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JORNAL DO BRASIL
Luiz Orlando Carneiro

"Deu no JB", copyright Jornal do Brasil, 8/9/01

"O gato como vítima ou vilão

Poucas reportagens de publicação recente provocaram tantas reações, por parte de leitores, como Doença de gatos preocupa Fiocruz, que mereceu chamada com foto na capa da edição do dia 1º. Além das cartas já publicadas na seção Dos Leitores, selecionamos outras duas, que aí vão, com a resposta da repórter.

De gatos e homens

‘De imediato me chamou a atenção a foto em destaque de um gato na primeira página da edição de 1º/9, porém ao ler a chamada veio a indignação com o enfoque dado. Quando li a matéria principal não compreendi o porquê do conteúdo da capa. Fica difícil, para quem não acompanha a realidade desse animal, o quando ele sofre, é perseguido, é vítima de preconceitos, entender que chamadas como essa só pioram o preconceito contra os gatos. Não é correto chamar a esporotricose de doença do gato. Ele pertence a uma das espécies, entre muitas, que adquirem essa doença, como relata a reportagem. Várias espécies, incluindo cavalos, gatos, cães, animais silvestres e o próprio homem, podem adquirir a esporotricose através do contato com a vegetação. Não sou contra a divulgação de estudos sérios, mas com critério e cuidado para não piorar a situação dos animais. O aumento do abandono não ajuda em nada o controle de doenças. Os animais de estimação devem receber atendimento veterinário gratuito, o que é inexistente. Cães e gatos têm contato direto com seus donos, que devem ser orientados sobre como tratá-los e como prevenir que peguem doenças transmissíveis ou não. Como nós humanos, os animais são seres vivos passíveis de adquirir doenças e merecem cuidados. No caso da esporotricose, uma medida profilática é a esterilização, que deixa o animal mais tranqüilo, longe das brigas. Falta empenho do poder público para realizar campanhas de esterilização e faltam locais de tratamento, como por exemplo postos de saúde que tenham salas de veterinária. Sempre foi preconizada a matança de cães e gatos para o controle de zoonoses, de forma cruel e desumana. Não há investimento no tratamento dos animais e na esterilização. Só promessas e nada mais’. Andréa de Jesus Lambert. Rio de Janeiro.

‘A esporotricose é uma micose causada por fungo (Sporothrix Schencki) que vive na matéria vegetal em decomposição. Ela é comum em pessoas que trabalham com plantas e terra – jardineiros, floristas, por exemplo. O fungo só contamina quando há uma lesão na pele, por onde ele penetra. Plantas tais como roseiras e cactus ou mesmo farpas de madeira apodrecida ou terra são as fontes de contaminação. Responsabilizar o já tão vilanizado pequeno felino pela esporotricose tornou a referida matéria tendenciosa. Enquanto a mídia deve informar, tem a obrigação de fazê-lo enfocando a absoluta verdade. O gato é vítima da doença e não vilão, e é assim que tem que ser apresentado. ‘A doença das rosas preocupa Fiocruz’ não seria então uma chamada em mais sintonia com a verdade para a reportagem?’. Ana Maria Yales, presidente da União Societária Protetora de Animais, Rio de Janeiro.

A repórter Lavínia Portella responde: o gato não foi apontado como vilão. Pelo contrário. Logo na segunda linha do texto principal, animal e homem são apresentados como vítimas. ‘Ambos estão sendo vítimas da esporotricose (...)’. As matérias coordenadas ressaltam a preocupação com o destino dos felinos. ‘Para os pesquisadores da fundação (Fiocruz) seria preciso promover campanhas educativas para que os moradores (...) não abandonem nem matem os animais’. A reportagem mostra ainda como o dono de um gato doente deve agir. A informação de que o contágio nem sempre está associado ao gato não foi omitida. No texto está clara a forma clássica de transmissão da esporotricose. ‘A esporotricose costuma ser adquirida por ferimentos causados no manuseio de vegetais ou no contato com a terra (...). Por isso, a esporotricose ganhou o nome de doença da roseira’. Os gatos, no entanto, têm papel relevante na reportagem justamente porque a Fiocruz constatou um aumento no número de casos em que a doença é transmitida pelo animal.

Mito

‘Na reportagem do Sr. Cláudio Figueiredo intitulada "Brasilianista que o Brasil esqueceu" (Caderno B, 21/8) afirma-se que o historiador inglês professor Charles Boxer ‘questionou o mito salazarista sobre a harmonia racial no império português’ e ‘desmontou’, através de trabalho editado em 1963, ‘a ideologia do Estado Novo português da época’. Lê-se e não se acredita. É simplesmente hilariante que sobre o povo que criou o ‘mulato’ sejam agora lançadas acusações de racismo. A integração racial no ultramar português não foi ‘mito salazarista’ ou ‘ideologia’ estadonovista como deseja o jornalista, mas política do Estado e incontestável realidade multissecular, praticada desde o início da gesta dos Descobrimentos, nos alvores do século XV. O Sr. Figueiredo qualifica Salazar de ‘ditador’. Será porque o estadista cortou o passo ao comunismo e às ideologias dissolventes? Porque exerceu a necessária e legítima autoridade dentro dos limites da moral cristã e do direito, ciente de que saem Deus, fora da pátria e da família não existe nada de válido, de autêntico, de duradouro?’. Marco Pinho de Escobar, Rio de Janeiro.

Polícia

‘No excelente editorial Fogos Cruzados, de 5/9, foi apontado o grave erro de um policial militar, no Rio Grande do Sul, cujo desfecho é simplesmente inacreditável: a morte de um jovem de apenas 16 anos e com um belo futuro de atleta pela frente. Questiona o texto, com muita propriedade, o treinamento dado às polícias por todo o país. Tem razão. Apenas para ilustrar, vai o exemplo: a Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu concurso. Idade mínima: 18 anos. Os aprovados farão curso de dois a três meses na Academia de Polícia. Aprovados, receberão uma arma, e irão combater o crime, enfrentando marginais calejados, ou tentarão decifrar crimes praticados por velhas raposas. Número de inscritos; 100 MIL. Escolaridade exigida: segundo grau. Com uma receita dessas, teremos algo proveitoso? Pela lógica, não. Entretanto, toda a sociedade ignorou o projeto de uma polícia eficiente, bem treinada e principalmente, agindo com inteligência, quando fez pouco caso para a luta desigual que se travou no Rio de Janeiro, entre os que queriam uma polícia com nível de terceiro grau, com idade mínima de 23 anos, e principalmente agindo a partir de conceitos modernos, freqüentando a universidade por pelo menos três anos, e os que acham isso um absurdo, como um deputado que, ao discursar contra esse projeto, alegou que ‘sem possuir nem mesmo o primário completo’ teve 70 mil votos. Por que motivo os policiais queriam terceiro grau?, perguntou. A opinião de um parlamentar reflete, teoricamente, a opinião de seus eleitores. Logo, estão reclamando de quê? A polícia que aí está é a que vai continuar a existir porque assim quer a sociedade. Inês é morta’. Aurilio Nascimento, Rio de Janeiro."



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