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CASO OSASCO
Luís Nassif

"Durante semanas, o caso Osasco Plaza Shopping galvanizou a cobertura da mídia, juntando a manjadíssima receita de outros casos de impacto: delegados e promotores atrás do seu grande caso, jornalistas atrás de manchetes e público buscando punições imediatas, mesmo antes da identificação dos culpados.

Culpados foram apontados antes de qualquer investigação mais séria. Seriam os administradores do Shopping - entre eles Marcello Zanotto -, que, mesmo alertados para o cheiro de vazamento de gás, segundo a cobertura da época, foram omissos, permitindo a tragédia.

De lá para cá, o esclarecimento do episódio tornou-se uma obsessão para Ilka Marinho de Andrade Zanotto, mãe de Marcelo, que durante anos exerceu a crítica de teatro para Estadão, TV Cultura, revistas Visão e IstoÉ. Guimarães Rosa dizia que ‘a cada dia da vida a gente aprende uma nova qualidade de medo’. Dona Ilka jamais pensou em ter medo da imprensa, diz ela, cuja liberdade sempre defendeu em seus 20 anos de profissão.

A primeira conclusão a que chegou é sobre o processo de formação de notícias, entre jornalistas e autoridades (delegados e promotoria) cúmplices do escândalo.

Quatro dias depois da tragédia, uma revista semanal preparou um perfil de Marcelo, apontando-o como bon vivant. Foi o que bastou para que as investigações centrassem nele. Antes de qualquer levantamento mais aprofundado, o delegado anunciava que iria atrás de ‘peixe grande’.

As promotoras pediram o indiciamento dos administradores por ‘explosão com dolo eventual’. Isto é, teriam tido a intenção de explodir o shopping, visando o lucro. Segundo dona Ilka, Marcelo só não foi almoçar na lanchonete onde a explosão teve início por ter sido retido em uma reunião. Seria o lucro seguido de suicídio. (…)

Não houve maneira de implodir o pesado muro de unanimidade erguido em torno do caso, conta dona Ilka - que ressalva a posição de apenas dois veículos, a TV Cultura e a Folha.

O Instituto de Criminalística mencionou a ‘falha trágica’ da construtora. Acrescentou provas inequívocas - segundo dona Ilka - de ser cheiro de esgoto o que se sentia no shopping antes da explosão.

Depois, laudos de dois dos maiores especialistas brasileiros em gás - José Atílio Vanin, professor-titular do Instituto de Química da USP, e Reynaldo Gomide, doutor pelo MIT e da Escola Politécnica da USP - corroboraram ter ‘sido a explosão instantânea devido a um vazamento de gás abrupto, muito provavelmente causado pela trepidação do solo provocada pelo bate-estacas em operação na construção vizinha ao shopping. Essa trepidação teve por conseqüência o rompimento da tubulação. (…) Não havia nada que pudesse ter sido feito pela administração do shopping.

Em entrevista ao jornal O Grande Osasco, Vanin concluiu: ‘O vazamento de gás não foi lento e gradual como muitos afirmaram na época. Ele aconteceu abruptamente. Não há qualquer relação entre o cheiro que os consumidores estavam sentindo e o gás que provocou a explosão. Aquele cheiro era proveniente das caixas de esgoto que estavam sob o local’.

Não se sabe ainda o desfecho do processo. Mas dona Ilka conseguiu vencer o medo da imprensa. ‘Venci-o ao divulgar dossiês, fortalecida pela confiança na verdadeira imprensa, aquela que se pauta pela ética, inerente à profissão. Confio nela, como confio na Justiça dos homens e de Deus.’"

"A luta de uma mãe", copyright Folha de S. Paulo, 15/7/98

(Ver dossiê atualizado no Caderno do Leitor.)

 

COPA
Alberto Dines

Ronaldinho foi a princesa Diana da Copa 98

Depois da farra, a ressaca - inevitável. À intensidade das libações corresponde sempre um refluxo. De igual força e pressão. Crianças manobram as gangorras instintivamente mas só se tornam adultas quando passam a entender a inexorável Lei dos Pêndulos ou o Princípio dos Efeitos Adversos. A eterna criança não é uma gracinha, mas uma perigosa deformação de personalidade. Ignora conseqüências, deixando livre um mecanismo que anula a percepção de limites e confunde fantasia com realidade.

