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FOLHA DE S.PAULO
Bernardo Ajzenberg

Crítica Interna, copyright Folha Online (www.folha.com.br)

"20/12/2002

Acerta a Folha ao não colocar na Primeira Página, como fez a concorrência, a foto de Lula com o sapato que ele ganhou ontem em Brasília para usar na posse. Já começa a se tornar um exagero, jornalisticamente, destacar tanto toda e qualquer atitude ‘diferenciada’ do presidente eleito. Em contrapartida, penso que o jornal deu menos destaque do que o merecido, na capa e em Dinheiro, para o noticiário relativo ao desemprego (dados sobre Grande SP e nova pesquisa do IBGE), conforme nota específica.

Primeira Página

A capa de Cotidiano (edição SP/DF) mostra que uma espécie de ‘tributaço’ vem sendo preparado pela prefeitura paulistana para 2003. Acho que o assunto merecia chamada na capa, tal como o aumento na tarifa de ônibus.

O sapato

Ainda mais numa edição relativamente ‘enxuta’ (cinco páginas), como a de hoje, chama a atenção que a nota ‘Pés trocados’, do Painel, conte basicamente a mesma história que a sub ‘Lula ganha de prefeito petista sapato de Franca’ (pág. A15), sobre o assessor (segundo a sub) ou segurança (segundo o Painel) de Lula, José Carlos Espinoza.

BNDES

O texto ‘Neonacionalista’, Lessa quer BNDES voltado à inclusão’ (Brasil, pág. A13) reporta declarações do economista indicado para presidir o banco sobre vários assuntos. Não traz nada, porém, a respeito de sua posição sobre eventual ‘ajuda’ do BNDES ao setor de comunicações, tema bastante polêmico e alardeado a partir de declarações de José Dirceu, tempos atrás, no sentido de considerar o assunto uma ‘questão de Estado’.

O mesmo texto informa que Lula sugeriu o nome do economista Paul Singer para a equipe de Lessa, mas não expõe nenhum dado a respeito do perfil dele. O leitor não sabe, obrigatoriamente, quem é Paul Singer.

E o Prona?

Ao noticiar a diplomação dos deputados eleitos, a retranca ‘PT confronta PSDB na Assembléia’ (pág. A13) não contém nenhuma informação sobre como fica a situação dos eleitos pelo Prona acusados de falsear domicílio eleitoral.

Acabamento

O abre ‘Vice de Lula diz que taxas de juros são um ‘assalto’ (pág. A13) traz como ilustração uma foto com a legenda ‘José Alencar... ao se despedir do Senado’. A dedução imediata do leitor é que o político disse aquilo ontem no Senado. Ocorre que ele o fez no Rio, na Confederação Nacional do Comércio. Olhando-se depois no crédito da imagem, vê-se que ela é de 11 de dezembro. Ora, já que o jornal não fez foto ‘quente’, por que a legenda já não deixa claro a data da imagem, em vez de confundir o leitor?

Imprecisões

1) Salvo engano, o nome do evento é Fórum Social Mundial, não Fórum Mundial Social, como está em ‘Teórico do PT, Tarso pediu a renúncia de FHC’ (pág. A14);

2) Na mesma página, o side ‘Lua-de-mel’ afirma que o jurista Evandro Lins e Silva teve traumatismo craniano provocado por uma queda ‘na área de desembarque’ do aeroporto Santos Dumont. Pelo que foi publicado até o momento, ele caiu ao tentar entrar num táxi e bateu a cabeça na quina da calçada, já fora do aeroporto. A verificar;

3) A letra I da sigla OSI, mencionada em ‘Luiz Gushiken é ‘guru’ e também ‘súdito’ de Lula’ (pág. A14), refere-se a Internacionalista, não a Internacional, como está no texto;

4) O abre de Esporte (‘Parreira é o preferido para assumir Brasil pós-penta’, pág. D1) informa que a pesquisa Datafolha foi feita ‘em todo o país’. Como assim? Foi em todas as capitais? Faltou clareza.

Maluf e Ronivon

1) Não vi na Folha informação de que o ex-prefeito paulistano foi inocentado no célebre caso dos frangos (saiu no ‘Estado’);

2) Não vi no jornal notícia de que o deputado Ronivon Santiago foi condenado por compra de votos e aliciamento de eleitores, caso levantado, inclusive, pela Folha (está no ‘Globo’).

