Indice Jornal de debates A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Caderno do leitor

CONCORRÊNCIA E CANIBALISMO
Mino Carta

"Ao alvorecer de 25 de outubro passado, o jornal O Estado de S. Paulo, com o tom heróico de garimpeiro da verdade, anunciou ao mundo os desenvolvimentos de clamorosa pendenga, que não noticiara antes, envolvendo a Receita Federal, a Embratel, adquirida pela MCI WorldCom no quadro da privatização da Telebrás, notórias personagens do enredo nativo e o próprio governo dos EUA. Dia 27, a Folha de S. Paulo entrou na dança - com a expressão altaneira de quem fala em primeira mão. Às vezes, surge a impressão de que as informações brotam por geração espontânea, mas desta vez não é assim.

CartaCapital datada de 15 de setembro, nas bancas cinco dias antes, revelava a cobrança pelo Fisco de mais de R$ 1 bilhão da Embratel em reportagem de capa de autoria do redator-chefe Bob Fernandes. O trabalho ocupava sete páginas e era, sem falsa modéstia, bem mais preciso e documentado do que os textos do Estadão e da Folha, vindos à luz a partir de 45 dias depois. Sublinhemos 45 dias depois. Se quiserem, um mês e meio. Tratou-se, de todo modo, de partos difíceis, inclusive por lhes faltar o suporte dos papéis indispensáveis à compreensão do assunto que acompanharam a reportagem de Bob Fernandes.

Haverá quem se pergunte se o propalado propósito de servir incansável e prioritariamente aos leitores, que costuma lambuzar a boca dos jornalistas, melhor não seria cumprido privilegiando a simples informação em lugar de discutíveis regras da concorrência. Se em meados de setembro, Estadão e Folha dessem seguimento às revelações de CartaCapital, a opinião pública disso tiraria evidentes benefícios. No entanto, com exceção de Boris Casoy, no seu Jornal da Record, de Miriam Guaraciaba, na sua coluna do Correio Braziliense, da Rádio Bandeirantes e do on line Teletime News, o caso foi ignorado pelo resto da mídia.

Esse gênero de comportamento é tradição. Os órgãos da comunicação brasileira costumam agir como se cada notícia tivesse dono, o que não exclui a possibilidade de golpes de mão na linha da apropriação indébita. Por exemplo. Eliane Cantanhêde, na Folha de 28 de outubro, se refere, sem citar a fonte, à correspondência entre Embratel e Telebrás, na qual a primeira admite a dívida.

Então, vejamos. Onde a jornalista foi buscar a notícia da carta dirigida por Dílio Sergio Penedo, presidente da Embratel em março de 1998, a Fernando Xavier Ferreira, presidente da Telebrás, e por este respondida em maio do mesmo ano? Elementar: ou na edição de CartaCapital de 15 de setembro, ou no site da revista encravado na programação da ZAZ, onde, aliás, as cartas figuram na íntegra. Para conseguir atirar os olhos sobre tais preciosos documentos foi inescapável recorrer à nossa modesta publicação. Não havia outra saída.

Mas há coisas piores do que silenciar sobre uma fonte como CartaCapital, ao sabor de vetusto fenômeno de omertá de óbvia inflexão siciliana. O Estadão de 30 de outubro proclama na primeira página: ‘Cartas obtidas pelo Estado comprovam que a Embratel reconheceu, antes da privatização, dívidas com a Receita’. Em seguida, menciona a carta de Penedo, de 3 de março de 1998, e em uma página interna a publica ao lado da resposta de Ferreira, cuja data, no entanto, é omitida. Por quê? Elementar, mais uma vez. Porque no site de CartaCapital a data do segundo documento não se lê com clareza. Nem por isso certos Gustavo Paul e Ribamar Oliveira deixam de canibalizar em texto ao lado cópia da reportagem de Bob Fernandes. O modelo é ótimo, a falta de vergonha é demais.

Há cidadãos que se apresentam como jornalistas e que se curvam às ordens do patrão, ou àquele que supõem ser seu interesse. Outros apresentam justificativas para a curvatura. Um repórter, em São Paulo, afirmou: ‘CartaCapital chuta muito’. Na opinião do rapaz, ao que tudo indica, CartaCapital chutou ao revelar as conversas gravadas no BNDES, ou ao precipitar a queda de Vicente Chelotti da direção geral da Polícia Federal, ou a apressada saída do Brasil do diplomata-agente que aqui chefiava a CIA. Etc., etc. Em compensação, um redator do Estadão, ao atender o leitor disposto a lembrar que o jornal se limitava a repetir CartaCapital, disse, não sem candura, ter lido Bob Fernandes havia 45 dias. Omitimos o nome do redator, por motivo de segurança. A dele.