Designei aqui como "Farra da Copa" não o evento - o Mundial de Futebol - mas a cobertura do evento, o Grande Circo das Ilusões. Um ecossistema artificial, realimentado pelos próprios efeitos: começou nas gordas verbas publicitárias, inflamou a megalomania do "jornalismo total" que, por sua vez, acendeu as fogueiras de vaidades onde arderam os mais comezinhos cuidados e princípios de compostura jornalística.

Estou pisando em campo minado: neste exato momento converti em eternos inimigos os cerca de 200 jornalistas brasileiros credenciados para cobrir a Copa e quase outro tanto de profissionais da mídia eletrônica. Abro exceção para um pequeno escrete de analistas experimentados, repórteres especializados e estudiosos – talvez 10% deste total – que souberam complementar as imagens oferecidas pela TV.

O resto abancou-se numa Bastilha frágil e fictícia que ruiu a 12 de Julho, dois dias antes do aniversário da queda da outra. Falou-se em tragédia, em função dos efeitos. Na verdade, o pais desmoronou, humilhado e ferido, por causa de uma burla que consumou-se às escondidas, clandestina, ao longo de seis horas e trinta minutos.

O Brasil perdeu a Copa na concentração, cinco horas antes do apito final. Ao longo de cinco semanas, na única ocasião em os jornalistas tiveram a oportunidade para exercitar o verdadeiro jornalismo e contar algo que não aparecia na telinha da TV, não apareceu viv’alma para farejar esta história.

A Copa foi perdida nos bastidores e ninguém cobriu os bastidores. Critica-se o futebol de resultados, mas o que está em questão é o jornalismo de resultados e evidências – mera reprodução do placar, temperada com algo picante, o tal "ângulo". Nos intervalos dos jogos, a fabricação incessante de irrelevâncias e factóides para manter a pressão e euforia.

Enquanto Ronaldinho, companheiros e dirigentes viviam aquela angústia na concentração e no vestiário, rádios e televisões esquentavam as cuícas para a grande batucada do Penta. Uma realidade virtual rigorosamente oposta à realidade real. Um gigantesco faz-de-conta na cobertura mais cara da história do jornalismo brasileiro.

Ao longo dos 90 minutos, 100 milhões de brasileiros assistiram atônitos àquela canhestra exibição futebolística, sem que lhes fosse oferecida pelos meios eletrônicos (a tal mídia do futuro), qualquer migalha sobre o ocorrido pouco antes. A não ser as escassas informações, nos minutos que precederam a entrada em campo, relacionada com a troca do nome de Edmundo por Ronaldinho nos formulários da FIFA, atribuída a engano.

As primeiras pistas só começaram a aparecer nas mesas redondas da TV à noite. Dez horas depois da ocorrência. A teoria da "convulsão", foi veiculada nos jornais do dia seguinte, a mais amarga segunda-feira de nossa história futebolística. Rolou nos jornais, inconteste, ao longo de alguns dias, através de uma celeuma pseudo-científica que poderia ser classificada de ridícula, não envolvesse questões tão delicadas e graves. Médicos que querem aparecer e jornalistas que se consideram independentes apenas porque chamam de "cretino" o personagem da semana deram a nota paroquial e arrogante, prontamente repassada para o exterior. E como no hemisfério norte é verão, em geral carente de assuntos, Ronaldinho virado pelo avesso voltou a ser notícia. Como foi Diana Spencer, ao longo do verão passado.

Custa crer que com a pletora de recursos técnicos e humanos não ocorresse destacar um profissional para ficar de plantão, no dia do jogo, na porta do castelo-concentração. Saiu algum carro antes do ônibus ? Os jogadores embarcaram alegres ou macambúzios ? Vizinhos notaram algo diferente ? Funcionários da hospedaria perceberam gritos, correrias ? Guardas repararam em anormalidades ? Se os manuais recomendam que sempre deve haver um jornalista olhando para o outro lado por que desta vez todos ficaram olhando a mesma coisa ? A investigação que os "enviados especiais" fizeram na última quarta-feira não poderia ter sido feita no domingo ? Ou, pelo menos, imediatamente depois que os jogadores regressaram ao Brasil ?