Iraque/EUA

A edição de hoje sobre o assunto (Mundo, pág. A17) me parece cair em parcialidade. O abre é ‘EUA afirmam que Bagdá violou resolução da ONU’. A sub-retranca é ‘Chefe de inspetores critica dossiê’. Título da arte: ‘As omissões do Iraque, segundo os EUA’. Ou seja: três elementos claramente anti-Iraque. O ideal, neste caso, teria sido abrir a sub, inclusive no seu título, com a declaração do vice-presidente iraquiano (de que os ‘EUA buscam pretexto para um ataque...’), que está apenas no último parágrafo desse pequeno texto.

Bom?

É positiva a idéia de concentrar numa pequena arte, na capa de Dinheiro, as notícias boas e as ruins do dia. Observo, porém, que, ao encaixar como ‘lado bom’ do dia a declaração do futuro presidente do BC de que manterá a atual equipe do banco, o quadro ‘extrapola’. Bom para quem? Depende...

Diferentemente do que ocorre com as outras notícias que compõem a arte, todas elas dados objetivos (inflação, queda do dólar etc), a apreciação sobre o anúncio de Meirelles já é de ordem claramente subjetiva.

Subiu

Na tabela fixa da página B2, a taxa de juros básica (Selic) continua em 22%. Ela não subiu, anteontem, para 25%? Cabe atualizar.

Desemprego

A Folha reservou para o pé da página B11, esmagando-a entre anúncios e uma página de mercados, a notícia sobre o índice de desemprego do IBGE (‘No país, levantamento muda e aponta queda’). Independentemente do resultado, trata-se da primeira divulgação de dados sob a nova metodologia adotada pelo instituto para estimar o desemprego. Além disso, como diz o texto, o resultado mostra tendência oposta ao da metodologia anterior. Por esta última, o desemprego subiu na comparação entre novembro de 2001 e o mesmo mês de 2002 (de 6,4% para 7,1%). Pela nova, a taxa caiu (de 11,9% para 10,9%). Caberia material didático detalhado para explicar os motivos das diferenças, até para dissipar dúvidas sobre eventual manipulação estatística.

Quando vale?

O abre ‘Empresas de ônibus atuarão em até 3 áreas’ (Cotidiano, página C4) não informa para quando está estimada a entrada em vigor do novo sistema de organização do transporte coletivo paulistano.

19/12/2002

Num dia em que todas as manchetes vão para o expressivo aumento da taxa de juros (de 22% para 25%), sobressai-se ainda mais o extenso material da Folha sobre os dois mandatos de FHC -caderno especial de balanço, entrevista com o presidente da República e editorial de Primeira Página (ver notas específicas). É natural, numa edição como essa, que FHC receba primazia e destaque. Contei, porém, 17 fotos dele espalhadas ao longo da edição, o que me parece um exagero que poderia ter sido evitado.

‘Anos FHC’

O caderno representa evidente esforço de pesquisa e análise. Contém, acredito, o essencial daquilo que mais caracterizou a era FHC, a saber: as medidas implementadas no terreno da macroeconomia e suas consequências. Parece-me plasticamente bem resolvido. O ‘lidão’, na capa, tem o mérito de fazer, com relativamente poucas palavras, uma boa síntese jornalística de todo o período abordado.

Isso posto, acredito que o jornal poderia e deveria ter feito mais e melhor. Algumas observações:

1) Três assuntos, dentro da macroeconomia, foram a meu ver subestimados: a) o desemprego, que (não por acaso) aparece no ‘lidão’ sem a ‘tarja preta’ que marca os temas mais relevantes e que figura apenas ‘lá’ na página 12; b) a situação dos setores industriais, os quais não são mencionados no ‘lidão’ e recebem, como texto específico, apenas pequena retranca (sem arte) ao pé da pág. 10, além de breves referências no meio de textos da página 11 com enfoque na política cambial (Qual foi a evolução do número de falências e concordatas no período? Como evoluiu seu crescimento? Como se refletiu a enorme carga tributária sobre esses setores?); e c) o chamado ‘apartheid social’ (miséria, pobreza), registrado em sub-retranca da página 5 concebida só com base em dados do Ipea (leia-se do governo) problematizados de forma insuficiente --apenas ao pé de outro texto, na mesma página, por um pesquisador da FGV. Este tema, creio, exigia aprofundamento e maior exposição, inclusive por causa dos dados positivos (pouco difundidos) do Ipea (redução do número de pobres e indigentes). Ainda sobre ele: não há, no caderno, imagens (fotos) da miséria;

