local onde se realizou a posse dos ministros. Foi inexpressiva?

PF versus PM

Intrigante o fato de que é a Polícia Federal quem faz o inquérito para saber se houve irregularidade no ‘ataque’ que ela própria sofreu da Polícia Militar no Maranhão (‘PF afirma que coronel deve ser indiciado’, pág. A11). Pode ser legal, tudo bem. Mas não é como pedir que a raposa tome conta do galinheiro? Valeria explorar o tema.

Oriente Médio

1) Faltou a idade do líder palestino em ‘Arafat parece estar bem, afirma médico’ (pág. A15). Informação obrigatória, no caso, conforme o ‘Manual’ da Folha;

2) A Panorâmica ‘Saddam eleva estímulo financeiro a suicidas’ (pág. A16), segundo a qual o ditador iraquiano subiu de US$ 10 mil para US$ 25 mil o subsídio que dá a famílias de homens-bomba merecia mais destaque e aprofundamento. A informação, vinda dos EUA, é importante e certamente faz parte da preparação de cenário para um eventual ataque a Bagdá.

Versão de Cavallo

Faltou o ‘outro lado’ do ex-ministro da Economia argentino em ‘Cavallo é preso por contrabando de armas’ (Mundo, pág. A18). Mesmo que não tenha havido declaração ontem, o correto teria sido publicar o que ele já havia dito, em outras ocasiões, em sua defesa neste caso.

Números

A retranca ‘Taxa anual do IPCA pode subir até 0,40 ponto’ (capa de Dinheiro) afirma que a última projeção do BC era de ‘aumento de 4,40% para o IPCA’. Creio que o correto seria ‘taxa’ ou ‘índice de 4,40%’, não um aumento. A verificar.

Petróleo e EUA

No último parágrafo de ‘Antônio Ermírio pede volta do Proálcool’ (Dinheiro, pág. B3), afirma-se que, para o empresário, o real motivo do conflito entre EUA e Iraque seria o petróleo. ‘Para ele’, diz o texto, ‘os americanos não podem ficar tão dependentes de um país inimigo’. Tudo bem que o petróleo possa fazer parte da questão, mas o quadro publicado na mesma página mostra que apenas 3% de todo o petróleo importado pelos EUA vem do Iraque. Essa ‘dependência’, portanto, é bem relativa. Faltou questioná-lo.

Acabamento

O 12o parágrafo de ‘Negócio da empresa na China não decola’ (sobre Embraer, pág. B9) traz um ‘leia texto nesta página’ que não se confirma. Não há, na página, nenhum texto sobre o assunto (lucro recorde e queima de reservas da empresa).

Quantos votos?

Afirma a reportagem ‘Disputa por cargos trava subprefeituras’ (Cotidiano, pág. C6) que são necessários 28 votos, na Câmara, para aprovação do projeto que divide a administração da cidade de outra maneira. Mas quantos vereadores existem? Quantos deles compõem a base governista? Não há essas informações. O número 28, então, fica quase abstrato.

Informe publicitário

Faltaram esses dizeres no material ‘Espaço Vacinas’, pág. 5 da Folha Equilíbrio. Tal como está, ele é facilmente confundido com material jornalístico.

03/04/2002

A mais recente cartada política do primeiro-ministro de Israel é manchete no ‘Globo’ (‘EUA e Europa condenam tentativa de exilar Arafat’) e no ‘Estado’ (‘Sharon sugere exílio a Arafat; EUA condenam a proposta’). A Folha (‘Ofensiva de Israel mata sete palestinos em Belém’) destacou um evento, infelizmente, ‘corriqueiro’; grave, mas menos relevante como novidade. O assunto ‘caiu’ para chamada menor na capa do ‘JB’, que optou por manchete regional (‘Rio tem nova madrugada de tiroteios’).

Destaque: Furnas publica hoje balanço de 2001, com direito a ‘tijolinho’ nas capas, em todos os principais diários do país -inclusive os econômicos.

