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CENSURA
João Ubaldo Ribeiro

"Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de umas milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública - o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião.

O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro ‘O modelo político brasileiro’ me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia um antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes.

Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não lhe tenho ódio, é apenas uma divergência histórico- glandular. O senhor assumiu o Governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com uma das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente à nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso lembrar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos.

Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais."

"Senhor presidente", copyright O Globo, 18/10/1998.

Nota do O.I.: O artigo acima foi censurado na edição de 18/10/98 em O Estado de S. Paulo, sendo posteriormente publicado sob a pressão da opinião pública.

 

Jornal do Brasil

Em casa, no Leblon, recuperando-se de uma pequena operação cirúrgica, o escritor e imortal João Ubaldo Ribeiro vive o seguinte drama: num jantar de desagravo pode o desagravado não estar presente? Apesar de todos os incômodos causados pela fase pós-cirúrgica que atravessa e os conselhos do bom senso que recomendam que fique quieto em casa, o escritor baiano decidiu que estará presente ao jantar que a intelectualidade carioca lhe oferece esta noite, na churrascaria Marius, em Copacabana, em desagravo à censura de seu artigo Senhor presidente, proibido na edição de domingo passado do Estado de S. Paulo.

O mesmo artigo foi publicado num jornal carioca e resultou num grande número de cartas à redação, a maioria elogiando o conteúdo, que critica o presidente Fernando Henrique. Ubaldo vê a mobilização dos intelectuais cariocas, grande parte deles seus amigos, ‘como uma manifestação de princípios que me desperta agrado e carinho’. Outro fato que deixou João Ubaldo satisfeito foi um telefonema, ontem à tarde, do diretor-presidente do Estadão, Ruy Mesquita, alegando que ‘tudo não passou de um equívoco e que não faz parte da tradição do jornal censurar artigos de seus colaboradores’. Mesquita disse ainda que ‘as portas do jornal continuam abertas’ e que esperava continuar contando com as crônicas de Ubaldo. O escritor ainda não decidiu o que fará, mas nesta semana não escreveu o seu artigo dominical para o jornal paulista.

João Ubaldo contou que na sexta-feira passada recebeu um telefonema de alguém do Caderno 2 do Estadão que lhe informou que ‘por ordens superiores’ o artigo tinha sido censurado, e pediu um outro. Ubaldo disse que ‘não era fábrica de salsicha’, e se negou a escrever outra crônica. O escritor não sabe exatamente de quem partiu a ordem de proibir a publicação.

Em conversa com o editor do JB, Noenio Spinola, de quem é amigo, João Ubaldo contou que no telefonema Ruy Mesquita lhe garantiu que se o artigo tivesse passado por suas mãos jamais teria sido censurado. ‘Ele me tratou de senhor para cá, senhor pra lá’, contou Ubaldo, com bom humor. Noenio convidou-o a ‘dar uma passada no JB para respirar melhores ares’ e ainda instigou Ubaldo: ‘Acho que você deve estar lendo meu pensamento’. Ubaldo respondeu: ‘Faça sua cantada’. Noenio retrucou: ‘Vou fazer’. Ubaldo, que tem um livro de crônicas, Arte e ciência de roubar galinha, programado para sair no próximo mês, está terminando de escrever A casa dos Budas ditosos.

Até ontem tinham decidido que participariam do ato de hoje à noite, às 19h, entre outros, Fernanda Montenegro, Oscar Niemeyer, Betty Faria, Olívia Biyngton, Sebastião Lacerda, Caulos, Eduardo Alvarez, Miguel Paiva, Hugo Carvana, Paulo Casé, Claudius, Alcione Araújo e Aroeira."

"Intelectuais fazem jantar de desagravo a João Ubaldo", copyright Jornal do Brasil, 23/10.98

 

DOSSIÊ ELEIÇÕES
Nelson de Sá

"O Brasil está para completar uma década de gloriosa democracia, com três eleições presidenciais seguidas. Democracia virtual, comandada pela televisão, seja nos telejornais, seja na propaganda política.

Pouco mudou em dez anos. Abaixo, seguem dois trechos de artigos escritos por este jornalista, neste jornal. Separados pelo tempo, mas não pela realidade.

Texto publicado em 17 de dezembro de 89, logo após a famosa edição do debate presidencial:

‘Lula foi massacrado no debate editado pelo Jornal Nacional. O programa mostrou: a condenação de Collor ao ‘grevismo político'; a reação diante dos ‘intolerantes, baderneiros e bagunceiros'; a indignação com as alianças do PT; e o alto salário de Lula, ‘mais de cem vezes o salário mínimo'.’