2) Um registro histórico e jornalístico do período, a meu ver, não poderia passar sem pelo menos alguns depoimentos sintéticos de personalidades expressivas de diferentes setores da chamada ‘vida nacional’ a respeito dele. Não há nenhum no caderno;

3) O jornal fez bem em abrir mão da tradicional e previsível cronologia dos fatos mais importantes, mas deveria ter colocado algo no seu lugar, algo que, de forma criativa e diferenciada, permitisse ao leitor uma visão de conjunto, ‘amarrada’, sobre os 8 anos;

4) Apesar de inevitável, a ênfase na macroeconomia, em especial nos seus aspectos financeiros, me pareceu exagerada. Itens como segurança (a página que traz esse chapéu, a 16, fala na verdade de violência (homicídios); a questão da segurança, como um todo, surge em sub-retranca, mas sem avaliações ou mesmo dados sobre a sua evolução) e os escândalos da ‘era FHC’ (pág. 17) estão deslocados, excessivamente comprimidos, como penduricalhos. Temas como habitação, cultura, ciência e tecnologia, ambiente e ecologia, minorias, comportamento -tudo isso foi simplesmente ignorado. Tal opção, além de ‘apagar’ realidades, contribui para tornar o caderno pouco atraente para boa parte dos leitores, privilegiando uma faixa restrita -embora obviamente essencial-deles. Lembro-me do caderno ‘Tempos tucanos’, que fazia o balanço do primeiro mandato, em outubro de 98, enfatizando ‘cultura, mentalidades, comportamento’. Por que não poderiam ter sido retomadas ao menos algumas de suas idéias sobre o que é fazer o balanço de uma ‘era’?

5) O texto ‘Menor inflação da história aumenta poder de compra’ (pág. 4) fala da inflação em junho de 94 (introdução do Plano Real) e comenta que, ‘naquela época, os EUA davam início a um forte ciclo de crescimento que durou quase dez anos...’. Como assim? Se esse ciclo começava ali (94), então não durou nem sete anos... A verificar;

6) O texto ‘Celular fica pop e país raciona energia depois da privatização’ (pág. 6) afirma que a divulgação das fitas do BNDES surgiu semanas depois da privatização do sistema Telebrás (julho de 1998). Na verdade, como está no quadro da página 17, a divulgação ocorreu em novembro de 98, portanto meses depois, não semanas;

7) O mesmo texto traz que os contratos de concessão nas telecomunicações são corrigidos pelo IGP-M. Já o quadro da pág. 7 informa que a referência é o IGP-DI. Em qual informação deve o leitor acreditar?

8) Faltou informação (básica) sobre as editoras, números de páginas etc. dos livros ‘Os Economistas no Governo’ e ‘Conversas com Economistas Brasileiros’, mencionados no abre da pág. 8 (‘Trânsito entre mercado e poder cresce na privatização’);

9) A sub-retranca dessa página, aliás, afirma que o jornal ouviu 40 ‘pessoas de destaque nos meios acadêmico, político e empresarial para tentar saber o que elas pensam quando se deparam com a palavra mercado’.

Excelente. Mas pergunto: por que só três delas são citadas no texto? Não teria sido muito interessante para o leitor conhecer a visão de ao menos a maioria dessas pessoas? Fica uma sensação de ‘água na boca’, de que o jornal guardou na gaveta um material saboroso...

10) Um reparo visual: vista isoladamente, como a maioria dos leitores faz, a página 10 traz no alto uma imagem absolutamente desfocada e até desagradável de FHC;

11) O texto ‘Indústria perdeu, mas manteve lucro’ (pág. 10) afirma que a receita líquida do setor subiu 108,3%, de R$ 207,4 bi para R$ 315,7 bi. Mas isso não dá 52% A verificar;

12) O mesmo texto diz que o lucro do setor subiu 9,4%, de R$ 16,3 bi para R$ 25,7 bi. Mas isso não dá 58%? A verificar;

13) Não vi no caderno reportagem sobre um dos aspectos mais comentados: o lucro dos bancos durante a era FHC;

14) Pequeno pastel no título ‘Plano Nacional não não (sic) atinge metas’, na página 16;

15) Na arte da contracapa (‘Alguns objetos de desejo’), mostra-se a evolução do número de funcionários da Daslu, sem nenhuma informação sobre o que esse nome significa. O texto -o único ‘mais leve’ do caderno, embora, de novo, voltado para a economia-- não menciona essa loja.

