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GRAMPO
Mino Carta
"O procurador da República em Cascavel (PR), Celso Antonio Três, compareceu à CPI dos Bancos na quarta, 2 de junho, para prestar informações sobre os milhares de contas CC-5 que lhe foram enviados pelo Banco Central. Nas última semanas, a imprensa verde-amarela descobriu o procurador e a existência de um instrumento que, ao longo desta década, permitiu a lavagem de bilhões e bilhões. Em maio do ano passado, uma Edição Extra de 26 páginas de Carta Capital revelava: "A maior lavagem de dinheiro do mundo". Tratava-se de R$ 30 bilhões em reais, então. O Jornal da Band, à época conduzido por Paulo Henrique Amorim, noticiou. No mais, o "estrondoso silêncio de sempre", como costuma dizer Bob Fernandes, redator-chefe de Carta Capital, autor daquela reportagem solenemente ignorada pelo resto da mídia.
O procurador Três, por causa da entrevista à Edição Extra, foi processado pelo BC. Ganhou na Justiça e cobrou as listas das CC-5 que agora faíscam nas manchetes. O Brasil, e não apenas os leitores de Carta Capital, foi finalmente informado sobre como se lavam R$ 30 bilhões, o que lhe foi negado um ano a fio. Na terça, 1º de junho, o Estado de S.Paulo invadia as alturas da página A6 com a notícia: "Procurador processa 40 por remessa ilegal". Aqui o atraso foi menor, só de 12 dias. Na edição passada, nº 98, Carta Capital publicava nova entrevista do procurador Três, contando exaustivamente seus passos mais recentes. Não é que Carta Capital afirme ter propriedade das informações relativas à lavagem de bilhões e às atividades de um magistrado competente e corajoso. Ao contrário. Embora ciosa da primazia, que na linguagem das redações se chama "furo", oferece as informações colhidas em primeira mão a todos os praticantes do jornalismo, sobretudo diário, e mesmo semanal, consciente até das suas limitações de quinzenal. Para que sejam desenvolvidas e aprofundadas. Mas um estranho vezo, hábito arraigado, pendor irresistível, perpassa as redações, habitadas em larga maioria por profissionais envolvidos até os olhos nas brigas da concorrência e devotados mais às causas e aos negócios dos patrões do que aos interesses dos leitores. Da opinião pública. Da sociedade em geral. Da nação.
Análise sem esforço e paixão do jornalismo nativo, desde o fim do regime militar até os dias de hoje, exibe uma inovação extraordinária: cada jornal, revista, emissora de televisão ou rádio assume os seus próprios acontecimentos e personagens e os torna patrimônio exclusivo, subentendendo que também o leitor, ouvinte ou telespectador está amarrado a este pacote privativo. "É um contrato igual ao de Xuxa e Tiazinha", sugere Bob Fernandes da mesa ao lado. Apresso-me a registrar, bem como a impressão de que férreas regras internas proíbem em cada redação trabalhar com fatos e personagens pertencentes a uma redação inimiga.
Por exemplo: os leitores de Veja, caso se dedicassem exclusivamente à leitura da revista da Abril fechando olhos e ouvidos a tudo o mais, poderiam ignorar que o delegado Vicente Chelotti deixou a direção geral da Polícia Federal em março passado. Veja limitou-se a um registro de meia dúzia de linhas na seção Radar. Tratou-se, contudo, de evento de relevo, com o insuportável senão de ter sido provocado pela reportagem de capa de Carta Capital n° 92. Com as exceções de praxe, as publicações em geral produziram malabarismos circenses para noticiar, freqüentemente aos sussurros, a saída daquele que se autodefinia como o Edgar Hoover brasileiro, sem revelar o trabalho desta modesta quinzenal.
Da mesma forma, o público que não nos lê desconhece os motivos que levaram o ministro da Justiça, Renan Calheiros, a ser chamado a depor em comissões do Congresso, juntamente com o chanceler Luiz Felipe Lampreia, Vicente Chelotti e Marco Antonio Cavalero. Convocados a pedido dos deputados Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) e José Genoino (PT-SP), por obra de duas reportagens de capa de Carta Capítal, números 97 e 98, revelando as atividades desabridas da CIA e da DEA em território nacional e as imperiais atitudes de James Derham, encarregado de negócios e chefe da missão diplomática dos EUA no Brasil.
Os espiões pintam e bordam, a ponto de terem grampeado, em consórcio com a PF, o presidente Fernando Henrique à época da disputa do bolo de US$ 1,4 bilhão do Projeto Sivam entre americanos e franceses.
Mas os agentes secretos do Tio Sam sabem como seduzir os nativos. Pagaram a construção do Centro de Dados da PF, ex-CDO, hoje SOIP, e distribuíram gorjetas mensais entre policiais brasileiros em lugar de miçangas.
Em seu depoimento, Calheiros ora disse tratar-se "de um equívoco", ora declarou "desconhecer" a presença da CIA. A sessão durou três horas e meia e só tratou das revelações de Carta Capital. Seguiram-se entrevistas à mídia fartamente representada, mais negativas e esquivas do entrevistado. Desligados, porém, microfones e câmeras, Calheiros disse a Bob Fernandes: "Essa história de CIA e CDO não é da minha época, isso é do tempo do SNI, coisa de dez anos atrás." Entre a dezena de jornalistas presentes, metade ouviu a frase. Ninguém procurou saber mais. Em compensação, leitores, ouvintes e telespectadores de todo o país não entenderam por que o ministro fora chamado a depor. E o Jornal do Brasil anunciou: "Renan não acredita na presença da CIA no Brasil."
Calheiros fala e os colegas não se preocupam em rastrear a verdade. Fizessem o que compete aos jornalistas, não somente saberiam que a CIA opera à vontade no Brasil, mas também que seu chefe local, Craig Peters Osth, cujo cartão de visitas surgiu na capa de Carta Capital nº 97, cruamente iluminado por um spot, já deixou o posto e se encontra nos EUA. Quanto a James Derham, afivela as malas de partida para o México. Parece que a nossa reportagem causou maior impacto em Washington do que com Brasília.
Há reportagens e reportagens. Eminentes colunistas, depois da divulgação pela Folha de S.Paulo de diálogos grampeados no BNDES à época do leilão da Tele Norte Leste, se apressaram a informar, taxativamente, que as versões fornecidas em novembro passado saíram para as redações do próprio Palácio do Planalto. No caso de Carta Capital não foi assim: ouvimos trechos de fitas em lugares diferentes, com o patrocínio de fontes diferentes, e certamente não governistas. Talvez por isso, a reportagem de Carta Capital nº 87 foi decisiva para precipitar a queda de Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Rezende e cia.
Uma questão interessante fica no ar, de todo modo: por que voltamos a falar da fitalhada mais de seis meses depois das primeiras informações sobre o grampo? E há questões ainda mais imponentes: por que o jornalismo verde-amarelo representa um fenômeno único no mundo democrático e civilizado? Quem sabe esta característica da mídia nativa valha como mais um sintoma da incompatibilidade entre uma sociedade ainda medieval e uma democracia digna da contemporaneidade. Mas é possível que, especificamente, causas desse comportamento da mídia devam ser localizadas na participação generalizada de alguns dos maiores grupos de comunicação no processo de privatização da Telebrás das TVs a cabo. Antes disso, nas rádios e TVs dos anos Sarney/ACM. Depois, em maio passado, na tentativa de criar o Proer da mídia.
Há uma febre de CPIs, muitas delas convocadas para fazer cena e promover pré-candidatos para 2002. Não é impossível que quem mais precisa de CPI sejam os meios de comunicação. Não por conta das vísceras expostas, como diz Fernando Henrique, mas das vísceras escondidas, ainda que não se ocultem aos olhos dele."
"Os donos dos fatos", copyright Carta Capital, nº 99 - 9/6/99
Ali Kamel
"Quero deixar claro logo de saída que este é um artigo sobre ética jornalística. Portanto, apesar de tratar dos grampos do BNDES, não discutiremos aqui, no mérito, se foi legal e legítima a atuação do Governo na formação dos grupos que disputariam as teles.
Um primeiro ponto tem distorcido toda a questão - a discussão sobre se é correta a publicação de informações secretas obtidas de maneira ilegal. Os que defendem esse ponto de vista citam sempre o caso de Daniel Ellsberg. Ex-funcionário do Governo americano, ele se apossou ilegalmente de estudos secretos do Departamento de Defesa apontando erros da diplomacia dos EUA na guerra do Vietnam e os repassou ao New York Times, que os publicou em capítulos. O Governo americano tentou evitar a sua divulgação, mas a Suprema Corte deu ganho de causa ao jornal. Por que o caso, lembrado agora como jurisprudência, distorce a discussão? Porque o que agora se divulgou não era nem documento, nem secreto: eram fitas, gravadas ilegalmente, com fins criminosos. Entre uma e outra coisa há muitas diferenças, mas uma é fundamental. Dos documentos, sabia o New York Times que eram oficiais e, o mais importante, reconhecidos como verdadeiros pelo Governo.
