Envie para um amigo  Procure no arquivo

O POVO
Regina Ribeiro

"Matéria-prima", copyright O Povo, 12/1/02

"´O jornalista deverá atuar sempre como um elemento de instigação crítica, questionando constantemente o poder em várias dimensões: política, econômica, social, religiosa - ou não será fiel à sua função´. Valdemar Menezes, editor-sênior do O Povo

Caro leitor, estamos começando hoje nossas conversas dominicais. Estarei aqui por todo este ano, se Deus quiser, para trocarmos idéias sobre jornalismo. Principalmente o jornalismo que fazemos no O Povo. Não tenho dúvidas de que será um tempo bom, embora no Ceará, quando a gente fala em tempo bom pensa-se logo em muita chuva e trovoada. Brincadeira à parte, acredito que o exercício profissional de ser ombudsman enriquece, amadurece e oferece muitas oportunidades de conhecer um pouco mais de perto as pessoas que são a razão de ser do jornal: os leitores.

Para você que ligou para mim ou veio ao O Povo - recebi visitas e já tenho uma pequena agenda para a semana que está começando - saiba que foram uma alegria os primeiros contatos.

Mas vamos lá. A função de ombudsman completa dez anos no ano que vem. Passou rápido. Parece que foi ontem que a professora e jornalista Adísia Sá assumiu pela primeira vez o cargo de ombudsman, em outubro de 1993, e O Povo passou a ser o segundo jornal do Brasil - o primeiro foi a Folha de S.Paulo - a ter um ouvidor, além de ser o primeiro e único do Nordeste. Hoje, a situação ainda é exatamente a mesma.

Na minha primeira semana de trabalho deu para perceber que estamos batendo em algumas teclas há nove anos.

Nós temos graves problemas com a nossa matéria-prima ou seja, o texto jornalístico que é o meio com o qual nos comunicamos. Vivemos disso: das palavras, que se transformam em informações e transmitem idéias.

Não é possível que a maior parte do tempo da ombudsman seja para analisar o texto do ponto de vista da sua estrutura, de informações faltantes ou descontextualizadas diante da realidade ou ainda de uma construção primária.

O Povo tem um quadro de excelentes profissionais, conquistamos vários prêmios importantes no últimos anos, conseguimos produzir cadernos e coberturas especiais que não ficam a dever a ninguém. Mas no dia-a-dia a situação não é fácil para os leitores, algumas vezes.

Este jornal não pode se dar o luxo de viver de eventos extraordinários. O Povo precisa investir, e rápido, na qualificação profissional de todos os seus repórteres, principalmente no tocante à produção textual. Nós vivemos de contar versões dos fatos. E elas precisam ser bem contadas para não perdermos leitores e, como conseqüência, mercado.

O leitor quer informação correta, num texto bem construído, com amplitude de visões, contextualizada. E isso não cai do céu. É preciso formar bons profissionais, atualizá-los para poder cobrar deles bons resultados. O jornalista profissional também não pode ficar à espera que alguém pense na sua formação. Precisa investir em si próprio, estudar para ter uma maior capacidade de avaliação dos fatos e da própria realidade. É o nome de cada um de nós que está sendo colocado publicamente e os leitores sabem discernir o que é bom e o que não é.

Discordância

Na última quarta-feira, O Povo deu a seguinte manchete: ‘Racionamento termina em abril’. Logo na chamada - texto que vem depois da manchete - o jornal diz que o fim do racionamento é uma ‘previsão’ do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Na matéria, publicada na página 20 com o título ‘Racionamento pode acabar em abril’, o texto condiciona o fim do racionamento de energia ao nível de água dos reservatórios. O próprio governo, naquele momento, não confirmou o prazo. Ou seja, diante desse quadro argumentei com a Redação que O Povo havia dado uma manchete errada e solicitei um erramos, que é nossa prática quando cometemos erros. O diretor-executivo Arlen Medina não concorda. Segundo ele, o erramos seria indevido. Ele explica que quando o jornal optou por ‘manchetar o estudo do ONS, que apontava o fim do racionamento em abril, era essa a realidade’. E acrescentou: ‘Não fugimos dela’. Arlen Medina argumenta ainda que, na mesma quarta-feira, o próprio ONS baseado em novas chuvas que caíram nos reservatórios informou uma nova data para o fim do racionamento, antecipando de abril para fevereiro, no caso do Nordeste.

Essa argumentação, no entanto, não me convenceu. O ONS trabalha com previsões, aqui no sentido de possibilidades, baseadas em informações técnicas. Ou seja não é certeza absoluta. A manchete do jornal partiu do pressuposto da certeza quando disse que o racionamento terminava - ou seja, chegaria ao fim definitivamente - em abril. Insisto que a manchete precisava de um erramos. A Redação tem o direito de argumentar, de discordar, a questão ainda não está definitivamente fechada. Nós não conseguimos convencer um ao outro."


  Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe