ROCK IN RIO
Jotabê Medeiros

"Tédio e pasteurização marcam a primeira noite", copyright O Estado de S. Paulo, 15/01/01

"O que é que um show de Daniela Mercury prova, além de que o Brasil produz uma música capaz de alcançar um consumidor internacional? O que Milton Nascimento nos prova, além do fato de ser um crooner excepcional com um repertório cíclico que não se renova? O que um show de James Taylor prova, além de que boa parte do pop internacional sobrevive de nostalgia e repetição?

Os shows da primeira noite do Rock in Rio, no Palco Mundo, surpreenderam negativamente pelo que apresentaram de conservadorismo e de pasteurização. O que geralmente se torna um espetáculo de emoção, aquele que tem o suporte do público em vocais de apoio entusiasmados, no Rock in Rio é reiteração e clichê, é exumação e tédio.

Tudo começou a ruir já com Milton Nascimento, o mais desanimado e enfadonho do cast equivocado da noite de abertura. Milton já abriu cedendo à tentação do discurso oportuno, cantando Imagine, de John Lennon. O gesto dispensa comentários. Depois, veio Gilberto Gil, um artista de imensa nobreza que, de uns tempos para cá, tem se portado como um caixeiro-viajante da MPB, tocando exaustivamente até em lançamento de marca de bolacha e banalizando seu ritual de música. Vê-lo cantando pela milésima vez o onipresente hit Esperando na Janela não é exatamente uma surpresa para ninguém que tenha uma TV ou um rádio.

E veio James Taylor, camisa com os punhos desabotoados, violãozinho e um molho cubano na percussão, com o músico Luis Conde, made in Havana. Sweet Baby James, amado de antemão pela platéia mais furibunda, não deixou nenhum dos seus velhos clássicos de fora, com You've Got a Friend, Mexico, Fire & Rain, How Sweet This e outras 15 de um cancioneiro hiperexposto nesses seus 32 anos de carreira. Cantando no Rio, esse bostoniano que compôs um hino chamado Only a Dream in Rio não tem o menor problema para conquistar a platéia. Mas mostra-se inseguro e atira no líquido e certo.

Quando chegou Daniela Mercury, ‘encaixada’ entre as atrações internacionais Sting e James Taylor, tudo ruiu de vez. La Mercury, que canta mal, veste-se mal e tem um discurso embotado, é a imagem bem-acabada de um Brasil tipo exportação que ainda tenta se impor pelo sorriso fake, pela aeróbica ininterrupta, pelo discurso da ‘alegria inata’, da negritude democrática e genética.

Sting parecia ser a redenção. Quando surgiu, pós-Police, com The Dream of Blue Turtles, o baixista de rock que quis ser jazzista parecia que acertava em cheio com seu mélange entre o pop e a fusion, com algum tempero new wave.

Mas Sting nunca se decidiu por nada, e seu disco mais recente, Brand New Day, é ainda mais esquizofrênico.

Sting, no entanto, é um showman habilidoso, que conduz um set list prenhe de hits e de generosidades. As maiores delas são as canções do Police, para a platéia mais madura. Roxanne e Every Breath You Take acendem o público. Que já está meio morto, estendido no gramado. É alta madrugada na Cidade do Rock, e o sol que já vem nascendo não parece que vai trazer novidade."



Biaggio Talento

"Carlinhos Brown vê preconceito na reação do público", copyright O Estado de S. Paulo, 17/01/01

"Carlinhos Brown gostou de ter provocado a violenta reação do público do Rock in Rio no domingo, apesar de ter recebido uma garrafa de água mineral (cheia) no rosto, entre os muitos objetos atirados pelo público. ‘Não considerei a reação do público uma coisa ruim’, disse, anteontem, após desembarcar na capital baiana. Segundo o músico, quando alguém o contrata para um show sabe que ‘algo de mais vai acontecer’. Ele gostou da repercussão, ironizando o fato de ter sido o destaque do noticiário. ‘Esperava ver o nome e as fotos do Axl Rose (do grupo Guns N' Roses) nas páginas dos jornais, mas quem estava lá era eu.’

Brown atribuiu à ‘falta de educação doméstica’ e à excessiva idolatria dos jovens brasileiros aos artistas internacionais a reação dos espectadores que foram naquele dia ao Rock in Rio para ver o Guns N' Roses. Ele não considerou um erro da organização programar sua apresentação para um dia predominante de rock pesado. ‘Eu precisava estar ali para transmitir uma mensagem de paz’, acredita Brown, assinalando ter cantarolado o Hino Nacional com o objetivo de ‘despertar o orgulho pelo País’.

