O JORNAL E O PÚBLICO
Fritz Utzeri

"A arte de furtar", copyright Jornal do Brasil, 30/11/00

"Peça rápida em um ato. Cenário: redação de jornal. Editor acaba de saber da prisão do banqueiro Arthur Falk (ficaria preso seis horas), acusado de dar um golpe de R$ 160 milhões nos correntistas do Papatudo e procura palavra para a manchete.

- Que tal roubo? - pergunta o editor.

- É perigoso - responde o redator - Além disso, roubo implica violência.

- Duvido, - diz o editor, pega o Aurélio e lê: ‘roubar’. A primeira definição é com violência, mas lá vem: ‘furtar, subtrair coisa alheia’, e tem mais: ‘apropriar-se fraudulentamente de; subtrair’ - Taqui, ó! - grita o editor em triunfo e roubo vai para a manchete.

Logo estabelece-se a dúvida na cabeça do editor e um advogado é consultado a respeito. Vai logo afirmando que ‘tecnicamente não é bem assim, não é roubo’.

Editor - Ah é? E como chamar isso?

Advogado - Apropriação... talvez... É preciso ver os detalhes técnicos.

Editor - E quem se apropria é o quê, não é ladrão?

Advogado - Não é bem assim...

Editor - Quem subtrai uma laranja numa feira, está fazendo o quê?

Advogado (rápido) - Furtando.

Editor - E quem furta é o quê?

Advogado (rápido) - Ladrão!

Editor - E quem some com R$ 160 milhões de um monte de gente pobre é o quê?

Advogado - bom... depende... tecnicamente...

(pano rápido)

Jornal faz mal à saúde

Ler jornais é atividade a que sou obrigado profissionalmente, mas acho que devia haver uma lei exigindo, como no caso dos cigarros, que o Ministério da Saúde imprimisse algo como: ‘ler jornais é prejudicial à sua saúde’. Antes que digam que é idéia absurda, concordo. É absurda mesmo, mas não a retiro. Pelo contrário, radicalizo: O que deveria existir é uma tarja, na bandeira, afirmando: ‘O Ministério da Saúde adverte: O Brasil é prejudicial à sua saúde’. Duvidam? Então vamos ler jornais.

Vejo na Folha de ontem que o Executivo suspendeu a cesta básica em 15 estados. A ultima distribuição totalizou cerca de 20 mil cestas no Nordeste e (pasmem!) Santa Catarina. Ela é feita através da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que administra o Programa de Distribuição de Alimentos (Prodea), fundo de R$ 100 milhões, previsto no Orçamento da União, dos quais Malan & Cia só liberaram R$ 40 milhões até agora. Esse programa atendia a 8,6 milhões de pessoas nos grotões mais miseráveis do país.

FH, como Luís Gonzaga, está cantando: ‘mas doutor uma esmola/ para um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão’. O baião do imortal Lua e FH, aparentemente, estão dizendo a mesma coisa. A equipe econômica alega que as famílias atendidas ‘tendem a se acomodar’ e que, além disso, ‘a distribuição de cestas prejudica o comércio e a geração de renda’.

Com base nessas ‘verdades sociológicas’ FH extingüiu o programa e criará alternativas a partir de 2001. O que a masturbação sociológica não percebe, e o que a falta de sensibilidade de FH esquece, é a maneira como o Criador fez o homem. Um pouco de fisiologia (e não de fisiologismo), não faria mal. Vamos resolver, de maneira digna e definitiva, o problema dos despossuídos, no século 21? Ótimo! Mas, infelizmente, Deus fez uma maldade enorme com esse povo. Criou-o com a irritante necessidade de comer três vezes ao dia.

Assim, admitindo que, por hipótese absurda, Brasília venha com alguma idéia genial já em 1 de janeiro de 2001, os despossuídos terão que pular apenas 825 milhões de refeições e dar um jeito de chegar vivos ao próximo século. Como isso será possível? Só chamando Jesus, aquele que multiplicava pães e peixes. Como ele não parece disponível para uso da equipe econômica, muita gente, (principalmente crianças), vai MORRER DE FOME daqui até lá.

Mas não importa. É apenas gente, e isso não vai tirar o sono de FH, Malan e etc. Afinal, esses pobres não têm iniciativa, não criaram ainda o e-fome@com.br, não têm uma só idéia original, e ainda teimam em existir. É verdade que o Prodea deve ser substituído por programas que gerem renda, mas suspendê-lo é criminoso, genocida. Ainda mais quando se sabe que o comércio dos locais em que foi aplicado não foi prejudicado, já que os beneficiados não têm renda para consumir. Além disso, notou-se melhoria na educação e na saúde, resultado óbvio da presença de alimentos, mesmo limitada, pois as cestas distribuídas só garantiam três refeições diárias durante 15 dias. Agora nem isso. Vamos obrigar esses brasileiros a um Ramadã social, e mandar uma enormidade para a paraíso.