‘Passada a edição, surgiu o apresentador Cid Moreira, sorridente: ‘E quem venceu o debate?' O instituto Vox Populi, que o ‘JN' não identificou como contratado do PRN, respondeu mais do que isso: Collor venceu o debate, foi quem apresentou ‘idéias mais claras', é o ‘mais preparado para governar' e tem ‘os melhores planos de governo'.’

Texto publicado em 6 de outubro de 98, logo após o primeiro turno:

Jornal Nacional, horas antes da eleição. Do apresentador Chico Pinheiro: ‘Pesquisa Ibope/Rede Globo para o governo de São Paulo. Disputa apertada pelo segundo lugar. Rossi e Covas estão empatados. Os dois têm chance de ir para o segundo turno, com Paulo Maluf'.’

‘Uma apresentadora dá os números e conclui, sobre as imagens de Maluf, Rossi e Covas: ‘Maluf pode disputar o segundo turno tanto com Rossi quanto com Covas.' E nada de Marta. Foi o que dirigiu o voto útil para Covas.’

‘O redutor flagrado agora na intenção de votos para o PT, no país inteiro, levou a situações patéticas. A palavra-chave ou a desculpa passada aos apresentadores foi ‘surpresa'.’

Em quase dez anos, de Collor a FHC, de Lula a Lula, as mudanças na democracia virtual foram cosméticas.

Não foi diferente na propaganda política, propriamente.

Entre a revolução de Egberto Batista, marqueteiro de Collor, e as franquias de Duda Mendonça, marqueteiro de meio Brasil este ano, a democracia publicitária se estabeleceu como de costume, no país: como idéia fora de lugar, antes do tempo, aberrante.

No país de origem, país em que a união de campanha com televisão ocorreu de forma consciente pela primeira vez, os EUA, a democracia já instituída adaptou a publicidade comercial às suas exigências.

Embora existam exceções, um marqueteiro democrata faz campanhas democratas; um marqueteiro republicano, campanhas republicanas. O discurso político não é corrompido, mas sublinhado ou minimizado segundo circunstâncias eleitorais.

Aqui, em quase uma década, políticos de direita usam publicidade para se fazerem passar por políticos de esquerda e vice-versa. E os eleitores-telespectadores, para guardar um mínimo de consciência e integridade, são levados a não acreditar em nada.

Com mais uma década, quem sabe, as coisas mudam."

"Uma década de democracia virtual ", copyright Folha de S. Paulo, 1/11/98.

 

CRISE NAS EMPRESAS
Beatriz Coelho Silva e Gustavo Alves

"Rio - A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aprovou, anteontem, a emissão de notas promissórias de R$ 150 milhões pela Globopar, holding das Organizações Globo, atendendo ao pedido feito há um mês pelo grupo. No dia 19, a CVM havia aprovado outra emissão de notas promissórias, de R$ 142 milhões, pela União Globopar Bradesco de Participações (UGB), associação dos dois grupos que atua na área de telefonia celular.

Com esses títulos as duas holdings podem obter créditos totais de R$ 292 milhões. Ontem, os dois diretores-executivos da Globopar, Mauro Molchansky e Pedro Carvalho, estavam em viagem de negócios no exterior, com retorno previsto para terça-feira da próxima semana.

Ninguém admite oficialmente, mas a crise financeira deu um sinal de alerta à Rede Globo, que reage para ter, em 1998, a mesma participação no mercado publicitário de 1997. Se isso não ocorrer, os problemas vão surgir no ano que vem.

A emissora informa que poderá sofrer o impacto da crise se o mercado em 98 não for melhor que em 97. A empresa não divulga faturamento, alegando razões estratégicas. Em anos anteriores, até 1996 pelo menos, o faturamento anual previsto geralmente era alcançado até outubro, o que ainda não ocorreu.

Oficialmente, a crise é negada, mas os indícios já aparecem. O Plano de Gestão Participativa (PGP), participação dos empregados nos lucros da empresa, foi reduzido em 1998. Pago em duas parcelas, chegou a um salário integral em 1996 e a quase a isso no ano passado. Este ano, ficou em cerca de 40%.