Algo totalmente diverso ocorre com as fitas. Para que o meu raciocínio fique claro, proponho aos leitores que se coloquem na posição de um jornal nos momentos que antecedem a publicação das fitas e que tentem ignorar tudo o que se passou depois, no caso concreto da Folha de S. Paulo: antes de publicar as fitas, se não houver trabalho de investigação prévio, não se procurando sequer ouvir o ‘outro lado’, ninguém, absolutamente ninguém poderá ter certeza do que virá a ocorrer nos dias subseqüentes (reação do Governo, revelação de fatos novos, novas fitas em poder de terceiros). Pois bem: a Folha recebeu as fitas ou diretamente do criminoso ou de um seu intermediário, não fez investigação paralela nem ouviu o ‘outro lado’. Não podia ter, portanto, a menor idéia sobre se elas eram o resultado de todo o grampo, se eram os melhores momentos na opinião do criminoso ou se havia outras fitas em que a posição do Governo se revelasse inquestionavelmente positiva. E o que fez a Folha? Publicou-as e delas tirou conclusões peremptórias: ‘FHC tomou partido de um dos grupos no leilão da Telebrás’. Foi um salto no escuro.
O que a estimulou a correr o risco? Principalmente, o conteúdo de uma das fitas, aquela em que, após ouvir do ex-presidente do Banco Central André Lara Resende o pedido para usar o seu nome para pressionar a Previ a apoiar o Opportunity, o presidente Fernando Henrique afirma: ‘Não tenha dúvida’. Por que o risco? Porque, naqueles momentos que antecederam a publicação, nada garantia que uma outra fita ou um outro trecho, desconhecidos da Folha, desmentissem, atenuassem, explicassem ou anulassem o conteúdo da primeira. Imaginem que, logo após dizer ‘não tenha dúvida’, FH tivesse imediatamente voltado a falar com Lara Resende e afirmado:
- André, pensei bem e não tenho dúvida nenhuma mesmo: não me mete nisso, não concordo com a interferência do BNDES na formação dos consórcios, acho um erro, pare com essa estratégia.
A partir disso, dessa hipótese que sabemos somente agora que não se concretizou, um mar de possibilidades se abriria. Não vale dizer que o segundo telefonema de FH não teria possibilidade de ter existido porque as outras fitas em poder da Folha mostram que o BNDES seguiu na estratégia de interferência. As fitas levantariam apenas, além desta, outras entre várias hipóteses: FH poderia ter sido traído por Lara Resende e Mendonça de Barros; Lara Resende, em outro hipotético e desconhecido telefonema, poderia ter feito FH voltar novamente atrás; Mendonça de Barros, num acesso de megalomania, poderia ter mandado Lara Resende ignorar as palavras do presidente etc. Como não tinha certeza sobre se as fitas eram as únicas, como não ouviu o outro lado, a Folha, nos momentos que antecederam a publicação do material, não podia ter certeza de nada. Disse a própria Folha: ‘As 46 fitas de 90 minutos resultam em 4.140 minutos de gravação, ou 69 horas. Há muitos trechos em silêncio ou em branco (cerca de 30% das fitas, pelo menos)’. Trechos em silêncio ou em branco, apagados pelo criminoso, provavelmente. Correu a Folha, portanto, um risco enorme.
É fato, o conjunto de fitas que a Folha publicou leva quem o lê a ter uma visão negativa do Governo. Mas quem reuniu as fitas, quem deu a elas a forma de um conjunto? Um criminoso, que as obteve ilegalmente, com fins que podem ser múltiplos: prejudicar o Governo, obter ganhos comerciais ou, até mesmo, revelar a verdade, mesmo que ilegalmente. Era lícito supor, dadas a origem das gravações e a existência até mesmo dos tais trechos em branco, que talvez um outro conjunto de fitas ou um outro conjunto de trechos pudessem traçar um outro perfil do Governo, mais favorável, mais positivo, talvez até absolutamente positivo.
Não estou dizendo que as fitas eram falsas; estou dizendo que podiam (e podem) não ser as únicas. Portanto, seria legítimo e até mesmo uma obrigação imaginar que, pelo menos por hipótese, um outro lote de gravações, que o criminoso tivesse omitido do jornal, pudesse mostrar um diálogo do presidente com Mendonça de Barros ou com André Lara Resende em que não restassem dúvidas sobre os propósitos honestos do Governo, visando ao bem da nação, um conjunto de fitas em que os três principais citados aparecessem como paladinos da moralidade e da honestidade. Antes da publicação, e porque nem investigou a denúncia (apenas reproduziu fitas) nem ouviu o ‘outro lado’, o jornal não poderia ter certeza absoluta de que este outro lote hipotético de fitas não existia.
Mas a Folha fez ainda mais: como honestamente declarou, as fitas lhe chegaram às mãos sem ordem cronológica. O que fez o jornal? Publicou-as na ordem cronológica que lhe pareceu mais razoável. Ocorre que, para os crentes, o fluir do tempo pertence unicamente a Deus, Único a saber o que virá e a poder dispor do presente e do passado; os ateus ou agnósticos, apegando-se à Física, também sabem que o tempo é um fluir constante, sujeito a muitas leis, mas imune às leis do homem.
A questão pode parecer menor, mas não é. Tomemos um exemplo: em dado momento, a Folha ridiculariza Lara Resende porque este, num telefonema, teria ‘exagerado’ muito o apoio que teria recebido de FH, num telefonema anterior, aquele do ‘não tenha dúvida’. Com que certeza fez a Folha isso? Quem lhe garantia que entre um telefonema e outro não tivesse havido um terceiro, com o presidente a se comportar exatamente como o descrito por Lara Resende? Nada digno lhe garantia isso, apenas a cronologia que decidiu construir e, talvez, a palavra do criminoso que pode ter lhe assegurado que aquelas eram todas as fitas. E, no entanto, a Folha ridicularizou sem piedade Lara Resende, mostrando-o como um ‘contador de vantagens’, um bobo, um fanfarrão.
O que quero mostrar é que não se trata de dizer que as fitas mentem ou falam a verdade. Em debate com a teoria marxista, uma epistemologia weberiana diria que a realidade, o real, é sim uma totalidade, um todo abrangente, como querem os marxistas. Mas, diferentemente destes, os weberianos diriam que aquela totalidade é inapreensível enquanto tal, que não pode ser conhecida como um todo - é preciso recortá-la para conhecê-la, e os recortes podem ser múltiplos, e todos verdadeiros. Quatro testemunhas de um atropelamento, por exemplo, cada uma com um ângulo único de visão: todas contam uma história diferente e ninguém estava mentindo - são recortes de um todo que não pode ser apreendido em sua totalidade. Pois bem, eis o que me ocorre: se o real é construído, o discurso, por natureza fragmentado, é ainda mais altamente passível de toda sorte de interpretações. Não são as fitas que são uma montagem, é a montagem das fitas que é obra de um autor, no caso, o autor de um grampo, um fora-da-lei, que grampeou com algum propósito e deu publicidade ao grampo também com algum propósito (se a polícia resolver agir, talvez saibamos qual). O que digo é que nos momentos que antecederam a publicação das fitas, um jornal tinha por obrigação pesar tudo isso. Ponderar que aquelas poderiam não ser as únicas fitas; que aqueles poderiam não ser os únicos trechos, que a seleção das fitas poderia ser uma pequena parte do real, a parte que mais interessava ao seu autor. E, ao que parece, isso não foi feito: ao acolher a coleção da fitas do grampo, apenas contando-lhes os minutos e trechos em branco, mas sem ter a certeza de que aquelas eram as únicas, ao dar-lhes uma cronologia, ao não ouvir a outra parte, a Folha construiu um real ou deu publicidade a uma porção de real recortada por um criminoso. E, após tudo isso, proferiu uma sentença: ‘FHC favoreceu um consórcio’.
A Folha, sem dúvida um jornal sério, correto, dirá - e já disse - que agiu assim por ter formado a convicção de que as fitas eram prova de má conduta do Governo. A convicção, porém, até onde se pode chegar pela leitura do jornal, não foi lastreada por investigação própria, mas pela crença de que um conjunto de fitas (ou se preferirmos, um recorte do real), elaborado por um criminoso, era um todo e não uma parte.
Ao decidir publicar as fitas - e esta decisão é ao meu ver a correta - um jornal deveria, de uma forma claríssima, fazer as ressalvas que aqui aponto, relativizar o conteúdo porque vindo de um interessado fora-da-lei, investigar paralelamente para tentar descobrir se havia outras fitas e, o mais importante, o mais sagrado, ouvir o outro lado. E, em nenhuma hipótese, julgar, decretando uma verdade que até aqui está ainda fora do alcance.
Não é fácil, ainda mais quando se considera que nós jornalistas somos treinados para receber informações, entendê-las, processá-las e entregá-las ao leitor no menor prazo. A publicação das fitas pela Folha, no entanto, com todas as indagações que suscita, prestou ao menos um serviço: ao jornalismo, por nos fazer pensar que nada é simples, nem mesmo a transcrição de uma conversa telefônica sem o menor sinal de montagem.
"Grampos, Weber e a realidade em recortes", copyright O Globo, 12/6/99
Milton Seligman
"O Brasil tem sido informado sistematicamente de que lideranças conhecidas estão envolvidas em questões nebulosas, negócios ilegais ou, no mínimo, bizarros. O presidente, homem reconhecidamente honesto, foi envolvido no caso das escutas telefônicas da casa do chefe de seu cerimonial, nos grampos do BNDES e na falsa denúncia de contas em Cayman. Sem falar na ‘contratação’ de Elba Ramalho e Pelé, episódio envolvendo treinamento de burocratas, sem relação com a direção política do governo. Até Lula, líder da oposição e homem de conduta ilibada, foi envolvido em denúncia de favorecimento ilegítimo, com farta divulgação.