Oriente Médio

1) O texto da chamada da manchete na Primeira Página afirma que Arafat está confinado em seu quartel-general desde quinta-feira. O correto seria sexta-feira, não?

2) A retranca ‘Ato pró-palestinos pede 'morte a Sharon'‘ (pág. A15) noticia, de passagem, que representantes palestinos encontraram-se ontem com José Serra. Tal como se fez com Lula, não seria o caso de reportar como foi esse encontro? O que Serra disse? O que lhe pediram?

3) A tentativa de esclarecimento e didatismo é evidentemente válida, mas pareceu-me pouco esclarecedora, confusa visualmente, a sequência de mapas que procura mostrar, na pág. A14, a evolução das alterações geopolíticas em Israel/Palestina. Por exemplo: fala-se em Transjordânia, Jordânia, Cisjordânia, sem explicações; também não fica claro, outro exemplo, como ‘sumiu’ o Estado Palestino e no seu lugar surgiu a Jordânia... Creio que valeria repetir a idéia, mas com aprimoramento na informação visual;

4) Pequeno detalhe: o prenome do porta-voz do Vaticano aparece como Joaquín em retranca na pág. A13 e como Joaquim na pág. A16. Falta uniformizar a grafia.

Sem transparência

Na crítica de ontem, observei, sobre reportagem de capa de Cotidiano, uma incongruência: um mesmo total de barracas (358) era informado como existindo tanto no conjunto da região do quadrilátero-piloto do centro paulistano (abre da página) como, especificamente, só na rua 24 de Maio (sub-retranca). Carta no Painel do Leitor hoje aponta o mesmo problema. Na resposta, porém, o repórter diz que não há erro. Como assim? No sétimo parágrafo do abre se diz: ‘A Folha percorreu o quadrilátero... Havia 358 barracas’. Já na sub-retranca (‘Barraca maior é novo truque’) se lê: ‘Esse é o preferido pelos ambulantes da rua 24 de maio (...). Desde o ano passado, a prefeitura intensificou a fiscalização naquele local (esse local só pode ser a 24 de Maio, sobre a qual o texto discorre, certo?). O número de camelôs teria de diminuir. Havia 938. Hoje há 358’. Ora, independentemente da questão política que possa haver por trás, não seria mais simples o jornal admitir que houve um engano, ou no mínimo falta de clareza, na redação? Afinal, persiste a dúvida no leitor que acompanha o caso: quantos camelôs existem na 24 de Maio?

Serra sem Jarbas

A desistência do governador pernambucano de sair candidato a vice do tucano é atribuída em tese a dificuldades regionais ou, discretamente, a eventuais aspectos da vida pessoal que Jarbas não gostaria de ver expostos. Sobre esta última hipótese, há que se conferir, claro. Mas fica uma pulga atrás da orelha, também, com relação às chamadas dificuldades políticas regionais. A reportagem ‘Jarbas se recusa a ser vice de Serra e abre crise na aliança’ (pág. A4) afirma que Marco Maciel (que é do PFL) foi ‘um dos que mais pressionaram o governador a concorrer à reeleição’. Não dá para ver, aí, a mão do partido de Bornhausen atuando em termos nacionais, justamente para bombardear Serra? É pena, nesse sentido, que no texto ‘Bornhausen ataca Serra e diz que jogo seguirá 'truculento'‘ (pág. A6) o presidente do PFL não tenha sido questionado sobre a desistência de Jarbas.

Aspas sem notícia

A retranca ‘Ciro aponta falta de escrúpulo em tucano’ (pág. A6) reúne um amontoado de declarações acusatórias, abstratas e genéricas, sem qualquer fato ou evento político que lhes dê base. Qual é a notícia? Além disso, faltou o ‘outro lado’ de Serra.

Números

1) Afirma o texto ‘Garotinho anuncia Costa Leite como vice’ (pág. A10) que na última pesquisa Datafolha (de 12 de março) o governador aparece em terceiro lugar, com 14% das intenções de voto. Não é bem assim. Ele aparece com 15%, em empate técnico com Serra e Roseana, no segundo lugar;

2) Diferentemente do que afirma o texto ‘Vaga no Senado vira alvo de pelo menos 12 governadores’ (pág. A10), o país tem 27 governadores, não 26.