Fala-se no instinto jornalístico mas desta vez funcionou apenas uma enorme e incontrolável compulsão de assistir à final. Claro que não alteraria o fiasco em campo mas evitaria o fiasco da cobertura. Cobertura não é apenas nome do apartamento no último andar. É um processo de busca da verdade.

Essa é a questão. A mídia brasileira, ao submeter-se ao humilhante diktat do marketing, justifica-se com a alegação do alto custo da operação jornalística. Mas nesta temporada de vacas gordas, nenhuma empresa pediu contenção de gastos aos profissionais. Equipes numerosas, mini-redações transplantadas para Paris e arredores. Abundância inédita de espaço e tempo para magnificar qualquer idiotice. Muitos trabalhavam com celulares, comunicavam-se regularmente com suas fontes (jogadores e dirigentes), havia assistentes e produtores por toda a parte desdobrando-se em inutilidades, colunistas sociais, cartunistas, humoristas, cassandras, jornalistas-vedetes e vedetes credenciadas como jornalistas (uma delas, Suzana Werner). Na outra ponta, um país estatelado, ávido por informações, qualquer informação.

Estamos acostumados a considerar o futebol como algo à parte, desligado das exigências, leis, instituições e padrões morais do resto da sociedade. O resultado é que o futebol acabou convertendo-se numa terra de ninguém, onde reinam os mais controvertidos interesses. Quando a Fifa e CBF cassaram a credencial do jornalista Juca Kfouri, sugeri uma operação-limpeza, qualquer que fosse o resultado da Copa.

Chegou a hora. Não porque a Comissão Técnica continue mentindo a respeito de Ronaldinho. Este é o seu único quinhão de nobreza, tentando proteger uma eterna criança das realidades da vida. Chegou a hora, pelo acúmulo de vexames, tibieza, amadorismo e mandonismo em décadas de impunidade.

O novo circo mediático mundial é o futebol. A Fórmula-1 já não empolga, é distante do público, intermitente, não mostra rostos, apenas máquinas, todas parecidas. Há dinheiro grosso correndo no futebol, verdadeiras minas de ouro, às custas dos mais puros e santos sentimentos populares.

A dinheirama não impediu que apresentássemos ao mundo uma equipe sem espírito de equipe, desprovida de tenacidade. Desfibrada. Não fomos batidos por Zidane, mas antes, fora de campo, porque não confiamos em nós mesmos, apenas nos golpes de sorte e jogadas de gênio. Quando fraquejou o iluminado, das sombras esparramou-se a Síndrome do Pânico. Enfermidade como outra qualquer, listada no Cadastro Internacional de Doenças, curável, sem seqüelas. Basta encarar.

Desafio nacional: quaisquer que tenham sido as causas daquele terror, sobrou para nós.

Copyright Folha de S. Paulo, 18/7/98.

 

Clóvis Rossi

"Terminou o jogo, começou a caça aos culpados pela derrota. A lista é grande, conforme o gosto de cada um. Começa, claro, com Zagallo (técnico é sempre culpado). Passa por Roberto Carlos, que, além de pouco ter jogado durante a Copa, ainda fez duas brincadeiras caras: a bicicleta errada que deu um gol à Dinamarca e o escanteio do qual saiu o primeiro gol francês.

Continua com Leonardo, Rivaldo, Bebeto, Júnior Baiano. Mas, o que era absolutamente impossível de imaginar antes da Copa, chega até a Ronaldinho, que, segundo seu companheiro de quarto Roberto Carlos, ‘amarelou’. (…)

Rob Hughes, o colunista do jornal britânico The Times, culpa o excesso de atividade do atacante, pressionado por todos os lados. (…)

A rigor, poupa-se apenas Taffarel, que, de fato, não tem do que ser acusado, e Dunga, o que é no mínimo estranho. (…) Talvez seja o tempo para introduzir a mídia na relação dos culpados de turno. O jornalismo esportivo, no Brasil e em boa parte do mundo, é o único que tem licença, quando não estímulo, para ser descaradamente parcial.

Não que haja imparcialidade absoluta nos demais segmentos do jornalismo. Quem conhece o governismo (seja qual for o governo) de uma parte dos meios de comunicação brasileiros sabe bem que a parcialidade é forte.

