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ESPETÁCULO & UTOPIA
Luís Carlos Lopes
"A sociedade midiática", copyright Correio da Cidadania, 12 a 19/01/01
"Existem no mundo presente duas idéias-espetáculo de grande força e apelo social. A primeira delas vem sendo chamada de ‘presentismo’. A segunda, é conhecida como ‘pensamento único’. Tem cabido às mídias, em especial à televisão, o bombardeio sistemático de ambas.
O ‘presentismo’ consiste no simplismo de que tudo que hoje ocorre nada tem a ver com o passado. No senso comum em vigor, predomina - com reclamações eventuais de alguns - a crença de que o atual deve ser explicado como uma coisa absolutamente nova e não relacionável à história. Esta é folclorizada e distanciada do presente nas suas linhas e marcas mais essenciais. Obviamente, o que ocorre hoje é diverso de outrora, mas daí a achar que saímos agora da casca do ovo é de uma pobreza mental e cultural preocupante.
Fala-se no Brasil dos 500 anos, para dizer que não trouxemos problemas do passado. Somos felizes, a nossa herança escravista, por exemplo, foi superada. Se bem que apareceram alguns - felizmente - para atrapalhar o espetáculo. A nau, ao invés de navegar, afundou em um mar de lama. As formigas nativas ajudaram na festa, em solidariedade aos velhos donos de Pindorama, que já não é mais o país do futuro.
O ‘pensamento único’, ainda mais difuso do que o ‘presentismo’, tem várias leituras. Para os políticos no poder e para aqueles que entendem o país como um negócio, significa que a via escolhida é a única possível e que qualquer outra proposta carece de fundamento lógico. Devemos seguir a receita, ‘fazer o dever de casa’, isto é, somos mesmo ‘crianças’, não devemos duvidar, interpelar, buscar nossos caminhos. Os nossos ‘pais’ sabem o que fazer e já nos deram a ‘receita’. Devemos aceitá-la. Reclamar só um pouquinho, desde que nada de essencial seja mudado.
Para as partes mais pobres e mais ou menos pobres do tecido social, a leitura do ‘pensamento único’ é crer que a vida é consumir o que é preciso e o que é supérfluo, sem que se saiba a distinção entre ambos. Aceitar o desemprego como fatalidade ou salário baixo como purgação dos pecados. Pensar a criminalidade como um problema estranho à vida social. Seguir a moda, ‘malhar’ o corpo e esquecer o espírito. Endividar-se com a moradia financiada que vira a dívida-eterna-própria. Pagar os juros e taxas bancárias cem vezes maiores do que o banco remunera as poupanças. Ver, pelos olhos da propaganda política direta e indireta, que o país está progredindo, melhorando. Pensar igual, votar igual ou quase igual. Jamais se revoltar, aceitar o real como natural e não querer saber de nada. Aceitar as regras do jogo e ponto final.
O poder espetacular das mídias consiste em um fenômeno universal, que encontra força estupenda nos países com maiores desigualdades sociais, problemas político-econômicos etc. A importância destas é imensa, porque são elas que tratam da formação do espírito da grande maioria da população. Esta, por sua vez, mira-se neste imenso espelho sem aço, cor e dimensão única. Há uma relação de cumplicidade. Vemos na tevê, ouvimos no rádio, lemos nos jornais ou acessamos na Internet o que somos, queremos ou acreditamos ser. Deste vai e volta, que também é uma forte atividade econômica, fazem-se as consciências dos homens e das mulheres de nosso tempo. Se aparece nas mídias, é verdadeiro, útil e pode ser seguido. Caso contrário, é falso, está fora de moda, inútil e deve ser desprezado.
As mídias têm sujeitos que servem a deuses e a demônios. Por mais que o público interfira e influa, é preciso, em todos os casos, verificar quem tem mais poder na relação estabelecida entre as partes. Não decidimos, de fato, se existem apenas duas, três ou quatro possibilidades. A decisão consciente depende da multiplicidade de respostas, das variações infinitas de possibilidades próprias à espécie humana.