Cronologia

O 11o parágrafo de ‘PT diverge sobre mandato fixo para o BC’ (Brasil, pág. A6), afirma: ‘Depois da posse... o ímpeto petista (na discussão sobre o sistema financeiro) esfriou...’. Ele quer dizer depois das eleições, não da posse, certo?

EJ

Não vi na Folha notícia de que Eduardo Jorge foi condecorado ontem por FHC com a insígnia de Ordem Nacional do Mérito. O simbolismo e o significado político do ato são evidentes. Na edição de ontem o Painel adiantou que o evento ocorreria, mas isso não justifica a ausência de registro hoje.

Loteria

Um leitor reclama que o quadro na página C2 repete resultado publicado ontem da Dupla Sena (é um fato) e não traz o da Mega Sena de ontem, muito mais importante, segundo sua avaliação. A verificar.

Reação

Faltou ouvir a atleta Fabiane dos Santos, em ‘Brasileira é banida do esporte por doping’ (Esporte, pág. D6), ao menos para saber como ela reagiu à resolução --contra a qual, como esclarece o texto, não cabe mais recurso.

17/12/2002

Três jornais -Folha, ‘Estado’ e ‘Globo’-- deram manchete para as notícias positivas representadas pelo recuo do dólar, a queda do risco-país e a alta dos papéis da dívida externa (C-Bonds). A Folha é o único deles que, em sua chamada, não inclui como um dos fatores para esse ‘otimismo’ a receptividade globalmente positiva, pelo mercado, dos nomes indicados até agora para o próximo governo, inclusive para a presidência do BC. Esse fator está registrado, também, nas chamadas dos dois principais diários econômicos.

Boas Festas

Na ‘seção’ ao pé do Painel do Leitor que registra os votos recebidos pelo jornal consta, dentre várias pessoas jurídicas e/ou políticas, um certo ‘Daniel (São Paulo, SP)’. Ficou esquisito. Quem será ele?

Moda?

O ‘esteta óptico’ Miguel Giannini é conhecido há pelo menos 20 anos como fornecedor de óculos para a elite paulistana, incluídos artistas, políticos, celebridades em geral etc. Embora ele já tenha aparecido no jornal várias vezes, a Folha demonstra desconhecimento daquele fato ao chamá-lo de ‘oculista da moda’ no side ‘novo visual’ (‘Lula faz encomenda a oculista da moda’, Brasil, pág. A11), sobre os novos óculos do presidente eleito. Neste caso, me parece mais uma questão de grife (como usar um Armani, por exemplo) do que de algo que esteja ‘na moda’.

Marina versus Rodrigues

Registro para reportagem do ‘Estado’ que mostra sinais de divergência entre os futuros ministros do Meio Ambiente (Marina Silva) e da Agricultura (Roberto Rodrigues) sobre a questão dos transgênicos.

Kissinger

Não me parece ter ficado claro, na mídia, o que quer dizer concretamente o ‘conflito de interesses’ alegado por Henry Kissinger para deixar de presidir a comissão ‘independente’ designada por Bush para investigar questões de segurança relacionadas às causas dos atentados de 11 de setembro. Ele é consultor de empresas de segurança que teriam supostamente falhado? Se é isso, por que ele, com toda sua experiência, figura histórica, aceitara o convite inicialmente? O assunto ressurge hoje parcialmente em Panorâmica na página A15. Creio que, de alguma forma, dada a relevância do personagem em questão, valia a pena retomá-lo.

Bósnia

Não vi na Folha notícia de que ontem, ao ser interrogada em sessão do tribunal internacional em Haia, a ex-presidente servo-bósnia Biljana Plavsic se declarou culpada de crime de ‘limpeza étnica’.

Sísifo

1) Faltou a idade e perfil mais detalhado do deputado federal petista em ‘Waldir Pires deve ir para Corregedoria’ (Brasil, pág. A5);

2) Faltou a idade de Yuri Budanov em ‘Coronel russo é considerado insano’ (Mundo, pág. A14).