Inversão

Não que devesse ser manchete do jornal, mas certamente é pouco um módulo 300 ao pé da pág. B8 para a reportagem ‘EUA atacam barreiras comerciais do Brasil’. O relatório americano que dá base a essa notícia (manchete no ‘Valor’, chamada de capa nos concorrentes) não aborda só questão das barreiras comerciais. Avança mais, criticando claramente também o sistema Judiciário brasileiro (informação, esta, ausente na Folha). Considerando, ainda, o seu aspecto político e diplomático no momento em que se vive a chamada ‘guerra do aço’, ele merecia mais destaque.

Mistura no chocolate

Confunde a cabeça do leitor, no que diz respeito à quantidade de chocolates produzida no Brasil, a reportagem ‘Nestlé manterá investimentos na Garoto’ (pág. B5). Segundo uma entidade, produzem-se por ano 220,6 mil toneladas. Outra instituição fala em 173 mil toneladas. Tudo bem, pode haver divergências. Mas aparece na arte, ainda, um terceiro total, cuja fonte são ‘empresas’: 327 mil toneladas (em 2000). Para completar, na mesma arte, há uma pizza baseada no dado de 220,6 mil, não nos 327 mil. Fica difícil. Uma das funções do jornal não é esclarecer?

Invasão

A coluna Mônica Bergamo dedica grande espaço, com fotos, à estréia do filme ‘O invasor’. Na coluna ‘Televisão’, a foto também se refere ao filme. Não é um exagero?

02/04/2002

Folha (‘Israel invade 4 cidades e prende 700’) e ‘Estado’ (‘Israel revista casa por casa e prende 700 em Ramallah’) mantêm o conflito no Oriente Médio como principal assunto. No ‘JB’, esse noticiário recebeu uma segunda manchete, abaixo da dobra: ‘Israel amplia ataque e cerca Belém’. Em opção que ganha caráter autopromocional num dia como o de hoje, o ‘Globo’ (‘STJ quebra sigilo de juízes sob suspeita’) privilegia tema de série de reportagens suas de dias atrás. Só a Folha não traz chamada na capa para a alta do preço do petróleo (a informação aparece apenas ao pé do texto da manchete).

Destaque: fez falta na Folha hoje notícia dada por todos os demais jornais sobre o encerramento oficial do inquérito do caso Celso Daniel.

Oriente Médio

1) Há um desequilíbrio, com viés pró-Israel, na edição de hoje. Das 12 retrancas que compõem as págs. de A7 a A10, cinco têm esse posicionamento (entrevista com Ariel Sharon, artigo de Thomas Friedman --do ‘NYT’--, declarações do rabino Sobel, posição de Bush, além do ‘saiba mais’, que, estranhamente, omite ter sido a visita de Sharon à Esplanada das Mesquitas em 2000 o ‘estopim’ para o estouro da nova Intifada, algo que, diga-se, consta do primeiro editorial de hoje). Três retrancas (artigo de Said Ghazali, protestos nos países árabes e factual do encontro entre Lula e representante palestino) trazem conotação pró-palestinos. As demais (quatro) podem ser consideradas factuais, ‘neutras’. Além disso, ficou ‘escondida’ a arte ‘Reação internacional’, que mostra um posicionamento diplomático amplamente desfavorável a Sharon;

2) Senti falta de uma análise geopolítica mais abrangente, capaz de mostrar, por exemplo, o relacionamento entre os eventos dos últimos dias e os impasses dos EUA na ‘guerra ao terror’, entre outros pontos;

3) Também faz falta reportagem que mostre as dificuldades que estão sendo enfrentadas pela imprensa para fazer a cobertura dos acontecimentos na Cisjordânia. A coluna ‘No ar’ comenta algo a esse respeito sobre TV;

4) A chamada da Primeira Página afirma terem sido 14 os palestinos assassinados por ‘traição’. Na pág. A7, este número cai para 11 (‘Palestinos matam 11 supostos colaboradores’). Qual é o certo?