A contenção de despesas chega também ao quadro de funcionários. Há duas semanas, os diretores de núcleos de produção reúnem-se com o adminsitrador do Projac, Manoel Martins, para elaborar o orçamento de 1999. Estudam-se cortes em todas as áreas, mas ainda não se chegou à porcentagem ideal. As especulações vão de 5% a 15%, numa empresa com cerca de 6 mil funcionários, só no Rio de Janeiro.

Outro sintoma do retraimento é verificado no escritório da Globocabo, em São Paulo, onde se informa que a empresa se candidatou a várias licitações para explorar a televisão paga no início do ano, mas voltou atrás diante da mudança do cenário econômico do País. E a diretora do escritório carioca, Rossana Fontenele, admite que este mercado não crescerá mais como nos últimos cinco anos, quando o número de assinantes duplicou a cada 12 meses. ‘Em 1998, já não aconteceu isso’, lembrou ela.

Mas os investimentos continuam a ser feitos. Dois estúdios e um teatro estão em construção no Projac. A novela Pecado Capital, exibida às 18 horas, tem orçamento de R$ 90 mil por capítulo, segundo informou a superintendente-executiva da TV Globo, Marluce Dias da Silva. Antes, essa cifra cabia apenas às novelas do horário nobre."

"CVM aprova emissão de títulos da Globopar", copyright O Estado de S. Paulo, 28/10/98

 

Elvira Lobato

A Globopar (empresa-mãe das Organizações Globo), a Globocabo (braço do grupo para os investimentos em TV a cabo) e a UGB (União Globo Bradesco Participações) estão lançando R$ 442 milhões em títulos de dívida no mercado interno para enfrentar a crise de crédito internacional.

A Globopar tem uma dívida de US$ 1,5 bilhão no mercado internacional, dos quais US$ 500 milhões vencem até o final do ano que vem. O restante tem resgate previsto para 2006 e 2008.

A direção da Globopar admite que algumas empresas do grupo estão reduzindo pessoal, mas não dá informações sobre os cortes. Admite também que está tentando se desfazer de imóveis, sobretudo de fazendas, para melhorar sua liquidez.

Nos últimos anos, as Organizações Globo recorreram ao mercado externo para financiar seus investimentos em telecomunicações. Seu endividamento, de acordo com informativo do Banco de Boston divulgado no mercado norte-americano no início do mês, era de US$ 921 milhões no final do ano passado. Ou seja, aumentou quase US$ 600 milhões a partir de então.

Com o agravamento da crise brasileira, o crédito internacional secou, atingindo as empresas independentemente de sua situação no mercado interno. A Globopar avalia que o crédito externo continuará fechado por pelo menos mais seis meses e que a retomada vai depender da reação dos investidores ao pacote econômico que será divulgado pelo governo. De qualquer modo, avalia que será uma recuperação lenta e difícil.

Assustados com o país, os investidores estão resgatando US$ 100 milhões em títulos de dívidas da Globopar. Segundo o diretor-executivo da holding, Mauro Molchansky, os papéis (parte de um lote total de US$ 125 milhões) foram emitidos em 1995, para vencimento em oito anos.

Os títulos tinham opção de resgate antecipado no final do terceiro ano e, segundo o diretor, 80% dos investidores exerceram a opção. O pagamento ocorrerá no próximo dia 30 e será coberto com recursos do próprio caixa do grupo.

Há três meses, segundo Molchansky, a Globo percebeu que o quadro iria se agravar e que o mercado financeiro internacional se fecharia para as empresas brasileiras. ‘Decidimos captar dinheiro no mercado interno antes que as taxas subissem’, prossegue o diretor.

A Globopar está com pedido em análise na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para emitir R$ 150 milhões em notas promissórias para vencimento em seis meses.

Na semana passada, o órgão autorizou a UGB a emitir R$ 142 milhões em notas promissórias, também para vencimento em seis meses. A companhia pertence à Globo e ao Bradesco e tem participação em quatro empresas de telefonia celular.

A Globocabo, por sua vez, prepara o lançamento de R$ 150 milhões em debêntures (outro título de dívida) para vencimento em três anos.

Segundo Molchansky, a colocação desses papéis foi negociada antecipadamente com bancos e investidores institucionais. O dinheiro, segundo ele, permitirá à Globo atravessar o período de turbulência.

Ele afirma que a dívida ‘líquida’ da Globopar é de cerca de US$ 900 milhões, porque a empresa tem US$ 600 milhões em aplicações financeiras. ‘Temos recursos suficientes para saldar as dívidas que vencem no próximo ano’, declarou.