Viceja também nas redações um gênero de profissionais inclinado à certeza de que ninguém lê coisa alguma. Pelo jeito, não confiam em si mesmos e na sua profissão. Mas nada de surpresas.

A privatização da Embratel aponta para mais uma trama suspeita, alimentada pela clara tentativa de esconder informações, de manipular pessoas e instituições e, quem sabe, de praticar trapaças, de resto típicas de negócios desse porte. Verifica-se que não faltam comunicadores prontos a seguir pelo mesmo caminho enquanto se arvoram a fiscais da moralidade pública. Tudo bem. A hipocrisia, traço característico do poder brasileiro, pode mancomunar autoridades e pseudojornalistas.

Mas nem tudo é podre no castelo de Elsinore e na mídia verde-amarela. Há diferenças entre uns e outros e vale acentuá-las. CartaCapital se orgulha de sua platéia, com a qual mantém uma relação de respeito recíproco. Trata-se de uma audiência excepcional, conforme será provado por pesquisa da InterScience a ser divulgada em breve, desvendando o perfil do nosso leitor. O qual consome 3,5 jornais por dia, 3,3 revistas por semana e, 9 casos em 10, acessa a Internet.

Trata-se de alguém perfeitamente equipado para reconhecer quem é quem e colher as provas do que aqui está sendo dito.

"Cuidado, canibais em ação", CartaCapital nº 110, 10/11/99

 

MÍDIA GLOBAL
Nelson de Sá

"A revista The Nation, de esquerda independente, acaba de lançar uma edição que mapeia ‘a nova mídia global’. Está na Internet.

Ela aponta a extensão do velho oligopólio da mídia americana, sobretudo TV, para o resto do mundo. Para a Nation, trata-se de um cartel com nove integrantes. Um analista da firma de investimentos PaineWebber diz:

- O que se está assistindo é a criação de um oligopólio global...

A revista aponta também cerca de 50 corporações regionais ou nacionais, oligopolistas nos seus limites, mas integradas às nove grandes. Entre as 50, ao lado da mexicana Televisa e da venezuelana Cisneros, a Globo.

A corporação mereceu análise política detalhada, com o ‘relacionamento simbiótico com sucessivos governos militares e civis’ e até a ‘versão perversamente editada’ do debate de 89. Para a Nation, isso está mudando, pode até virar coisa do passado:

- A influência política direta da Globo está se esvaindo, mas seu poder financeiro continua a crescer.

Com mais precisão:

- Se a Globo flexiona os seus músculos, hoje em dia, é em nome do lucro, não da ideologia.

Em tal cenário, vale registrar que a Globocabo, operadora de TV a cabo das Organizações Globo, vem de receber uma injeção de quase meio bilhão de reais do governo civil.

Foi semana passada. O BNDES, que enfiou o dinheiro, justificou o investimento dizendo tratar-se de ‘uma líder, praticamente monopolista’ no setor.

Nada mais correto, portanto, do que torná-la ainda mais praticamente monopolista, acompanhando o figurino da nova mídia global, como retratada pela Nation. E recebendo, de quebra, algum dividendo."

"Nova velha mídia", copyright Folha de S.Paulo, 18/11/99

 

VIOLÊNCIA & CENSURA
"Deve haver censura para coibir a exibição de violência nos meios de comunicação?"

NÃO
Rubens Approbato Machado (*)

"Proibir os meios de comunicação de retratar a realidade social é querer tapar o sol com a peneira. O direito à informação, inclusive o direito à informação considerada perniciosa para o sadio desenvolvimento social, é um pré-requisito da democracia. Democracia, aliás, pressupõe o diálogo, o jogo livre das idéias, a solução negociada das questões sociais, econômicas e políticas. E a informação, como alimento das idéias, é um direito garantido nas Constituições democráticas, sendo expressa na nossa Carta no art. 5º, nos incisos que tratam da livre manifestação do pensamento, da livre expressão de comunicação, ‘independentemente de censura ou licença’, e do acesso de todos à informação.