5) Registro para a entrevista pingue-pongue publicada pelo ‘Globo’ com o dirigente do MST que está no QG de Arafat em Ramallah. É um dos elementos curiosos em toda essa cobertura. Faltou investimento por parte da Folha?

Fontes fracas

Na edição de ontem, o jornal trazia que Euclides Scalco dissera a interlocutores que não iria aceitar a Secretaria Geral da Presidência. A reportagem afirmava, até, que ele estava ‘fora do páreo’. Como se vê hoje (‘FHC indica Scalco e convida ministro do STF’, pág. A5), não foi uma bola dentro.

Sobre Scalco, aliás, fica uma dúvida que o seu perfil (na mesma página) não esclarece: ele é ou não, hoje, filiado ao PSDB, partido do qual, diz o texto, saíra em 95? Segundo o ‘Estado’, ele retornou em 2001. Confere?

Sísifo

1) Faltou a idade do governador de Pernambuco em ‘Jarbas hesita em ser vice de Serra’, pág. A5. Não é por preciosismo, mas sim porque essa informação ajudaria a entender a afirmação do texto segundo a qual ‘dificilmente essa oportunidade (ser vice) se repetirá em sua trajetória política’;

2) É o mesmo caso de ‘Oficial da Aeronáutica é acusado de assédio’ (Cotidiano, pág. C6), que tampouco traz a idade do seu protagonista;

3) Faltou atenção para com os leitores leigos no abre da Ilustrada (‘A língua do grupo’). O que é tal Fringe? É uma parte do Festival de Teatro de Curitiba? Não dá para entender.

Fato e versão

O ‘entenda o caso’ referente a ‘Justiça Federal determina, e líderes do MST são soltos’, pág. A6, dá como certo que houve um acordo entre o governo e os invasores da fazenda Córrego da Ponte no sentido de que eles não seriam presos. Ora, tal versão foi contestada por pelo menos dois ministros.

Assim, o correto teria sido colocar o acordo no condicional ou, ao menos, registrar essa discrepância. O mesmo texto afirma que os ouvidores que intermediaram a negociação se demitiram. Isso está mesmo confirmado? Salvo engano, da última vez que o jornal deu algo a respeito, afirmava-se que o ministro Jungmann tentava removê-los da decisão.

Subestimação

Creio que a alta do petróleo deveria ser o abre de Dinheiro --não apenas três módulos, abaixo da dobra, como está em B1 (‘Petróleo sobe para a maior cotação em 6 meses e já preocupa governo’). A ameaça que está por trás dessa alta parece ser bem maior do que faz supor a dimensão editorial reservada ao tema. Nunca o petróleo esteve tão caro desde o 11 de setembro. Isso diz alguma coisa, não?

Camelôs

O abre da capa de Cotidiano (‘Número de fiscais cresce, mas camelô resiste’) afirma que havia ontem 358 barracas na chamada região do ‘quadrilátero piloto’, no centro paulistano. Na sub-retranca ‘Barraca maior é novo truque’, esse total se refere apenas à rua 24 de maio. Há algum erro aí.

01/04/2002

A radicalização no Oriente Médio invadiu o fim de semana prolongado do GP do Brasil e tomou conta do noticiário. Nas manchetes de hoje, a Folha (‘Terrorista suicida mata 14 em Israel’) destacou a ação de um dos lados do conflito, o ‘Estado’ (‘Atentado mata 14 e Israel amplia ofensiva’) e o ‘JB’ (‘Radicalismo eleva o tom na Terra Santa’) tentaram reunir os dois, enquanto o ‘Globo’ (‘Israel exige saída de ativistas e imprensa da cidade de Arafat’) aposta numa espécie de nova internacionalização político-diplomática da disputa.

