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ECOS DA GUERRA
Robert Fisk

"A guerra causa estranhos efeitos nos jornalistas. Um colega meu – normalmente, um homem reflexivo e racional – mudou nos dias anteriores à Guerra do Golfo. Era uma guerra moral, exclamava sem parar. Não tentávamos libertar o Kuwait por sua riqueza petrolífera, mas pela obrigação do Ocidente de enfrentar os ditadores. Ser partidário da paz não era mais que contemporizar.

E quando os jornalistas apareceram em massa no Grande Hotel de Pristina este mês, seguindo o Exército da Otan, não era difícil distingui-los. Alguns chegaram vestidos de militares; outros – incapazes de prescindir de suas experiências no Golfo – entravam no hotel, invadido pelas baratas, preparados para o deserto, sem dar-se conta de que os Bálcãs estão cobertos de árvores. E, claro, também apareceram os indignados, esses jornalistas que haviam conseguido convencer-se da justeza da guerra e da perversidade do inimigo.

Já antes do avanço da Otan, David Chater, da Sky Television – um valoroso jornalista que foi gravemente ferido na Croácia no início da guerra da Iugoslávia –, nos dava lições sobre a razão moral do conflito; quando chegou a Djakovica e Pec, à frente das tropas italianas, anunciou que havia ‘uma sensação de medo e um cheiro de maldade...’. Vejamos: gente que cheira a maldade sempre me preocupa um pouco. Pode-se apalpar o mal e cheirar suas horríveis conseqüências, mas suspeito que as pessoas que acreditam poder cheirar a maldade precisam de férias. Ou que alguém lhes recorde de que não são sacerdotes.

‘Máquina assassina’

O outro lado desse afã moralista pode ser muito desagradável. Em Belgrado, por exemplo, um jornalista da CNN deixou seus colegas atônitos depois que a Otan bombardeou uma estreita ponte na aldeia iugoslava de Varvarin e matou dezenas de civis, muitos afogados no Rio Morava. ‘Isso os ensinará a não ficar nas pontes’, rugiu. Em suas transmissões, não usava esse tipo de linguagem, claro; a informação da CNN sobre as mortes na ponte foi acompanhada da observação de que se registraram baixas civis, ‘de acordo com as autoridades sérvias’, embora a equipe tenha estado no local e filmado o corpo decapitado do vigário local.

Mas o que importa tudo isso, se a advertência crítica da CNN de que suas próprias informações procedentes de Belgrado estavam sujeitas a ‘certas restrições’ conseguiu destruir a credibilidade de seus repórteres? Todos os profissionais de TV sofriam um monte de restrições por parte dos sérvios, mas por acaso a Otan permitia que os jornalistas andassem pela base de Aviano para entrevistar os pilotos que regressavam dos bombardeios? Não havia várias restrições em nossas informações sobre a Otan e todos os seus mecanismos?

Não que fizessem muita falta em Bruxelas: a maioria dos jornalistas destacados para a sede da Otan se mostrou tão passiva, tão entregue aos generais e oficiais das Forças Aéreas que a Aliança bem que podia ter imprimido suas perguntas por antecipação.

Houve exceções; mas quase todos se deixaram usar como porta-vozes pelo Exército, foram ovelhas que emitiam os balidos correspondentes cada vez que a Otan noticiava os bombardeios e transmitiam as devidas desculpas quando essas bombas matavam civis. Quando os aviões destruíram um hospital em Surdulica, os correspondentes se deram por vencidos e deixaram de refutar as declarações de Jamie Shea, inclusive quando afirmou – faltando à verdade – que o hospital era um quartel.

Desafiar a autoridade é parte do trabalho de um jornalista. E questionar os que os representam em tempos de guerra é um dever, ainda que seja difícil, na democracia. Os jornalistas sérvios, em geral, tinham medo – ou eram demasiadamente servis para criticar Milosevic. Mas isso não significava que nós tivéssemos que nos comportar do mesmo jeito. Entre os jornalistas da Otan, nenhuma alma tentou pôr em xeque as incríveis afirmações sobre os êxitos militares frente ao 3º Corpo do Exército iugoslavo em Kosovo; afirmações que demonstraram ser um monte de mentiras. Não haverá em tudo isso uma lição?

Sequer se pôs em dúvida a linguagem da Otan, que exumou aquela velha expressão da Guerra do Golfo, ‘danos colaterais’; e ninguém se opôs ao uso de ‘campanhas aéreas’ para falar dos bombardeios da Otan, como se centenas de MiG-29 estivessem atacando nossos valentes pilotos de bombardeiros. Por que alguém iria se opor se as notícias da guerra – pela primeira vez na história recente – foram dirigidas, quase que por completo, a um público de imprensa sensacionalista?

Talvez Shea citasse Hobbes e Shakespeare, mas o que deu o tom de sua relação com a mídia foram suas petulantes referências ao apagão das luzes de Belgrado e suas comparações entre Milosevic e Al Capone. Foi uma guerra para o povão, e quanto mais vivas fossem as expressões de horror de Shea diante das fossas comuns encontradas em Kosovo, mais claro parecia estar o conflito. A mensagem era muito simples: a Otan bombardearia a Sérvia até que a ‘máquina assassina’ de Milosevic terminasse seu ‘genocídio’ contra os albaneses e permitisse que os refugiados voltassem para casa.

Ficou ignorado o fato de que quase todos os refugiados estavam vivos e em suas casas quando a Otan iniciou a guerra – essas denúncias sobre as fossas foram uma prova de que a Otan havia fracassado no intento de proteger a população pela qual supostamente havia empreendido a ação.

Os bombardeios da Otan levaram uma espécie de paz a Kosovo, mas só depois de haver dado aos sérvios a oportunidade de aniquilar ou despojar a metade da população de etnia albanesa na província, haver causado prejuízo no valor de bilhões de dólares na infra-estrutura da Iugoslávia, haver matado centenas de civis iugoslavos, haver desestabilizado a Macedônia e prejudicado as relações com a China. E esta é a guerra que, segundo os meios de comunicação, alcançou seus objetivos.

Atraso providencial

Como de costume, apelou-se à Segunda Guerra Mundial. Milosevic era Hitler, os sérvios eram tão maus como os nazistas e os albaneses perseguidos se converteram nos judeus de Kosovo. Quase todos os editoriais seguiam uma argumentação comum: não podemos contemporizar com os tiranos de Belgrado. E agora se pode ver outro argumento: as fossas comuns provam que os sérvios eram malvados (como quando Chater cheirava o mal) e que tudo o que fez a Otan, incluindo a matança de todos esses civis sérvios, estava justificado.

O que nenhum jornal mencionou é a diferença fundamental entre o acordo de paz que os sérvios se negaram a assinar em março – que haveria permitido que as tropas da Aliança se movessem com liberdade por toda a Sérvia e haveria dado aos albano-kosovares uma cláusula com a possibilidade de optar pela independência ao fim de três anos – e a versão suavizada que pôs fim à guerra, e que restringe as atividades da Otan a Kosovo e insiste em que a província continue parte da Sérvia. Nenhum jornalista fez a pergunta óbvia: se o mundo houvesse oferecido isso aos sérvios logo de início é possível que eles tivessem aceitado? Poderíamos ter evitado a guerra?

Não obstante, entre os indignados e os cordeiros, havia algumas mãos firmes, e a cobertura de Sky Television me pareceu, com certeza, a mais equânime. A educada atitude militar de Jeremy Thompson com seus entrevistados conseguiu que o assassino sérvio Arkan se sentisse incomodado, e Keith Graves – um lobo com pele de lobo – destruiu a Otan quando viu que eram as tropas francesas que organizavam a passagem dos saqueadores albano-kosovares nas ruas de Graca.