O que resta a essa multidão de excluídos? Na impossibilidade de beneficiarem-se do Proer (esse sim um programão social!), de comprar ações da Nasdaq, de participar da privatização, ou da banda C da telefonia, só terão uma saída: prejudicar o comércio local, isto é saquear para pôr algo na boca dos filhos. O saque não é recomendação de Karl Marx ou de outro qualquer desses filósofos subversivos de esquerda que FH lia e apoiava quando jovem, mas de ninguém menos que o velho São Tomás de Aquino. É o próprio Cristo que pergunta, qual é o pai que daria uma pedra a seu filho, quando este lhe pede um pão? Se eu fosse esse pai, e tudo o mais me fosse negado salvo uma pedra, usaria essa pedra, com o risco de minha própria vida, para conseguir um pedaço de pão para o meu filho com fome.

Continuo a leitura. Desta vez pego JB de ontem: ‘Negócio bilionário na telefonia’: ‘O governo espera arrecadar, no mínimo, R$ 6,73 BILHÕES com as novas concessões para a exploração do Serviço Móvel Pessoal (SMP) das bandas C, D e E da telefonia móvel, que entrarão em funcionamento no dia 30 de janeiro de 2001. Recentemente, a administração FH vendeu o Banespa, por R$ 7 BILHÕES, os dois números fazem quase 14 BILHÕES, o que daria cestas básicas a 1 bilhão 200 milhões de pessoas, praticamente resolvendo o problema da fome no mundo.

E a equipe econômica jura que não há dinheiro para alimentar 8,6 milhões de brasileiros, condenados porque os dois Brasis existem como universos paralelos: um não toma conhecimento do outro. O do andar de baixo (copirraite Elio Gaspari), o Brasil dos centavos da sobrevivência, das migalhas, do salário mínimo visto como um sonho, desconhece as benesses do Brasil do andar de cima, por pura ignorância, má informação e alienação, fomentadas pelas próprias autoridades. O de cima, o dos bilhões, das negociatas, dos Lalaus, dos Eduardo Jorge, ignora o Brasil de baixo por puro egoísmo, ruindade, cobiça, perversidade e todos os qualificativos aplicáveis àquele que despreza e rouba o pão de seu irmão. Mas nada disso tirará o sono de Malan ou de FH, que irão dormir, tranqüilamente, o sono (FMI) dos justos, com a consciência limpa. Acho que vou ter que tomar antiácido e antihemético antes de continuar a ler jornal. Definitivamente, faz mal à saúde."




PAPEL BRASIL
O Globo

"Uma revista para revelar a força das imagens", copyright O Globo, 28/11/00

"Com o lançamento terça-feira, às 19h, na Casa de Cultura Laura Alvim, da revista ‘Papel Brasil’ (Garamond), o mercado editorial ganha uma publicação inteiramente dedicada à imagem. Editada por quatro ilustradores com longa trajetória na imprensa - Cavalcante, Cruz (ambos do GLOBO), Lula e Walter Vasconcelos (editor de arte da revista ‘Ciência Hoje das crianças’) - a ‘Papel Brasil’ nasce com o objetivo de revelar ao público a dose de autonomia contida em cada desenho, mesmo que ele tenha sido criado originalmente para acompanhar um texto.

- Na cabeça de quase todo mundo as ilustrações, os desenho, estão sempre ligados a um texto - conta Cavalcante, que estreou no Pasquim em 1984. - Por isso queríamos fazer uma revista em que cada ilustração mostrasse uma força própria. É um projeto original, novo realmente. Geralmente o que existe hoje são publicações específicas sobre charges, caricaturas, humor ou então obra sobre um determinado artista.

A ‘Papel Brasil’, cuja periodicidade será quadrimestral, terá um tema diferente a cada número, algo sempre ligado à questão da ilustração presente no cotidiano. A concessão às palavras estará no texto sobre o assunto principal, que será assinado por diferentes autores. Este primeiro número, por exemplo, versa sobre a tatuagem.

- São tipos de imagens tão incorporadas ao dia-a-dia que muitas vezes passam despercebidas - observa Cavalcante.

Além de mostrar os desenhos dos quatro editores, a revista vai exibir também a obra de vários artistas, brasileiros e estrangeiros."




A VOLTA DE SURVIVOR
Marcelo Pedreira

"Survivor prepara volta", copyright Babado, 28/11/00

"Depois de fazer um sucesso estrondoso durante o verão americano, o reality-show Survivor – que inspirou o No Limite brasileiro – começa a ganhar as manchetes novamente.

A segunda edição do show – que dessa vez será realizado na Austrália – tem estréia prevista para janeiro, mas ainda não se sabe qual horário e dia da semana que irá ocupar.

Ao contrário da primeira edição – que reinou absoluta durante as férias dos principais seriados – o The Australian Outback vai enfrentar uma concorrência muito mais forte.

A princípio, a CBS pensou em exibir o Survivor II nas quintas-feiras, no mesmo horário de Friends. Porém, parece que a emissora já descartou essa possibilidade diante da imensa popularidade do sitcom da NBC.

Fala-se agora que a atração seria exibida nas mornas e pouco competitivas noites de sábado, onde nada acontece de interessante na TV. Exatamente como no Brasil..."



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