A questão que se coloca é sobre os danos causados pela imprensa quando veicula mensagens sensacionalistas consideradas por certas correntes como fatores criminógenos. A teoria psicanalítica, evidenciando seu caráter catártico, defende que o indivíduo encontra na leitura fruição para suas tendências agressivas ou eróticas, sem risco. Apesar de registrarmos pontos de vista como o de S. Hurwitz, que não vê, em seu tratado sobre imprensa e criminalidade, a mínima influência criminogênica da imprensa na onda de violência social, somos levados a pensar que linguagens e conteúdos apelativos e escatológicos de emissoras de TV podem gerar comportamentos miméticos de jovens.

Essa, aliás, foi uma das denúncias da Carta de Águas de Lindóia, no 26º Encontro de Presidentes de Subsecções da OAB. Daí a compartilhar com a censura vai uma grande distância. Partilhamos da idéia de que, se a sociedade vive um processo de deterioração de valores, os meios de comunicação devem cumprir a inevitável função de retratar as molduras sociais com as mesmas cores de dureza.

É evidente que a imprensa deve usar sua liberdade dentro de parâmetros de responsabilidade. Responsabilidade significa direcionar a liberdade para a defesa dos direitos individuais e sociais. De certa forma, nossa Constituição preserva a responsabilidade quando defende que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. A imprensa é regida por um código de responsabilidade, e seu estatuto próprio dita comportamentos éticos.

O que não se pode, sob ameaça de ruptura do preceito de liberdade de imprensa e direito à informação, é aprovar a censura aos meios de comunicação, sob alegação de que exageram na divulgação de fatos. A OAB-SP preocupa-se, e muito, com o fato de certos programas de TV estarem assumindo o papel de ‘advogados’ na defesa dos marginalizados e abusando de exemplos escatológicos e situações canhestras para emocionar as platéias. Eles precisam, isso sim, reger-se por princípios éticos que marquem nitidamente sua função social na defesa dos valores básicos da cidadania.

Pensamos como o axioma: ‘Não concordo com nada do que você diz, mas defendo seu direito de dizê-lo’. Não aceitamos apelos sensacionalistas para atrair multidões, mas não podemos defender o fim de programas por conta de absurdos cometidos. O que temos de defender é a implantação de uma cultura ética para evitar a mistificação das massas.

Faço também minhas as palavras de Alexis de Tocqueville, quando, em ‘A Democracia na América’, fala de virtudes da imprensa: ‘Num país onde reina ostensivamente o dogma da soberania do povo, a censura não é apenas um perigo, mas ainda um grande absurdo. A soberania de um povo e a liberdade de imprensa são, pois, duas coisas inteiramente correlatas’.

Qual é a alternativa para melhorar a qualidade da mídia? A educação. Educar as massas, trazê-las para o território educacional, aquilo que Norberto Bobbio tão bem apregoa quando fala da sexta promessa não cumprida pela democracia: a educação para a cidadania. Pela educação, diz, indivíduos passivos tornam-se cidadãos ativos, afastando o perigo de se transformarem em ovelhas dedicadas tão-somente a pastar (e não a reclamar quando o capim é escasso)."

(*) Rubens Approbato Machado, 66, é presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo.

"A educação é a porta da liberdade", Tendências/Debates, copyright Folha de S.Paulo, 13/11/99

SIM
Cândido Padin
(*)

"Não se deve confundir censura com preservação da vida dos cidadãos. Infelizmente, por termos sido vítimas de uma infame ditadura que pretendeu dominar até nossos pensamentos e convicções, criou-se uma equivocada mentalidade de rejeição de qualquer medida interpretada como censura à livre comunicação das idéias e a produções artísticas e culturais. Essa rejeição à simples denominação de censura constitui uma característica da cultura de quase todos os povos civilizados do mundo contemporâneo.

Foram os meios de comunicação eletrônicos e a informática que nos acostumaram ao acesso imediato às informações e idéias transmitidas em dimensão universal e praticamente sem possibilidade de controle.

Assim como a engenharia bélica criou a bomba-relógio, que pode produzir efeitos destruidores movida por sinais transmitidos a uma grande distância de espaço e de tempo, também a transmissão indiscriminada de idéias ou propostas claramente anti-humanas tem um efeito retardado de natureza psicológica ou ideológica, capaz de destruir inúmeras vidas no curto ou médio prazo. Surgem seitas consideradas satânicas ou com características semelhantes no Japão, na China e em outros países, exercendo atividades de extermínio ou de influências anti-sociais. Mesmo na Alemanha ou em outros países europeus vemos o ressurgimento da execrável concepção nazista.

