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FOLHA DE S.PAULO
Bernardo Ajzenberg
"Crítica Interna", copyright Folha Online <www.folha.com.br>
22/03/2002
Nova decisão polêmica da Justiça relacionada a eleições é o tema da manchete da Folha (edição SP): ‘STF restaura anistia a multa eleitoral’. O ‘Estado’ (‘PFL radicaliza e passa a agir como oposição’) elege a crise política entre PSDB e PFL para destaque, mesma opção do ‘JB’ (‘Roseana repete marido ao explicar dinheiro da Lunus’). Só o ‘Globo’ privilegiou tema econômico: ‘Sucesso na venda de ações da Vale limita uso do FGTS’.
Erramos errado
O terceiro ‘Erramos’ de hoje afirma que o orçamento do BNDES para este ano é de R$ 28 milhões. São R$ 28 bilhões, certo?
Fotos e legendas
1) A luminária sobre a cabeça do tucano pode simbolizar a sutil e irônica indicação de uma auréola angelical. OK. Mesmo assim, nem a qualidade da foto nem a notícia justificam o tamanho dedicado ao boneco do deputado Márcio Fortes na pág. A4 (Brasil). Houve exagero;
2) A legenda da foto de Serra na pág. A6 dá a entender que se trata de uma imagem quente (‘O senador... chega ao Senado’), coerente com o texto da reportagem, sendo que no crédito aparece a data de 13/03/02. Será que a Folha precisava recorrer a material de arquivo neste caso, em plena campanha?
3) Impossível deixar de observar, aliás, o contraste entre essa foto --de um Serra sorridente, triunfante-- e a da pág. A10, em que o virtual candidato petista, Lula, aparece de modo absolutamente infeliz.
PFL/PSDB
1) Passados dois dias, acho estranha a ausência de declaração do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, a respeito do discurso de José Sarney. Ele se recusa a falar sobre o assunto? Não vale a pena ir atrás? Aliás, o senador licenciado parece ter resolvido sair da frente dos holofotes. Alguma coisa tem...
2) Faltou no texto ‘Roseana endossa Murad e ataca 'hipocrisia'‘ (Brasil, pág. A5) remissão para nota de Mônica Bergamo, na Ilustrada, sobre o vazamento da foto do R$ 1,34 mi, tema de chamada na capa;
3) Faltaram asteriscos (** e ***) na arte ‘A pesquisa CNI/Ibope’ (pág. A6), o que dificulta a compreensão de suas legendas. Registre-se o contraste entre a apresentação do levantamento pela Folha (‘Pesquisa aponta queda de tucano’) e a feita na capa do ‘Estado’ (‘Roseana cai, rejeição aumenta’). Neste caso, sem dúvida, tem razão a Folha. A notícia principal é a queda do pré-candidato tucano em relação ao levantamento feito logo após a apreensão do dinheiro na Lunus.
Outro lado
O ‘outro lado’ do Planalto e do PSDB está ausente na reportagem ‘Propaganda do governo é alvo de ação da oposição’ (Brasil, pág. A10).
Sísifo
Faltou a idade do governador mineiro em ‘Itamar diz que 'quebrou a cara' com a oposição’ (Brasil, pág. A10). Informação relevante, ainda mais que o texto menciona a possibilidade de encerramento de sua carreira política.
Comum ou incomum?
Ao pé da reportagem ‘ABL não consegue eleger substituto de Roberto Campos’ (Brasil, pág. A11), afirma-se que ‘não é incomum’ haver mais de uma eleição para uma mesma cadeira na Academia. Para comprovar a afirmação, mencionam-se dois exemplos: um de 1922 e um de 1923. Já que não é incomum, não haveria mais casos, ou ao menos alguns mais recentes? A impressão que se tem, com a lembrança apenas desses casos, é justamente o contrário: deve ser bem incomum. Ficou esquisito.
Acnur
Dois textos na pág. A14 (Mundo) tratam a Acnur como sendo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Até onde sei, essa sigla se refere ao Alto Comissariado da ONU para refugiados. São organismos diferentes.
Sem informação
Leitores do interior de SP e de outros Estados contataram o ombudsman para reclamar da ausência de noticiário, na edição nacional, a respeito do médico de adolescentes acusado de abuso sexual em São Paulo. Realmente, não deu para entender por que o assunto (publicado na pág. C7 da edição SP) não entrou na primeira edição, já que a prisão ocorreu no início da tarde de ontem.