Todos os investimentos das Organizações Globo estão sendo reavaliados e é certo que haverá cortes nos projetos que não forem considerados estratégicos. ‘Estratégicos para a organização são os investimentos em mídia’, resume Molchansky.

A direção do grupo diz que o tamanho dos cortes vai depender da evolução do mercado nos próximos meses. ‘Novos projetos só serão aprovados se tiverem financiamento equacionado’, afirma o diretor da Globocabo, Moysés Pluciennik.

Significa que até a participação da Globo na licitação pública para a compra de concessão de empresas de telefonia -as chamadas empresas-espelho, que vão concorrer com as teles atuais- não está assegurada.

Pluciennik afirma que a empresa pode vir também a desistir de algumas concorrências públicas para novas concessões de TV a cabo.

‘Novas oportunidades surgirão no futuro. O importante é preservar a saúde do grupo’, diz o diretor da Globocabo."

"Globo lança títulos para enfrentar a crise", copyright Folha de S. Paulo, 27/10/98

 

Gustavo Paul

"Brasília - As concessões das cinco emissoras de televisão pertencentes à Rede Manchete poderão ser cassadas caso a empresa não encontre uma solução para a crise em que se encontra. Essa é uma das hipóteses que estão sendo analisadas pelo ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que, na terça-feira, recebeu uma delegação de funcionários da empresa que estiveram em Brasília pedindo ajuda ao governo.

Desde setembro, a emissora não paga os salários dos funcionários. Desde 1996, as cinco concessões da Manchete estão em processo de renovação no ministério. São as emissoras de Fortaleza, Rio, São Paulo, Recife e Belo Horizonte. Somente o processo da emissora de Minas Gerais ainda se encontra na delegacia estadual do ministério. As demais já estão sendo analisadas pela Consultoria Jurídica, em Brasília.

Apesar de admitir a hipótese de cassação das concessões, a principal preocupação do governo é encontrar uma saída que não implique retirada do sinal da rede do ar, o que poderia significar demissões em massa dos empregados. Segundo estimativas do mercado, a dívida das empresas chegaria a R$ 500 milhões. O maior credor da Manchete é o governo (dívida de R$ 250 milhões com o INSS e de R$ 150 milhões com o Banco do Brasil), mas a emissora deve também aos trabalhadores R$ 32 milhões do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Record - O Ministério das Comunicações abriu processo administrativo contra a Rede Record de Televisão para apurar infrações cometidas no programa Ratinho Livre. A delegacia do ministério, em São Paulo, remeteu ontem à sede da emissora um ofício determinando prazo de cinco dias para que seja apresentada a defesa em relação à acusação de não estar utilizando a emissora para ‘finalidades educativas e culturais’.

A delegacia do ministério acatou uma requisição do procurador da República Duciran Van Marsen Farena, para quem foram cometidas ‘graves infrações’ durante os programas transmitidos nos dia 19 e 20 de agosto passado. Segundo o procurador, sob o pretexto de comentar a suspensão dos telessorteios 0900 pela Justiça, o programa promoveu ‘ofensa à honra alheia, ataques aos poderes constituídos, transmissão ao vivo de conversa privada (linha cruzada do disque-sexo) e desrespeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família’.

A emissora estaria enquadrada no artigo 38 do Código Brasileiro de Telecomunicação e no artigo 2º, do Decreto nº 236, de 1967, que regulam a radiodifusão no país."

"Concessão da Manchete poderá ser cassada", copyright O Estado de S. Paulo, 31/10/98

 

SHOW DA VIDA
Norma Couri

"Sem Truman, não há show. Mas Truman Burbank leva 30 anos para perceber que seu mundo é um cenário, a cidade de Seahaven, onde mora, é um enorme estúdio; a paisagem à sua volta inclui uma câmera oculta; as pessoas com quem convive são teleguiadas; e ele, desde que nasceu, é ator de TV no show mais longo e popular da história. Truman é um produto de massa. Tudo em sua vida é implante. Até a própria mãe e o amigo de infância são coadjuvantes no roteiro que é a vida de Truman. Só ele não sabe. As únicas coisas reais são a dor que ele sente pela perda do pai num naufrágio - embora tanto o pai quanto o naufrágio sejam falsos - e o amor de verdade por Sylvia, rebelde nesse mundo virtual, excluída e foragida. Esse sentimento é o motor de Truman para a liberdade.