Por outro lado, aumenta descontroladamente a violência em países do Primeiro Mundo e nos nossos também. Não só a violência praticada por gangues do tráfico, mas também a praticada em assaltos e até por indivíduos isolados, eliminando inocentes.

Em São Paulo, assistimos ao tresloucado ato de um jovem que, portando uma submetralhadora, disparou contra a platéia do cinema de um shopping. É significativo o fato de o autor do crime ter praticado o desatino durante a exibição de um filme apresentando a ação de grupos de lutas sangrentas (‘Clube da Luta’).

Passamos a viver na sociedade um ambiente de insegurança e de pânico. As autoridades declaram não dispor de meios suficientes em pessoal e equipamentos para agir adequadamente. Considero, porém, não ser essa a deficiência maior. Trata-se de um problema de mais profundidade, atingindo uma deformação cultural do modo de entender o ordenamento dos direitos e deveres dos cidadãos para compor uma convivência social baseada na primazia da pessoa e da vida humana.

É certo que, no caso daquele jovem, interferiram sua condição mental e as drogas. Mas revela-se também o fácil acesso à compra de armas em pontos já conhecidos pela polícia. Resta analisar o problema do grau de influência da exibição de filmes que incluem não só cenas de impiedosa violência, mas enredos que apresentam estratégias de organização do crime. O debate tem manifestado opiniões diversificadas de especialistas da psiquiatria e da psicologia. Creio, porém, que se deveria ouvir o parecer de educadores.

Não se deseja, certamente, a simples restauração da censura exercida por órgãos governamentais. Basta a triste experiência que tivemos. Seu mal consistia no exercício inteiramente arbitrário do poder censório.

Felizmente, o término da Grande Guerra permitiu o significativo esforço de elaboração da expressão de um consenso, com a aprovação da Carta Universal dos Direitos do Homem, em 1948, e da Declaração dos Direitos da Criança, em 1959. O valor de ambos os documentos não consiste apenas da definição dos direitos que os cidadãos podem reivindicar, mas também dos deveres que ‘o indivíduo tem para com a comunidade, posto que tão-somente nela poderá haver o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade’ (art. 29 da Carta dos Direitos do Homem). A definição de tais direitos e deveres constitui, portanto, uma verdadeira conceituação dos valores éticos básicos da vida humana.

É na base fundamental de tais valores que se deverá elaborar um ordenamento global do uso dos meios de comunicação - órgãos da mídia ou apresentações teatrais ou de cinema. E a elaboração desse ordenamento deverá contar com a participação de representantes desses meios de comunicação, mas também de entidades dedicadas a atividades culturais, de promoção social, educativas, científicas e religiosas, para que o resultado signifique o consenso social almejado."

(*) D. Cândido Padin, 84, graduado pela Faculdade de Direito da USP, é presidente de honra do Instituto Jacques Maritain e bispo emérito de Bauru (SP).

"Preservação da vida", Tendências/Debates, copyright Folha de S.Paulo,13/11/99

 

PEGADINHA
Folha de S.Paulo

"A atitude de Sérgio Mallandro considerada abusiva pelo secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, aconteceu no sábado, no programa ‘Festa do Mallandro’, da CNT/Gazeta.

Mallandro exibiu cenas de uma simulação médica feita no sábado com apoio de diversos órgãos governamentais - como Ministério da Saúde e Corpo de Bombeiros - e que envolveu o trabalho de 800 pessoas. A simulação incluía a explosão de um trem (que realmente ocorreu) e o socorro a uma vítima em chamas (feito por um dublê profissional).

Durante as cenas, entretanto, o apresentador informava que se tratava de uma brincadeira preparada pelo seu programa. Segundo narrou no ar, um homem normal, ‘que nunca fez nada parecido, tinha um sonho de sobreviver a um desastre de trem’.

Caso o concorrente de sua gincana sobrevivesse à explosão, ganharia o que Mallandro chamou ‘prêmio máximo do programa’. Afirmou ainda que o homem estava no trem durante a explosão, o que foi desmentido pelo Corpo de Bombeiros. O major Luiz Carlos Wilke, dos bombeiros, afirmou que a corporação vai tomar providências civis e penais por uso de imagem. Wilke também intimou o dublê, que havia se oferecido de graça para participar da operação. Segundo o major, ele pode ter feito acordo prévio com a emissora.