Entretanto, há outra história relacionada à CNN que ainda não foi explicada. Dois dias antes de que a Otan bombardeasse a sede da televisão sérvia em Belgrado, a CNN recebeu o aviso, de seu quartel-general em Atlanta, de que iriam destruir o edifício. Disseram-lhes que retirassem seu equipamento do local imediatamente, e assim o fizeram. No dia seguinte, o ministro sérvio da Informação, Aleksander Vucic, recebeu por fax um convite dos Estados Unidos para aparecer no programa de Larry King (na CNN). Queriam que entrasse ao vivo às duas e trinta da madrugada de 23 de abril, e lhe pediram que chegasse à televisão sérvia meia hora antes, para ser maquiado.

Vucic se atrasou. Para sorte dele, já que os mísseis da Aliança caíram sobre o edifício às 2h6. O primeiro explodiu na sala de maquiagem, onde o jovem ajudante sérvio morreu queimado.

A CNN assegura que foi uma coincidência, e afirma que o programa de Larry King, que pertence à divisão de programas, desconhecia as instruções que os responsáveis pelo jornalismo haviam dado a seus homens de abandonar o edifício de Belgrado.

Hummm!"

"O discutível trabalho dos jornalistas em Kosovo", publicado em The Independent, copyright El País, 30/6/99 (tradução M.C.)

 

JORNAIS
Cláudio Lachini

"Quando Deus acabou de fabricar o mundo, tratou logo de o repartir entre os viventes. Convocou a todos, desde o elefante ao mosquito e foi mostrando as maravilhas que havia obrado, indagando de cada um qual o lugar que escolheria para habitar.

O elefante respondeu que se contentava com uma selva; o cavalo, com um prado; a águia, com uma das regiões do céu; a baleia, com um dos oceanos; o cisne, com uma lagoa; e o bagre, com um rio, e a rã, com um charco. O homem, deixado por último por ser o primeiro, disse contentar-se com toda a Terra, o que, sinceramente, lhe parecia pouco.

O narrador dessa fábula antológica, o jesuíta Baltasar Gracián (El Criticón, Ediciones Cátedra, Madri, 1996), relata que os circunstantes ficaram atônitos de tão exorbitante ambição, se bem que ao ato da criação não faltou o puxa-saco de praxe. Este disse ao ouvido do Senhor que o desejo humano nascia de seu ânimo e grandeza.

O astuto Deus foi generoso, elegendo o trabalho em virtude: o homem, entre outros predicados que lhe atribuiu, teria que penetrar nas entranhas da terra para buscar o ouro a fim de satisfazer a sua cobiça; teria que empinar edifícios babélicos para desafogar a sua soberba; e, ainda, sulcar os mares, para recolher pérolas, corais, âmbar, e adornar o seu bizarro desvanecimento. Mas alertou: ‘Oh homem! Isto há de ser feito com a ente e não com o ventre; como pessoa, não como animal. Senhor hás de ser todas as coisas criadas, mas não como escravos delas; que te sigam, não que te arrastem. Tudo haverás de ocupar com teu conhecimento e meu reconhecimento...’

A leitura tardia de Gracián, um autor restrito a sua época (século 17) pelo temor a sua própria ordem religiosa, leva-nos a algumas reflexões sobre o conhecimento e as formas de o transmitir, pois é com ele que o homem sempre evoluiu, na escola clássica, no ensino secular, na escola da vida, nos escritos cuneiformes, nos pergaminhos, nos livros, nos jornais, nas revistas e nos meios criaturas do século 20: o rádio, a televisão e. nos dias de hoje, nas embalagens eletrônicas associadas às telecomunicações.

O desenvolvimento da telemática dissemina o conhecimento em escala global. Perdida na Babel e na balbúrdia, a mídia impressa está derrapando na subtração do leitor. A Internet é uma desculpa esfarrapada para publicações que estão perdendo seus leitores, não porque está decretada a morte da palavra impressa sobre o papel, mas sim porque os meios estão perdendo conteúdo e se tornam repetitivos da informação que foi ofertada ao cidadão em velocidades instantâneas.

Há quase um quarto de século, quando dávamos os primeiros passos para conceber o que veio a ser o mais importante jornal de economia, finança e negócios do Hemisfério Sul, assistimos à renúncia do presidente dos Estados Unidos ao vivo, pela televisão. Naquela noite, antevíamos as manchetes da dita grande imprensa na manhã seguinte: ‘Nixon renuncia; Ford assume’ ou ‘Gerald Ford é o novo presidente americano’. Consumimos as primeiras horas da madrugada debatendo qual seria a forma correta de enfocar a notícia na Gazeta Mercantil. Glauco Carvalho, um dos editores que está no jornal até hoje, foi quem criou a manchete: ‘Especula-se em Wall Street’, correndo uma análise do comportamento dos mercados internacionais de finanças e de commodities.

O meio jornal está se desconectando do interesse de seus leitores. Em artigo publicado há poucos meses em O Estado de S.Paulo, Mathew Doull, presidente da Hollinger Digital, empresa de investimentos de risco dos proprietários da revista britânica The Spectator, registra: ‘De fato, a indústria de publicações parece às vezes estar fazendo mais do que qualquer outra pessoa ou instituição para desencorajar a compra dos próprios produtos impressos, ao transmitir seu conteúdo de graça, pela Internet, em vez de usá-la, como fez a Amazon, para vender mais cópias da versão impressa’.

As pessoas vão continuar lendo, sejam jornais, sejam livros ou revistas, desde que esses meios agreguem informação e conhecimento. O mundo será ocupado pelo conhecimento, como decifrou Gracián na fábula sobre os desígnios divinos. A indução ao raciocínio continuará sendo, ainda por muito tempo, primazia ao papel – dos jornais, dos livros, das revistas. Doull, em seu lúcido artigo já citado, diz que os jornais têm mais a temer que os livros ou revistas, mas ‘surpreendentemente menos que a televisão’. A Internet é que está roubando público da TV, que confunde doença com anomalia, e em seu cenário aberto expõe uma sociedade vacilante ao seu próprio e deprimente espetáculo.

Curiosamente, é bom registrar, a corrida para chegar na frente não deve sonegar as informações ao leitor, mas também torna o jornal impróprio para publicar, simplesmente, notícias envelhecidas pela televisão na noite anterior, se a elas não acrescentar o raciocínio ou um conjunto de dados que possam contribuir para que o homem tudo ocupe com o seu conhecimento.

Neste momento, reduzir o tamanho dos jornais significará tornar a linguagem ainda mais telegráfica ou diminuir a quantidade de informações disponibilizadas para o leitor. A economia de papel certamente contribuirá para agir sobre os custos e pagar a conta dos anabolizantes de marketing introduzidos nos últimos anos. A tripa de leitura fácil na classe econômica dos aviões pode até virar moda.

Mas esse não é a verdadeira questão. Qual é o novo papel do jornal?

As pessoas que buscam a informação que tem credibilidade e conhecimento imprescindível para entender um mundo liberado, internacionalizado e que gira na velocidade hertziana sabem o que querem e saberão entender a mensagem.

As facilidades tecnológicas disponíveis também para a produção de anúncios, seu envio ao veículo, paginação e impressão, garantem a permanência de jornais de diversas dimensões, sem custos adicionais além do conhecimento. O que, de certa forma, responde à dúvida levantada pelo filósofo italiano Umberto Eco, quando diz que o jornal, talvez, deva acreditar na capacidade quase biológica que o circuito da informação pode ter para curar as mesmas feridas que inflige à sociedade."

"Sobre o circuito da informação", copyright Gazeta Mercantil, 11/6/99

 

Renata Lo Prete

"Há uma semana, a Folha informou a seu leitor que, a partir do próximo dia 6, ele estará manuseando um jornal 2,54 cm – ou uma polegada – mais estreito.

A Secretaria de Redação avisa que outras reportagens sobre o assunto serão veiculadas até a data da mudança, à qual devem aderir 77 das 96 publicações de formato ‘standard’ filiadas à ANJ (Associação Nacional de Jornais).