Além de parte das acusações ter sido obtida criminosamente (fato relevante), duas questões estão sem resposta. Quem ou quais interesses estão por trás do crime da escuta clandestina, agora envolvendo autoridades públicas? Qual a motivação da imprensa para dar tanto espaço à divulgação desses fatos? Políticos, opinião pública e a própria imprensa aguardam que a primeira seja respondida o mais breve possível, para que os criminosos sejam punidos. Mas falta discutir os interesses e o papel da mídia, que divulga quaisquer fatos que envolvam gente conhecida, independentemente de como tenham sido obtidos, buscando apenas gerar grande repercussão. O presidente, ao comentar os grampos, lembrou que a sociedade brasileira vive numa nação, não num mercado. Eis o cerne da questão.
Este é um tempo de grandes mudanças no mundo; a velha sociedade industrial começa a dar lugar à nova sociedade do conhecimento. Nas comunicações sociais, as mudanças são mais profundas que a invenção da imprensa.
As relações na sociedade da informação em que vivemos são verticais. Escreveu o jornalista italiano Roberto Savio (como introdução ao livro do escritor uruguaio Estevan Valenti sobre a Internet): ‘Esse verticalismo informativo está implícito no sistema de informação. Poucas pessoas, normalmente chamadas jornalistas, dirigem mensagens por escrito ou por meio eletrônico a uma grande quantidade de receptores; não há interação, a não ser mudar de jornal ou desligar o rádio e a TV. Enquanto todos têm acesso à informação, um direito humano, muito poucos têm acesso à produção e à distribuição dela. Os que têm são muito ricos (o mercador da época de Gutenberg) ou possuem poder (o príncipe daquele tempo). Para o povo, muito pouco mudou desde a liberação do monopólio estatal das freqüências de rádio e de TV, certamente muito mais aproveitada por mercadores e príncipes’.
A sociedade da informação ajudou a criar uma grande manipulação: apresentar teorias de mercado como fundamento moral para sua própria existência. O sistema informativo se baseia sobre o mercado, e é a lei do mercado que faz com que as notícias de maior impacto, que envolvem pessoas conhecidas, vendam mais e sejam consideradas a base de um jornalismo de sucesso.
No mundo globalizado, temos muito mais necessidade de seguir e acompanhar os processos do que de tomar nota dos acontecimentos. É o mercado, como fundamento moral, que orienta a pauta e a linha editorial da mídia. Nessa lógica, um dos fatores determinantes para a publicação de falsos escândalos em inúmeras páginas de nossos periódicos foi aumentar as vendas e o número de ouvintes e telespectadores.
O problema é que, se a sociedade não discutir isso a fundo, a situação pode se agravar muito com as novas tecnologias. Diz Savio: ‘Estamos, pela primeira vez na história, passando da sociedade da informação à da comunicação. Como será a participação política numa sociedade na qual as ocasiões de socialização serão sempre menos frequentes e em que, para um sindicato, reunir trabalhadores em praça pública será tão difícil como reunir átomos para criar matéria? Como se desenvolverão as tentativas não tanto do Estado, mas do mercado, de controlar a nova comunicação? Quando Orwell inventou o Grande Irmão, não estava na ficção científica. O interessante é que hoje o ‘Big Brother’ se assemelha muito mais a Bill Gates do que a Bill Clinton’.
São enormes os desafios brasileiros. Para enfrentá-los com chance de sucesso, temos de radicalizar a democracia e fixar limites para a atuação do Estado e do mercado, abrindo espaços para o fortalecimento do terceiro setor, a sociedade civil. Acusações sensacionalistas vendem jornal e destroem reputações. Quando os agredidos são pessoas públicas (que podem se defender), o dano pode não ser pessoal, mas é igualmente brutal: afeta a auto-estima de toda a sociedade, que deixa de confiar em seus líderes. Quando a liberdade de imprensa, no interesse de vender seus produtos, permite denunciar uma pessoa do povo, pobre dela: foi presa fácil dessa inquisição e está destruída.
Não é esse o papel que se espera das empresas de comunicação na sociedade contemporânea. O debate sobre o tema tem de ser mais profundo. A esperança é a de que a liberdade de imprensa, há pouco conquistada pela sociedade, abra espaços para ser a mais democrática e ampla possível, não para tornar o cidadão refém dessa conquista. (Milton Seligman é secretário-executivo do Comunidade Solidária. Foi presidente do Incra e secretário-executivo do Ministério da Justiça.)"
"O papel da imprensa", copyright Folha de S. Paulo, 6/6/99
CASO PC
Renata Lo Prete
"O caso PC está de volta ao noticiário, por mérito da Folha. Reportagem sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino da Silva publicada no jornal em 24 de março determinou uma série de desdobramentos nas investigações. No mais recente deles, quatro ex-seguranças de PC tiveram prisão preventiva decretada, acusados do assassinato da namorada do empresário.
Não se sabe o que aconteceu, na madrugada de 23 de junho de 1996, na casa de praia em Guaxuma. Mas nunca esteve tão disseminada a percepção de que as coisas não aconteceram tal como descritas no laudo oficial, segundo o qual Suzana matou o tesoureiro de Fernando Collor e depois se suicidou.
Dada a repercussão obtida pela reportagem, é curioso observar que ela não se baseia em entrevista bombástica ou revelação inusitada. Resulta da manipulação exaustiva de elementos que estavam, em sua maioria, dispostos em cena havia muito tempo. O jornalista Mário Magalhães fez um inventário dos erros, contradições e dúvidas que rondam a versão oficial.
Em seu texto estavam compilados desde as descobertas dos peritos que concluíram, em 1997, o chamado laudo alternativo, até depoimentos de familiares e conhecidos.
No topo de tudo isso, fotos mostravam que Suzana era mais baixa do que PC, ao contrário do que afirma o documento oficial sobre as mortes. O laudo assinado pelo médico legista Fortunato Badan Palhares lhe atribui 1,67 m. Ela media menos de 1,60 m. Com essa altura, explicava o jornal, é fisicamente impossível que Suzana tenha se suicidado. A hipótese é incompatível com a trajetória da bala.
O impacto dessa discrepância era estabelecido pela comparação com uma frase de Palhares, extraída de artigo veiculado na Folha em setembro de 1997. ‘A altura de Suzana é fundamental. Estando errada, estará errado todo o resto.’ A reportagem foi anunciada com grande destaque na Primeira Página. O contraste entre a evidência representada pelas fotos e a informação do laudo - baseada em carteira de Suzana, do tipo que se expede sem exame - falou mais alto do que as tentativas anteriores de ressuscitar o caso.
Com o passar das semanas, fui me dando conta, em conversas com leitores e colegas, que havia uma certa confusão quanto à natureza do feito da Folha. Muitos consideravam que a reportagem ‘descobriu’ o erro na altura de Suzana. Poucos tinham lembrança de que esse erro havia sido identificado, em 97, pelos peritos do laudo alternativo. Por coincidência, foi a Folha o primeiro veículo a ter acesso, em agosto daquele ano, às conclusões do documento, que acabaram confinadas em um pé de página.
Apesar da pouca exposição, três dos principais colunistas do jornal atentaram para a importância da informação e, em 31 de agosto, escreveram a respeito. ‘Deveriam ser duas, agora, as investigações. Demonstrado pelos novos exames que a moça foi assassinada, tornam-se indissociáveis as investigações sobre a autoria e um inquérito sobre os procedimentos que falsearam um crime passional para dar o caso por encerrado.’ (Janio de Freitas) ‘Volta-se à suspeita que até as conchas das praias de Maceió alimentaram quando souberam da dupla morte: queima de arquivo.’ (Clóvis Rossi) ‘Suzana era dez centímetros menor do que consideraram os outros legistas, os gênios, e estava tentando se levantar da cama quando foi atingida.’ (Eliane Cantanhêde) Em resposta a eles, bem como à reportagem, Palhares escreveu o artigo que acabaria por encostá-lo contra a parede.
Mesmo a comparação entre o erro na altura e a sentença fatídica do legista da Unicamp, que tanto efeito causou agora, foi feita nessa época. Ela consta de uma segunda reportagem publicada dois meses depois. No texto, Ana Luiza Marcolino, irmã de Suzana, sustentava que esta tinha 1,57 m. O confronto entre a medida e o veredicto de Palhares aparece também em editorial de 1º de outubro. O laudo alternativo e as declarações de Ana Luiza ‘impõem que as investigações sejam reabertas’, defendeu a Folha naquele dia. ‘Não se trata de mais um caso policial. É provável que a morte de PC tenha envolvido muitos interesses. Em nome do interesse público, é preciso esclarecê-la.’