Inflação

A reportagem ‘IGP-M dá sinais de desaceleração no mês’ (Dinheiro, pág. B4) afirma que esse índice serve para determinar os reajustes anuais em contratos firmados pelo governo com as concessionárias de energia elétrica e telefonia. Na pág. B6, porém, o jornal informa (em ‘Telefônica rejeita mudança tarifária’), se entendi bem, que o índice para os reajustes é o IGP-DI. Qual é a informação correta?

Maçã com banana

Uma foto de comércio de camelôs ilustra a reportagem ‘Paulistano se endivida na compra de Natal’ (Dinheiro, pág. B6). O conteúdo do texto, porém, diz respeito a compras com cartão de crédito e cheques pré-datados no comércio varejista tradicional, com base em dados oficiais da Fecomércio. Não tem nada a ver com os ambulantes.

Sem registro

Chama a atenção na tabela ‘Infância sem documento’ (Cotidiano, pág. C3) o forte aumento entre 1999 e 2000 da taxa de crianças sem registro de nascimento nos casos do Sudeste e do Sul, depois de igualmente nítidas quedas entre 1997 e 1999. Não encontrei, porém, nenhuma explicação para isso no texto da reportagem (‘Mais de um quinto dos bebês não é registrado’).

Para reflexão

Encontro na Folha Sinapse dois fenômenos de tratamento editorial parcial, num assunto evidentemente delicado e polêmico: religião.

São eles:

1) Por que na interessante reportagem de capa (‘Crianças que não dizem amém’) só os boxes sobre o catolicismo, o judaísmo e a umbanda são acompanhados de ilustrações fotográficas, em detrimento dos boxes sobre o islamismo, o budismo, o protestantismo e o candomblé? Qual foi o critério?

2) A sessão ‘Caminho das pedras’ (págs. 14 e 15), dedicada nesta edição à Bíblia, ficou a cargo de Frei Betto. Tudo bem. Suas recomendações de leitura sobre o tema (item 12), porém, me parecem tomadas por certa unilateralidade. Não incluem, por exemplo, salvo engano meu, obras que estudam a Bíblia ou aspectos dela de um ponto de vista ateu, histórico ou estritamente científico --mesmo que seja apenas como referência. Basta ver as livrarias e editoras comentadas (Vozes, Loyola, Paulinas, por exemplo).

É um direito do autor, obviamente, indicar aquilo que considera adequado a partir de suas concepções. Mas, neste caso, em nome do pluralismo, entendo que caberia ao caderno produzir alguma complementação de sugestão bibliográfica. Algo bem mais amplo filosoficamente e ideologicamente do que o ‘Dicionário da Bíblia’ (Jorge Zahar) ou o ‘Guia Literário da Bíblia’ (Unesp), também sugeridos, registre-se, pelo autor.

Aviso

Devido a palestra que proferirei em Belo Horizonte, não haverá crítica interna amanhã, quarta-feira.

16/12/2002

O fim de semana, nos jornais, foi de Lula -o presidente chorão--, com a diplomação no sábado, e de Robinho, com a preparação da final e a conquista do Brasileiro ontem. ‘Época’ e ‘Isto É’ já saíram com suas retrospectivas. Chama a atenção o caderno especial de domingo do ‘Globo’ com 20 páginas sobre a ‘era FHC’, em especial as quatro com entrevista concedida pelo presidente da República, o qual deu pingue-pongue também à ‘Isto É’. Memorável, no ‘O Dia’ de hoje, a imagem da governadora eleita do Rio, Rosinha Garotinho, fantasiada de índia durante apresentação, ontem, de seu grupo de dançaterapia.

Edição de segunda-feira, 16 de dezembro

Hoje ou amanhã?

Em dois momentos (parágrafos 1o e 7o), o texto do abre da pág. A4 (‘Foro privilegiado pode afetar 4.753 ações contra políticos’) informa que o projeto de lei sobre o tema deverá ser votado no Senado hoje. Num terceiro momento (final do 8o parágrafo), afirma que a votação está prevista para amanhã. Em qual informação deve o leitor acreditar?