É bom saber que o aviso de domingo passado não foi o único, pois nele havia marketing demais e esclarecimento de menos. A Folha terá a oportunidade de ser mais transparente da próxima vez.

O texto não omitiu a origem do estreitamento das páginas para 31,75 cm (a altura de 56 cm será mantida). Nele está escrito, com todas as letras, que a medida se deve ‘à necessidade de as empresas jornalísticas reduzirem seus custos com consumo de papel’.

O problema foi o esforço, tão perceptível quanto artificial, de assegurar ao leitor que ele não apenas nada perderá, como também sairá ganhando com o formato ‘diet’. O quadro ‘As Razões da Mudança’ relacionava, junto a ‘custos’, ‘praticidade’ (‘os jornais serão mais facilmente lidos em locais públicos’) e ‘modernização gráfica’ (‘o novo formato vai facilitar a modernização visual dos jornais, que busca facilitar sua leitura’.Nesse item até as palavras foram repetidas, tão pouco havia a dizer).

Igualmente mal resolvido foi o empenho em introduzir a novidade como ‘tendência adotada em outros países’. De fato é, mas, para invocar esse argumento, é necessário apresentar números. Dizer apenas que ‘o prestigioso Washington Post adotou o formato’ não resolve. Alguém poderá responder que o mais prestigioso dos jornais, The New York Times, optou por manter sua largura.

Com base no que tenho ouvido, sugiro ao jornal que aborde claramente, em suas próximas menções à mudança do dia 6, a questão do preço.

Mais de um leitor já perguntou se ele vai cair junto com a polegada. A questão pode parecer primária para os jornalistas e para a empresa, mas não o é para o público. Então, é preciso explicar.

Por fim, um reconhecimento. Não sei que adaptações serão feitas em outros jornais. Mas pude verificar, em páginas-teste, que a Folha está adotando uma série de providências gráficas para preservar a qualidade de leitura e, ao mesmo tempo, reduzir ao mínimo a perda de texto (a previsão é de cerca de 3%). Alimentar essa preocupação e explicitá-la ao leitor valem mais do que qualquer promessa de satisfação garantida.

O custo do papel, especialmente depois da desvalorização do real (a produção brasileira não supre mais do que 40% das necessidades do mercado), é razão mais do que concreta para fundamentar o estreitamento das páginas.

O leitor pode compreender isso. Basta que a abordagem seja a mais direta possível, para que ele não se sinta enrolado. Não vejo problema em mencionar a praticidade, desde que como subproduto possível da mudança, e não como causa. Se o novo formato vai ou não ‘tornar o manuseio mais prático e confortável’, só o leitor poderá decidir."

"Uma polegada a menos", copyright Folha de S.Paulo, 27/6/99

 

Tácito Costa

"Nos últimos anos os jornais impressos se voltaram em demasia para os aspectos gráficos e deixaram em segundo plano a parte editorial. Esse desequilíbrio está na origem da atual crise vivida pelo jornalismo impresso, que vem perdendo os leitores antigos e não consegue atrair os novos. A discussão sobre o assunto tem provocado alguns equívocos. Entre eles, associar a crise atual com a Internet. Ela é anterior. Seu início pode coincidir, isso sim, com o desenvolvimento da televisão. A Internet agravou uma situação que já vinha se deteriorando lentamente.

Na tentativa de contornar a crise, os jornais têm apelado para muitas ‘mágicas’. Inicialmente, tendo a frente o USA Today (EUA), partiram para fazer um jornal o mais próximo possível da televisão, com abusos de cores, infográficos e textos telegráficos. Assimilaram também o que a TV tem de pior: o espetáculo, o emocionalismo rasteiro e a superficialidade.

O simulacro não deu certo. O próprio USA Today reviu sua estratégia e está fazendo um jornal com menos efeitos especiais. No entanto, a maioria dos jornais brasileiros continua insistindo nesse modelo.

Também achou-se que o problema era de ordem visual. Chamaram os designers que tornaram os jornais parecidos com aquele quadro de Miró, O Carnaval do Arlequim. Em 38, Miró escreveu um artigo no qual descrevia a gênese deste quadro. Na ocasião, chegou a afirmar: ‘Para O Carnaval do Arlequim fiz muitos desenhos nos quais expressei as alucinações provocadas pela fome’.

As fotos, ilustrações e infográficos passaram a ter preponderância sobre o texto. Chegamos ao absurdo de ter fotos imensas – na maioria das vezes completamente desnecessárias – e textos minúsculos, apenas porque a projeto gráfico assim exige. Estamos hoje sob a ditadura dos ditos ‘projetos gráficos’. Não se trata de desconhecer os avanços e benefícios gráficos que ocorreram nos últimos anos, mas sim de dar-lhes a dimensão exata que têm.

Ao mesmo tempo, foram sumindo das páginas as reportagens bem escritas. O texto que unia profundidade e elegância. Nos cadernos antes voltados às artes a Literatura foi banida. Foi decretada a expulsão da crônica, do ensaio, do conto e da poesia dos chamados segundos cadernos. Puxe pela memória e tente adivinhar qual foi a última vez que você leu um poema num jornal diário. A Literatura, que sempre caminhou junto com os jornais diários, está circunscrita aos jornais culturais editados com apoio de governos e instituições – mais de dez governos estaduais bancam seus jornais culturais – e revistas como a Bravo, Palavra e Medusa, entre outras.

É fato: os jornais melhoraram na forma e pioraram no conteúdo. Na ânsia de agradar a todos, presta um serviço de qualidade questionável e desagrada também a todos. Baixou o nível e não conseguiu os leitores que imaginava atrair.

Como os brasileiros adoram soluções miraculosas, inventaram os brindes acompanhando as edições. Virou febre. Mas está provado que também não adianta. Enquanto os brindes estão sendo distribuídos, os jornais aumentam suas tiragens, mas voltam ao que era antes tão logo a campanha é encerrada. Apenas um exemplo para ilustrar: a Folha de S.Paulo, mesmo com a brindemania viu cair sua tiragem de mais de 1 milhão para 750 mil exemplares por dia.

Com a entrada em cena da Internet, a luz vermelha que já tinha piscado com a chegada da televisão foi novamente acesa. E penso que nesse momento o perigo é bem maior, porque além de oferecer o mesmo oferecido pelos jornais, ela leva uma vantagem: trabalha em tempo real.

Mas somente agora, depois de colher os insucessos com todas as mudanças tentadas nos últimos anos, setores do jornalismo impresso começam a se dá conta de que a saída é bem mais simples do que se imaginava. Passa pela valorização do texto, do conteúdo. Se era tão simples porque não se atentou para isso antes? Elementar, meu caro Watson, diria Sherlock: os gênios da comunicação precisavam ganhar seu dinheiro e como novidade sempre seduz, taí o mar ideal em que embarcaram quase todos.

Não existe mágica ou pirotecnia para pelo menos se manter as tiragens nos níveis atuais. É só investir em recursos humanos. Bons profissionais é sinônimo de bom trabalho. Como a notícia em tempo real já é dada pela Internet e em seguida pela TV e o rádio, só resta ao jornal partir para oferecer matérias investigativas, analíticas, aprofundadas, bem escritas, contextualizadas, textos opinativos conflitantes, onde o leitor possa ter os diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto. Aí estão as principais vantagens frente a Internet, que pode até oferecer o mesmo, só que é muito difícil ter quem agüente mais de uma hora frente ao computador sem ficar exaurido visualmente. Sem falar na vantagem que, por enquanto, os jornais ainda levam com relação a Internet, de poderem ser lidos nos mais diversos locais.

Equipes menores e mais qualificadas, menos notícias e mais reportagens, podendo daí até surgir um jornal com menor número de páginas, mas com muito mais qualidade é a saída. Por ser tão óbvia cegou a todos. E o fundamental: não esquecer de devolver a palavra ao espaço que lhe foi usurpado."