Quórum na Unicamp
Segundo o noticiário (‘Na Unicamp, professores votam mais’, pág. C9), era bem reduzido até o final da tarde de ontem o número de votantes no colégio eleitoral para escolha do novo reitor da universidade (apenas 1.700 de um total de 33 mil, ou seja, 5,2%). Logo vem a dúvida, que o jornal não responde: há um quórum mínimo para que o pleito seja validado?
Comentário
Recebo do repórter Kennedy Alencar, via SR, a seguinte explicação referente à nota ‘Não só a Folha...’, da crítica interna de ontem: ‘A respeito do comentário de que o 'JB' trouxe no sábado a mesma informação que a Folha sobre o convite para o PMDB dar o candidato a vice de Serra:
1) Essa informação foi furo da Folha, dada em manchete no dia seguinte ao lançamento de Serra como candidato, em 18 de janeiro;
2) No último sábado, a manchete da Folha foi além do que está no 'JB' do mesmo dia. Trazia 'on' do presidente do PMDB, o deputado federal Michel Temer (SP), falando das propostas de FHC de aliança eleitoral e de maior participação no ministério atual. Mostrava que se tratava também de proposta para dar ao PMDB maior espaço no eventual governo Serra, até com acordo para as presidências das duas casas do Congresso.
O convite para vice é um tópico factual, melhor detalhado no sábado pela Folha, com informação sobre a iminente visita de José Aníbal, presidente do PSDB, para formalizar politicamente um ponto de uma articulação muito mais ampla.
Na prática, FHC e cia. trocam o PFL pelo PSDB. Desde o ano passado, a Folha saiu na frente ao ver na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado uma prévia da briga eleitoral, mostrando que o PMDB ou o PFL acabariam sobrando na briga para serem os parceiros preferenciais dos tucanos a partir de 2002;
3) É levando em conta a complexidade dessa articulação que se justifica ‘o antecipado pela Folha no sábado’. Como é justo reconhecer furo dos outros, é justo também reconhecer os nossos.’
Não questiono que o jornal tenha antecipado, no ano passado e em 18 de janeiro, a tendência de o PMDB se tornar aliado preferencial numa candidatura Serra. Tampouco que o texto de sábado na Folha fosse mais abrangente e completo do que o do ‘JB’. Afirmei apenas -e basta ler os jornais para constatá-lo-- que a informação dada pela Folha nesse dia, de que a vice será do PMDB e de que FHC atuou na articulação desse acordo, está também no ‘JB’ do mesmo dia. Se a Folha deu a manchete ao assunto (‘FHC oferece vice de Serra ao PMDB’), certamente não foi por causa da ‘complexidade da articulação’, mas sim pelo fato em si --por mais ‘tópico’ que ele possa ser considerado. Não fosse assim, o correto seria classificar essa manchete como uma notícia ‘requentada’.
21/03/2002
Mais uma vez se evidencia uma tendência de diferenciação entre os jornais paulistas, de um lado, e os cariocas, de outro, quando dois temas ‘fortes’, sendo um econômico e o outro político, disputam as atenções do dia. Folha (‘Juros caem só 0,25 ponto percentual’) e ‘Estado’ (‘Cauteloso, BC corta juros em 0,25 ponto’) destacam em manchete assunto de macroeconomia, enquanto ‘Globo’ (‘Sarney defende filha e pede que a ONU fiscalize eleições’) e ‘JB’ (‘Sarney acusa Serra de espionagem’) privilegiam a política. Destaque para o editorial de primeira página das Organizações Globo no diário carioca e no coirmão paulistano (‘Diário de S.Paulo’) com vistas a explicar a operação de capitalização da Globo Cabo. As críticas pegaram forte.
Discurso de Sarney
Não diria manchete, mas certamente o pronunciamento do senador, pelo momento político, pelo valor simbólico e pelo conteúdo, merecia mais destaque do que recebeu na Primeira Página. Corpo maior no título, três colunas -alguma solução mais contundente do que a aplicada. Isso não quer dizer que a Folha tenha sido cruel com Sarney. Ao contrário, foi o jornal que mais lhe outorgou espaço (a começar pela divulgação da íntegra) e o único que não destacou no texto principal de apresentação do discurso (pág. A4) a ausência de explicação sobre a origem concreta do R$ 1,34 mi, tendo-se limitado, o pai de Roseana, a repetir genericamente o que já foi dito pela família (verba de campanha). Algumas observações:
1) Não se publicou a idade do ex-presidente, informação relevante, até porque ele próprio mencionou no discurso estar ‘velho’;
2) Segundo nota de José Serra, os processos em que ele é réu mencionados no discurso dizem respeito a decisões do Conselho Monetário Nacional, do qual participara como ministro do Planejamento. Ora, na retranca ‘Senador cita dois processos em que tucano é réu’ (pág. A4), o jornal diz que um dos dois se refere a uso indevido de avião da FAB em viagem a Fernando de Noronha. Quem errou? O ministro ou a Folha?