Malandragem interrompida

São de gosto duvidoso, para dizer o menos, as brincadeiras televisivas que se generalizaram como ‘pegadinhas’. Em geral, forja-se uma situação na qual o desavisado que a toma por verdadeira, um cidadão pego a esmo, torna-se o objeto da caçoada.

Nada contra quem, depois de ser flagrado por uma câmera escondida numa situação estranha, autoriza que a cena seja transmitida pela TV; ou contra os que se deliciam ao ver outras pessoas em circunstâncias embaraçosas. Há uma dose de preferência pessoal que deve ser respeitada. Mas o mesmo não pode ser dito quando, sob pretexto de promover tais brincadeiras, resvala-se na fraude, no logro da boa-fé do público.

Registre-se o que ocorreu no sábado passado, quando o apresentador de TV Sérgio Mallandro exibiu em seu programa um confuso caso no qual uma pessoa comum, cujo sonho seria o de ser dublê, deveria sobreviver a uma explosão dentro de um vagão de trem para ganhar o ‘prêmio máximo do programa’.

Tudo foi apresentado como se a situação tivesse sido produzida pela equipe do programa, que teria também chamado bombeiros e aparato de segurança para eventuais percalços. Grande mentira. O que Mallandro apresentou como sua obra era a simulação de socorro emergencial a um acidente, executada pelo Corpo de Bombeiros como treinamento. Vale lembrar que, há alguns meses, o mesmo apresentador provocou uma correria de uma pequena multidão no auditório de seu programa ao forjar um tiroteio. Será que julga que os pontos de audiência obtidos com tais baixarias compensem eventuais manobras danosas ao público? De todo modo, para que malandragens como essas não se tornem rotineiras, seria muito bom que os excessos cometidos não ficassem impunes."

"Programa iludiu telespectadores", copyright Folha de S.Paulo, 11/11/99

 

RATINHO CONDENADO
Daniel Castro

"O apresentador Carlos Massa, o Ratinho, foi condenado a sete meses de detenção em regime aberto, a pagar multa de dois salários mínimos e a prestar serviços comunitários pelos crimes de injúria e difamação cometidos contra um médico urologista de São Paulo.

O apresentador vai recorrer da sentença, proferida na última sexta-feira pelo juiz Joatam Marcos Carvalho, da 9ª Vara Criminal de Curitiba.

Além de Ratinho, foram condenados às mesmas penas o diretor de televisão Maurício Cavalcante e o casal Walner e Dalva Martins Cayres.

As penas só poderão ser aplicadas após sentença definitiva -ainda cabem recursos ao Tribunal de Justiça do Paraná e ao Superior Tribunal de Justiça. Mesmo assim, ninguém será preso, mas terá de comunicar suas viagens à Justiça.

As condenações são resultado de uma queixa-crime feita pelo urologista Orlando Sanchis. Em uma reportagem exibida em 16 de outubro de 1986 pelo programa ‘190 Urgente’, apresentado por Ratinho na CNT/ Gazeta, Sanchis foi acusado de ter retirado, em 1981, um rim de Walner Martins Cayres e de tê-lo implantado em outra pessoa.

A cirurgia teria ocorrido no hospital Leão 13, em São Paulo. Na ação, diretores afirmaram que nenhum transplante de rins ocorrera no hospital entre 1981 e 1999 e que Cayres nunca estivera internado na instituição.

A reportagem foi levada ao ar sem que o médico se manifestasse. Segundo a assessoria jurídica de Ratinho, o médico foi procurado durante dois dias, mas não quis gravar entrevista. Walner Cayres disse na reportagem exibida pelo ‘190 Urgente’, intitulada ‘Mais um caso de erro médico’, que recebeu uma carta do hospital Leão 13 dizendo que deveria se submeter a uma operação.

Após a reportagem, Ratinho referiu-se ao médico como ‘diabo de branco’ e disse que pertenceria à ‘máfia de branco’.

Na ação judicial, o médico Sanchis confirmou que prestou serviços ao Leão 13 em 1981. Admitiu que, na época, poderia ter retirado rins de pacientes, ‘mas que seria devido a alguma patologia (nos órgãos)’.