Mas é envergonhada, disfarçada. Nenhum jornalista, que eu saiba, proclama, com todas as letras: ‘Sou governista, sim, e todos os jornalistas têm a obrigação de ser, porque faz parte do patriotismo’. Mas Galvão Bueno, versão eletrônica do conde Affonso Celso, fez algo muito parecido, nesta como em outras Copas, ao cobrar de todos os jornalistas que torçam pelo Brasil (e torcer no caso tem mesmo um duplo sentido).

Tenho feito, nos últimos anos, um punhado de coberturas jornalísticas de reuniões internacionais das quais o Brasil também participa. É a versão, digamos, diplomática da Copa do Mundo. No entanto, nenhum dos jornalistas brasileiros envolvidos nesse tipo de cobertura ‘torce’ pelo Brasil. Pode até achar que a posição brasileira em dada questão é a mais correta. Mas pode também achar o contrário e ninguém o acusa de antipatriota nem cobra apoio incondicional ao Itamaraty (…).

É claro que jornalista, embora muita gente não acredite, é também um ser humano, com direito a torcer, pelo Brasil ou pelo Flamengo, pelo Fluminense ou pelo Palmeiras, como tem o inalienável direito de torcer pela vitória de FHC, de Lula, do Ciro ou de quem seja.

O diabo é que, quando se põe a torcida como ‘dever patriótico’ e, por extensão, como único comportamento admissível, abre-se a porta, de par em par, para, no mínimo, distorcer os fatos. No limite, para o totalitarismo impresso ou eletrônico.

"Na lista dos culpados, o jornalismo tem seu lugar", copyright Folha, 14/7/98

 

O Estado de S. Paulo

"A Pátria em chuteiras! Houve época em que o slogan se justificava. Os jogos classificatórios para a Copa do Mundo e a campanha pelo título eram jogados por cada um dos brasileiros, que projetavam em um campeonato de futebol as suas esperanças pessoais e políticas. Porque a Pátria calçou chuteiras, e ganhou o tricampeonato em 1970, o general Médici, que presidiu uma ditadura feroz, teve um dos maiores e mais imerecidos índices de popularidade que um governante poderia esperar ter.

A derrota da Seleção Brasileira em Paris foi o anticlímax de uma Copa do Mundo que talvez tenha marcado o fim do envolvimento incondicional dos torcedores com as cores da camisa da seleção. A decepção com o resultado foi agravada pelo fato de o time nacional ter conseguido, aos trancos e barrancos, chegar à final contra a França, o que alimentou esperanças de vitória que obscureceram o fato de que a seleção tinha ido mais longe do que justificariam seus méritos.

O impacto da campanha inglória e o choque da derrota são o pano de fundo sobre o qual se desenrolaram acontecimentos aos quais o público brasileiro ainda reage com forte dose de emoção. Mas essa Copa do Mundo, por ter demonstrado inequivocamente que o futebol se transformou definitivamente em meganegócio multinacional, deixando de ser o que deveria ser - o esporte que comove multidões -, pode ter marcado um ponto de inflexão. Quem, desde a tarde de domingo, não se terá perguntado por que Ronaldinho foi escalado para jogar a partida definitiva, horas depois de ter sofrido uma convulsão que o levou a um hospital, para tratamento e exames neurológicos?

A resposta, infelizmente, não deve ser buscada no esporte, mas no negócio milionário em que se transformou o circo da Copa do Mundo. As paixões que fizeram do futebol um dos esportes mais populares do mundo ainda estão acesas, mas o público já começa a perceber que, quando torce para o time de sua predileção, está aplaudindo, também, a marca comercial que está patrocinando a equipe, e a competitividade que deveria existir apenas em campo pode ter-se transferido para as reuniões da comissão dirigente, constrangida a selecionar, escalar e jogar segundo critérios extracampo que antes não existiam ou tinham reduzida importância.

Esta Copa do Mundo foi vista por 37 bilhões de espectadores. Os 12 patrocinadores oficiais do campeonato pagaram à Fifa mais de US$ 3 bilhões. A Fifa já vendeu os direitos de comercialização das duas próximas Copas por US$ 2,5 bilhões. Esses são os números do campeonato mundial que o selecionado da França conquistou. O futebol movimenta, por ano, algo em torno de US$ 260 bilhões em ingressos, licenças para retransmissão, royalties de marcas, merchandising e marketing, salários e produtos, que vão de bolas e uniformes a agasalhos e chaveiros.