Destaque: tem lugar garantido na história, com múltipla utilidade política, a foto do líder do MST com Arafat em Ramallah, hoje nas capas dos principais jornais

Oriente Médio (fim de semana)

Nessa cobertura, a Folha deu conta do básico, mas não marcou diferença em relação à concorrência no conjunto das edições do fim de semana. Faltou o ‘espírito editorial’ do 11 de setembro (guardadas, claro, as devidas proporções entre os dois eventos). Símbolo disso é a manchete idêntica (‘Israel ataca e invade o QG de Arafat’) à do concorrente local, além do jogo de fotos muito parecido nas respectivas capas, na edição de sábado. Algumas observações:

1) o abre da pág. A10 de sábado afirma que Arafat não pôde comparecer à cúpula da Liga Árabe por estar em prisão domiciliar. Posso estar enganado, mas, até onde acompanhei o noticiário da Folha, o líder palestino preferiu não ir ao Líbano para não ceder à chantagem/armadilha que lhe foi feita por Ariel Sharon (de que, se houvesse atentado na ausência de Arafat, este não teria permitido o retorno). Rigorosamente, ao que eu saiba, Arafat, embora sitiado e ameaçado (o que pode até ser pior), não teve sua prisão formalmente decretada. A verificar;

2) na chamada de capa desse dia se usa a expressão ‘risco de vida’, que o jornal tem preferido trocar por ‘risco de morte’;

3) faltou um mapa na edição de domingo;

4) o texto ‘Conselho da ONU pede retirada de Israel’ (pág. A16, domingo) cria certa confusão para o leitor. Menciona a crítica dos países árabes pelo fato de a ONU não usar termos mais fortes, como ‘ordena’ ou ‘demanda’ a retirada dos soldados israelenses, mas, ao mesmo tempo, registra que, segundo a ANP, o texto ‘exigiu’ a saída imediata desses soldados. O ideal teria sido publicar a íntegra da resolução da ONU;

5) Na edição de hoje, chama a atenção a ausência de material mais rico da imprensa internacional sobre o assunto (o ‘Estado’, por exemplo, traz artigos publicados no ‘Post’ e no ‘NYT’). Na ausência de um enviado especial do próprio jornal, em casos como este, o uso diversificado e amplo de textos qualificados de outros países é sempre recomendável, como mostrou a experiência do 11 de setembro;

6) faltou um perfil do dirigente do MST que se encontrou com Arafat (onde vive, o que já fez no MST, que função ocupa no movimento etc);

7) também falta ao jornal dar informações que permitam ao leitor dimensionar melhor a tensão no palco dos conflitos: qual é a população dos territórios ocupados, as áreas, as distâncias entre as localidades etc. Como são números em geral pequenos (ainda mais em comparação com o Brasil), eles ajudam a mostrar o grau de tensão que tomou conta da região.

Edição de sábado, 30 de março

O Bob...

Não entendo por que o jornal precisa acrescentar o apelido do secretário de Comunicação de Governo, João Roberto Vieira da Costa, após redigir seu nome (‘Secretário diz que há gastos não discriminados’, pág. A6, Brasil). É um apelido absolutamente comum, que não simboliza nada. Seu uso passa a idéia de uma espécie de intimidade entre jornal e poder que não faz bem à imagem do jornalismo.

Sísifo (fim de semana)

1) faltou a idade da nova embaixadora dos EUA no Brasil, empossada quinta-feira (‘Embaixadora critica apoio de EUA à ditadura’ (sábado, Brasil, pág. A7);

2) A Panorâmica ‘WTC aguentou os impactos dos aviões, mas a estrutura não resistiu ao fogo’ (sábado, Mundo pág. A13, fala em ‘sprinkleres’, sem explicar do que se trata;

3) O que é a Estação Ciência, instituição mencionada em ‘Divulgação científica tem ofensiva Inédita’ (sábado, Ciência, pág. A14)? Uma ONG? Uma fundação? Não dá para entender;