Richard Tomal, advogado de Ratinho, disse que o apresentador fez um comentário genérico e que não teve intenção de ofender Sanchis. ‘O Ratinho disse que, se o rapaz teve o rim retirado, foi vítima da máfia branca. No Paraná, tivemos muitos problemas com furtos de órgãos.’

Tomal disse também que Ratinho não era responsável pelas reportagens exibidas pelo ‘190 Urgente’. A responsabilidade seria de Maurício Cavalcante, então diretor do programa. Cavalcante e o casal Martins Cayres não foram encontrados pela Folha até as 19h de ontem."

"Ratinho é condenado a 7 meses, mas não vai preso", copyright Folha de S.Paulo, 17/11/99

 

BABOSEIRA
Telmo Martino

"Nada de papai e mamãe vendo Rede TV!. O novo canal é estritamente TV Teen. Basta dizer que, no seu horário nobre, quem manda é Adriane Galisteu, de sutiã, calças compridas ofuscantes, saltos altíssimos e aquele famoso sorriso de canibal bem alimentada. O programa se chama ‘SuperPop’ e proporciona 90 minutos de baboseira para a alegria só da garotada.

Nada menos que esfuziante, Galisteu comanda tudo com fôlego de ambiciosa. Com exceção do cantor Paulo Ricardo, de boa aceitação garantida, os outros convidados eram apenas o campeão aposentado Emerson Fittipaldi e a cantora Gretchen, já consagrada como a ‘decana do bumbum’. Durante todo o longo programa, persistiu a impressão de que Adriane Galisteu quer ser reconhecida como a Xuxa do horário nobre.

Além do sofá de couro, sempre mencionado com orgulho, ela de repente tira uma gordinha desajeitada da platéia. Depois de fotografar a moça, manda para a transformação. Quando ela volta, nada de Xuxa's Production. A verba ainda está curta. Só um xampuzinho e blush. Toda feliz, a gordinha ganha o direito de dançar com um rapaz da sua escolha. Coitado do rapaz. É agarradíssimo para uma dança interminável. Para os de casa e, obviamente, para ele também.

E, no sofá de couro, o que acontece? Perguntas de algibeira e respostas idem. Vocês amam o Brasil? Amamos. Têm vergonha de ser brasileiros? Fittipaldi, todo internacional, tem vergonha das notícias que lê sobre o Brasil nos jornais estrangeiros. Gretchen, só local, fica envergonhada com a falta de educação da brasileirada. Emerson diz que os compatriotas são influenciáveis e copiam o ‘way of life’ dos americanos. Ele deve saber. Tem casa na Flórida. Lady Gretchen só reclama da totalização. ‘Só se ouve música estrangeira...’

A conversa não acaba. Um rapaz chamado Paulo Bonfá foi contratado para intervenções oportunas. Quando apareceu de smoking, foi elogiado pela dona do programa, que retirou o elogio quando viu que seu relógio era à prova d'água. Ela entende: ‘Isso não é relógio para essa roupa’.

Da conversa no sofá, ganhou-se apenas a novidade que Fittipaldi é apelidado de ‘Rato’ e, numa intervenção de Bonfá, a notícia de que, em casos muito raros, pode-se fazer o ‘número um’ ou o ‘numero dois’ no cockpit durante uma corrida. Isso quando a adrenalina falha. Além disso, ganhou-se a informação de que Gretchen foi fotografada pela revista ‘Sexy’. Alguém comprou? Isso é que é colecionar ‘antes e depois’.

O resto foi Paulo Ricardo, muito Paulo Ricardo. Caso de exploração explícita. Não é fácil encher 90 minutos de pop. Palavra tão curta para tão longa duração. Nos créditos havia a informação que Marcelo Rubens Paiva é editor-chefe do programa. Está perdoado e a admiração, intacta."

"Galisteu proporciona 90 minutos de baboseiras só para garotada", copyright Folha de S.Paulo, 17/11/99

 

HAJA PACIÊNCIA
João Ubaldo Ribeiro

"Acho que já passou o período de carência e me sinto à vontade para tocar neste assunto. Antes, não ficava bem, podia parecer que eu estava querendo fazer propaganda de meu último livro. Mas agora creio que essa suspeita não tem mais como ser levantada e não firo a ética profissional, ao contar que me transformei subitamente não só em autoridade sobre qualquer assunto relacionado a sexo, incluindo todo tipo de perversão imaginável, como em fogosíssimo e insaciável amante, o que já demonstrei e continuo demonstrando com senhoras e senhoritas que nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas sei por terceiros das proezas eróticas que na companhia delas empreendi e sou obrigado a reconhecer que fico um pouco vaidoso, eis que nunca tinha reparado em como sou imbatível nesse terreno e um perigo gravíssimo para pais, namorados, noivos e maridos de qualquer idade, raça, credo ou extração social.

