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VIOLÊNCIA NA MÍDIA
Sharon Waxman
"Combate à violência nos limites da censura", copyright O Globo / The Washington Post, 12/11/00
"A garota está morta. Pálida, olhar vago, parece observar o teto, braços pendendo para fora da banheira. Ouve-se o som de gotas caindo. Não é água, é sangue. O assassino da garota, sentado ao lado da banheira, começa a retirar seus órgãos. Um rim sangrento. Um coração que ainda bate. Não é um sonho, nem mesmo pesadelo.
- É uma ópera - explica Tarsem Singh, o cineasta estreante responsável por esta seqüência, que está em ‘A cela’, filme em cartaz no Rio.
Nos Estados Unidos, ‘A cela’ causou comoção por sua violência extrema. Entrou em cartaz bem no auge de um debate que tem mobilizado executivos, cineastas, críticos e até políticos, sobre os limites da exposição da brutalidade em forma de película. ‘Faça um filme perturbador’, lembra-se Tarsem Singh, citando as palavras dos executivos da produtora New Line na primeira reunião de produção. Foi o que ele fez.
No filme, uma psicóloga (Jennifer Lopez) entra na mente de um serial killer (Vincent D’Onofrio) que tortura, afoga e molesta suas vítimas (todas mulheres) e depois esvazia seus corpos para que pareçam bonecas. Tarsem optou por filmar essa história de forma gráfica, uma tapeçaria de horror que inclui outra cena de evisceração.
- Fiz esse filme por motivos visuais - ele diz. - Não faço apologias. Queria que fosse mais inteligente, mas é apenas um espetáculo para os olhos. Na verdade, sou a favor do controle de armas e de uma abordagem responsável da violência, mas também sou contra a censura. Terminei fazendo um filme violento, o que é irônico. Mas não o nego.
Desde que o homem com chapéu de caubói sacou um revólver e disparou em direção à câmera nos minutos de abertura de ‘O grande assalto do trem’, em 1903, instalou-se o debate sobre o impacto da violência nas platéias de cinema. Um debate que vem em ondas, em geral iniciadas cada vez que uma nova geração de cineastas desponta e alarga os limites da violência de maneiras perturbadoras. ‘Meu ódio será tua herança’, de Sam Peckinpah, e ‘Laranja mecânica’, de Stanley Kubrick, espalharam controvérsia nos anos 60, assim como ‘Perigo para a sociedade’, de Allen e Albert Hughes, e ‘Cães de aluguel’ e ‘Pulp fiction’, de Tarantino, o fizeram nos anos 90.
Mas a quantidade de assassinatos em escolas americanas nos últimos anos deu a esta velha questão um sentido de urgência inédito. Dylan Klebold e Eric Harris, dois estudantes do Colorado que mataram 12 estudantes e um professor antes de cometerem suicídio na escola de Columbine, em abril de 1999, são resultado de uma subcultura da violência. Jogavam obsessivamente videogames ultraviolentos, ouviam música niilista e assistiam a filmes brutais. O rompante de violência dos dois parecia a reencenação fiel de um sonho do personagem de Leonardo DiCaprio em ‘Diário de um adolescente’. Por isso a tragédia - assim como outras que a precederam - despertou imediatamente a busca por um culpado, e os dedos acusatórios apontaram para Hollywood. A diferença é que, desta vez, até mesmo integrantes da indústria cinematográfica, ainda que defendendo suas práticas, admitiram que havia algo de errado.
- Não é que filmes violentos gerem violência - diz Thom Mount, presidente da Associação de Produtores Americanos. - Mas é difícil negar que a constante exposição à violência gratuita tem diminuído nossa sensibilidade em torno da questão.
Depois do massacre de Columbine, o presidente Bill Clinton ordenou à Comissão Federal de Comércio que estudasse se a indústria do cinema, da música e dos jogos estavam direcionando suas campanhas de marketing de produtos violentos para crianças e adolescentes. A resposta, nos três casos, como concluiu a comissão num relatório divulgado em setembro passado, foi um inequívoco sim.
O estudo da comissão descobriu que Hollywood fabrica um marketing ‘intenso e agressivo’ de filmes não indicados para menores de 18 anos para jovens com menos de 17 anos, e de filmes não recomendados para menores de 13 anos para crianças com bem menos idade. Os estúdios anunciam estes filmes em revistas para adolescentes e em intervalos comerciais de seriados como ‘Dawson’s Creek’ e ‘Buffy, a caça-vampiros’. E ainda incluem crianças de 10 anos em suas pesquisas de mercado para filmes considerados impróprios. ‘Precisamos encontrar um alvo que nos dê certeza de que os adolescentes entre 12 e 18 anos estarão expostos ao filme’, afirma o plano de marketing de uma fita proibida para menores de 18, citada mas não nomeada no relatório.