"Jornais precisam recuperar a palavra", copyright Tribuna do Norte (Natal, RN)

 

CIMEIRA
Flávia Sekles

"Washington – No Washington Post de ontem, uma enorme matéria sobre o Brasil ilustrava a primeira página da sessão Style: Tiazinha, em toda sua glória sadomasoquista, com trajes mínimos prateados e o chicote na mão. Sobre a cimeira, no entanto, não havia sequer uma linha no principal jornal da capital americana. As edições de ontem do The New York Times e The Wall Street Journal também não tinham matérias sobre o encontro. Os três jornais são os principais formadores de opinião dos Estados Unidos .

‘Isso diz mais sobre a tendência editorial da imprensa americana do que sobre a importância da reunião,’ disse ontem ao Jornal do Brasil Richard Feinberg, ex-assessor para América Latina do Presidente Bill Clinton, atualmente professor da Universidade da Califórnia em San Diego e especialista em questões comerciais. Na costa leste, lembrou Feinberg, o Los Angeles Times publicou uma matéria no último domingo sobre a Cimeira, e em San Diego, o Union Tribune também noticiou a reunião entre a Comunidade Européia e Mercosul.

Em Miami, o Herald Tribune, muito ligado à América Latina, publicou algumas matérias ao longo dos últimos dias noticiando que a reunião estava acontecendo. Jornais mais especializados em questões comerciais e internacionais como o Financial Times e Journal of Commerce, foram mais fiéis e freqüentes na cobertura do evento.

A sensação, nos Estados Unidos, de que nada mudou substancialmente, foi fortalecida ontem pela Declaração do Rio, que em seus princípios gerais é muito similar às declarações de conclusão das reuniões de cúpula da Área de Livre Comércio das Américas entre os Estados Unidos e os países da America Latina e Caribe, realizadas nos últimos cinco anos em Miami e em Santiago, Chile.

‘A Declaração reafirma ponto a ponto metas que são parte importante da agenda dos EUA para a América Latina, como a liberalização econômica, abertura de mercados, boa governância, luta contra corrupção e o desenvolvimento social sustentável’, disse Feinberg. ‘Isso pode não representar notícia, mas é importante e positivo da perspectiva americana.’

Se a reunião representa algum problema para os EUA, talvez seja um sinal de fumaça à distância. ‘O sinal é que, enquanto Washington não consegue se organizar para fazer uma negociação comercial séria com a América Latina (através da aprovação do fast track pelo Congresso), a região, mesmo durante um momento difícil como este, tem outros pretendentes sérios no horizonte capazes de ver que a América Latina é uma economia diversificada e com muito potencial’, diz Feinberg. ‘Os Estados Unidos não podem perder esse trem.’"

"Silêncio na mídia americana", copyright Jornal do Brasil, 30/6/99

 

Jornal do Brasil

"O início das negociações entre a União Européia, o Mercosul e o Chile para a criação de uma área de livre comércio foi o principal assunto da imprensa européia na cobertura da Cimeira. A ausência dos Estados Unidos e o crescimento dos laços entre Europa e América Latina nos últimos anos também tiveram destaque nos noticiários sobre o encontro.

O jornal espanhol El País e o francês Le Monde deram grande importância à reunião. Em grandes matérias, ambos destacaram os benefícios que a área de livre comércio entre os dois continentes pode gerar e a polêmica questão sobre o protecionismo francês em relação aos produtos agrícolas. A manchete do El País de ontem falava do comprometimento, dos países da UE, do Mercosul e do Chile em criar sem prazo definido uma área de livre comércio. Outro destaque do diário espanhol foi a ausência americana. Em matéria intitulada ‘Europa e América Latina falam sem contar com os Estados Unidos’, o jornal classifica a Cimeira como uma ‘reunião histórica sem a presença dos EUA’.

O tradicional jornal parisiense Le Monde também deu grande destaque à ausência americana e aos esforços europeus para conter a influência do Tio Sam na América do Sul. Citando uma declaração do ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, ao Jornal do Brasil, sobre as tensões nas relações entre as Américas, o diário destacou a aproximação européia com os latino-americanos.

A Cimeira ganhou espaço nobre também nos jornais Die Welt, da Alemanha, The Guardian, da Inglaterra, e O Público, de Portugal. Este trouxe declarações de Antonio Guterres, nas quais o primeiro-ministro português alertava que, se a Europa não for rápida, ‘outros vão andar mais rapidamente’ – referindo-se aos Estados Unidos."

"Imprensa européia dá destaque", copyright Jornal do Brasil, 30/6/99

 

Alberto Dines

"Em Português nos Entendemos era o nome de um inteligente programa da TV lusitana. Precursor da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, criada em 1993 pelo embaixador José Aparecido de Oliveira e, hoje, engavetada), pretendia mostrar que além do inglês, há outra língua franca, falada e entendida por quase 200 milhões de pessoas nos quatros cantos do planeta.

Apesar da crença de que estamos unidos pelo mesmo idioma, jornais e jornalistas brasileiros ainda espantam-se com o nome de Cimeira dado à reunião dos Chefes de Estado da América do Sul, Caribe e União Européia. O Itamarati explicou que a designação é deferência aos irmãos portugueses, sinônimo de cúpula, cume, cumeeira. É na verdade, uma deferência ao idioma dos dicionários cada vez menos falado entre nós.

Há tempos recebi a carta de uma leitora de Minas que, à maneira de elogio, disse que lia-me com um dicionário ao lado. Perturbador. Ou, para ser melhor compreendido – desbundante.

A Rede Globo lançou-se recentemente na defesa da nossa identidade cultural diante da possibilidade da entrada (formal e ostensiva) de capitais internacionais nas empresas de comunicação. Como se até agora Disney, Murdoch, Time-Warner-CNN, CBS e outras já não andassem por aqui. Esqueceram o patuá das telenovelas, agressão cotidiana ao idioma, símbolo nuclear da nacionalidade. O tatibitate dos personagens-jornalistas de Andando nas Nuvens – telefolhetim que antecede o Jornal Nacional – representa a imagem e padrões da imprensa que se pretende passar à sociedade. É também uma amostragem do universo vocabular daqueles profissionais que deveriam ser os polinizadores da cultura.

Não chega a surpreender: nossa visão de identidade é produzida por uma aplastrante motoniveladora que só funciona ao rés-do-chao. Pretendemos que nossos adolescentes sejam eternos adolescentes, que as mulheres só pensem em malhação e que as massas sejam confinadas à ‘cultura popular’. Curiosamente, esta opção elitista e reacionária é compartilhada tanto pelas esquerdas como pelas direitas. É também a única capaz de ser captada pelos radares mediáticos, operados por aquelas e comandados por estas.

O que nos leva ao Star Wars – Episódio 1. O seu lançamento no Brasil tem sido mais badalado do que a Cimeira. Dir-se-á que trata-se de imposição comercial, milionária campanha de anúncios. Nada disso: é deslumbramento mesmo. Para ser inequívoco: babaquice e basbaquice. Cretinização convertida em sistema. Gratuita, de borla.

Através da sucessão de ondas, febres, manias, modas cria-se um mecanismo de submissão novidadeira. Convocação para a inutilidade logo substituída por outra e outra. Oposta ao natural desenvolvimento de percepções, juízos, convicções. A mobilização voluntária da mídia em torno de Star Wars é um dos sinais da robotização das vontades e gostos, aparentemente apolítica mas profundamente política nas suas conseqüências.

Esta Cimeira, Cúpula, ‘Cumbre’ ou ‘Summit’ que agora começa está sendo encarada erroneamente como evento. Não é. Deve ser vista como marco de um processo e processo compreende uma seqüência de transformações. A civilização ‘eventual’ (tão disseminada entre nós que já criou a profissão de ‘produtor de eventos’) fabrica apenas espasmos, sem consistência nem conseqüência.