4) ‘Garotinho deixa dívida extra de R$ 500 mi’ (domingo, Brasil, pág. A5) usa a expressão ‘transitado em julgado’ sem explicar o que ela significa e sua importância, assim, no contexto da própria notícia;

5) No abre de Dinheiro de domingo (‘BNDESPar investe de modo polêmico’), faltou explicar a diferença entre empresa fechada e empresa aberta. Para um leigo, não é tão simples;

6) Faltou a idade de Issa Hayatou, camaronês que disputará a presidência da Fifa, no perfil apresentado em ‘Honestidade é bandeira de rival africano’ (Esporte, pág. 8).

Edição de domingo, 31 de março

MST

1) A arte ‘A trajetória...’, na pág. A11, Brasil, dá como tendo sido em 1998 a onda de invasões de prédios públicos pelo MST. Essa onda aparece como tendo ocorrido, na verdade, em 2000, na reportagem de abre da pág. A10. Qual é o ano correto?

2) Em ‘Lula foi 'ingênuo' ao criticar invasão, diz líder’ (pág. A11), afirma-se que o dirigente sem-terra Jaime Amorim classificou Lula de ‘'radical', por acreditar que eleições podem mudar um país’. Está esquisito. Radical, politicamente, não seria o contrário? Se ele disse isso mesmo, então faltou explicitar ao leitor o que ele quis dizer!

Sem números

Com exceção de alguns sobre os EUA, há ausência de números e dados concretos na reportagem ‘Terrorismo abala os fluxos de imigração’ (Mundo, pág. A20). Declarações de especialistas estão ali (uma de oito linhas até se repete integralmente em duas retrancas). OK. Mas a ausência de dados torna suas análises abstratas, repetitivas, dando ao texto certa prolixidade.

Acabamento

Ficou solta a arte ‘Bolsa e câmbio’ , na pág. B4 (Dinheiro). Ela está ‘abraçada’ por um texto sobre Argentina, mas não tem nada a ver com ele.

Excesso

Nada contra elas, isoladamente, mas acho que, a não ser que fossem ‘quentes’ como notícia, o jornal deveria evitar coincidirem numa mesma edição dominical --que já traz, além disso, coluna específica para o tema na Revista- reportagens como ‘Família arco-íris - Pais gays criam filhos sem preconceito’ (Cotidiano, pág. C3) e ‘Casal gay processa Rede TV! Por ofensas no 'Superpop'‘ (TV Folha, pág. 3). Questão de coordenação editorial e de dosagem no tratamento de assuntos sabidamente polêmicos.

Edição de segunda-feira, 1 de abril

Primeira Página

Não dá para entender a chamadinha do Folhateen: ‘Conheça atrações dos dois festivais de abril’. Festivais do quê?

Repetição

O ‘Contraponto’ da edição de hoje (pág. A4) repete a mesma história do ‘Contraponto’ da edição de sábado. O que aconteceu?

Serviço incompleto (1)

O governo federal tem duas dezenas de ministros. Na arte ‘o troca-troca na Esplanada’, bem como no texto respectivo (‘FHC abre brecha para o PFL na reforma do ministério’), pág. A4, mencionam-se apenas 12. Faltaram Esporte e Turismo, Defesa, Desenvolvimento, Relações Exteriores, entre outros. Como estes ficam na reforma?

Serviço incompleto (2)

‘Cobertura da Folha é isenta, diz leitor’ (pág. A5) não informa se os entrevistados são assinantes ou não, ou se se trata de uma mistura das duas categorias. Não é informação irrelevante para análise.

Sem brasileiros?

Na pág. 3 do Folhateen há reportagem (‘Diplomacia do futuro não contesta ferramentas do passado’) sobre encontro internacional de jovens realizado em Belo Horizonte. Não se informa se houve e qual foi a participação de brasileiros no evento. Há perfis, com foto, de jovens de vários países, mas nenhum daqui. Não é por patriotismo, mas por questão de informação: que tipo de gente, do Brasil, participou desse acontecimento?"

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