Nos países em que o esporte está bem organizado, essa dinheirama acaba revertendo, de algum modo, em benefício da qualidade dos espetáculos. No Brasil, a CBF fez um contrato de patrocínio com a Nike e a Coca-Cola, com duração de dez anos e valor de US$ 220 milhões. Os problemas de recursos da CBF provavelmente foram resolvidos. Não se resolveram, porém, os problemas de organização da equipe, cuja existência determinou, antes mesmo que se iniciasse a Copa na França, o resultado de domingo.

(…) A mídia eletrônica contribuiu para o incensamento de uma equipe de qualidades limitadas, transformando em campanha brilhante alguns jogos medíocres. (…)

Agora, é começar os preparativos para a próxima Copa, que será disputada na Coréia e no Japão. E a melhor maneira de começar é com um inquérito conduzido pelo poder público, para averiguar até que ponto o futebol brasileiro não será manipulado por um conluio de interesses, dos quais o maior é o econômico. O futebol, afinal, é assunto sério demais para ser deixado exclusivamente nas mãos dos cartolas da CBF. A organização da Seleção ditou, antes mesmo do início da Copa, o resultado de domingo."

"O desastre do Saint-Denis", copyright O Estado de S. Paulo, 14/7/98

 

Fax Regional

"A Veja alertou previamente os leitores que faria a edição extra apenas em caso de vitória da seleção brasileira na decisão.

‘Se o Brasil for campeão, toda essa emoção vai estar nas páginas de uma edição extra de Veja’, avisou em anúncio. A edição sairia na segunda-feira, dois dias após o número normal de final de semana. O que ela não teve coragem de dizer claramente: em caso de derrota, o leitor não teria direito à Veja extra.

Isso é jornalismo ou marketing? Com o comunicado prévio, sem levar em conta que a derrota também é notícia, a Veja deu um atestado de que é movida pelo interesse imediato dos resultados de circulação.

A revista calculou com antecedência que não seria lucrativo fazer a edição extra em caso de derrota. O clima de pessimismo exerce influência negativa sobre as vendas em bancas e certamente a procura seria menor.

A Veja pretendia apenas explorar o filão de leitores que, no entusiasmo da comemoração, corre às bancas para comprar qualquer coisa com os símbolos da seleção.

Do ponto de vista editorial, a derrota é muito difícil de ser tratada, já que a edição não poderia explorar dados e imagens dos jogadores previamente programados para o caso de vitória.

E como fica o compromisso com a informação? A revista não teria nada a investigar, por exemplo, sobre o caso de Ronaldinho, cumprindo o seu papel de mostrar aquilo que a televisão e até mesmo os jornais diários não mostraram no dia seguinte, devido à pressa do fechamento? (....)"

"Veja faria extra só com penta", Fax Regional, número 44, 14/7/98.

 

IMPRENSA
O Estado de S. Paulo

"Londres - Harold Evans, ex-editor do The Times e do Sunday Times, que ficou famoso ao denunciar a ‘meia liberdade de imprensa’ britânica, mudou de tom. O editor, que fez a campanha em benefício das vítimas da talidomida, nos anos 60, agora acredita que o alívio chegou para a imprensa britânica, enquanto a imprensa americana está sofrendo um catastrófico declínio de padrões.

‘No passado, a imprensa americana servia de exemplo’, disse Evans, na quarta-feira, na Durham University, onde recebeu um título honorário de doutorado. ‘Agora, serve para alertar sobre o fato de a liberdade de imprensa e o livre fluxo de informação poderem ser uma mistura confusa.’

Segundo Evans, todos na América agora acreditam na versão da história de que Clinton e Monica Lewinsky tenham sido vistos por alguém na Casa Branca em atitude comprometedora, embora a única ‘evidência’ sejam fofocas de terceira mão.