A globalização ou mundialização da economia não pode ser revogada por leis nem embargada por liminares. Trata-se de um processo ancestral, iniciado quando o homem resolveu chegar à linha do horizonte empurrado pela curiosidade e audácia. Não chegou. Em compensação, a humanidade espraiou-se pelo mundo.

O apogeu do processo deu-se no século XV e fomos seus beneficiários passivos, logo em seguida, quando Cabral aqui aportou. Agora, quase cinco séculos depois, estamos sendo convocados para dele participar ativamente, como protagonistas. É um bonde (ou elétrico, como se diz em Portugal) que não podemos perder. Não faz sentido ficar de costas para o mundo. Ele vinga-se, passando ao largo. Para que isso não aconteça, é essencial mudar o olhar, a perspectiva.

Aqui, voltamos à imprensa, mídia ou os media (como também se usa dizer em Portugal). Nossa cobertura internacional é, de maneira geral, pífia. O cidadão brasileiro tem uma visão tangencial e episódica do que ocorre no exterior. Fascinados com nosso umbigo esquecemos do resto.

O velho axioma de que um morto na esquina é mais importante do que mil mortos no Uzbequistão é simplista, ilusório e perigoso. A própria história do jornalismo está impregnada pela busca do que se passa além-muros, além-fronteiras, além-mar. Os Avizzi venezianos ou as cartas que a rede mundial dos jesuítas enviava à Casa Fuggler mostram que o mundo move-se em função do mundo. Notícia é alavanca: para o conhecimento e ação.

O enxugamento e desprestígio do noticiário internacional na mídia brasileira na última década, é responsável por avultados prejuízos. Não são apenas informações que deixamos de receber. São experiências e impulsos vitais que não chegam, ou chegam esmaecidos, e não conseguimos processar. Somos obrigados a reinventar a roda e amargar revezes que poderiam ser evitados. Desconectados ou mal conectados, rebaixamos nossos padrões de exigência em matéria de cultura, ficamos de fora de alguns circuitos criativos e nos resignamos ao espírito provinciano e rastaqüera.

Sobretudo, ficamos a mercê dos Star Wars.

Esta Cimeira não é exclusiva para os Chefes de Estado. Pode ser um espelho para avaliarmos nossas dimensões e vontades."

"Star Wars na Cimeira", copyright Jornal do Brasil, 26/6/99

 

FUROS
Mino Carta

"Vale a pena, às vezes, discutir jornalismo de um ponto de vista estritamente técnico. Analise o texto seguinte: ‘Outro dia, o governo americano se intrometeu numa dessas brigas entre a Polícia Federal e a brigada antidrogas do general Alberto Cardoso. Por pouco o Itamarati não declarava persona non grata James M. Derham, alto funcionário da embaixada em Brasília.’ Eis uma nota que não ganharia a suficiência num exame de jornalismo, embora publicada na revista Veja, seção Radar, autor Ancelmo Gois, profissional veterano.

O deslize é grave: Ancelmo não cita a fonte da informação. No caso, CartaCapital. Veja nada veiculou no tempo certo a respeito das interferências indevidas de mister Derham, pilhado porém em offside por Bob Fernandes, redator-chefe desta modesta quinzenal. Mas o autor de Radar deixa que o tomem como garimpeiro de pepitas jornalísticas. Ninguém é perfeito – e Ancelmo não está sozinho na apropriação dos furos alheios. Por exemplo, ainda Veja, edição de 9 de junho, reportagem de capa de Ronaldo França, Expedito Filho e André Petry. Lemos ali que Vicente Chelotti, vítima de um grampo, foi afastado da direção geral da PF em março passado. Nada se diz sobre quem divulgou trechos dos grampos e com isso precipitou a demissão de Chelotti.

Ou seja – e quem mais? –, CartaCapital. Observe-se que a queda do ex-Edgar Hoover brasileiro continua influenciando gordos desdobramentos da nossa instável situação política. Mesmo assim, por parte de Veja, quando o fato se deu, não mereceu mais que uma sumária nota na ecumênica Radar. Nem sempre, aliás, Veja informa pronta e corretamente. Na mesma edição de 9 de junho, a revista anunciava a confirmação de Wantuir Jacini para o posto de Chelotti, tendo o general Cardoso perdido a disputa com o ministro Calheiros. Dia 10 de junho foi anunciada a nomeação de João Batista Campelo. CartaCapital, contudo, informara 20 dias antes que Jacini teria de sair. De todo modo, a Época, aquela que devolveu ao Brasil o prazer de ler, a 14 de junho imitava a concorrente apriliana ao relatar que em março Chelotti ‘foi surpreendido com a divulgação de fitas’, nas quais, ‘supostamente’, podia ser ouvido dizendo ‘ter o presidente nas mãos’.

Perguntaria um mestre de jornalismo, e quem sabe perguntassem os leitores: quem divulgou as fitas?

Mistério. De quando em quando, tem-se a impressão de que na comunicação verde-amarela vigora o que a ciência nega, a geração espontânea.

E a 15 de junho a Folha de S.Paulo publicou reportagem assinada por Vanessa Adachi, nítida e fartamente abastecida por um trabalho da repórter Suzana Barelli estampado por CartaCapital há exatos dois meses. Como sempre, sem citar a fonte, reiterando uma falha técnica capaz de reprovar aspirantes ao jornalismo, nem se diga de quem conseguiu o emprego. Claro que a questão começa na técnica, mas deságua na moral. Aí, contudo, o assunto se complica demais no Brasil de hoje."

"Editorial", copyright CartaCapital, 23/6/99

 

NEGÓCIOS
Carlos Eduardo Lins da Silva

"A empresa proprietária do jornal San Francisco Chronicle está à venda. Sua diretoria autorizou uma firma de investimentos de Nova York a procurar compradores para os veículos que possui. O Chronicle é o mais importante e tradicional deles. Seu principal concorrente na cidade de San Francisco, Costa Oeste dos EUA, o San Francisco Examiner, tem prioridade para a compra do jornal devido a um acordo operacional firmado em 1965 entre as companhias que editam os dois títulos. O Examiner pertence ao grupo Hearst. Foi o primeiro jornal publicado por William Randolph Hearst, que, graças ao uso de técnicas sensacionalistas de edição, aumentou de maneira dramática a tiragem de diários nos EUA no fim do século 19 e início do século 20.

O Chronicle, fundado por Charles de Young em 1865, e o Examiner disputam o mercado jornalístico de San Francisco há 130 anos. O pai de Hearst, George, dono de minas de ouro e senador pela Califórnia, comprou o debilitado Examiner em 1880 e o passou à direção do filho em 1887. Em apenas dois anos, Hearst, então com 24 anos, tirou o Examiner do vermelho e o colocou na liderança de vendas na cidade. William Randolph Hearst morreu em 1951. Embora o grupo empresarial como um todo tenha se mantido forte, em San Francisco seu jornal perdeu espaço para o Chronicle. Em 1965, os dois diários estavam empatados em circulação (300 mil cópias diárias). Naquele ano, eles firmaram um ‘acordo operacional conjunto’: constituíram uma nova empresa, a San Francisco Newspaper Agency, para cuidar de todas as operações extra-editoriais dos jornais, que mantiveram redações separadas.

O Examiner passou a circular como vespertino; o Chronicle se manteve como matutino. Aos domingos, os jornais fazem uma edição conjunta (a redação do Chronicle produz os cadernos culturais e a do Examiner, os de política, economia e esportes).

Nos últimos 15 anos, o Chronicle assumiu decidida liderança de vendas. Os últimos números mostram sua circulação paga média em 485 mil cópias diárias; a do Examiner é de 113 mil. A edição dominical comum vende 615 mil. Apesar disso, o grupo que controla o Chronicle não vai bem do ponto de vista financeiro. Ele possui outros dois pequenos jornais diários, três estações de TV, duas editoras e um site na Internet. O grupo Hearst, em contraste, tem 16 revistas nacionais (como Marie Claire, Esquire, Cosmopolitan), 30 emissoras de TV, outros 12 diários.