O tema do filme do australiano Peter Weir O show de Truman - O show da vida é a liberdade. Como já foi no seu outro filme de maior sucesso, Sociedade dos poetas mortos. Ninguém, depois de assistir ao filme, deixará de se perguntar se as escolhas que anda fazendo, da cor do casaco ao político em quem votou, são meros resultados de marketing.

O show de Truman virou fenômeno mundial de audiência da mesma forma que a vida de Truman transformada em novela de 11 mil capítulos é uma coqueluche para a platéia de Seahaven. Tudo planejado para ser uma comédia, com o humorista Jim Carrey no papel principal. Mas o humor é negro.

Eis uma bela idéia de filme, melhor até do que o próprio filme. O show de Truman situa o personagem principal muito além do videota do filme de 1979 (Muito além do jardim). No ano quase 2000, O show de Truman é o que Janela Indiscreta foi nos anos 50: a luneta de Jeff, o fotógrafo acidentado vivido por James Stewart no filme de Hitchcock, que invade a privacidade da vizinhança descobrindo um crime, agora se multiplica ao infinito. Todas as janelas, o próprio anel e o colar da mulher escondem uma luneta - no caso, uma câmera oculta. A mulher é uma atriz do filme cujo ator principal é você, só que ninguém lhe contou. Truman só descobre aos 30 anos que, sem ele, não há show.

As reações causadas por O show de Truman na audiência são de impacto. Jornalista, chefe do Departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Margarethe Born Steinberger Elias levou algum tempo para processar o que estava ocorrendo a Truman Burbank: no começo do filme apenas personagem de uma história ordinária.

‘A ficha cai quando você descobre as pessoas assistindo, da lanchonete, ao filme da vida dele - um universo de cognição paralelo dando-nos conta de que tudo é uma filmagem com ritmo de novela: o herói visto por um público, que por sua vez é visto pelo espectador que está no cinema, que por sua vez se projeta em Truman, já que cada um de nós poderia estar exercendo esse papel’, analisa. São jogos ambíguos de regressões infinitas.

Para Margarethe, um dos itens de maior sabor foi ver o barco com o nome Santa Maria, uma evocação à descoberta da América. Há um universo novo sendo descoberto, uma ode à liberdade, uma transgressão de um mundo para outro. Mas que mundo é esse?

O redator-chefe do programa OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, Mauro Malin, acha que a ‘trumania’ é um aviso de que esse mundo acaba de começar. Uma advertência moral. ‘O filme é pré-Internet’, observa Malin. ‘Uma parábola retratando o fim de uma era.’ O filme, em sua opinião, é uma volta para trás, uma tremenda crítica do universo que foi salvo pela Internet.

‘A situação de Truman, hoje, não existe, porque ele e o público estariam interagindo, interferindo’, comenta. ‘Acabou a passividade e aquele atordoamento provocado pelo ruído dos pontos que todos os personagens usam no filme, já que são todos teleguiados.’ Para ele, essa comunicação unidirecional está acabando.

‘O filme dá-nos um herói americano característico, que luta sozinho para enfrentar o cerco a que foi submetido desde o nascimento - mas nos faz pensar sobre o público, que vê o show de Truman na TV, que vibra pela libertação dele, mas nada mais faz do que colaborar para sua prisão, rebela-se ao mesmo tempo em que alimenta o roubo da vida de Truman para a ficção’, prossegue Malin.

É a sociedade moderna no fio da navalha; é a platéia que permite o sucesso do show, que faz o diretor-produtor Christof prosseguir nas filmagens com câmeras ocultas, que atrai a publicidade que provoca cada vez mais o aprisionamento de Truman - o herói. A platéia, na sua impotência, permite ser juridicamente viável o fato de um homem tornar-se prisioneiro de uma história pessoal falsa. São os anunciantes que fazem o show continuar.

‘Esse filme é uma antiutopia’, diz Malin. ‘Blade Runner, o caçador de andróides era a expressão de uma antiutopia voltando para o espaço quando as utopias já se tinham deslocado do espaço para o tempo; 1984, quando foi escrita por George Orwell, era, já, uma antiutopia no tempo; e Blade Runner deixou-nos a sensação de sermos andróides, só restando a fuga’, afirma. ‘A antiutopia de O show de Truman explode quando Truman arrebenta o cenário, arrebenta tudo no momento em que consegue a liberdade.’