Nenhuma das duas reportagens, de autoria do jornalista Lucas Figueiredo, chegou à Primeira Página. O assunto apagou-se em pouco tempo. Qual é, em essência, a novidade da reportagem de março passado? Em primeiro lugar, as fotos. Ainda que o registro visual da diferença de altura tenha estado disponível antes, a Folha obteve imagens novas e usou-as para demonstrar as afirmações do laudo alternativo. Em segundo lugar, houve disposição editorial para vasculhar o tema de forma minuciosa e conferir visibilidade aos resultados. Penso que o jornal deveria ter feito menção explícita, nesse material, tanto às reportagens anteriores quanto ao fato de que Palhares, em seu hoje célebre artigo, estava respondendo à Folha.
A atitude transparente em nada desmereceria a reportagem atual, de fato responsável pelo renascimento das cinzas do caso PC. Ao mesmo tempo, desfaria a impressão de que o jornal acaba de inventar a roda nessa investigação, o que, sem prejuízo de seu mérito, não é verdade.
A história das mortes de PC e Suzana faz pensar nos fatores - nem sempre confessáveis ao leitor - que determinam o tratamento dado às informações.
Quem acompanhou os primórdios desse noticiário se lembra do embate entre as revistas Veja e Isto É. A primeira deixou os demais veículos sem fala ao divulgar, em primeira mão, o esperado laudo de Badan Palhares. Mais do que isso, apresentou aquelas conclusões como verdade inquestionável. ‘Caso encerrado.’ Até a semana passada, não havia dito palavra sobre a reviravolta.
No outro extremo, Isto É deu tratamento de notícia a toda sorte de especulações que alimentavam a teoria da ‘queima de arquivo’. Hoje está claro que não havia cacife suficiente para bancar nenhuma das duas apostas. O caminho, para os interessados em desvendar o mistério, é continuar revolvendo o passado. A despeito do desprezo das autoridades pelo que chamam de ‘café requentado’, é com ele que se consegue, muitas vezes, esclarecer as histórias malcontadas.
No domingo passado, informei o placar das manifestações que recebi sobre a reportagem que revelou bastidores da privatização da Telebrás: 43 criticavam a Folha por ter publicado as conversas do grampo; 8 elogiavam o jornal. Nova rodada de mensagens: 18 de reprovação (em alguns casos, ao jornal e à ombudsman, que defendeu a reportagem) e 10 de apoio. Como observei há uma semana, esse placar merece registro e reflexão, mas não pode ser tomado como pesquisa. Por definição, o leitor que procura a ombudsman está insatisfeito com o jornal. Segundo levantamento do Datafolha publicado na quinta-feira, 79% dos assinantes paulistanos aprovaram a divulgação das fitas; 18% foram contra."
"PC redescoberto", Ombudsman, copyright Folha de S. Paulo, 6/6/99
O PODER DO E-MAIL
Moacir Werneck de Castro
"Esse endereço eletrônico acrescentado às matérias de colunistas e colaboradores regulares de jornal produz uns efeitos colaterais inesperados. É assunto que pode interessar a editores, ombudsmen, teóricos, professores e estudantes de comunicação, sem falar nos próprios leitores. Com o e-mail quebrou-se o controle que a direção dos jornais sempre pôde exercer sobre a opinião dos leitores, através da seção de cartas, consagrada na imprensa internacional pelo Times, de Londres, com a colaboração de personalidades como Bernard Shaw e Winston Churchill.
Entretanto, a contribuição mais relevante é a correspondência gênero queixas do povo, título de uma seção que o Jornal do Brasil já manteve e que ensejou uma interessante pesquisa do historiador Eduardo Silva (As queixas do povo, Paz e Terra, 1998). Tratava-se de ouvir ‘o discurso dos sem-voz’, dizia o autor, antes de FH falar na ‘voz rouca do povo’ (que ele não ouve). A faixa estudada, de 1900 a 1910, abrangia reivindicações e protestos da gente simples, que ajudavam a interpretar o meio social.
O tipo de correspondência publicada tem variado conforme o critério do jornal. Rubem Braga, que tinha o seu método socrático de elaborar um juízo, me perguntou certa vez: ‘Por que o leitor do jornal X é mais inteligente que o do jornal Y?’ É que o primeiro jornal abrigava cartas mais sofisticadas, de leitores que opinavam sobre tendências e costumes, em tom elevado, ganhando preferência sobre outros que protestavam e chiavam, falando da exploração dos preços, da falta de água, dos erros e abusos da administração, questões de interesse mais imediato para a comunidade.
O e-mail alterou o fluxo normal da correspondência dos leitores, estabelecendo outros parâmetros. Os que endereçam carta à direção do jornal querem vê-la publicada por um motivo prático, para que dê algum resultado. Já o e-mail para o colunista não tem essa finalidade legítima de divulgação; resulta sobretudo de uma necessidade de empatia, é como que uma conversa a dois, um desabafo. Claro que os propósitos diferentes podem confluir, mas o que se vê hoje é uma bifurcação cada vez mais acentuada. É novidade a registrar nos modos pelos quais se externa a opinião dos leitores.
Minha experiência pessoal a respeito foi estimulante. Antes do e-mail recentemente acrescentado ao meu artigo (por obra de minha mulher, pois sou jejuno em matéria de computador), meu ibope particular ficava ao sabor de telefonemas, encontros ocasionais ou raras cartas para a seção competente. Agora é direto.
Nas últimas semanas, foi o e-mail que me levou principalmente a persistir nos comentários contra a absurda, covarde e criminosa guerra da Otan contra a Iugoslávia, que agora se converte numa paz dos cemitérios, com o rendoso negócio da reconstrução das ruínas. Além do estímulo ao jornalista, essa contribuição dos leitores revelou uma consciência alerta diante de um grave problema internacional, objeto de uma propaganda mistificadora e com personagens execráveis como esse Javier Solana, um ex-socialista guindado a chefe militar, títere com a função de ordenar o massacre da população civil iugoslava. Recebi dezenas e dezenas de mensagens eletrônicas, das quais já registrei algumas anteriormente. O que me criou, além do natural conforto, o problema de não poder respondê-las uma a uma, conforme desejaria e manda a boa educação.
Este meu registro, agora, reflete evidentemente uma satisfação pessoal, e eu seria hipócrita se o negasse. Mas também apresenta interesse para os estudiosos da mídia, à luz das inovações tecnológicas. O e-mail gera um retorno ou retroalimentação (feedback, para os íntimos) que nem sempre chega ao pleno conhecimento da direção dos órgãos de imprensa. Não tem, é claro, poder bastante para alterar a diretriz expressa nos editoriais, que, de resto, obedece a outras determinantes, mais concretas e decisivas. Contudo, é um elemento novo que poderia, se devidamente avaliado, moderar certos destemperos e arroubos na contramão da opinião pública mais esclarecida."
"Cartas de leitores", copyright Jornal do Brasil, 15/6/99
JORNAIS
Sérgio do Rego Monteiro
"ZURIQUE - Com mais de 1.100 participantes, entre delegados, diretores e convidados especiais, o 52° Congresso Mundial de Jornais, sob o tema ‘O despertar de uma nova era’, se encerra hoje em Zurique, na Suíça. Em seu relatório ao plenário, Timothy Balding, diretor-geral da associação, registrou a estabilização ou retomada do crescimento da circulação dos jornais em todo o mundo, com um incremento também positivo de receita nos últimos cinco anos. Segundo Balding, os jornais estão se aproveitando do potencial aberto pela mídia eletrônica e pela Internet, aumentando seus ganhos e construindo vantagens competitivas. ‘Nos últimos anos, tivemos muita concorrência, um crescimento desmedido da fragmentação da mídia’, disse.
Como tradição do encontro anual, foram analisados casos de constrangimentos e de agressões a jornalistas em todo o mundo, no desempenho de suas funções. Este ano coube a Ruth de Aquino, editora de O Dia, entregar a ‘Pena de Ouro da Liberdade’ ao jornalista Faraj Sarkoohi, preso durante dois regimes politicamente antagônicos: o do xá Reza Pahlevi e o da República Islâmica do Irã. Sarkoohi comentou que ‘é preciso aprender a escrever nas entrelinhas e mencionar delicadamente o desaparecimento de intelectuais dissidentes que são assassinados em becos e em calçadas’.
Apesar do tema importante e do futuro inquieto para os jornais no contexto de competição com as demais mídias, a comitiva brasileira presente ao congresso somou apenas 24 jornalistas e executivos, sendo considerada pequena quando comparada aos 16 participantes argentinos. Comentou-se que a coincidência das datas com a realização do Congresso de Jornais dos Estados Unidos - com grande ênfase na mostra de equipamentos - de alguma forma esvaziou o interesse latino-americano.
A tecnologia digital freqüenta todas as rodas, independentemente das origens, e há uma perplexidade com o grande aumento do volume de transações comerciais através da Internet em 1998 e a tendência dos primeiros quatro meses do ano, o que pode se tornar um atrativo importante para o desvio de verbas da mídia impressa, uma vez que praticamente elimina custos de intermediação e de promoção. Ao mesmo tempo, os jornais demonstram uma preocupação constante com o ingresso na web, antevendo este canal como uma alternativa para os próximos dez anos.
‘Não é preciso ter medo de mudanças rápidas’, comentou um empresário brasileiro’, acrescentando: ‘Se imaginarmos que no Brasil apenas 46 habitantes em cada 1.000 lêem jornal, temos imenso campo para crescer. E, no futuro distante, estarei morto’, finalizou, ironizando o que seria problema para outras gerações."