Embora não seja certo, é provável que cada unidade do grupo Chronicle seja negociada separadamente."

"Empresa põe San Francisco Chronicle à venda nos EUA", copyright Folha de S. Paulo, 20/6/99

 

LÍNGUA
Alcindo Noleto Rodrigues

"Quase toda a mídia brasileira adora o verbo impetrar. Para ela, a ação judicial foi impetrada e a parte irresignada sempre impetra recurso. Ora, impetrar é pedir, e ninguém diria que a ação e os recursos se pedem. Pode-se dizer, corretamente, que os mandados de segurança e de injunção, bem assim o habeas corpus, foram impetrados (pedidos). Mas, até nesses casos, se quisermos referir-nos às ações respectivas, haveremos de escrever, como Pontes de Miranda, que as ações de pedir segurança, injunção ou habeas corpus foram ajuizadas, ou intentadas, propostas, movidas etc.; e os eventuais recursos, opostos ou interpostos. Opostos quando consistirem em pedidos de reconsideração, endereçados, obviamente, ao próprio órgão prolator da decisão contra que se inconforme a parte. Interpostos quando pretenderem que um órgão superior (ad quem) reforme a decisão de grau ou instância inferior (a quo).

São trivialidades terminológicas que deveriam lastrear a bagagem cultural de nossos impávidos jornalistas. Aos quais também aconselho que nunca aludam a ‘parecer’ de juiz. Um magistrado nunca emite parecer. Se singular, despacha ou sentencia. Se membro de colegiado, relata, vota, despacha. Alcindo Noleto Rodrigues (Brasília, DF)."

"Uso incorreto de verbo", Painel do Leitor, copyright Folha de S.Paulo, 19/6/99

 

ARTIGO 222
Gonçalo Jr.

"A polêmica votação dos dois projetos de emenda à Constituição que estabelecem a abertura dos meios de comunicação ao capital estrangeiro e deve agitar a Câmara no próximo semestre acaba de ganhar um aliado de peso: a Rede Globo. Sim, a mesma que foi alvo de uma CPI no anos 60, acusada de formar seu capital inicial com dinheiro do grupo americano Time-Life. Para quem teme a invasão de culturas alienígenas na telinha por imposição dos acionistas externos, a notícia parece não ser das boas: o assunto deve ser uma das prioridades da Globo na próxima década. A emissora justifica seu interesse afirmando que a associação com grupos de fora é uma questão de sobrevivência, porque permitirá às empresas nacionais adequar-se à economia globalizada – marcada pelas megafusões de empresas de comunicação – e atender aos investimentos que a tecnologia digital já começa a exigir.

A emissora não sabe ainda se isso será feito por meio de fusão com algum grupo internacional ou por associação – alternativa que lhe é mais simpática. Mas tem certeza de que esse será o melhor caminho para fugir ao financiamento bancário. Em palestra a profissionais da área de publicidade – anunciantes e publicitários –, durante o Encontro Nacional de Anunciantes, na segunda-feira passada, em São Paulo, a diretora-geral da Globo, Marluce Dias da Silva, defendeu alteração do Artigo 222 da Constituição, que restringe a propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão de sons e imagens aos ‘brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos’.

Marluce Dias sugere um formato específico de parcerias e com redução do custo Brasil. Ela lembra que, enquanto na Espanha a expansão externa das empresas é financiada a juros de 3% ao ano, no Brasil o custo de capital chega a 15%. A reivindicação tem a ver com os projetos dos deputados Aloísio Nunes Ferreira (PMDB-SP) e Laprovita Vieira (PPB-RJ). O primeiro, se aprovado, permitirá a ampliação da participação de pessoas jurídicas e o ingresso de dinheiro estrangeiro em até 30% do capital votante. Vieira propõe a liberação total da participação de pessoas jurídicas, sem limites de capital para aquelas sem fins lucrativos. Os projetos vêm recebendo criticas dos artistas, que temem a imposição do ‘imperialismo cultural’, fato que pode levar também à redução da produção nacional como forma de cortar gastos. No momento, uma comissão especial está discutindo o assunto a partir de uma série de encontros com representantes da mídia e da sociedade civil. Enquanto o debate sobre a questão ainda não esquentou, a Globo antecipa para ressaltar que a vinda de dinheiro externo será benéfico desde que o controle efetivo da empresa seja exercido por brasileiros identificados, como forma de garantir a responsabilidade editorial e o nível de produção nacional.

Marluce destaca que o Brasil e o Estados Unidos são os dois únicos países do mundo a ter mais de 90% de seu horário nobre ocupado por programação nacional. E sugere que se busque uma legislação parecida com a de países que já aceitam a presença de acionistas estrangeiros em seus veículos – como França, Itália, Canadá, Reino Unido, Holanda, Portugal, Espanha e Bélgica.

Os Estados Unidos, observa, seriam um bom exemplo. O Telecommunications Act, de 1996, limita em 20% do capital acionário a não-americanos, porque considera fundamental a ‘defesa da identidade nacional’. A própria Globo participa com 20% da Sociedade Independente de Comunicação (SIC), de Portugal. Segundo sua assessoria, a emissora já foi procurada por grupos estrangeiros interessados em parceria, mas não quis adiantar os nomes.

A diretora-geral da Globo ressaltou que o Brasil não pode ficar de fora dos movimentos de consolidação que vêm ocorrendo nos países industrializados e que se intensificaram nos últimos três anos. Marluce lembrou que entre 1991 e 1997 as megafusões na área de comunicação em todo o mundo saltaram de 142 para 587. O volume de capital movimentado pulou de US$ 7 bilhões para US$ 79 bilhões. Ela aposta que, como os mercados das grandes corporações sinalizam esgotamento, a América Latina aparece como o foco mais promissor do mundo, por ter uma cultura ocidental e identidade de valores e línguas. ‘Se a gente não se preparar, com legislação e cultura empresarial adequadas, essa oportunidade pode se tornar uma ameaça para as empresas nacionais.’

A executiva destacou a necessidade de ‘aprendermos’ a conviver com o capital estrangeiro, mas ressaltou a necessidade de criarmos mecanismos que evitem qualquer controle externo da programação. ‘O fundamental é que a propriedade dos meios de comunicação não seja desidentificada, que não haja o risco de que, através de holdings, sub-holdings e esquemas, você venha a ter uma organização dominada por ideologias, por propósitos, por culturas que não possa identificar quais são.’ Isso significa, em sua opinião, que não é preciso abrir o mercado para fazer uma associação, mas por empréstimos, com custos baixos, subsidiados no caso de algumas empresas. ‘O importante é não perder essa clareza para que a gente possa enfrentar esse mundo globalizado.’

Depois de sua palestra sobre o futuro das mídias, Marluce Dias deu uma rápida entrevista coletiva – que condicionou a não falar sobre a Globo ‘por causa da falta de tempo e de compromisso assumido’. A diretora falou de modo genérico sobre a intenção da Globo de valorizar a qualidade da programação, sem se deixar vencer pela concorrência, acusada de generalizar o mundo cão na TV. ‘O nosso compromisso com a qualidade não é um discurso. Eu acredito profundamente que o ser humano tem uma necessidade básica de ética e de qualidade. O sucesso passageiro é muito fácil e acho que a gente vai ter uma programação com qualidade crescente porque as mídias, também generalizadamente, vão querer ser perenes.’

Ela disse ainda que o mercado anunciante brasileiro tem sido seletivo em anunciar seus produtos em veículos ‘sérios’. ‘Eu não chamo qualidade nada que tenha a ver com elitismo, com segmentos. Pelo contrário. A qualidade verdadeira é profundamente popular. Só o que é popular é perene, e qualidade tem a ver com capacidade de atender a esse coletivo, de atender às necessidades básicas do ser humano, o que inclui ética. Portanto, não é um discurso, é uma aposta, é uma crença.’