O tema é a manipulação pela mídia. Crescente de Tarzan para Rambo, do rádio e do telex para a televisão, O show de Truman mostra os requintes da perversidade de abarcar a crítica dentro do próprio universo que está sendo criticado. No estágio atual, a sociedade permitiu ao diretor do filme da vida de Truman um poder tamanho que cabe a ele decidir se, com uma tempestade, mata ou não o herói. Christof, o criador, quer matar sua criatura no fim.

Nesse momento de equilíbrio delicado restam duas opções. ‘Sylvia, a paixão de Truman, é chamada de esquizofrênica porque escapa do cenário da ficção’, diz Margarethe. ‘Se ela era esquizofrênica, o mundo de Truman era verdadeiro; se não, era o contrário’, continua. ‘Esse é o jogo de reversibilidade que acontece entre o mundo do Truman e o mundo externo, entre o virtual e o real.’

Truman deve escolher entre uma coisa e outra. E só há um caminho nessa novela que dura 24 horas por dia. No filme dentro de um filme, na história dentro da história, a liberdade fica ali ao lado, do lado de fora do cenário, que acaba no céu virtual. Só que Truman ainda não vê. Ou serão os espectadores?"

"Filme causa impacto e leva público a discutir escolhas", copyright O Estado de S. Paulo, 30/10/98.

 

Eugênio Bucci

"Quando você vir o filme O Show de Truman - O Show da Vida, vai concluir que a televisão pode tudo. No filme, um produtor de TV adota um recém-nascido e batiza-o de Truman Burbank. Depois, constrói para ele uma cidade-cenário repleta de câmeras ocultas, contrata atores que vão fazer as vezes de seus conterrâneos, seus familiares - e transmite tudo em tempo real, para platéias do mundo inteiro.

Você vai concluir que a televisão pode privatizar uma biografia ou, mais ainda, pode produzi-la e patenteá-la, como uma marca de cigarro. A novela de Truman (uma novela dentro do filme) vai ao ar num canal exclusivo e seus capítulos não param nunca, ocupam as 24 horas do dia. Truman é o campeão de audiência planetária. O planeta-telespectador sabe muito bem que tudo não passa de um show. Todos sabem. Só quem não sabe de nada é o próprio Truman, que chega à fase adulta (interpretado por Jim Carrey) contente e bobalhão.

Pueril como criança manipulada, ele contracena com atores como se convivesse com pessoas reais, representa um papel como se apenas levasse uma vida comum, se apresenta para uma platéia gigantesca, uma platéia cuja existência ele ignora, como se ninguém o visse. Mergulhado em sua inocência feliz e vazia, Truman nada vê. Só a televisão vê tudo.

É curioso que, enquanto esse filme de ficção estreava nos Estados Unidos, há coisa de uns quatro meses, o Brasil discutia em tons lacônicos o advento de Sasha, o bebê de Xuxa. O paralelo é fácil, é bastante óbvio, mas é obrigatório. Como o novo herói de Hollywood, Sasha foi adotada pela TV (e pela imprensa que faz eco à TV), com a diferença de que foi adotada antes mesmo de nascer.

Antes de ser concebida. Sasha debutou na cena pública ainda projeto, desde que Xuxa anunciou seu teledramático desejo de ser mãe. Sasha, já naquela época, antes de ser um feto, antes de ser um nome, preexistia entre nós, como um vazio na estrutura. Uma vez embrião, deixou grávida toda a audiência nacional. Sasha então veio à luz, ou melhor, veio aos holofotes. Como Truman, está cercada de cenários, de astros, de figurantes e de uma audiência assídua. Como Truman, está mergulhada na inocência. E a televisão mostra tudo. Atropela tudo. O Show de Truman estréia no Brasil e a telenovela de Sasha ainda não está sequer engatinhando. E prosseguirá, ininterrupta.

Mas entre a telenovela real do Brasil e a novela ficcional americana, unidas por fios de semelhanças tão óbvias, há mais do que analogias - impera, sobre uma e outra, a lógica do espetáculo que nos engloba a todos, que nos aprisiona à medida que de nós se dissimula. A primeira conseqüência dessa lógica poderia ser assim resumida: no grande show de variedades (e atrocidades) a que se reduziu a cultura contemporânea, ninguém é autor de coisa nenhuma; o espetáculo tem motor próprio, desgovernado."

"Produção cultural mostra os poderes sem-fim da televisão", copyright O Estado de S. Paulo, 30/10/98.