3) A Folha informa que, quanto a FHC, Sarney fez menção ao caso Cosipa (acusações de fraude), mas não informa que fez menção também ao pedido de processo de impeachment (ainda pendente) levado ao Congresso por um grupo de juristas por causa da questão da compra de votos na reeleição (a coluna Janio de Freitas, pág. A5, ‘puxa’ o assunto);
4) O texto ‘Citações de Sarney são 'alopradas', diz Serra’ (pág. A6) assume duas versões conflitantes para a ausência do senador do PSDB no plenário do Senado durante o discurso. No sexto parágrafo se diz que ele queria ir mas ‘foi demovido da idéia por assessores e pelo PSDB’, por razões políticas (temor de um bate-boca). Três parágrafos depois o texto explica que ele só não compareceu porque achava que o evento ocorreria às 18h e não no meio da tarde, e aí, quando se liberou de compromisso em SP, não havia mais tempo. Qual é a versão correta?
5) Sarney é apresentado como senador por SP no lide do abre da pág. A-4. Ele o é pelo Amapá, certo?
6) Na apresentação da íntegra faltou explicar que o documento não inclui algumas frases emitidas de improviso. Quem acompanhou o pronunciamento percebe ausências (por exemplo, a leitura em inglês de frase da ‘The Economist’ e a explicação sobre a autoria do célebre poema ‘quando vieram buscar os comunistas...’);
7) Senti falta da avaliação do discurso pelo presidente do PFL, Bornhausen, figura importante na crise política atual. Ele não quis se pronunciar? E Roseana?
8) Mais do que um suposto elogio à imprensa, a frase de FHC (‘no Brasil quem vigia as eleições é a mídia’, abre da pág. A5) ou é brincadeira ou hipocrisia. Merece comentário. Assim como não é Polícia ou Justiça, a mídia não tem poder para tanto nem deve assumir como responsabilidade a fiscalização de eleições. Seria cair numa armadilha. E a Justiça Eleitoral?
Não só a Folha...
O texto ‘PSDB convida PMDB a indicar vice de Serra’ (pág. A16) atribui à Folha a antecipação, no sábado, da informação de que o PSDB decidira trocar o PFL pelo PMDB como parceiro principal na sucessão. A informação foi dada também, no mesmo sábado, pelo ‘JB’, em reportagem intitulada ‘Vice é do PMDB’.
Qual é a acusação?
O jornal não informa, em ‘Ministro afasta o procurador federal do DNER’ (pág. A17), qual foi concretamente a improbidade administrativa atribuída ao funcionário. ‘Valer-se do cargo em seu proveito próprio’, como está escrito, é muito genérico.
Custo da prisão
Arte no abre de Cotidiano informa ser de R$ 8,6 milhões o custo unitário das ‘penitenciárias compactas’ construídas pelo governo paulista. Já o texto de abre da pág. C3 (‘Desativação do Carandiru opõe secretários’) fala em R$ 6 milhões. Em qual número deve o leitor confiar?
Alaska e minorias
Está no mínimo incompleta a explicação dada na matéria ‘EUA farão novo consulado em SP’, pág. C11, para a escolha (por concorrência pública) de uma empresa do Alaska para a construção da nova sede da representação dos EUA na cidade. Diz-se que essa escolha ‘...se deve à política de incentivo às minorias do governo americano’, e ponto. Como assim? Trata-se de um escritório de arquitetura formado por hispânicos, negros ou homossexuais? Não deu para entender.
A convite da Globo
Ao pé da reportagem ‘Globo 'ataca' a parceria do SBT nos EUA’ (Ilustrada, pág. E12), afirma-se que a reportagem ‘viajou ao Rio a convite da Globo’. Tudo bem, pela transparência; melhor do que não dar a informação. Não coloco em questão a lisura do texto publicado, mas pergunto: o jornal não tinha condições de bancar uma viagem para o Rio? Não teria sido o mais indicado neste caso? Ficou estranho.
