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BESTEIROL NA IMPRENSA
Mauro Chaves
"Das besteiras consagradas", copyright O Estado de S. Paulo, 13/01/01
"Sem que se saiba bem por que, tem-se formado no País um já vasto repertório de besteiras consagradas, nos mais diferentes campos de atividade, pública ou privada. Apenas a título de ilustração, sem pretensão de esgotar o repertório, vejamos dez dessas que, para abreviar, chamaremos de bescons.
Torcida - Não bastasse os locutores esportivos terem transformado em torcedor compulsório todo e qualquer cidadão disposto a simplesmente apreciar uma partida de futebol - a ponto de, em suas transmissões, não existir mais público assistente, mas somente torcedores dos times em campo ou de seus adversários -, hoje se confere ao torcedor um verdadeiro status de cidadania, com a devida ‘reivindicação de direitos’, exigência do respeito a ‘prerrogativas’ e coisas do gênero. É claro que o torcedor é mais que um simples apreciador de espetáculos esportivos. Mas aceitar a mera qualificação pessoal de torcedor de um clube, como justificativa para as mais estapafúrdias reivindicações ‘corporativas’, é uma bescon de placa da qual não têm escapado os locutores esportivos mais competentes, padrão Galvão Bueno de qualidade. Não é sem razão, pois, que Eurico Miranda afirma ser um deputado federal eleito só pelo Vasco, para defender, exclusivamente, os interesses do clube carioca. É que, de tanto incensar o torcedor, se chegou à distorção de fazê-lo substituir o cidadão.
Galera - É o coletivo que se impõe a todos os que assistem a shows e espetáculos de qualquer gênero. Trata-se de uma das bescons mais generalizadas nos programas de auditórios de TV e nos shows musicais, em que o tratamento dispensado ao espectadores assemelha-se muito mais ao tanger de uma manada do que a uma exibição ao ‘distinto público’. Em manutenção - Essa é uma bescon do gênero
Disfarce de desleixo - Quando se vai a um cinema com o ar-condicionado pifado, em meio a um calor sufocante, quando se vê um bebedouro sem uma gota d'água ou um elevador quebrado, ante uma enorme fila de repartição pública, é muito comum deparar-se com a plaquinha ‘Em manutenção’ - quando se sabe, perfeitamente, que todos aqueles equipamentos estão simplesmente quebrados e não recebem ‘manutenção’ nenhuma há muito tempo. Assim, o ‘Em manutenção’ significa, na verdade, que o que está sendo mantido é o enguiço.
Aeróbica baiana - A chamada ‘axé music’ coreografada tomou conta dos salões e determinou a proibição intransigente - e intolerante - da dança a dois. O rosto colado transformou-se numa espécie de crime lesa-Bahia, deixando aos cerceados, desprezados e empurrados casais que ousam praticá-lo a alternativa que restava ao solitário personagem de Ionesco, que se recusava a virar, como todo mundo, rinoceronte e, ao final, resistia sozinho, esbravejando: ‘Eu não capitulo, sou um homem!’
Perguntas pré-respondidas - Essa é uma bescon jornalística muito comum em entrevistas coletivas ou programas de entrevistas na televisão. O repórter faz uma pergunta que já contém a resposta pretendida e a respectiva mensagem ideológica - do próprio repórter. Geralmente a pergunta se inicia com o ‘senhor não acha que...’ Por exemplo: ‘O senhor não acha que isso é um dos efeitos perversos da globalização?’ Ao entrevistado cabe aceitar ou não a proposta de resposta circunscrita a um nível de profundidade padrão teste de escolha múltipla.
Fotos agachadas - Essa é uma bescon da reportagem fotográfica que muitos parecem considerar um delicioso ‘achado’: trata-se de colher um instantâneo do momento em que alguma conhecida autoridade vai sentar-se - de preferência mais de uma figura pública, sentando-se para uma reunião. A pose de as pessoas ‘se agachando’ - no processo normal de quem vai sentar-se - se torna uma postura desmoralizante, cheia de conotações ‘simbólicas’.