Ele acha que o episódio nunca ocorreria na Bahia, onde na sua opinião, o público é mais receptivo. Viu uma demonstração de preconceito musical e racial na agressão. ‘Fiz um dos maiores shows de minha vida’, acrescentou."



Marcos Augusto Gonçalves

"Por um mundo pior", copyright no. (www.no.com.br), 16/01/01

"Os tapumes para o Carnaval começam a ser montados nas imediações do Sambódromo, enquanto o Rio ainda é rock neste primeiro janeiro do século. ‘Por um mundo melhor’, diz o mote, bocó, do evento, que leva milhares a Jacarepaguá. Ao menos para Carlinhos Brown, o mundo piorou bastante com aquela grossa chuva de garrafinhas que uma Iansã doidona e roqueira fez desabar no dia de sua apresentação. Brown fez o que pôde. Empunhou o slogan diante da impaciente multidão e saiu de pé. Tentou enquadrar o incidente num confronto nacional versus estrangeiro: entoou o ‘Euvira’ e acusou os agressores de colonizados, meninos mimados, criados com Toddy no playground. Bobagem. Sem rock não haveria Brown, nome, aliás, de James, o rei da soul music, negão de Atlanta, Georgia. Brown, na Bahia, virou apelido de negro ‘moderno’, também adotado pelo Mano de São Paulo.

A Bahia, diga-se, não é só Brasil, axé e pandeiro. É uma as pioneiras do rock brazuca, com Raul Seixas, que apesar da vontade de ser americano, soube mesclar o gênero com o baião e construir uma lenda, que permanece viva. A Bahia gerou também Marcelo Nova, o líder da pesada Camisa de Vênus, que nada tem a ver com o modelo da bainidade de Brown. ‘Rock é o nosso tempo’, cantava Gil em outros tempos. Strawberry fields forever? Nem tanto. Se o rock fez parte da trilha sonora de uma revolução de costumes e se foi, mais do que um gênero musical, uma ‘atitude’, hoje resta-lhe muito pouco disso tudo. Ficou a casca, o espetáculo, a ritualística, a idéia de Woodstock transformada em empreendimento.

Hoje, qualquer Zé Mané, qualquer presidente americano ou brasileiro, já fumou maconha, praticou ‘sexo livre’ e dormiu no sleeping bag. Não é mais preciso distorcer guitarras e ficar rouco por causa disso. O ambiente de fãs de rock tornou-se terrivelmente sectário e intolerante. Tribos reúnem-se infantilmente em torno desse ou daquele ‘gênio’ (em geral meio burraldo), dessa ou daquela banda, estilo ou sub-gênero, como se integrassem seitas excludentes, em busca de uma ‘verdade’ de tolo.

O rock sempre arregimentou uma juventude (sub) urbana pobre ou de classe média baixa, deslocada, às voltas com dramas sociais - o que lhe conferiu uma certa potência contestadora e um interessante charme ‘revolucionário’, especialmente quando, nos anos 60, encontrou-se com a contracultura e com uma talentosa ‘intelligentsia’ estética, poética, literária e musical. Hoje, neonazistas discriminam e agridem ao som de rock. Por um mundo pior. O que não é tão estranho assim: sempre houve no ambiente do rock uma forte dose de violência, de catarse, de liberação de instintos, o que pode ter uma função transformadora ou... simplesmente brutal.

O assassinato, a facadas, de um sujeito durante um show dos Stones ficou na história. Os responsáveis foram os Hell's Angels, aqueles brutamontes montados em Harleys, que Mick Jagger e amiguinhos chamaram para cuidar da ‘segurança’ do evento. Mas não vamos transformar os nossos arremessadores de garrafinhas em hordas malignas do inferno. Houve uma certa gaiatice naquilo tudo. Os meninos estavam ali para se aborrecer com o Oasis e, isso sim, delirar com Guns N' Roses. Horas em pé, numa estafante espera das atrações que pagaram para ver... Ok, Pato Fu ainda deu para ouvir - e a própria estrela da banda, a adorável Fernanda Takay, confessou que temia represálias do público. O Pato Fu tinha até um número pronto para uma situação de emergência. O que dizer, então, de Brown, com aquela baianidade lustrosa e fantasiada?! Seria como se você fosse ver João Gilberto e tivesse que encarar, de aperitivo, Sepultura e Metallica. Dureza, não?"


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