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CENSURA?
Fernando Pedreira
"O busílis, afinal", copyright O Globo, 3/12/00
"‘Súdito leal destes tempos de segunda ordem / Orgulhosamente admito que minhas melhores idéias / São de segunda ordem; e possa o futuro tomá-las / Como troféus da minha luta contra a sufocação.’
Assim falava o poeta russo (lituano) Joseph Brodski. Mas quantos, entre nós, podem orgulhar-se de ter idéias, ainda que de segunda ordem? Nossos tempos não parecem propícios à originalidade de pensamento, nem às profundezas filosóficas. Nossos revolucionários mastigam (mal) idéias que ocorreram a Karl Marx há século e meio. Os não-revolucionários são, em geral, homens práticos e pragmáticos, tecnocráticos. O que se pode dizer em favor deles é que os progressos materiais do ecúmeno, nos últimos 60 anos, foram realmente de primeira grandeza.
Esse último fato não parece impressionar o poeta. ‘O que fica de um homem’ - diz ele - ‘não é mais que uma parte: sua parte falada’. Eis aí uma linha que poderia ter sido escrita pelo próprio João Cabral de Melo Neto: ‘sua parte falada.’ E, entretanto, talvez a raiz dos males do nosso tempo resida exatamente no fato de que os homens, hoje, falam demais.
Os homens abandonaram o relativo isolamento dos campos e das fazendas e vieram juntar-se nas cidades, nos pátios de fábricas, nas favelas, nos quartéis, nas praças, nos shopping centers, nas praias de fim de semana. É provavelmente impossível calcular a que ponto essa mudança elevou a taxa de contatos diretos entre seres humanos. Como se não bastasse, inventamos o microfone e o satélite, e multiplicamos por mil milhões a eficácia dos chamados meios de comunicação, individuais e coletivos.
Essa imensa rede cresce sem parar, e é preciso diariamente enchê-la com palavras. Não há dúvida que esse é um dos grandes dramas modernos. A televisão, o rádio, o telefone, o computador não podem calar-se, sob pena de se tornarem antieconômicos e improdutivos. Pode-se bem imaginar o encantamento de um Leonardo da Vinci, se lhe fosse dado ver uma dessas grandes e maravilhosas caixas de televisão colorida. Leonardo logo descobriria, entretanto, que o problema não é fazer as caixas, mas realimentá-las, todos os dias, pois infelizmente elas não são como aquelas antigas caixinhas de música que tocavam sozinhas.
Um político, um administrador público, uma alta autoridade militar ou civil, assim como os locutores de televisão e de rádio, são em geral pessoas (perdoem-me os locutores) mais cheias de palavras que de idéias.
Basta apertar o botão de um aparelho de TV em Brasília, Paris ou Nova York, para perceber que um microfone, quando espetado diante do nariz de uma pessoa, é um maravilhoso instrumento capaz de esvaziar até mesmo cérebros ocos. Calar-se seria a derrota. O importante é produzir palavras; é satisfazer o apetite do pequeno aparelho e encher o tempo e o espaço, antes que outro aventureiro o faça. Políticos, administradores, generais, médicos, até mesmo simples populares, ou falam ou perdem a vez.
Sendo o autor deste artigo um jornalista, profissionalmente obrigado a rabiscar umas tantas laudas por dia ou por semana, ninguém o tomará por inimigo das palavras. Ao contrário, o que parece preciso é evitar que o uso exagerado (e forçado) as degenere e as transforme de vez nessa espécie de terrível tóxico que hoje tonteia e desorienta a grande maioria das pessoas, um pouco por toda a parte.
É óbvio que a censura não seria a melhor solução para essa espécie de sangria desatada. Mas, quem sabe, o racionamento? As sociedades civilizadas limitam o tempo de trabalho das pessoas, tornam obrigatórias as férias anuais e os dias de descanso semanal. Por que não impor um regime semelhante (convenientemente adaptado, mas rigoroso) ao menos aos meios de comunicação coletivos, isto é, compulsórios? Podia-se determinar também a criação de espaços diários, exclusivamente destinados à música e às imagens, sem palavras. Sem sua parte falada.
Numa hora como a atual, entre nós, em que excessos não só verbais mas morais da televisão comercial provocam reações severas (e nem sequer se fala ainda da Internet, onde os riscos podem ser bem piores e bem mais diretos), talvez essas idéias disciplinadoras possam ou devam ser examinadas. Segundo o colunista L. F. Verissimo, aliás (sempre o Verissimo), há em verdade, na TV, coisas que se deviam proibir não só para crianças, mas para adultos também...
Eis aí onde está, afinal, o busílis. Quando éramos ainda meninos, lembro-me que foi moda em certa época acusar as histórias em quadrinhos, que eram então novidade (publicadas por Adolpho Aizen e pela Globo), de perverter a juventude e incitá-la ao crime e à violência. A verdade, entretanto, é que não eram os quadrinhos, assim como não é apenas a TV: é a própria sociedade, somos nós mesmos e é a nossa moderna maneira de viver e conviver.
Criamos uma sociedade permissiva, cada vez mais permissiva e promíscua; não apenas tolerante, mas agressivamente propagandista e incentivadora em questões como a liberdade do sexo (até mesmo, por força da necessidade de combater modernas pragas como a Aids) e, até, do homossexualismo.
Dos nossos tempos de criança para cá, mudou o mundo, mudamos todos (por fora e por dentro), da água para o vinho. O que falta hoje é menos compostura e qualidade na TV (falta muito), do que autoridade paterna nos lares, quando há lares de que se possa falar, num universo em que pai e mãe, tios e avós trabalham todos onde podem e como podem, enquanto os pirralhos, ao menos nas vastas favelas, são recrutados pelo tráfico e pela bandidagem.
Mundo de segunda ordem."
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