Evans referiu-se também ao caso recente da New Republic, que admitiu que 23 de 41 artigos de seu mais brilhante jornalista eram pura invenção, e à colunista Patricia Smith, do Boston Globe, que adulterou seus artigos. O ex-editor disse que houve uma explosão no mercado de notícias das emissoras de rádio, TV e imprensa escrita, sem uma explosão de talento. ‘A moral pública foi degradada por infindáveis shows de baixo nível e parece não haver sinal de que se chegará ao centro da questão.’ Evans pergunta: ‘A imprensa britânica pode tomar as rédeas da situação?’. E acrescenta: ‘Liberdade não é o suficiente, deve haver uma visão moral’."

Ex-editor do Times critica a imprensa dos EUA", copyright O Estado de S. Paulo, 4/7/98.

 

Laurence Zuckerman

The New York Times

Em um dos maiores e mais incomuns acordos feitos por um órgão da imprensa, o Cincinnati Enquirer publicou um pedido de desculpas no alto de sua primeira página de domingo e declarou que havia concordado em pagar à Chiquita Brands International Inc. mais de US$ 10 milhões para evitar ser processado. A ação de reconhecimento do jornal foi tomada após editar reportagens criticando as práticas comerciais da companhia, conhecida anteriormente como United Fruit e uma das maiores produtoras de bananas do mundo.

As reportagens, que apareceram em um encarte especial de 18 páginas em 3 de maio, foram parcialmente baseadas em 2 mil mensagens telefônicas supostamente obtidas de um ‘executivo de alto-escalão da Chiquita’. Os artigos do jornal acusavam a Chiquita de uma série de práticas repreensíveis. Entre elas estavam o suborno de autoridades da Colômbia, o controle secreto de dezenas de companhias bananeiras ditas independentes e o uso irresponsável de pesticida, prejudicial à saúde dos agricultores. Mas o jornal, depois de defender inicialmente a investigação da Chiquita, que levou um ano para ser completada, afirmou no domingo passado que estava convencido de que as gravações haviam, de fato, sido roubadas da Chiquita e que retratava-se pelo conteúdo dos textos.

O Enquirer também informou que havia demitido o repórter que liderou a investigação. ‘Os fatos indicam que um funcionário do Enquirer esteve envolvido no roubo das informações, violando a lei’, afirmava o pedido de desculpas, que foi assinado por Harry M. Whiple, o publisher do jornal, e Lawrence Beaupure, editor. No entanto, não ficou claro o quanto o conteúdo das reportagens do Enquirer estava incorreto. O jornal está investigando se outras pessoas que trabalharam na série de reportagens também são culpadas de má-fé.

A indenização incluída no acordo está entre as mais altas já pagas por um órgão de imprensa. Mas o acordo também é incomum, porque a Chiquita ainda não havia tomado nenhuma medida legal contra o Enquirer, que é propriedade da Gannett Company, maior rede de jornais dos Estados Unidos. Floyd Abrams, conhecido advogado defensor da Primeira Emenda, disse que, ao declarar o roubo de informações da Chiquita, o Enquirer fica legalmente vulnerável. ‘Muitas estratégias agressivas de reportagem podem ser protegidas pela Primeira Emenda, mas não o roubo.’

A Chiquita, em declaração, elogiou o Enquirer por reconhecer que ‘as conclusões das matérias são inverdades’. ‘Decidimos nos desculpar à Chiquita porque sentimos que o produto final da série estava contaminado pela falta de ética e os meios ilegais pelos quais as mensagens foram obtidas’, disse o publisher."

"Jornal desculpa-se por reportagens sobre empresa", copyright O Estado de S. Paulo, 5/7/98

 

Flavia Sekles

"Washington - No manual global do bom jornalista é proibido inventar frases [de supostos entrevistados] ou personagens, quebrar a lei na busca de informação, ignorar informações contrárias a sua tese inicial e se transformar em parte da notícia. Entretanto, nos últimos dois meses, várias organizações de comunicação nos Estados Unidos têm tido problemas nessas quatro áreas, num golpe contra a credibilidade do jornalismo americano, que se considera o melhor do mundo.