Serviço de saúde
Na seção ‘Pergunte aqui’ (Folha Equilíbrio, pág. 3), um leitor indaga se ‘as fibras reduzem a absorção de cálcio e vitaminas’. Só depois de uma longa explicação (14 linhas) a respeito da importância das fibras é que o texto da resposta vai ao ponto (e para isso se reservam três linhas de texto). Sobre vitaminas, diz que não há alterações. OK. Sobre cálcio, afirma que ‘grandes quantidades de fibras’ reduzem sua absorção. Creio que o principal, neste último caso, acabou sem resposta clara: o que quer dizer ‘grandes quantidades’? Salvo engano, o ideal, na seção, é produzir indicações as mais precisas e objetivas diante das questões provenientes dos leitores. No caso, isso acabou faltando.
20/03/2002
Com exceção do ‘JB’ (‘Rio tem 1.067 homicídios em 2 meses’), os principais jornais dão manchete hoje para a aprovação, pelos deputados, da prorrogação do imposto do cheque. Folha: ‘Câmara aprova CPMF com atraso’; ‘Estado’: ‘Com apoio do PFL, Câmara aprova CPMF’; ‘Globo’: ‘CPMF passa na Câmara mas PFL ainda ameaça no Senado’. Só o concorrente local não deu, na capa, foto dos golfinhos em Ipanema (Rio), optando por outro fenômeno da natureza: o ‘aquecimento’ da Antártica, destaque, diga-se, no alto da Primeira Página do ‘New York Times’.
Votação da CPMF
Creio que está OK a cobertura da votação na Câmara (Brasil, pág. A4). Três pequenas observações:
1) Como se comportaram os parlamentares tidos como aliados de Sarney no PMDB ou no PFL? O dado é qualitativamente interessante para averiguar o isolamento (ou não) do ex-presidente. Por falar nele, é pena que a Folha sonegue aos seus leitores o conteúdo de reportagem dada ontem pelo ‘Valor’ sobre o diálogo travado por Sarney pai e Sarney Filho no fim de semana. O fato de já ter sido publicado, ainda mais em jornal econômico, não impedia, neste caso, a meu ver, a reprodução (foi o que fizeram, diga-se, os concorrentes);
2) Qual foi o deputado do PT que se absteve (aliás, a única abstenção na votação)? Dado curioso, também ausente; 3) O quadro ‘Como votaram os partidos’ informa que a bancada pefelista tem 96 deputados. Já o texto ‘Após atrasar projeto, PFL tem 80 a favor’ fala em 95. Pelas contas, são mesmo 96.
Inversão
Salvo engano, há uma inversão no sétimo parágrafo da coluna Janio de Freitas (Brasil, pág. A5). Presumo que onde se lê ‘...porque o serviço passara de semanal a mensal...’ deve-se ler ‘...porque o serviço passara de mensal a semanal’. A verificar.
Didatismo
1) ‘Brindeiro sugere que TSE libere as alianças estaduais’ (Brasil, pág. A5) apresenta o protagonista do texto como ‘procurador-geral eleitoral’. Está assim em todos os jornais. E nenhum explica para o leitor comum por que o procurador-geral da República é também ‘eleitoral’;
2) ‘FHC pede ajuda para obter foro privilegiado’ (Brasil, pág. A11) menciona o ex-presidente argentino Carlos Menem como exemplo, sem informar quando foi o seu mandato;
3) Mais uma vez, repetindo um erro cometido na edição de sábado, o jornal publica reportagem que menciona a introdução de um novo sistema de telefonia, o GSM, sem explicar minimamente as suas particularidades (‘Anatel prevê o dobro de celulares neste ano’, Dinheiro, pág. B8).
Posse de Bush
Afirma a reportagem ‘Israel e EUA oferecem concessões em troca de trégua’ (Mundo, pág. A12) que o presidente norte-americano ‘assumiu o poder em janeiro’. Foi nesse mês, sim, mas do ano passado, certo?
Sem serviço
O texto ‘Lojas de R$ 1,99 trocam 'chinês' por nacional’ (Dinheiro, pág. B10) menciona, no pé, que está ocorrendo uma feira para lojistas de R$ 1,99 em São Paulo. Por que não dar ao menos alguma indicação de onde ela ocorre (ficha técnica)? Afinal, mesmo não-lojistas podem, de alguma foram, querer entrar em contato com a ‘categoria’.