Daqui a pouco a gente volta - A bescon não é a frase comum normal, usada por Jô Soares para anunciar os intervalos de seu programa, mas sim o fato de ela ser excessivamente imitada por quase todos os apresentadores de programas de entrevistas e telejornais, como se se tratasse de um ‘achado’ indispensável.
Humor pré-formatado - É o uso à exaustão, nos programas humorísticos, dos mesmos jargões dos personagens aplicados a situações parecidas. A velha fórmula preenchida com criatividade poderia funcionar, mas, do jeito pobre que fazem, vira não uma zorra, mas uma modorra total - no caso, uma sub-bescon.
Robotização dos atendentes - Os agradecimentos forçados, especialmente das companhias telefônicas (Do tipo ‘Telefônica 15 agradece, etc.’) que fazem quem está com pressa controlar-se para não desligar no ouvido dos robozinhos falantes, economizando impulsos.
Sotaque colonizado - Bescon maior do que o excesso de estrangeirismos dispensáveis (do tipo delivery, drive-thru, etc.) é o deslumbramento pelo sotaque estrangeiro (em português) simultâneo à vergonha do sotaque brasileiro (em outras línguas, especialmente inglês). Os locutores enrolam toda a língua para falar uma palavra inglesa do jeito norte-americano (ou do que pensam que o seja). Ao mesmo tempo, aqui se acha tão lindo o sotaque estrangeiro que até pessoas que já poderiam falar bem melhor a nossa língua parecem fazer questão de intensificar o próprio sotaque, para manter o charme - caso do simpático ‘americano’ Henry Sobel (excelente figura pública).
Eis uma pequena amostra de um cacoete nacional. (Mauro Chaves é jornalista, advogado, dramaturgo e produtor cultural)"
Elpydio Phragoso
"O melhor do pior", copyright O Estagiário (www.oestagiario.com.br), 01/01
"No dia 19 de dezembro de 2000, um punhado de jornalistas reuniu-se no Hotel Othon, no Rio de Janeiro, para assistir à divulgação dos vencedores da 45a edição do Prêmio Esso. Sorrisos, número musical, comes e bebes compunham o ambiente de comemoração. Ficou faltando, porém, uma razão para celebrar. O primeiro prêmio de ‘melhor contribuição à imprensa’ resumiu o despropósito da festa: Correio Braziliense, pela manchete ‘O Correio errou’. Jornais de todo o Brasil publicam, diariamente, erratas e correções. Mas os responsáveis pelo Prêmio Esso encontraram ‘coragem’ e ‘ineditismo’ no que não passsou de cara-de-pau.
As acusações infundadas a Eduardo Jorge mostraram ser o que o próprio diretor de redação do Correio, Ricardo Noblat, considerou a maneira mais fácil de se ganhar um Prêmio Esso. Há rumores de que o Conselho Federal de Medicina já iniciou a procura por profissionais de saúde que tenham se confundido na amputação de uma perna ou receitado açúcar cristal a pacientes diabéticos para disputarem um prêmio de melhor contribuição à prática médica. Desde que reconheçam o feito publicamente, claro.
Bola de cristal
O ano 2001 começou com dois consensos da imprensa brasileira. A confusão no Estádio de São Januário, durante a final da Copa João Havelange, era ‘previsível’. A tragédia na praia de Copacabana, em pleno réveillon, foi ‘anunciada’. Nenhuma das vozes inclementes de jornais, revistas, sites, redes de TV e emissoras de rádio - responsáveis por matérias repletas de denúncias e editoriais indignados - lembrou-se de revelar quem previu ou anunciou. Com certeza, não foi a imprensa, persistente no hábito de correr literalmente atrás da notícia. Depois dos incidentes, todos apressaram-se em descrever a má conservação dos estádios, a irresponsabilidade dos dirigentes de futebol, a distância exígua entre público e fogos de artifício. Como se os elementos para essa reação enérgica houvessem surgido com o novo milênio, em um passe de mágica.