A rede de TV a cabo CNN e a revista Time publicaram reportagem segundo a qual os EUA teriam cometido um crime de guerra atroz ao usar uma arma química, o gás sarin, contra desertores americanos durante a Guerra do Vietnã, e depois tiveram que se retratar. Um repórter do jornal The Cincinnati Enquirer usou escuta telefônica ilegal numa investigação sobre a empresa de frutas tropicais Chiquita Brands, suspeita de subornar funcionários de governos estrangeiros. Foi demitido. Stephen Glass, uma jovem estrela da revista The New Republic, inventou dois terços dos 41 artigos de sua autoria, e a colunista Patricia Smith, do The Boston Globe, inventou personagens e frases para dar mais alma a seus artigos de opinião. Ambos foram demitidos.

Em todos os casos, várias páginas de jornal ou horas de programação na TV foram dedicados a pedidos de desculpas aos leitores e telespectadores e promessas foram feitas de que o ocorrido não voltará a acontecer. Apesar de ter havido, por parte da própria imprensa, mea culpa e condenação dos erros, há vários fatores no mercado de mídia americano indicando que a probabilidade de novos incidentes no futuro é alta.

No topo da lista dos fatores de risco está o modelo industrial, no qual existe o imperativo de gerar lucros cada vez maiores, num mercado consumidor cada vez menor, no caso dos jornais, ou mais segmentado, no caso da televisão: na semana passada, pela primeira vez na história da TV nos EUA, a audiência dos canais de televisão a cabo superou a audiência das redes tradicionais, como ABC, CBS, NBC e Fox. Ainda assim, executivos dessas redes exigem que seus departamentos de jornalismo produzam o mesmo lucro que as divisões de entretenimento.

‘O mercado de jornais e de televisão está se encolhendo, enquanto a competição está explodindo’, disse ao JB Carl Gottlieb, do Projeto pela Excelência no Jornalismo, uma organização que visa promover a integridade no setor. ‘Jornalistas estão sob enorme pressão para produzir matérias mais interessantes para criar vantagem sobre a competição. Mas quando um jornalista acredita que para tanto é necessário fabricar eventos e personagens ou ignorar elementos que contradizem aquela fantástica informação que ouviu de sua última fonte, ele está de fato causando o maior dano ao único verdadeiro trunfo que temos nessa indústria, a nossa credibilidade. O leitor e o espectador nunca deveriam questionar se o que está vendo é verdade ou não’, diz.

Segundo a Columbia Journalism Review, a mais prestigiosa revista sobre a imprensa americana, ‘uma nova era está começando no jornalismo americano’, em que o aspecto financeiro é cada vez mais dominante. Mesmo antes dos últimos incidentes, a confiança do público nas organizações jornalísticas já estava em queda, em parte devido a um ciclo vicioso no qual, para manter a audiência, os meios de comunicação dedicam espaço cada vez maior a matérias de comportamento, escândalos sexuais, fofoca das estrelas, crime, em detrimento das reportagens sobre crises internacionais ou assuntos complexos de política nacional.

Outra tendência das últimas décadas foi a transferência do controle dos jornais de famílias para o público, através da abertura de capital. O veterano jornalista Walter Conkrite reclama que ‘os acionistas de empresas jornalísticas esperam retornos similares de seu investimento ao que teriam se investissem em negócios industriais’. O jornalismo nunca foi um empreendimento filantrópico, mas a pressão por margens de lucros cada vez mais altas prejudica sua qualidade.

O investimento na notícia, através da contratação e do treinamento de jornalistas e na cobertura de eventos, está caindo. Cada vez mais, a televisão e os jornais dependem de informações geradas por agências. O espaço dedicado a matérias e não à publicidade está menor. Editores, que tradicionalmente tinham que se preocupar com a qualidade de sua publicação estão hoje sob extrema pressão do setor comercial de cada empresa para cortar gastos e aumentar a margem de lucros.

O resultado, segundo pesquisa da revista Editor & Publisher, é que tanto editores quanto executivos financeiros das empresas jornalísticas acreditam que a cobertura é vazia e inadequada, e que os jornais americanos se concentram mais em personalidades do que em questões importaa ter sido ainda mais dura com os responsáveis pela reportagem sobre o uso do gás sarin. Considerando que o jornalista que narrou a matéria, Peter Arnett, se justificou dizendo que seu papel foi apenas periférico, Gottlieb pergunta: ‘Será que se o documentário tivesse ganho um prêmio jornalístico ele também não teria aceito?’