"Leitura de jornal cresce novamente", copyright Jornal do Brasil, 17/6/99
O Estado de S.Paulo
"ZURIQUE - Em 1998 foi registrado importante aumento na quantidade de anúncios publicados, mas o número de leitores de jornais de todo o mundo permaneceu estável. A constatação é resultado de estudo sobre a tendência da imprensa mundial divulgado ontem, em Zurique, pela Associação Mundial de Jornais (AMJ).
Para a associação, o setor está em recuperação, após passar pela pior crise nos anos 80. Mesmo que em muitos países a tiragem dos diários tenha aumentado ligeiramente, os números de circulação são desanimadores em mercados tradicionais como Europa e EUA, onde o número de leitores e de jornais apresenta tendência negativa há anos. Apesar disso, a AMJ, que iniciou ontem seu 52º congresso anual, vê dados positivos, já que, embora exista perda de leitores, entre eles cresce o número de jovens. (EFE)"
"Indústria da imprensa está em recuperação", copyright O Estado de S. Paulo, 15/6/99
Helio Hara
"ZURIQUE, Suíça. As histórias vêm de países diferentes, mas o resultado foi o mesmo: a ampliação do público leitor de jornais. Reunidos ontem no 52º Congresso Mundial de Jornais e no 6º Fórum Mundial de Editores, representantes de jornais como Extra, Het Parool (Holanda) e Gazeta Wyborcza (Polônia) mostraram que as estratégias podem diferir, mas o potencial de expansão de publicações impressas continua a crescer, apesar das previsões pouco otimistas do início da década. Relatório da firma de consultoria McKinsey, por exemplo, diz que, com o aumento do tempo livre provocado pela redução da jornada de trabalho em determinados países e a maior afluência em outros, há uma inegável perspectiva de crescimento.
Na apresentação sobre o Extra - que preencheu um espaço criado pelo aumento do poder de compra da classe C -, feita pelo diretor de Jornalismo da Infoglobo (que edita também O Globo), Merval Pereira, e o diretor Renato Maurício Prado, foi mostrado como o jornal, que vive o segundo ano, criou uma relação complementar com O Globo, estimulando o hábito da leitura e atendendo à demanda de pessoas em busca de informação ágil e serviço. O jornal foi convidado a contar como, já nas primeiras semanas após o lançamento, passou a vender o dobro do inicialmente previsto, chegando hoje a 200 mil exemplares durante a semana e 400 mil aos domingos.
- O lançamento do Extra foi benéfico para os dois jornais, a comunidade e o mercado publicitário - disse Merval.
O diretor-geral da Infoglobo, Luiz Eduardo Vasconcelos, descreveu a estratégia de distribuir as informações pelos dois jornais e pela Agência O Globo, enfatizando a importância da sinergia e da produção sem custos altos.
- Apesar de jovem, o Extra tem agora uma enorme responsabilidade com a comunidade - disse.
Em crise de credibilidade causada, segundo o editor-chefe adjunto, Frits Campagne, pela guerra do Vietnã (quando apoiou os EUA, diferentemente da opinião pública holandesa), e amargando 25 anos de prejuízo (US$ 3 milhões por ano), o holandês Het Parool decidiu, há dois anos, deixar de ser nacional para se concentrar em Amsterdã. A estratégia sempre fora considerada arriscada por concorrentes, já que, na cidade, quase 50% são imigrantes ou descendentes de estrangeiros, muitas vezes refratários a jornais holandeses.
Na Polônia, a estratégia foi exatamente oposta: a forma encontrada pela Gazeta Wyborcza para crescer foi a regionalização:
- Abrimos 20 sucursais, que se ocupam de suplementos regionais - disse Piotr Niemczycki, vice-presidente do grupo. - Se eliminarmos esses tablóides, estimamos que perderíamos até um terço dos leitores.
O jornal é considerado um dos estandartes capitalistas da nova Polônia, com circulação diária de 545 mil exemplares, e parte de um grupo que inclui emissoras de rádio e agência de fotos."
"Jornais confirmam tendência de expansão do público-leitor", copyright O Globo, 15/6/99
JORNALISTAS
Luiz Caversan
"Oito jornalistas brasileiros foram assassinados desde 1995 e pelo menos mais 19 encontram-se atualmente ameaçados de morte. Na maioria dos casos, estão impedidos de exercer a profissão.
Os dados são da organização internacional Repórteres sem Fronteiras, que está implantando no Brasil um escritório para coletar, investigar e divulgar dados sobre a ameaça à integridade física dos profissionais de imprensa no país.
Com sede em Paris, essa organização não-governamental foi fundada em 1985, já recebeu colaborações de jornalistas brasileiros no passado, mas só agora resolveu se instalar formalmente por aqui.
Gilberto de Souza, 39, é o responsável pela implementação do escritório da Repórteres sem Fronteiras no Brasil. Há um mês e meio, vem trabalhando na coleta de informações e denúncias, bem como na criação de uma rede de colaboradores com o objetivo de checar informações sobre supostas violências contra jornalistas.
‘A Repórteres sem Fronteiras tem uma preocupação muito grande com a veracidade das informações que divulga, para não perder a credibilidade. Se recebemos um comunicado de alguma ameaça de morte no Norte do Brasil, por exemplo, necessariamente vamos checar essa denúncia por meio de alguma fonte idônea e independente’, afirma Souza.
Segundo os dados da entidade, os jornalistas brasileiros relacionados foram mortos durante ou após a veiculação de denúncias contra criminosos, policiais, empresários ou políticos. São eles: Manoel Leal de Oliveira (1998, Bahia), José Carlos Mesquita (1998, Rondônia), Donizete Adauto (1998, Piauí), Edgard Lopes de Faria (1997, Mato Grosso do Sul), Zaqueu de Oliveira (1995, Minas), Aristeu Guida da Silva (1995, Rio de Janeiro), Reinaldo Coutinho da Silva (1995, Rio de Janeiro) e Marcos Borges Ribeiro (1996, Goiás).
‘Nenhum dos responsáveis por esses crimes foi condenado até hoje’, diz Souza. A Repórteres sem Fronteiras tem relacionados os nomes de 19 jornalistas brasileiros que estariam sofrendo ameaças de morte. Alguns casos estão em apuração, outros já foram confirmados, mas os nomes não são divulgados por questões de segurança.
Três desses casos são bem representativos dos problemas identificados pela entidade: um jornalista do Norte do país está refugiado em São Paulo, ameaçado por um grande traficante que denunciou; outro, do Nordeste, revelou um esquema de desvio de verbas na prefeitura local e vem sendo perseguido; um terceiro recebe ameaças de morte há um mês e acusa um secretário de Estado como mandante das intimidações.
Segundo Souza, o objetivo da entidade não é o de simplesmente tornar públicas as denúncias que recebe. ‘Procuramos sempre divulgar fatos checados, comunicá-los a órgãos do governo, como o Ministério da Justiça, assim como a organizações como a Anistia Internacional, e também a países parceiros daqueles em que as ameaças estão acontecendo. É assim que atuamos e é assim que pretendemos fazer no Brasil.’ Souza afirma que a maior parte das denúncias é oriunda de cidades do interior do país."
"Repórteres sem Fronteiras abre escritório no Rio de Janeiro", copyright Folha de S. Paulo, 6/6/99
Repórteres sem Fronteiras: Rua da Assembléia, 35, conjunto 402, Rio. E-mail: <gsz70@hotmail.com>
Gonçalo Júnior
"No dia 1° de setembro, o Jornal Nacional estará completando um marco na história da televisão brasileira: 30 anos de sua criação e três décadas de liderança absoluta entre todos os programas da Globo, com 45 pontos em média. O jornalista Armando Nogueira, 71 anos, tem bons motivos para comemorar a data: foi o principal coordenador de sua criação. Ele recorda que o Jornal Nacional não nasceu como um simples telejornal para competir com o Repórter Esso. O telejornal foi responsável pelo início da transformação da Globo na primeira rede de TV integrada com transmissão simultânea. Quando foi ao ar pela primeira vez, o Jornal Nacional encontrou um Brasil censurado, governado por uma Junta Militar. Nos 15 anos seguintes, Nogueira enfrentou a censura e criou lendas e mitos, como os que o intitulavam o homem mais poderoso do jornalismo brasileiro, graças ao público que atingia todas as noites.
Desde 1991, Nogueira deixou de comandar a Central Globo de Jornalismo, função que exerceu por 22 anos. De lá para cá, ele vem se dedicando com surpreendente disposição ao esporte, que afirma ser a grande paixão de sua vida. É comentarista da Rádio Bandeirantes, escreve duas vezes por semana para 62 jornais de todo o país e acaba de estrear Esporte Real, no canal SporTV. No currículo, ainda, oito livros com a seleção de suas melhores crônicas. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre suas duas paixões: o telejornalismo e o esporte. Irrita-se em alguns momentos e chega a encher os olhos de lágrimas em outros, quando tenta desfazer os polêmicos casos em que foi envolvido à frente do telejornal. As relações entre a Globo e os governos militares, a cobertura dos comícios das Diretas em 1984 e o debate entre os candidatos à presidência Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo, em 1989, também foram relembrados na conversa.
Antes de ir para a Globo, o senhor passou por quais redações?