Se o mercado tem privilegiado a qualidade, como explicar o sucesso publicitário de programas como o de Ratinho? Para a diretora da Globo, um mapeamento do mercado publicitário brasileiro comprova que as verbas de publicidade são alocadas com privilégio para a programação de qualidade. ‘É um dado absoluto, inconteste.’ Como explicar que você tenha audiência em programas que não primam pela qualidade? ‘Primeiro, volto à questão do que é e não é duradouro. A noção do que dura pode ser diferente para as pessoas. A gente precisa falar de alguns anos para falar do que é duradouro. A aposta que faço é que só será duradouro se for de qualidade e popular, porque essas duas coisas estão profundamente associadas.’

Ao ser questionada se os boatos de que a ida de Ana Maria Braga para a Globo não significava uma aproximação da concorrência atual, Marluce Dias se limitou a dizer que, enquanto ela estiver à frente da Globo, não permitirá que a emissora contrate alguém que tem acordo em vigor com outro canal. Se será assim, resta esperar qual caminho a seguir."

"Globo defende abertura de capital", copyright Gazeta Mercantil, 18/6/99

 

Jailton de Carvalho

"O relatório do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) sobre a participação do capital estrangeiro em empresas de comunicação está praticamente pronto. O projeto prevê tratamento diferenciado entre a mídia impressa (jornais e revistas) e a mídia eletrônica (emissoras de televisão e rádio). Pela proposta, que será votada na Câmara depois do recesso de julho, os empresários estrangeiros poderão adquirir entre 20% e 30% das ações das emissoras de rádio e televisão do país. Em relação a jornais e revistas, este limite será mais elevado, devendo chegar a 49%.

O deputado disse que decidiu ampliar o teto de participação do capital estrangeiro em jornais e revistas em virtude da natureza da relação entre este tipo de empresa e a sociedade. Segundo ele, como a compra de jornais e revistas depende de iniciativa do leitor, a eventual influência do capital estrangeiro sobre a produção da notícia e a organização da sociedade brasileira teria um raio de ação limitada. O mesmo, em seu ponto de vista, não ocorreria em relação às emissoras de rádio e televisão, cuja programação pode ter forte impacto sobre amplos segmentos da população.

‘Para comprar um jornal ou uma revista, o cidadão tem que ir a uma banca. Já os programas de rádio e TV chegam às casas de cada pessoa com mais facilidade’, explica. O deputado lembra que, ao contrário de jornais e revistas, as emissoras de rádio e TV são concessões públicas. Ou seja, precisam da autorização do governo para entrar em funcionamento.

Segundo o deputado, esta distinção já ocorre em países como Estados Unidos e França, onde as leis são consideradas extremamente restritivas à participação do capital estrangeiro em empresas de rádio e televisão. O relatório de Henrique Eduardo Alves será apresentado e votado pela comissão especial encarregada de examinar o assunto até o dia 11 de agosto."

"Relator pede flexibilidade para jornais", copyright Jornal do Brasil, 29/6/99

 

Gabriel Priolli

"Dois homens experientes, dois executivos de peso, duas biografias ligadas à Rede Globo. Ambos conhecem perfeitamente a cultura da casa, as suas idiossincrasias, os seus rituais, as suas ambições. E, por extensão, conhecem muito do negócio da televisão, no Brasil e no mundo, e dos meandros do poder público, que já não se exerce longe das câmeras e microfones, sobretudo os globais. Ambos telefonam a este colunista, a propósito do artigo ‘Estrangeiros nas emissoras’, publicado há duas semanas, com comentários sobre as propostas de emenda constitucional em tramitação no Congresso para a abertura do capital das empresas de rádio e TV e a possibilidade de participação acionária de estrangeiros no setor. Artigo, aliás, que foi publicado aqui e transcrito em O Globo, o que sinaliza inequivocamente o interesse das Organizações Globo em ampliar a discussão.

‘Estão querendo liberar tudo, escancarar a televisão brasileira para os gringos’, diz o primeiro interlocutor. ‘Isso não será certo e pode ser muito perigoso para o Brasil. É claro que a Globo não tem nenhum interesse em que o capital estrangeiro entre aqui dessa forma. Foram mais de 30 anos de trabalho para formar uma emissora de programação nacional, popular, líder de audiência. Por que vamos apoiar um projeto que pode desnacionalizar a programação da TV e gerar o desemprego de nossos artistas, de nossos técnicos? Você pode dizer o que quiser do Dr. Roberto Marinho. Que ele foi ajudado pela ditadura militar, que influi em eleição, que manda e desmanda no governo. Mas não se pode dizer que ele não á patriota e que a sua televisão não valoriza a cultura nacional.’

‘O capital estrangeiro não vai desnacionalizar coisa nenhuma a programação da TV’, retruca o segundo interlocutor. ‘Ele não vem para vender programas, e sim para ganhar dinheiro. Se o público brasileiro quiser produtos brasileiros, ele vai ter, porque os investidores não vão brigar com a vontade dele. Por que insistiram em empurrar seriados dublados goela abaixo do telespectador, se ele quer ver novelas? Isso não faz sentido. A propósito, qual foi o maior êxito da produção audiovisual brasileira na última década? Não foi Central do Brasil? Pois então: tinha capital estrangeiro e nem por isso foi menos brasileiro. Essa alegação de que o capital estrangeiro vai entrar aqui e acabar com tudo o que existe é absurda. É puro medo da concorrência.’

Duas opiniões respeitáveis, dois pontos de vista em choque - e um colunista perplexo no meio. Estaria sendo paranóico ao temer que, com os dólares, os eventuais sócios estrangeiros da TV brasileira tragam os seus ‘enlatados’, baratinhos, já pagos no mercado de origem – e que isso leve a uma crise na produção nacional? Estaria sendo xenófobo, mais do que nacionalista, nesta época de globalização dos mercados e livre trânsito internacional dos capitais? Estaria pretendendo que a cultura brasileira fosse fechada numa redoma e protegida da legítima competição com a cultura estrangeira? Estaria, pior do que tudo, sendo uma peça ingênua em um jogo de gigantes, tomando partido numa polêmica cujas verdadeiras intenções não foram lançadas na mesa?

Talvez sim, mas é mais provável que não. A própria história da televisão brasileira oferece elementos para sustentar a tese de que o capital estrangeiro pode ser um problema, tanto ou mais do que uma solução.

Não é de hoje que ele ronda as fronteiras da TV, em busca de cruzá-las e fincar pé no território. Vem fazendo isso das mais diversas maneiras e já está bem implantado na TV paga, por exemplo, onde as restrições constitucionais não existem. Mas foi na própria televisão aberta que as suas ações pregressas tiveram maior impacto, alterando decisivamente o rumo dos acontecimentos e determinando a conformação atual do mercado. Recordá-las neste momento é oportuno, não para que os portos da TV brasileira sejam fechados às nações amigas – aí sim, em odiosa xenofobia –, mas para que se estabeleçam regras alfandegárias claras, e duras, em defesa do que cabe muito defender: o direito dos brasileiros à própria cultura, o direito dos artistas ao trabalho, o direito do país à própria identidade.

Observemos que, no início dos anos 60, o Brasil foi fortemente pressionado pela indústria audiovisual americana, que estava em plena expansão pela América Latina e adquiria canais de TV em diversos países, à parte entupir a região de filmes e seriados. Por aqui, entraram tantos, em tão pouco tempo, que acabaram convertendo-se em problema político – a chamada ‘invasão dos enlatados’ –, e mobilizaram as atenções no debate público, então fortemente polarizado entre esquerda e direita. Bem ou mal, ao incremento dos produtos estrangeiros em nossa tela correspondeu a crise e a agonia do teleteatro, o principal produto da TV brasileira desde a sua estréia, em 1950. Não fosse o sucesso da telenovela diária, a partir de 1963, e é bem possível que nossa teledramartugia não resistisse ao audiovisual americano.