Conta ou cota?
O abre de Dinheiro (pág. B1) faz referência a uma tal CCC como sendo ‘conta consumo de combustíveis’. Já a retranca ‘Consumidor pode bancar perda de empresa da Enron’ (pág. B3) ‘traduz’ a sigla como ‘cota de consumo de combustíveis’. Sendo ou não apenas um erro de digitação, o fato é que são dois conceitos diferentes, e os textos não deixam claro qual seria a denominação correta, mesmo por dedução. Prevalece a confusão.
Como é possível?
O texto ‘Beira-Mar, mesmo preso, controla tráfico em favelas dominadas pelo CV’ (Cotidiano, pág. C3) não mostra como isso pode acontecer. O traficante tem telefone celular? É permitido que o utilize quando quer? Como é possível? Não dá para entender.
Acabamento
1) Faltaram as idades de 1) Leonardo Mendonça (‘Comerciante indiciado pelos EUA responde a processo em liberdade’, Cotidiano, pág. C3), 2) José Américo Dias (‘Jornalista é novo secretário de Abastecimento’, Cotidiano, pág. C5) e 3) Sven Vath, DJ alemão destacado na capa da Ilustrada;
2) Sobre este último, aliás, afirma-se na apresentação de sua entrevista que dois anos antes de começar a tocar discos (1981) ele ‘tinha ido à (sic) Ibiza pela primeira vez’. Tal feito (ir a Ibiza, a ilha espanhola) é repetido na arte ‘cronologia’ como tendo ocorrido em 1980. Afora a pequena discrepância de tempo (um ano versus dois anos), fica no ar uma pergunta: o que existe em Ibiza do ponto de vista da música eletrônica? Por que terá sido relevante informar que ele esteve em Ibiza? Não há qualquer explicação.
19/03/2002
Folha (‘Governo tenta votar CPMF hoje na Câmara’) e ‘Estado’ (‘FHC: o PFL vai ajudar a aprovar CPMF hoje na Câmara’) destacam nas manchetes o primeiro teste político de FHC no Congresso desde a cisão PFL-PSDB. Na manchete do ‘Globo’ (‘Brasil critica 'tom desequilibrado' usado por representante da ONU’), uma informação já dada pela Folha ontem. No ‘JB’, destaque para pesquisa interessante de cunho sociológico: ‘País explora menores domésticas’. A reportagem mais saborosa do dia, no campo da política, fica por conta do ‘Valor’: transcrição de conversa telefônica entre os Sarney (pai e filho) flagrada pelo repórter ‘por acaso’ durante o fim de semana.
Pela metade...
A informação é básica, mas não está no texto ‘Governo tenta votar CPMF com oposição e parte do PFL’ (Brasil, pág. A4): quantos deputados tem na Câmara o partido de Bornhausen (o número absoluto -94-- até aparece em reportagem sobre outro assunto, na pág. A6)? Qual o seu peso percentual? E o dos demais partidos? Quantos votos do PFL bastariam para aprovar a CPMF? Faltou pensar mais no leitor.
Petista ou pefelista?
Depois de informar que a proposta de investigação da arapongagem foi feita pelo líder do PT na Câmara, João Paulo Cunha, o texto ‘PFL insinua desembarque de CPI do grampo’ (Brasil, pág. A6) afirma, no sexto parágrafo, que ‘...nem a oposição na Casa se entusiasmou com a proposta do pefelista (sic)’.
PFL/PSDB
A coluna Mônica Bergamo traz nota com aspas do procurador do TO desmentindo (em oposição ao diretor-geral da PF) que sua instituição tivesse admitido ter ‘vazado’ para a imprensa a fotografia do R$ 1,34 mi. Ótimo. A meu ver, merecia até alguma menção em chamada da Primeira Página. Fazia falta. Mas pergunto: por que o jornal não consegue aprofundar o assunto?
Voto de Caetano
O título ‘Caetano se diz entre Lula e Ciro’ (Brasil, pág. A6) parece forçar a barra. No texto, fica claro que o compositor baiano foi mais ‘sabonete’ do que parece, não descartando, também, votar em Serra. Essa (in) definição do artista fica reforçada pelos textos da concorrência, que reúnem os três candidatos no seu leque de opções. A verificar.