Armando Nogueira - Comecei fazendo esportes no Diário Carioca, em 1950. Tive passagens por Manchete' e O Cruzeiro. Depois fui fazer um programa esportivo na TV Rio chamado Mesa Redonda Facit, com Nelson Rodrigues, João Saldanha, José Maria Scarsa e Luis Mendes. Fomos todos levados de uma só vez pelo Walter Clark para a TV Globo, em 1966. Entrei para fazer uma mesa-redonda e 30 dias depois fui solicitado para assumir a tarefa de implantar o telejornalismo na Globo.
O senhor foi o criador do Jornal Nacional?
Nogueira - O Jornal Nacional foi uma criação da empresa e eu e minha equipe fomos apenas os executores do projeto. Creio que é impossível alguém se confessar um criador de um programa, pois a TV não é obra de autor, é fruto de um trabalho coletivo.
O Jornal Nacional surgiu para concorrer com o Repórter Esso, da Tupi?
Nogueira - Não exatamente. O Jornal Nacional chegou para iniciar a semente do que seria a televisão em rede nacional no Brasil. Ou seja, o início de um projeto de interligar o país numa rede de TV através da Embratel. A melhor maneira de fazer isso do ponto de vista tecnológico era partir de um telejornal. A Globo existia apenas em poucas capitais, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte e, depois, Brasília. Eram o que chamávamos de capitanias hereditárias.
A Tupi, apesar da estrutura maior, pecava por não formar uma rede?
Nogueira - A Tupi não constituía uma rede de televisão. O canal do
Rio, por exemplo, exibia uma novela e o de São Paulo apresentava uma outra, produzida exclusivamente para o estado. O que pretendia a Globo? A partir do sistema de transmissão de sinal da Embratel, a emissora poderia gerar imagens ao vivo para outros estados. E decidiu fazer isso primeiro com um telejornal, mais fácil tecnicamente. Em seguida, partiria para o entretenimento, as novelas. Com isso, diluiria os custos. (...)
Quer dizer, havia uma tecnologia disponível e a Globo soube aproveitá-la de modo racional?
Nogueira - Havia uma tecnologia nascente, emergente, que era a Embratel. E a Globo percebeu isso.
Pode-se atribuir a isso um dos trunfos para o êxito da Globo?
Nogueira - Não há a menor dúvida. Quando a Globo se transformou numa rede, tornou-se uma potência. E o Jornal Nacional funcionou como um deflagrador de uma integração nacional.
Durante muito tempo, a Globo foi acusada de manter relações de subserviência ao regime militar. Como o senhor via essas críticas?
Nogueira - A televisão é um veículo de concessão de serviço público a título precário. Isso causa uma relação de dependência, tanto da televisão como do rádio, com o governo, da qual não se escapa, a menos que a sociedade tenha consciência do seu papel de cidadania e tire do Poder Executivo esse privilégio de conceder privilégios. Hoje isso mudou, pois há o crivo do Legislativo. Mas a Rede Globo e as outras redes nasceram presas pelo cordão umbilical do Poder Executivo. Isso não quer dizer que a Globo fosse subserviente ao governo. Aconteceu que o telejornalismo da Globo nasceu na vigência de uma ditadura militar. Ora, se começou numa época em que se havia oficializado ostensivamente a censura, claro que o Jornal Nacional tinha de ser censurado, como aliás eram censurados O Estado de S.Paulo', o Jornal do Brasil, o jornal do Acre e toda a mídia. Como a TV sempre foi um veículo de grande alcance, era a primeira ser censurada.
E quanto às afirmações de que houve beneficiamento e divulgação do regime militar por parte da Globo?
Nogueira - Evidentemente sempre existiu uma má vontade, uma maledicência contra o veículo televisão. E como a TV sempre foi muito visada, levantavam-se as maiores injúrias não só contra a empresa como contra seus profissionais. Mas o tempo está correndo para fazer justiça a esses profissionais que nunca se curvaram ao regime. Para ter uma idéia, eu só fui uma vez ao SNI (Serviço Nacional de Informações), mesmo assim, intimado, obrigado. Eu não aceitei o convite deles e impus à direção da emissora, ao Walter Clark, que só iria na condição de intimado.
Em que ano foi isso?
Nogueira - Por volta de 1973. Eles queriam que eu fosse conhecer o SNI e eu não tinha o menor interesse em fazer isso. Esse foi o único contato que tive com os militares.
Os militares interferiam pessoalmente, autoridades do governo ligavam para fazer pressão?
Nogueira - Para mim, não. Nunca recebi nenhum tipo de pressão. Esses contatos políticos - se realmente ocorreram - foram feitos com a alta direção da empresa.
O senhor recebia instruções da direção da Globo nesse sentido?
Nogueira - Durante a ditadura, nunca recebi qualquer instrução do doutor Roberto Marinho para fazer assim ou assado em relação aos governos militares. A orientação da censura que eu recebia era a mesma que mandavam para O Globo. No nosso caso, era o pessoal do I Exército. No começo, havia sempre um oficial dentro da redação que avaliava as matérias.
Em qual governo militar vocês mais sofreram pressão?
Nogueira - Indiscutivelmente a partir do AI-5, de dezembro de 1968. Um ano depois nasceria o Jornal Nacional, naturalmente visado. Depois sofremos muitas restrições nos governos Médici e Geisel.
Em algum momento, por causa da censura, o Jornal Nacional esteve ameaçado de não ir ao ar?
Nogueira - Não, não. Quando sentimos que a censura estava muito asfixiante, nós passamos a usar como estratégia valorizar o noticiário internacional. Não podíamos noticiar uma manifestação política em qualquer ponto do Brasil, mas havia manifestações políticas no mundo inteiro. E como o noticiário internacional era bem mais livre em relação à censura, aproveitamos essa brecha para fazer alguma referência com o que estava acontecendo aqui.
Então, os censores perceberam a intenção de analogia que vocês tentavam passar?
Nogueira - Exatamente. Porque o noticiário de fora trazia greves, movimentos de massa, queda de ditadores na África. E isso tudo poderia ser interpretado como uma forma indireta de agredir o que eles supunham ser o sistema.
Que assuntos mais incomodavam os militares?
Nogueira - Qualquer um. Havia um agravante nessa hierarquia da censura porque ela começava no mais alto escalão e à medida que o tempo passava, ia perdendo os critérios, descaracterizando-se e às vezes acabava com um inspetor num nível mais baixo dando instruções para o Jornal Nacional. De repente, chegava um telex na redação de um tal inspetor Sena, da Polícia Federal, proibindo noticiar que um Fusca caiu no mangue. Quando a gente foi procurar saber, o carro tinha caído com um oficial do Exército e sua amante. Coisas desse tipo eram tratadas como assunto de segurança nacional. Veja como se desvirtua, como é incontrolável o sistema de censura: o poder perde o controle sobre o sistema e a própria tropa começa a ser mais ‘realista’ que o rei.
Num tempo mais recente, em 1982, como foi aquele episódio envolvendo Leonel Brizola e a Rede Globo?
Nogueira - Por uma estratégia econômica, decidimos não fazer a cobertura autônoma e a vinculamos a duas fontes, a O Globo, no Rio, e a O Estado de S.Paulo, em São Paulo, que nos forneceriam os dados de cada estado. Aconteceu que em São Paulo não tivemos problemas, porque a eleição foi decidida a favor de Franco Montoro já na boca de urna. No Rio, como O Globo só ia circular no dia seguinte, o jornal passou o dia inteiro pesquisando e só no fim da tarde começou a nos dar os números. Acontece que a televisão precisava estar no ar a toda hora e nossos números no Rio estavam sempre atrasados. Enfim, não havíamos montado um esquema para acompanhar a agilidade do veículo televisão.
Foi um erro estratégico?
Nogueira - Foi um erro estratégico no sentido de que jornal e TV são veículos completamente incompatíveis. Então, fizeram uma intriga junto a Brizola de que a Globo estava manipulando os números. Eu liguei para a assessoria do Brizola, por instruções do Roberto Irineu e do dr. Roberto, e disse que a Globo estava à sua disposição para uma entrevista. Eles responderam que Brizola só daria entrevista no Rio se fosse ao vivo e durasse no mínimo 20 minutos. Ficou acertado que Brizola não faria insinuações sobre ‘manipulação’ dos números, porque ia deixar mal sobretudo os profissionais envolvidos. Na segunda metade da entrevista, Brizola não cumpriu o trato e começou a fazer insinuações contra a Globo. Tínhamos eleito São Paulo como QG da nossa cobertura e eu acompanhava a entrevista de lá. Mandei preparar uma câmera para mim e lastimei, deplorei com veemência que o Brizola estivesse fazendo insinuações malévolas sobre o nosso comportamento profissional. A história foi essa. Essa foi uma das coisas que mais me magoaram. Pouco depois, já no exercício do poder, Brizola me escreveria uma carta reconhecendo a minha idoneidade.
Além da coordenação, o senhor levou comentaristas para a Globo, como Joelmir Betting, Lilian Witte Fibe e Paulo Francis.