Sísifo

1) Faltou a idade e o perfil de Silvano Gianni, indicado para presidir o Sebrae a partir de acordo Lula-FHC, conforme revela o abre da página A6 (‘Acordo Lula-FHC troca cúpula do Sebrae’);

2) Difícil encontrar legenda mais insossa e burocrática do que a da foto de José Dirceu na pág. A8 (Brasil): ‘O deputado José Dirceu (PT), futuro ministro-chefe da Casa Civil’.

Desvio?

Parece obscura a explicação do advogado do PT para justificar ‘erro de contabilidade’ ou ‘falha de planejamento’ no ato irregular revelado pela reportagem ‘Sindicatos doaram dinheiro à campanha de Benedita’ (Brasil, pág. A6).

Dá a entender que as doações foram feitas em caráter pessoal por dirigentes sindicais --não pelas entidades--, mas usando cheques destas últimas. Ora, então eles desviaram dinheiro das entidades para uso político pessoal? É isso? Se for, vale retomar o assunto.

Chico Mendes

O líder seringueiro foi assassinado em 1988, não em 1998, como está no abre da entrevista com Marina Silva (Brasil, Entrevista da 2a, pág. A7).

Vale

Registro para manchete do ‘Valor’ de hoje, sobre a possível venda, pelos acionistas estrangeiros, de sua parte na Vale do Rio Doce.

È curioso que essa notícia seja publicada ao mesmo tempo em que, na Folha, o abre da pág. B4 (‘Rendimento da Vale já supera 100%’), em tom otimista, afirma: ‘a Vale só da notícia positiva’.

Didatismo

1) Esse último texto (sobre a Vale), aliás, fala em ‘governança corporativa’ sem explicar o que essa expressão, que começa a virar moda, significa;

2) Senti falta de didatismo, também, na retranca ‘Gore desiste de disputar a Presidência em 2004’ (Mundo, pág. A11). Só quem acompanha sistematicamente a política norte-americana entende a afirmação: ‘Nas eleições de 2000, Gore teve mais votos do que o presidente George W. Bush. Porém perdeu no Colégio Eleitoral’. Sei que não é, mas que, para o leigo, parece contraditório, parece.

Edição de domingo, 15 de dezembro

Campanhas

Está errado o ‘preço do voto’ de Tarso Genro (PT-RS) na tabela ‘O peso do poder econômico na eleição dos governadores’ (Brasil, pág. A14), referente à reportagem que virou manchete do jornal. Fazendo as contas, a relação entre o custo da campanha e o número de votos obtidos dá 1,31 e não 0,31, como está ali. A verificar.

Primeira Página

Merecia chamada na capa a entrevista com o norte-americano David Clohessy, diretor da Rede de Sobreviventes de Abusos por Padres (‘Vítima de abuso pede reforma na Igreja’, Mundo, pág. A24). É um material exclusivo, bastante ‘forte’ e impactante.

Governo(s)

Parece-me inapropriado o título ‘Governo é o culpado pela crise, diz Varig’ (Dinheiro, pág. B4). Ele dá a entender que a empresa se refere ao atual governo (FHC), quando, como o lide deixa claro, fala-se, na verdade, da responsabilidade dos vários governos que se sucederam nos últimos vinte anos. No momento em que se publicam balanços da ‘era FHC’, esse título é delicado, quase enganoso.

Narcotráfico

O texto que abre a página C3 registra que a rede criminosa liderada pelo traficante Leonardo Dias Mendonça movimentou, segundo a PF, pelo menos R$ 15 milhões nos últimos dois anos. Na capa do caderno, porém, o texto que abre essa reportagem noticia que só em uma operação, neste ano, Mendonça e seu irmão ‘acertaram a venda de 3.000 kg de cocaína (...) a um preço estimado de US$ 25 mil o quilo da droga refinada’. Isso daria US$ 75 milhões! Parecem dados que não combinam. A verificar.

Sísifo

Faltou a idade de Ruddy Facci, o especialista em medicina do trabalho entrevistado em no pingue-pongue ‘Brasil sedia encontro sobre saúde do trabalho’ (Cotidiano, pág. C9).

Edição de sábado, 14 de dezembro

Registro histórico

O texto de abre da Ilustrada (‘Memórias sentimentais de Oswald de Andrade’) registra, de modo indireto, que o livro ‘Memórias Sentimentais de João Miramar’, do autor modernista, foi publicado no primeiro semestre de 1923.

Pelos dados de que tenho conhecimento, isso aconteceu em 1924. A verificar."

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