Os executivos dos estúdios, em resposta, se mostraram previsivelmente cheios de remorso. Jack Valenti, presidente da Motion Picture Association of America (MPAA), anunciou um conjunto de medidas para limitar o marketing da violência direcionado às crianças. O Senado organizou uma comissão especial para estudar o problema e ouvir os executivos. Políticos de todo tipo aderiram ao debate.
Mas uma voz que ainda não se fez ouvir é a dos próprios cineastas. São eles, ao lado dos executivos dos estúdios, que tomam as decisões cotidianas que determinam os filmes que vamos ver no futuro. Críticos mais superficiais acreditam que eles são movidos por desejos cínicos de incitar instintos básicos na platéia. Mas a questão é bem mais complexa, e o próprio sistema de classificação de filmes influencia nas decisões.
Em ‘O patriota’, Mel Gibson interpreta Benjamin Martin, fazendeiro que adere às lutas pela independência americana e persegue soldados britânicos depois de ter um de seus filhos assassinado. Munido de dois bacamartes, Martin parte com seus dois filhos de mais ou menos 10 anos e se embrenha numa floresta por onde costumam passar soldados ingleses. Quando eles chegam, Martin atira em cada um enquanto as crianças o ajudam a recarregar as armas. No fim, sobrevive apenas um soldado, que tenta escapar apavorado. Martin caça o sujeito até atingi-lo com um machado, encharcando-se de sangue. Seus filhos tudo vêem.
O diretor Roland Emmerich e o produtor Dean Devlin chegaram a pensar em cortar esta cena para não pegarem uma classificação ‘R’ (filme restrito para menores de 17 anos). Essa classificação significa jovens barrados no cinema e milhões de dólares perdidos. Mas não adiantou muito: o comitê de classificação disse que o filme receberia a classificação ‘R’ se não fossem eliminados os closes de pessoas sendo feridas (com tiro ou lâmina), closes de sangue espirrando, uma cena em que uma bala de canhão arranca a cabeça de uma pessoa e ainda a grande cena do massacre. Seriam 30 cortes ao todo.
- Fizemos seis cortes - conta o produtor.
Eles resolveram limpar a primeira grande cena de batalha em que, originalmente, os ainda desorganizados revolucionários encontram o disciplinado exército britânico e são estraçalhados. A seqüência se tornou muito mais simples: os britânicos atiram, os rebeldes revidam, os rebeldes se retiram.
- Perdeu-se todo o sentido de sacrifício, do que significa ver balas de canhão vindo na sua direção - diz Devlin.
O produtor projetou a nova versão do filme numa sessão-teste e percebeu a reação diferente da platéia.
- De repente o filme ganhou um tom esquisito. Parecia que era bom ir à guerra - diz Devlin. - Pretendíamos fazer um filme anti-violência, anti-guerra, mas quando fomos forçados a ‘limpá-lo’, desapareceu o horror.
Devlin e o diretor Emmerich voltaram atrás e optaram pela versão que acabou mesmo sendo classificada como ‘restrita’ e assim estreou nos cinemas. Mas eles ficaram chocados quando o filme estreou, em junho passado, e as críticas foram unânimes em condenar a violência do filme. Deixando de lado questões históricas, os jornais derrubaram ‘O patriota’ exatamente em função dos fatores que eles tentaram driblar: a violência gratuita e o sangue esguichando para puro deleite da platéia. ‘O filme não é sobre táticas de batalha ou questões políticas, é sobre vingança, e quanto mais sangrenta melhor’, escreveu um dos críticos. Outros concluíram que Hollywood está mostrando a violência que sempre explorou, mas agora revestida pela falsa moralidade da correção política. Como bem observou a especialista no assunto Deborah Hornblow, tanto ‘O patriota’ como outro violento sucesso da mesma temporada, ‘Gladiador’, trazem heróis que são fazendeiros pacatos transformados em máquinas de matar. ‘Esses filmes mostram a que ponto o pensamento politicamente correto se infiltrou na cultura dos Estados Unidos. Os filmes fazem tudo para dizer que a violência é uma aberração e, explorando a dor dos personagens, terminam por justificá-la, induzindo platéias a perdoar atos de brutalidade’, ela escreveu.
Em setembro, um grupo de cineastas liderado por Rob Reiner pediu uma revisão do sistema de classificação etária dos filmes americanos, que eles consideram ‘falho’ e tendendo à censura.
- Não isento Hollywood de responsabilidade e acredito que filmes e videogames são fatores de exacerbação. Mas qualquer um que entenda a raiz da violência sabe que o fator principal é familiar. Se uma criança é criada num ambiente violento, será violenta, não importa que filmes veja."
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