Nogueira - A rigor, não eram experiências. Quando começamos a sentir que soprava uma brisa de liberdade, concluímos que era preciso criar novas personalidades para o jornalismo, porque nós iríamos estigmatizar nosso cast depois de anos e anos de jejum democrático. O caso específico de Paulo Francis pode ser tomado como símbolo disso. Eu me lembro que quando levei o nome de Francis como sugestão para o doutor Roberto, ele perguntou se eu não sabia que o Francis já o havia agredido pessoalmente no jornal O Pasquim. Eu disse que sabia. Mas disse também que sabia que ele sempre fora seduzido pelo talento e que o Paulo Francis, um homem inteligente, iria enriquecer nosso jornalismo. Ele ficou em silêncio, passou três dias sem me falar nada e então me chamou e disse para contratá-lo. (...)
As interferências [do âncora] ainda hoje são discretíssimas, não?
Nogueira - Não, não é que sejam interferências discretas. É que o âncora, de acordo com algumas escolas, não tem o compromisso de opinar. Eu acho que o jornalista tem de opinar o mínimo possível. Ele deve, sim, analisar, comentar. Todos os telejornais brasileiros hoje têm isso. A não ser o caso especial do Boris Casoy, que editorializa enfaticamente, agressivamente - é um estilo dele -, mas mesmo assim ele tem seus comentaristas econômicos.
Voltando à política, por que a Globo demorou para aderir à campanha das Diretas em 1984?
Nogueira - Porque a Globo, como qualquer veículo de comunicação, com o poder que tinha, estava evidentemente sob pressão do Palácio do Planalto. Eles foram em cima de todos os veículos, mas como a Globo era o mais poderoso, recebeu uma pressão maior.
De que forma isso era feito?
Nogueira - Pediram para que não cobríssemos os primeiros comícios. Aconteceu que a Globo teve um sentido do momento e o doutor Roberto Marinho chegou à conclusão de que, naquele momento, mais importante para a sobrevivência da empresa seria refletir o pensamento da sociedade e não mais o do Estado. Então, ele foi cauteloso e soube definir na hora certa. Digo isso porque o comício mais importante foi mesmo o da Candelária. E se tornou o mais importante por causa da Rede Globo. Portanto, afirmar que a Globo se omitiu na campanha das diretas é meia-verdade. A Globo tornou viável a campanha ao cobrir os comícios. Evidentemente, ninguém vai imaginar que a Globo cobriu o comício da Candelária porque os militares pediram. Cobriu correndo um risco. Imagino que risco calculado.
E no debate de Lula e Collor, o que realmente aconteceu?
Nogueira - Naquele episódio, eu fui marido enganado. Tenho certeza de que aquilo foi uma articulação de um subordinado meu (Alberico de Souza Cruz) com Collor. Acho que aquilo correu à margem da própria empresa e da minha orientação.
É verdade que o senhor chegou a fazer pessoalmente a primeira edição do debate?
Nogueira - Não, quem cuidou foi o Vianey Pinheiro, o Pinheirinho, que fez a edição apresentada pelo Jornal Hoje. Alice Maria recebeu um telefonema do João Roberto Marinho cumprimentando a isenção com que o debate foi colocado no ar à tarde. E, então, demos orientação aos subordinados para que reproduzissem no Jornal Nacional a versão da tarde, coisa que não foi feita. Essa determinação foi desobedecida, obviamente à minha revelia. Se soubesse, não teria deixado, porque aquela edição, antes de mais nada, foi burramente feita.
Por quê?
Nogueira - As pesquisas disseram que Collor venceu o debate. Ora, se ele venceu, não precisava distorcer nada. E onde houve uma evidente distorção. A certa altura, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um aparelho de som. Esse foi o gol contra do Collor omitido desnecessariamente da matéria. Seria como se o Flamengo vencesse o Vasco por 2 a 1 e só fossem mostrados os gols do Flamengo. O Vasco perdeu, mas não tem por que não mostrar seu gol.
Mas se a alta direção da Globo não teve nada a ver com o episódio, por que o tal subordinado teve uma rápida ascensão profissional no jornalismo da Globo, inclusive substituindo o senhor?
Nogueira - É algo com que não tenho nada a ver. Eu estou tão distante desse episódio, que me amargurou tanto, que eu prefiro não falar dele.
Essa história foi decisiva para a sua saída da Globo?
Nogueira - Não, não.
E por que o senhor deixou o jornalismo da Globo?
Nogueira - Primeiro, eu estava muito cansado do que fazia, muito chateado, queria mudar de posição. Como vi que meu tempo havia se esgotado, encaminhei as coisas para que eles me dispensassem. (...)"
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"Em 49 anos de profissão, Armando Nogueira jamais se afastou do esporte. Mesmo à frente do jornalismo da Globo, manteve o hábito da crônica esportiva e orientou a cobertura de esportes da Globo, com o cuidado de valorizar o texto na TV e abrir espaço para outras práticas até então marginalizadas pela mídia. A seguir, ele alerta para os riscos do excesso de tecnologia nas transmissões, critica a CBF e dá sua opinião sobre a derrota do Brasil na Copa do Mundo da França.
Seu novo programa, Esporte Real, propõe valorizar a palavra, que estaria sendo desmerecida na TV brasileira. O que o senhor quer dizer exatamente com isso?
Armando Nogueira - Quando cheguei à Globo, eu vinha com muitos preconceitos de jornal, conseqüentemente, da palavra escrita, e achei que deveria dar mais importância à imagem. Depois de uns oito anos, comecei a achar que estava exagerando nesse conceito. Ao subestimarmos a palavra, transformando a linguagem coloquial em algo chulo, pobre, nós, de um veículo poderoso como a Globo, estávamos deseducando o telespectador. Então, passei a defender que a palavra tinha um papel essencial na composição da informação.
E o senhor conseguiu impor essa idéia?
Nogueira - Infelizmente, perdi essa parada no telejornalismo. Creio que eu estava certo porque a língua falada na TV empobreceu muito nos últimos anos. Cheguei a criar manuais de estilo, estimulei o uso de palavras mais castas, sem a preocupação de fazer uma redação estritamentemente coloquial. Quando fui para a frente das câmeras e assumi a direção de programas tanto na Bandeirantes como no SporTV, firmei um pacto comigo mesmo de que não existiria esse negócio de menosprezar a palavra.
Como o senhor trata o texto no seu novo programa?
Nogueira - Dando-lhe tanta ou mais importância que a imagem. A palavra permite informar, opinar e comentar. O que antes só me preocupava no jornal, eu estou querendo superestimar em todos os sentidos. Introduzimos poesia e textos lidos por atores consagrados. Vamos aproveitar também estudantes de teatro para ler textos, com closes em seus rostos, utilizando o mínimo de imagem.
Numa transmissão de futebol esse cuidado pode enriquecer a descrição de uma jogada, o registro de um lance?
Nogueira - Sobretudo porque o esporte repousa muito no épico, na emoção, no lúdico. E tudo que é lúdico é poético. Então, você pode introduzir na locução metáforas de lirismo, de sabor poético, porque o esporte não se resume à vitória e à derrota, é a expressão de um estado de espírito, é um gesto que é esculpido por uma luz que vem da palavra. A palavra ajuda a esculpir o gesto, recria o gesto do atleta.
O senhor estaria preocupado em resgatar o lado do cronista na cobertura esportiva?
Nogueira - Eu acho até que hoje a crônica esportiva está melhor. Temos agora um elenco de personalidades escrevendo sobre esporte e em particular sobre futebol, como Alberto Helena, Fernando Calazans, Juca Kfouri, José Geraldo Couto. São estilistas escrevendo colunas sistemáticas, diárias ou semanais, pelo Brasil. Todos estão preocupados em recriar o fato esportivo, dar-lhe uma dimensão que eu não diria literária, para não parecer pretensioso, mas uma carga de emoção que valoriza muito o espetáculo.
As transmissões esportivas não pecam pelo texto?
Nogueira - Não há dúvidas de que a televisão chegou e fez uma fantástica parceria com o esporte. Mas a TV tem uma carga de realismo impressionante. Ela impregna o espetáculo de uma realidade tão rasteira, tão crua, tão nua, que de repente você, como torcedor, sente falta do rádio, que permite fantasiar um pouco. A gente sente na crônica esportiva uma tendência de recriar o fato que a televisão reduz a uma expressão mais simples do ponto de vista da realidade. E é justamente aí que entra a importância da palavra no esporte, para valorizar e dar uma dimensão artística e literária a ele.
A partir desse raciocínio, a TV de certa forma teria matado um pouco o romantismo que sempre cercou o futebol, quando o rádio era hegemônico?
Nogueira - Ah, não tenho a menor dúvida. Pode parecer romantismo, mas a verdade é que a TV retira a margem de sonhos que há com o rádio. O rádio tem uma capacidade de recriar impressionante. Se você observar o rádio sobretudo nos tempos românticos do futebol, a bola, quando não entrava no gol, passava sempre ‘raspando a trave’. Nem sempre era bem verdade, mas pouco importava que não fosse. Era aquilo que o ouvinte queria ouvir para se emocionar com o lance. A televisão não permite sonhar.
Esses pequenos exageros do rádio não chegam a prejudicar a narração?
Nogueira - Pelo contrário, dão uma riqueza de emoção, transbordam dentro da casa do ouvinte e no próprio estádio. Até hoje o torcedor vai para o estádio com um radinho de pilha. O que isso significa? É a necessidade de informação? Não, eu estou convencido de que ele quer mais emoção. Digo isso quanto ao fenômeno puramente estético entre a relação da crônica esportiva e o evento transmitido pela televisão. Do ponto de vista técnico, a gente teria muito o que conversar, porque as transmissões feitas pela TV são muito imperfeitas.
