TRÊS MINUTOS DE SILÊNCIO
Letícia Matheus

"Três minutos de silêncio no rádio em ato pela paz", copyright O Globo, 17/11/00

"Está confirmado: as 3.232 rádios do Brasil ficarão mudas durante três minutos dia 12 de janeiro, às 19h, para que cada brasileiro reflita sobre o que pode fazer para tornar o mundo melhor. A manifestação faz parte da programação do Rock in Rio III, evento musical organizado pelo empresário Roberto Medina, que fechou o acordo ontem com o presidente a Radiobrás, Carlos Zarur, para a manifestação.

A Radiobrás usará os primeiros minutos da Voz do Brasil para fazer o silêncio pela paz. As 425 repetidoras das principais emissoras de TV também vão interromper sua programação no mesmo horário. Medina confirmou ontem mais uma atração: a neta de Mahatma Gandhi, Ela Gandhi, estará presente no evento, dando palestra sobre seu avô."




JORNALISMO & CANUDOS
Marcos Sá Corrêa

"A favela mitológica", copyright no. (www.no.com.br), 16/11/00

"Os brasileiros sabem há mais de cem anos que a favela nasceu no morro da Providência, fundada pelos recrutas que voltavam da guerra de Canudos. Mas os franceses aprenderam primeiro de onde veio a idéia de favela como oposto de cidade na construção da sociedade partida. ‘Veio da dualidade litoral versus sertão’, ensinou-lhes no mês passado a professora Lícia Valladares, do alto de uma pesquisa de dois anos, revirando 526 títulos no Urbandata, arquivo que ela mesma organizou no Rio de Janeiro.

Quem perdeu a pré-estréia em francês, na Semaine Brésil 2000, pode procurar a A Gênese da Favela carioca na Revista Brasileira de Ciências Sociais. O artigo é sério - 20 páginas, 92 notas e 76 indicações bibliográficas – mas divertido. Com a fluência que lhe deram seus 30 anos de intimidade com o assunto, a socióloga Lícia Valladares conta como, no começo do século XX, junto com os primeiros barracos, os jornalistas cariocas subiram o morro para fundar nas encostas do Rio de Janeiro uma filial carioca da vila fundada no interior da Bahia pelo rebanho de Antônio Conselheiro.

‘Como se criou aquela curiosa vila de miséria indolente?’, escreveu em 1908 o cronista João do Rio na Gazeta de Notícias, escalando as ladeiras do Morro de Santo Antônio, ainda debruçado sobre o centro do Rio. ‘O certo é que hoje há, talvez, mais de quinhentas casas e cerca de mil e quinhentas pessoas abrigadas lá por cima. As casas não se alugam, vendem-se (...) Todas são feitas sobre o chão, sem importar as depressões do terreno, com caixões de madeira, folhas-de-flandres, taquaras. Tinha-se, na treva luminosa da noite estrelada, a impressão lida da estrada do arraial de Canudos’.

João do Rio inaugurou uma escola. Trinta anos mais tarde, o jornalista Luiz Edmundo desceria do morro de Santo Antônio com as mesmas conclusões: ‘Alcançamos, enfim, uma parte do povoado mais ou menos plana e onde se desenrola a cidadela miseranda. O chão é rugoso e áspero, o arvoredo pobre de folhas, baixo, tapetes de tiririca ou de capim surgindo pelos caminhos mal traçados e tortos’.

Ambos - e todos os repórteres que até hoje descem das favelas com sotaque parecido – são discípulos cada vez menos conscientes de Euclides da Cunha. Adotam a fórmula literária para escarafunchar a pobreza que ele patenteou em 1902, quando saiu pela casa Laemmert a primeira edição de Os Sertões. ‘Muito embora falando da capital da República, os cronistas queriam mostrar que os sertões também estavam ali’, esclarece Lícia Valladares.

Como em 1918 o médico Afrânio Peixoto dizia que ‘nosso sertão começa para os lados da Avenida’, ela considera ‘claro que Canudos e seus jagunços, relatados por Euclides da Cunha, serviram como modelo para pensar a população da favela, suas características e seu comportamento’. Foi o sucesso de Os Sertões que aboliu, a imprensa carioca, a obrigação de tratar lugar de pobre exclusivamente como agressão estética, sanitária e policial à cidade.

Com o arsenal literário trazido da guerra por Euclides da Cunha, na década de 30 o jornalista Benjamin Costallat faria a sagração do primeiro dono do morro: ‘Um dia chegou à Favela um homem – Zé da Barra. Vinha da Barra do Piauí. Já trazia grande fama. Suas proezas eram conhecidas. Era um valente, mas um grande coração. E Zé da Barra chegou e dominou a Favela. E a Favela, que não conhece polícia, não conhece impostos, não conhece autoridades, conheceu Zé da Barra e a ele teve que obedecer. E Zé da Barra ficou sendo o chefe inconteste da Favela’.

Pronto. Estavam lançadas as bases da resistência favelada, que agora unge como herdeiros de Canudos até os traficantes cariocas. ‘Houve uma verdadeira transposição’, diz Lícia Valladares, que dá aulas na Universidade de Paris 12 e trabalha no laboratório de culturas e sociedades urbanas do Centre National de la Recherche Scientifique. Na França, ao apresentar semanas atrás esses achados, ela mesma se espantou: ‘Interessante, não? Digo interessante porque todos os estudiosos, inclusive eu mesma no passado, faziam a associação do nome favela com a guerra de Canudos mas não com o livro de Euclides da Cunha. E o laço histórico não explica tudo’. 



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