 

Gilberto Dimenstein

"O Brasil está criando o Ibope politicamente correto, numa avaliação minuto a minuto da exploração de violência, sexo e discriminação. Esses dados se transformam em relatórios públicos para orientar pais, educadores e entidades não-governamentais de direitos humanos. É um mapeamento estatístico que resulta da crescente preocupação da sociedade com o conteúdo vale-tudo das programações, em meio a estudos acadêmicos, especialmente dos Estados Unidos, indicando suposta relação entre TV e comportamentos anti-sociais. Na semana passada, a ONU (Organização das Nações Unidas) concluiu análise de todos os desenhos animados em seis emissoras de TV aberta, transmitidos em agosto passado -as 71 horas de desenhos indicaram que, em média, a cada 60 minutos, aparecem 20 crimes, a maioria lesão corporal e homicídio.

A próxima fase, agora, é avaliar os filmes e, depois, os programas de auditórios, classificando as 24 horas de programação.

‘A sociedade tem direito de saber, em detalhes, o que chega a suas casas’, afirma o jurista Oscar Vieira, professor de direitos humanos da PUC em São Paulo e diretor-executivo do Ilanud, entidade da ONU que estuda a violência. Esse tipo de iniciativa é disseminada nos EUA, mas até agora incipiente no Brasil; nos EUA a tendência majoritária é atribuir à TV responsabilidade por desvios de conduta, num suposto estímulo à violência, permissividade sexual, discriminações e até drogas.

Representantes das emissoras acusam as entidades de uma dose de histeria politicamente correta. ‘Há muito exagero, atribuindo-se à TV males. Mas o fato é que vivemos num país permissivo. Em alguns países, nem sequer é possível passar propaganda durante a programação infantil’, diz Beth Carmona, ex-diretora de programação da TV Cultura. O fato é que a TV está no foco, e a sociedade brasileira parece disposta a fiscalizar a programação. Pesquisa realizada pela Universidade Gama Filho, no ano passado, destinada à revista Claudia, investigou a erotização e exploração da figura da mulher na programação infantil. A exemplo da ONU, eles também fizeram análise minuto a minuto. Em 151 horas de programação, os pesquisadores detectaram 308 cenas de erotização, apontando, em primeiro lugar, a TV Globo e, em seguida, o SBT.

‘Em geral, a referência erótica é de caráter machista, sexista e preconceituosa. Os estereótipos sexuais e de gênero são muito usados para fazer rir, em desrespeito à individualidade e aos direitos pessoais’, analisa a pesquisa.

De acordo com o levantamento, a cada 29 minutos, meninas e meninas recebem um estímulo erótico e uma imagem preconceituosa ou deturpada sobre a mulher.

Como mostrou o levantamento da ONU, reforçando descoberta dos universitários do Rio, nem mesmo as TVs educativas escapam -isso porque, ao incluir desenhos animados, reproduzem estereótipos e preconceitos sexuais.

Embora possam discordar dos resultados e apontar exageros na cobrança social, as emissoras não conseguem se manter indiferentes ao ‘Ibope politicamente correto’ -afinal, encontra crescente eco entre pais e educadores, refletindo na decisão de promotores e juízes.

Em 1996, o instituto Gallup ouviu 1.008 pessoas em São Paulo; 76,8% se mostraram favoráveis à censura prévia sobre a violência; 82,9%, para cenas sexuais.

No ano passado, o Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, colheu ânimo semelhante.

Dessa vez foram ouvidas 2 mil pessoas em São Paulo, Rio, Recife, Porto Alegre, Goiânia e Uberlândia. A maioria (75%) defendeu mecanismos de controle externo para avaliar a programação.

A razão do pedido: de cada 100 pais, 80 acreditam que a TV exerce forte influência na formação dos filhos - para 41%, essa influência é negativa.

Por causa desse tipo de visão, o governo americano determinou que as televisões saíssem da fábrica com um componente eletrônico (v-chip) destinado aos pais para regular o que entra em casa."

"TV brasileira exibe 20 crimes por hora de desenho", copyright Folha de S. Paulo, 28/10/98

 

Marcelo de Mello

"‘Há uma linha tênue entre o show biz e o mundo da notícia. O negócio é andar até aquela linha e tocá-la com a ponta dos pés sem, no entanto, cruzá-la. E algumas pessoas ficam tão afastadas da linha que ninguém quer ver o que estão fazendo. Outras ficam cruzando essa linha o tempo todo... Mas essa linha tem de existir porque ela se chama verdade. E a diferença é que nós contamos histórias reais, enquanto outras pessoas contam histórias de faz-de-conta.’