Altos e baixos
Depois de publicar um dossiê no domingo e duas páginas ontem sobre as prévias internas do PT, o jornal hoje traz informação pífia a esse respeito. Limita-se a mostrar o resultado global parcial (pág. A8), quando todos sabem que o mais relevante é saber 1) se o alcançado por Suplicy está abaixo ou acima da expectativa e 2) como foi o desempenho dos dois pré-candidatos nos diferentes Estados ou regiões. A Folha não responde a nenhuma dessas questões. O ‘Estado’ traz dados interessantes a respeito (por exemplo, Suplicy chegou a 23,6% no PR), enquanto o ‘Valor’ publica tabela completa (por Estado) dos resultados obtidos até agora.
Acabamento
1) Não há nenhuma contextualização em ‘Dono da Fence atribui preço 8,3% mais alto a 'custos operacionais'‘ (Brasil, pág. A6). Um leitor que não tenha lido nada sobre o assunto antes dificilmente será capaz de entender qual é a relevância dessa notícia e até mesmo do caso;
2) Dois textos usam siglas sem mostrar o que significam: STJ em ‘Procuradoria move ação contra juiz’ (pág. A7) e TSE, em ‘PT retoma negociação com PL e quer PSB’ (pág. A8);
3) Faltaram as idades de Tarso Genro, em ‘Prefeito quer ampliar base do partido’ (Brasil, pág. A9), e de Fernandinho Beira-Mar, em ‘EUA indiciam Farc e brasileiros por tráfico’ (Mundo, pág. A11);
4) O último parágrafo de ‘Fome no país é inaceitável, diz relator’ (Mundo, pág. A10) fala em ‘aplicação dos direitos dos homens...’. São direitos humanos, certo?
5) Panorâmica na pág. A13 (Mundo) informa que ‘...a Confederação dos Trabalhadores da Venezuela determinou uma 'hora zero' amanhã para decidir sobre a convocação de uma greve geral no país’. O que é uma ‘hora zero’? Faltou esclarecer;
6) O jornal menciona a ‘...preparação para o GP Brasil’ sem informação de quando esse evento ocorrerá (‘FIA e times discutem mudanças na F-1 para cortar custos em 2003’ (Esporte, pág. D4).
Superficial
Faltou um ‘para entender o caso’ na reportagem ‘Juiz quebra sigilo bancário de EJ e Padilha’ (Brasil, pág. A7). Quais são, concretamente, as supostas irregularidades? Qual o montante envolvido no total? Qual é a origem dos precatórios?
Leitor confuso
Mania que aparece no jornal: dar no texto informações contraditórias que poderiam, no entanto, ser checadas, evitando confusão na cabeça do leitor. É o caso de ‘Energia emergencial pode custar até R$ 16 bilhões’ (capa de Dinheiro). Um entrevistado, crítico do governo, afirma que são sigilosos os contratos entre a Comercializadora Brasileira de Energia Emergencial e os empresários do setor. Mais adiante, o presidente interino dessa entidade afirma exatamente o contrário (‘estão à disposição para quem quiser ver’). Ora, por que a reportagem não fez um teste para tirar a questão a limpo (pedir para ver um contrato, por exemplo), em vez de deixar o assunto no ar?
Decisão do Fed
Se o que está escrito no jornal em ‘Fed deverá trocar tendência dos juros do país para neutra’ (Dinheiro, pág. B3), a saber, que a decisão do banco central americano sai hoje à tarde, então merece Erramos o texto ‘Fed e Copom decidem juros na quarta-feira’, página B5 da edição de ontem, segundo o qual só amanhã seria divulgada a decisão sobre os juros dos EUA.
Didatismo
A retranca ‘Negócio precisa ser aprovado pelo governo’ (Dinheiro, pág. B5) afirma que ‘a SDE concluirá até a próxima semana parecer em que definirá o mercado relevante de chocolates no país’. O que é ‘mercado relevante’, expressão que aparece duas vezes no texto? Não há nenhuma explicação.
Números
Parece haver contradição de dados entre o que está nos textos e o que se informa na arte da capa de Cotidiano (‘Justiça de SP sofre sexto atentado’). Afirma-se que seis fóruns já foram atingidos; na arte só aparecem cinco (São Vicente, Guarujá, Osasco, Barra Funda e Itaquera). Afirma-se, no texto, que quinze prédios do poder público já foram atingidos por atentados. Na arte, contam-se 11, pois houve mais de um atentado contra um mesmo edifício (Secretaria da Administração Penitenciária). Quais são os números corretos?
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