O que de errado chama a sua atenção nas transmissões televisivas?
Nogueira - As emissoras pecam por certos abusos de tecnologia que embriagam os próprios editores de imagens e o telespectador. Hoje fica muito difícil você acompanhar uma partida de futebol seguindo o tempo real. A partida é sucessivamente interrompida por replays de lances quase sempre irrelevantes. Você é deslocado de modo sistemático da realidade do jogo, da dramaturgia da partida, para uma coisa fria que é um teipe. Em plena ação, a bola correndo, os jogadores disputando um lance que pode ser decisivo e o pessoal da técnica, seduzido pela tecnologia, dá um corte seco, frio, extemporâneo, para repetir um lance sem maiores conseqüências.
E quanto aos locutores, existem deficiências?
Nogueira - Temos bons locutores. O problema é que há uma overdose de emoção em cima do fato que o telespectador também está vendo. Com que intenção se dá um grito de gol na TV com o mesmo registro do rádio? Não tem sentido. A narração da TV tem de ser um tom abaixo, uma coisa mais sublinhada. Eu já não digo que deveria ser algo frio porque o esporte em si tem uma carga emocional poderosa e você não pode subtrair isso.
A locução brasileira de TV ainda sofre com a influência do rádio?
Nogueira - Sim, mas é também algo da própria natureza de um veículo que tem certa vocação para o sensacionalismo. Eu não acho que as deficiências de nossos locutores seja algo tão grave porque não se nivela por baixo a transmissão. O problema predominante nas transmissões são os comentaristas.
Por quê?
Nogueira - Primeiro, o comentarista precisa comentar o óbvio, coisa que ninguém gosta de fazer. Ele poderia fazer isso, por exemplo, em cima do teipe. Aí seu papel seria relevante: num tempo morto, seria colocado o teipe, acompanhado de uma análise sobre algo que tenha escapado do telespectador.
E o que acontece na prática?
Nogueira - O comentário televisivo é feito muito no plano subjetivo. O fato de se mostrar uma coisa para o telespectador e entrar o comentarista falando de outra cria um desequilíbrio para quem está em casa. O telespectador fica um pouco desorientado porque está recebendo duas mensagens: a imagística e a do comentário aleatório, que não corresponde ao que está vendo. Isso o perturba. O mais grave é que o comentarista, mesmo quando faz uma observação procedente, pode entrar em conflito com a opinião do telespectador, que, sentado na poltrona em casa, é um comentarista também. Então, comentarista e ouvinte podem entrar em divergência. Sobretudo se o telespectador for um apaixonado pelo futebol.
Na época da Globo, o senhor dava esse tipo de orientação para a redação de esportes?
Nogueira - Sempre procurei orientar no sentido de que se falasse pouco, tanto o narrador quanto o comentarista. Hoje acontece também um vício que é passar muita informação sobre uma personagem em campo, quando ela está desempenhando seu papel na partida. Enquanto o atleta está fazendo a jogada, o locutor diz que fulano nasceu em Parada de Lucas, tem 24 anos e já jogou em 14 times. Nesse contexto, essas informações são absolutamente irrelevantes e inoportunas. É como se estivéssemos assistindo a uma peça com Fernanda Montenegro num teatro e eu me virasse para você e começasse a falar sobre a idade e o começo da carreira dela.
Ao invés de o locutor provocar a emoção da partida, desvia o telespectador para outro foco?
Nogueira - Desvia para uma informação longínqua. A partida de futebol tem uma trilha dramatúrgica como se fosse um filme cujo script está aberto, você não sabe qual é o desfecho. É um filme que vai sendo escrito à medida que a bola vai rolando. Então, as informações têm de ser concentradas no suspense que o lance inspira, entende?
Como o senhor vê o envolvimento de jornalistas e locutores esportivos no agenciamento de jogadores?
Nogueira - Vejo como uma lástima, se é que existe realmente. Eventualmente, alguns profissionais não distinguem muito essa fronteira entre o ético e o áetico e misturam suas atividades, cometendo verdadeiras agressões à ética. Ocorre o que chamamos de conflito de interesse. Uma das máximas que concebi logo no início da minha carreira de certa maneira engloba isso: ‘O jornalista só tem prestígio enquanto não usa’. Usar um prestígio, uma delegação da sociedade, no sentido de se beneficiar de uma atividade como o futebol é algo absolutamente incompatível.
Ao dar destaque a um jogador que ele representa, o locutor está vendendo uma informação manipulada?
Nogueira - É uma informação interessada. Ele está abusando da boa-fé do seu público, não é? Ele está vendendo gato por lebre, usando ardis que podem ser até aceitáveis no comércio. Mas nós não somos comerciantes, não somos homens de negócio. Na realidade, o esporte tem uma coisa boa: nele, ninguém engana por muito tempo. Ou o sujeito é bom ou não é. Mesmo no esporte coletivo, o torcedor tem um feeling para saber se o jogador está sendo objeto de uma promoção ou se ele realmente é bom. É algo que se distingue facilmente.
O jornalismo esportivo é pouco valorizado na TV?
Nogueira - Eu diria que já foi muito menos valorizado. Basta que eu lembre que quando comecei em jornal, nos anos 50, os veículos brasileiros só falavam em futebol na página de esporte. Jamais se via uma chamada de esporte na primeira página, como hoje.
E o futebol atual, não lhe parece feio, apesar de mais forte e mais veloz?
Nogueira - Essa característica não está tão ligada ao que chamam de mercantilização do futebol, mas a algo muito mais equivocado. Em determinado momento, as equipes passaram a privilegiar muito mais o resultado da partida do que o jogo em si, o espetáculo esportivo. Esta foi a fase do realismo e que popularmente passou a se chamar futebol de resultados, futebol de retranca, que não tinha a ver com marketing, com dinheiro.
Quando começou isso?
Nogueira - É algo que vem se acentuando a partir do final da década de 50, com a escola italiana de futebol, que irradiou para o mundo os valores do que vem a ser a retranca. Ou seja, jogar não para vencer, mas para não perder e por isso não só não jogar como não deixar o adversário jogar. Então, quando se insinua por aí o advento de uma nova era de mercantilismo no futebol, sua transformação em negócio, as pessoas ficam preocupadas sobre o que quer esse grande universo capitalista, de dinheiro, dos Murdochs da vida, das multinacionais se associando aos clube para buscar o lucro. Eu pergunto: eles pensam em ganhar dinheiro formando equipes só competitivas e não espetaculares? A grande verdade é que o público-alvo desses grandes investidores é o telespectador, não é o torcedor no estádio. (...)
O que realmente aconteceu naquela fatídica decisão entre França e Brasil?
Nogueira - Ora, foi apenas uma apresentação mais pífia que as outras disputas pífias do Brasil durante a Copa, com uma ou duas exceções. O Brasil jogou pior. A mídia enfeitou o pavão e o público caiu nessa. (...)
O que havia de errado na seleção?
Nogueira - Vários problemas. Equipe mal escalada: o técnico escalou jogadores que não estavam mentalmente preparados para jogar na seleção.
Quem, por exemplo?
Nogueira - Roberto Carlos foi um caso típico. Tivemos algumas escalações distorcidas, como Leonardo jogando pela direita etc. (...) Não havia uma equipe coesa, tanto técnica e tática quanto psicologicamente.
A mídia brasileira está amadurecendo sobre futebol?
Nogueira - O jornalismo esportivo no Brasil está sendo feito com muita maturidade e duvido que você encontre hoje algum cronista que diga de antemão que o Brasil vai ser campeão do mundo. (...)"
"Nunca me curvei ao regime militar" e "O gesto do atleta, recriado pela palavra", copyright Gazeta Mercantil, 5 e 6/6/99
Flavia Sekles
"Washington - Bob Woodward, o jornalista americano que mais sabe fazer seus leitores se sentirem espectadores invisíveis de conversas particulares e históricas, publicou esta semana um novo livro sobre presidentes e escândalos. Nele, o repórter famoso pela investigação do escândalo Watergate, que em 1974 derrubou o presidente Richard Nixon, oferece um retrato mais íntimo do que qualquer outro publicado até agora sobre a fase Monica Lewinsky do governo de Bill Clinton.
Intitulado Shadow (Sombra), mais da metade do livro é dedicada às investigações e processos que culminaram com o julgamento de impeachment do presidente, no ano passado. Além de Clinton, Woodward usa exemplos de escândalos na Casa Branca desde Nixon para provar sua tese de que presidentes americanos modernos não se acostumaram com a nova cultura política americana, dominada pela revelação de escândalos que no passado jamais teriam sido divulgados.
O livro reproduz diálogos tão privados - como alguns entre Clinton e seu advogado, Robert Bennett -, que muitos críticos do jornalista expressaram dúvidas sobre sua veracidade. A divulgação de algumas das conversas viola o compromisso de confiança entre advogado e cliente: como Clinton não deu entrevista a Woodward, a única fonte (...) só poderia ter sido Bennett. Bennett interrompeu suas férias para dizer que não rompeu o princípio da confiança, mas não confirmou ser a fonte de Woodward. (...)"
"Woodward revela segredos do poder", copyright Jornal do Brasil, 1/6/99
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