Don Hewitt

Talvez o pragmatismo dos americanos explique por que o produtor-executivo do programa 60 minutes conviva tão bem com as relações perigosas entre jornalismo na TV e show biz. Mesmo vulnerável a críticas, o programa da CBS é, há 30 anos, um dos maiores sucessos da TV dos EUA. E Richard Campbell, autor de 60 minutes and the news - a mythology for middle America, não tem dúvida de que, para isso, contribuiu o uso de formas narrativas que muitos - inclusive jornalistas - supõem exclusivamente literárias e repudiam como um corpo estranho a obrigação de ser imparcial e objetivo.

É assim que, numa reportagem sobre lugares desconhecidos, o programa se apropria de formas narrativas do romance de aventura; quando se propõe a revelar detalhes de um crime, pega emprestado o estilo das histórias de detetive.

Se vivesse no Brasil, Hewitt talvez estranhasse a forma como se discute a suposta banalização do noticiário - sobretudo na TV. Reportagens sobre o novo morador do Zoológico e dramas pessoais ganham destaque e são ridicularizados pelos profissionais do meio, sob o argumento de que não têm relevância social.

E não têm mesmo. Mas que ninguém diga que o jornalismo ‘sério’ exclui emoção e deve se distanciar ao máximo das técnicas do folhetim. Quando contou, em março, no Globo e na Folha de S. Paulo, como a microempresária Eliane Alcântara de Oliveira - batalhadora, moradora de Caxias e, por que não dizer?, manequim 40 - quase foi à bancarrota por causa dos desmandos da Light, Elio Gaspari certamente fez muitos leitores torcerem pela moça como se ela fosse personagem de novela. Tudo isso sem medo de se contaminar pelo folhetim, e tratando de uma questão séria: a impotência do cidadão diante das instituições - estatais ou privatizadas.

Quem torceu por Eliane não precisa ficar constrangido. Até petistas xiitas devem ter se emocionado ao ler que Lula só conheceu o pai aos 5 anos e que, preso durante o regime militar, foi ao enterro de sua mãe escoltado por policiais. Assim como germes resistentes à assepsia, subjetividade e emoção invadem sem cerimônia espaços onde jamais serão as convidadas de honra, como o noticiário político e econômico.

Não custa nada citar que a fidelidade à ‘verdade dos fatos’ não é um valor absoluto no jornalismo, mas construído historicamente e datado. Em sua tese de doutorado, Imprensa, poder e público (os diários do Rio de Janeiro - 1880-1920), a professora Marialva Barbosa identifica nos anos próximos à virada do século o momento fundamental em que os jornais da capital se constituem como empresas: ‘Construía-se uma ética positiva do trabalho, higienizava-se a sociedade, urbanizava-se, para ser civilizado. Construía-se o Rio como capital do progresso e, dessa forma, como capital da República. (...) Aos discursos médico-higienista, jurídico, político, deve-se agregar como básico o da imprensa, que passa a aliar ao texto impresso a veracidade da fotografia, e à crítica das caricaturas a reprodução da realidade contida nas ilustrações.’

Não pretendo fazer aqui uma análise profunda da época, mas há indicações de que se vivia um momento em que o discurso científico - objetivo e comprovado pelos fatos - se impunha sobre costumes, preconceitos e demais comportamentos ligados à subjetividade. É dessa época (1904) a Revolta da Vacina, quando a população resistiu à obrigatoriedade de ser imunizada, alegando - entre outras razões - que seus corpos deveriam ser preservados e, no caso das mulheres, que não ficaria bem mostrar o braço ao agente de saúde.

História à parte, mais importante do que um veículo tentar desclassificar o concorrente acusando-o de não fazer jornalismo sério, e sim folhetim, é a mídia questionar seus dogmas. Seriedade na apuração e atenção ao que é relevante para a sociedade são indiscutíveis. Mas isso pode conviver com emoção e recursos narrativos literários. E talvez deva ser assim se a mídia quiser ficar mais próxima do público, que muitas vezes tem reação passional às notícias sérias. Quem nunca xingou um ministro da Fazenda ao saber do aumento de impostos que diga o contrário."

"A ilusão de um jornalismo esterilizado", copyright O Globo, 19/10/98

 

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