Moneystock
Um evento que, por enquanto, não tem defeitos é o Rock in Rio 3. Distribuindo quantias generosas em anúncios, o festival vem recebendo farta cobertura da imprensa, com colunas extraordinárias e ‘projetos especiais de marketing’. Atrações, curiosidades, serviço, negócios, projetos, campanhas: nada foge ao olhar aguçado de jornalistas que reconhecem nos sete dias um marco na história da indústria do entretenimento - e da cidadania! Artistas que passam longe de qualquer vertente do rock, movimentos que têm como slogan ‘eu não vou’ e vendas de ingressos abaixo do esperado mantém-se despercebidos. Nem a organização dos Medina poderia esperar uma relação tão afetuosa.
Sabichões
A Carta Capital de 06 de dezembro separou seis páginas para um especial intitulado ‘A era da ignorância’. Além de servir de exemplo de pauta para publicações que preferem se dedicar à relevância de resorts com pacotes de R$ 4 mil por semana - informação utilíssima para 0,2% da população brasileira -, a matéria lança luz sobre um dos maiores equívocos da atualidade. Ficam as perguntas de T.S. Eliot, reproduzidas pela revista: ‘Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?’."
MÍDIA EM PORTUGAL
O Estado de S. Paulo
"Marqueteiro brasileiro queixa-se de imprensa e campanha `limitada'", copyright O Estado de S. Paulo, 14/01/01
"Para o marqueteiro político brasileiro Hiram Pessoa de Melo, que fez a campanha do candidato Joaquim Ferreira do Amaral, a situação da imprensa portuguesa é próxima da de um regime autoritário. ‘Existe uma ditadura da imprensa, que é ligada ao governo. Sinto como se estivesse fazendo campanha num país de ditadura.’ Melo queixa-se de que a imprensa dá um tratamento pior a seu candidato do que ao atual presidente: ‘O candidato foi caracterizado como agressivo, transformaram crítica política em ataque pessoal.’
O marqueteiro veio para Portugal por indicação do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, que foi embaixador em Lisboa. No Brasil, ele trabalha apenas com o PFL e já fez campanhas na Argentina, na Venezuela e no Paraguai. Segundo a publicação da Associação de Consultores de Comunicação Política e Governamental das Américas, em 1998/99 foi o marqueteiro com maior número de vitórias no continente. No Brasil tem o índice de 70%. Segundo fontes do partido, que discordaram da contratação, ele estaria cobrando US$ 250 mil pela campanha.
Em Portugal, Melo introduziu alguns instrumentos novos na campanha eleitoral, como as sondagens qualitativas diárias, telemarketing e a integração e unificação da campanha. ‘Trouxemos tecnologia de campanha, fizemos uma campanha integrada.’
Ele considera as campanhas eleitorais portuguesas completamente diferentes das brasileiras. ‘O prazo é muito curto, apenas 12 dias. É proibido fazer anúncios na TV e o horário eleitoral não é transmitido ao mesmo tempo em todos os canais. Os principais meios de campanha acabam sendo os outdoors e os almoços e jantares. É uma campanha gastronômica, com almoços, jantares e inaugurações de comitês.’
Uma das dificuldades é a limitação de gastos, que este ano é de aproximadamente US$ 1,5 milhão por candidato. ‘Isso favorece quem está no poder. Fica muito difícil para um candidato de oposição’, critica. Para conseguir passar a mensagem, é necessário criar fatos políticos diariamente, para que cheguem por meio da imprensa.
Até agora, ele considera seu trabalho um sucesso em Portugal: ‘Conseguimos, apesar dessas limitações, fazer com que o candidato subisse de 7% para pelos menos 30%. Ele ganhou estatura política na medida em que marcou a agenda da campanha. Fomos nós que introduzimos a discussão sobre os poderes do presidente, se o presidente tem ou não poderes. O Sampaio esteve permanentemente na defensiva, tentando justificar as omissões e descolar-se do governo socialista.’
Melo considera que mexeu numa situação estabelecida e seu trabalho tem incomodado os publicitários que faziam as campanhas anteriormente.
‘Existe uma campanha política contra mim. Eu sou um brasileiro a abater.
Chegou a ponto de ter um editorial no Diário de Notícias contra mim. No programa de sátira política Contra-Informação criaram um personagem para me retratar, que chamam de Mago Merlim.’"
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