Mas o que os estrangeiros queriam, mais do que vender produtos, era nos comprar estações de TV. Daí forçarem, já naquela época, a mudança constitucional que lhes abriria esse mercado. Não por acaso – e ironicamente, à luz das questões atuais –, o grupo Time-Life assinou com o próprio jornal O Globo um contrato secreto em Nova York, em 1962, tornando-se parceiro da futura TV Globo. Era uma aposta na abertura da radiodifusão ao capital estrangeiro, o que daria plena legalidade ao acordo. Mas o Código Brasileiro de Telecomunicações, promulgado naquele mesmo ano, vetou os estrangeiros na TV e no rádio e o contrato de O Globo transformou-se no célebre ‘Escândalo Time-Life’, que resultou em CPI e acabou abortando a presença direta dos americanos na TV brasileira. Eles perderam a chance de controlar a Globo, mas deixaram nela capital e know how suficientes para alavancá-la, em condições privilegiadas, no rumo da liderança de audiência, que detém ininterruptamente desde 1969.

É certo que a Globo investiu sempre no produto nacional. Levou-o, aliás a níveis inéditos de excelência, tornando-os mesmo competitivos nos mercados internacionais periféricos, como demonstra o sucesso das novelas na China e na Rússia. Ainda hoje, é de longe a maior indústria audiovisual brasileira e tem um índice de nacionalização superior a 80%, em sua programação. Mas nada impede que suas concorrentes, associadas a grupos internacionais, façam outra opção e invistam no produto externo. A conjuntura é absolutamente outra e o dial está coalhado de emissoras estrangeiras, oferecendo seriados e programas que vão se enraizando no gosto do público, conquistando espaços. Não será mais fácil e barato veiculá-los do que lançar programas originais, concebidos e desenvolvidos para a mentalidade brasileira? Na pior das hipóteses, não é o caso de adaptá-los, como a Bandeirantes já faz no momento com a Columbia Pictures, nos recém-lançados A Guerra dos Pintos (‘Married... with children’) e Santo de casa... (‘Who’s the boss)?

Se os novos seriados dominicais da Bandeirantes são um exemplo de programas brasileiros ‘globalizados’, ou dos padrões de produção e programação que a TV brasileira poderá adotar quando o capital estrangeiro der as cartas, estamos lascados. Eles podem ser bem feitos, agradáveis, divertidos. Mas são tão brasileiros quanto o Rio de Janeiro é Miami."

"O que cabe defender", copyright Gazeta Mercantil, 18, 19 e 20/6/99

 

IMPRENSA OFICIAL
Sergio Kobayashi

"O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o jogo das convicções..." (Machado de Assis)

Basta do vale-tudo que contamina e envenena a mídia privada do país na louca busca de audiências. Nosso libelo, não só em nome da entidade que dirigimos, do prestígio da Imprensa Nacional, como da credibilidade das demais 27 Imprensas Estaduais, tem tudo a ver. A Mídia errou ao levar à opinião pública informações truncadas, apressadas, mal-apuradas, que acabaram envolvendo, de forma negativa, o nome da quase bicentenária e honorável Imprensa Nacional no recente episódio da publicação de dois atos oficiais falsos no Diário Oficial da União.

Quais veículos abriram espaço para as necessárias explicações da Imprensa Nacional sobre sua apregoada culpa no caso? Nenhum destacou que a Imprensa Nacional não teve responsabilidade na questão, porque, por lei, deve obedecer ao sagrado e universal princípio da fidelidade aos originais enviados para divulgação no Diário Oficial. Os repórteres e editores foram devidamente informados a respeito disso, inclusive esclarecidos de que a responsabilidade pelas matérias é do gestor público ou do órgão ou empresa privada que encaminha o ato oficial. Os meios de comunicação simplesmente encararam com imperial indiferença as informações. Assim, não é de admirar que deixaram de informar aspectos importantes, como o de que os Diários Oficiais (da União e da Justiça) publicam diariamente 1.500 páginas de atos oficiais, oriundos dos mais distantes rincões do país. Também não lhes interessou informar à sociedade que, desde o fim de 1996, a pioneira Imprensa Nacional está mobilizada em modernizar e informatizar o recebimento e tratamento dos atos oficiais, justamente para garantir maior segurança e agilidade na disponibilização das matérias para a Nação, a exemplo do que é feito nas imprensas oficiais de países avançados e de como vem sendo realizado pelas co-irmãs dos estados brasileiros, representadas pela Abio.

Lamentavelmente, as várias mancadas da mídia de algum tempo para cá parecem reforçar a tese dos estudiosos dos meios de comunicação do país de que nossa imprensa é, do ponto de vista técnico, uma das melhores do mundo; contudo, do ponto de vista editorial, deixa muito a desejar. Uma lástima! Afinal, a ética no jornalismo exige, acima de tudo, a fidelidade ao fato, à verdade.

Argumento algum – pressa na apuração e seleção das informações, mensagens ocultas, interesse pelo viés sensacionalista, má-vontade dos editores, falta de espaço, etc – pode justificar a execração pública a que o Diário Oficial da União foi submetido, ao escárnio das charges. Será que os repórteres e os editores desconheciam que a missão da Imprensa Nacional é – e sempre foi assim – publicar e divulgar os atos oficiais e que não consta dela a tarefa de mexer no conteúdo deles? Será que esses profissionais não perceberam que a credibilidade de 191 anos da instituição reside basicamente nisso, ou seja, manter intocáveis os textos oficiais recebidos e cercados de todo o sigilo imaginável?

O zelo que a Imprensa Nacional tem no trato dessas matérias legais não corresponde ao zelo (ou à falta dele) que a mídia demonstrou ao cobrir o fortuito e lamentável episódio. Para reflexão, podemos dar alguns exemplos. Se o órgão tivesse o direito de mexer nos textos enviados pelo Banco Central (ou de postergar por um só dia sua publicação) sobre assuntos como bandas cambiais ou concessões de cartas-patentes, o seu diretor-geral seria o homem mais poderoso da República. Um verdadeiro primeiro-ministro. Ou no mínimo, um novo miliardário.

Afora isso, trabalha-se na Imprensa Nacional e nas demais imprensas oficiais com o sigilo da informação, a segurança da informação contra qualquer vazamento. Para que se espetacularizou a notícia, colocando como mais um ingrediente um órgão que só fez, no caso, cumprir a lei? A quem isso interessa? Certamente, a exposição do Diário Oficial e, por extensão, da Imprensa Nacional não interessa à verdade e, muito menos, à sociedade, ludibriada em sua boa-fé.

Tudo começou com a precipitação de alguns membros do Congresso Nacional. O resto ficou por conta da mídia. Na verdade, o jornalismo deixou-se seduzir, mais uma vez, por um canto de sereias. A freqüência desse tipo de leviandade ajuda a explicar a mais recente pesquisa de opinião feita no Brasil, que coloca o nosso "quarto poder" em sexto lugar na confiança popular.

As Imprensas Oficiais possuem tradição secular de cuidar bem da informação. Os órgãos, símbolos dos estados e do Brasil, através da publicação e divulgação da informação oficial, promovem a cidadania e a democracia. São referência de credibilidade no serviço público, cuja atividade, que consome 24 horas por dia, produz instrumentos de fé pública.

A idoneidade, a seriedade, a competência, a imparcialidade e o profissionalismo de uma equipe de servidores e de sua instituição foram arranhados perante a opinião pública pela parcialidade da mídia, que não correspondeu à sua missão de bem informar a sociedade – como o faz a Imprensa Nacional.

O que diria disso tudo o escritor brasileiro do século, Machado do Assis, que, por duas vezes, foi funcionário da Imprensa Nacional e amava o jornalismo?

"Os Diários Oficiais e o Jornalismo", copyright Jornal do Brasil, 1/7/99. Sergio Kobayashi é jornalista, presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e da Associação Brasileira de Imprensas Oficiais (Abio).



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