Dizem os especialistas que os computadores são limitados porque não conseguem trabalhar na imensa diferença que existe entre o sim e o não, o zero e o um. Muito tem-se tentado para ampliar estas possibilidades, mas é difícil ou impossível substituir integralmente por máquinas a capacidade cerebral humana que levou milhões de anos para se conformar.
A relação das mídias com o seu público é um sistema articulado que inclui corpos e mentes, fios, antenas, tinta, papel e máquinas, muitas máquinas, cada vez mais complexas e diversificadas. Vivemos a sociedade midiática, que fundiu a incrível capacidade do viver e pensar a mil e um artefatos tecnológicos.
Essas idas e vindas não são naturais. Aliás, quanto mais se defende a naturalidade, mais se encontra a artificialidade midiática-social de nosso tempo. As mídias e, fundamentalmente, as imagens e sons veiculados massivamente revelaram-se mais potentes do que as religiões do passado - pobre da igreja que não tenha uma dimensão midiática! -, mais fortes do que a escrita depositada nas estantes, com seu caráter patrimonial-estático, impossibilitada de competir com o dinamismo imagético-sonoro tecnológico contemporâneo. Fazem renascer das cinzas costumes esquecidos ou, se necessário, articulam novas crenças e novos pontos de vista morais.
Os políticos de qualquer naipe ou credo já sabem disto. Fazem de tudo para aparecer, buscam esconder o que não é para ser visto e construir imagens que os tornem palatáveis ou os retirem do cenário. Dá para imaginar, por exemplo, no Brasil e nos EUA, uma campanha eleitoral sem o ‘palanque eletrônico’? E os escândalos espetaculares, quais seriam os seus verdadeiros significados?
As instituições, para o bem ou para o mal, que antes tinham o papel de formar as consciências - a família, as igrejas, a escola e o estado -, estão em crise ou por demais fragmentadas. Aliás, as mídias alimentam-se desta fragmentação. Quantos comem em casa sem assistir à televisão? Quantos tentam interpretar a notícia? Quantos conversam - inclusive nós - sem dar exemplos colhidos nas mídias? Delas saem o que consideramos belo e feio, certo e errado, falso e verdadeiro. Isto acontece, mesmo quando tentamos fazer a crítica. São os conteúdos dos modernos meios de comunicação que funcionam como os mais importantes arautos da moral, dos costumes e dos demais conhecimentos humanos. Somente através delas é possível discutir o problema com o seu público, como aqui o estamos fazendo.
Apenas para um exercício de pensamento, vamos imaginar que no Brasil, ou em qualquer outro país, todas as televisões, rádios, jornais, a Internet e os telefones celulares deixassem de funcionar por alguns meses, sem que faltasse luz, gás, água e telefones fixos. As ruas e os sistemas de transporte, alimentação, lazer etc permaneceriam intactos. As escolas, as bibliotecas e livrarias seriam mantidas abertas. Os locais de trabalho estariam, se possível, em marcha normal de produção. Completando este raciocínio, assumidamente alucinado, vamos imaginar que todos seriam convidados a pensar por alguns dias, conversar muito com os seus familiares, amigos, colegas de trabalho. Em seguida, nesta nossa utopia, todos ou quase deveriam externar as suas idéias com a mais absoluta liberdade, reclamar de necessidades e pedir mudanças. Qual seria a maior reivindicação da grande maioria? O que aconteceria com a vida social? O que ficaria de pé e o que seria derrubado? Como ficariam os corpos e os espíritos? Qual seria o futuro de nossos filhos? Fica para o leitor pensar e responder. Suas respostas podem ser tão alucinadas como a proposição acima. Não se assustem! As utopias só servem para entender melhor o que nos cerca. O século XX demostrou que podem ser ao mesmo tempo úteis e perigosas. (Luís Carlos Lopes é professor do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF)"
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