Claro, há certos dissabores envolvidos nisso, pois a felicidade, como sempre se soube, não pode ser completa. Há pouco mais de uma semana (tenho testemunhas, havia gente a meu lado na hora), por exemplo, uma moça de uma estação de TV ficou muito zangada comigo. Pelo telefone, me perguntou se eu não podia dar uma entrevista sobre garotas de programa.

- Como assim, garotas de programa?

- Garotas de programa, garotas de programa, um assunto de que o senhor entende.

- Eu entendo de garotas de programa?

- Claro que entende, foi o primeiro nome que nos ocorreu, quando estávamos fazendo a pauta da entrevista.

- Mas eu não entendo nada de garotas de programa. Aliás, se eu já conversei, ou mesmo vi, uma garota de programa, foi sem saber.

- Ah, se o senhor não quer dar a entrevista, é uma coisa, mas entender o senhor entende muito. Nós lemos o livro que o senhor escreveu.

- A única coisa que eu sei sobre garotas de programa foi o que eu vi na Internet e de vez em quando leio nos classificados dos jornais.

- Está certo, tudo bem, o senhor não quer falar nisso, tudo bem, é direito seu. Então podemos abordar outro assunto. O senhor não quer falar sobre prostituição infantil? Disso o senhor não pode dizer que não entende, até porque é nordestino e lá isso é muito comum.

- Sim, eu sou nordestino e de fato dizem que lá isso é muito comum, como tudo mais de tenebroso que acontece no Brasil só acontece no Nordeste, mas acho que também nunca vi uma prostituta infantil, a não ser em reportagens mesmo.

- O quê? Ah, essa não, o senhor está com má vontade.

- Juro a você que não estou com má vontade nenhuma, eu entendo tanto de prostituição infantil quanto de refino de petróleo ou física nuclear. Pensando bem, até um pouco menos.

Silêncio contrariado do outro lado. Senti que, antes de voltar a falar, ela estava silenciosamente me chamando de hipócrita e mentiroso deslavado. Mas profissionalismo é profissionalismo e ela voltou à carga, com tanta paciência quanto conseguiu reunir.

- Bem, agora o senhor não vai poder dizer que não entende nada. Nesse caso, nós fazemos uma entrevista sobre o sexo como passatempo.

- Eu, eu... Sexo como passatempo?

- Sim, passatempo, hobby, entretenimento, disso o senhor não pode absolutamente negar que entende.

- Mas, pelo amor de Deus, o que é que você pensa que eu entendo de sexo como passatempo? Eu pratico sexo como passatempo? Na verdade, em matéria de praticar sexo, como passatempo ou qualquer outra coisa, eu até lamento informar que...

- Está bem, já vi que o senhor se nega a colaborar, a partilhar sua experiência com os outros e ajudar a informar à sociedade. Está certo, o senhor faz o que sua consciência indica, é problema do senhor.

- Eu...

- Passar bem.

Pronto, mais uma inimiga, mais um golpe na minha já combalida imagem pública. Será que eu não devia resignar-me e conceder a entrevista, contando meu projeto de me eleger deputado para defender os interesses das garotas de programa, minhas viagens a Teresina Para encontrar menininhas de 13 anos e minhas idas a motéis para passar o tempo com todas as mulheres que encontro? Afinal, vox populi, vox Dei, devo sofrer de um processo mental patológico que me faz esquecer minha devassidão permanente e as bacanais que todo fim de semana promovo aqui em casa, para passar o tempo. É, deve ser isso, vou procurar superar esse problema, parar com esse moralismo ridículo. Logo que saiu o livro, recebi cartas, e-mails e telefonemas de mulheres de todo tipo (inclusive, pelas vozes, jovenzinhas e velhotinhas) a que não dei corda e me ruborizaram um pouco. Só posso ter vergonha desse comportamento deplorável.

Estou pensando sério em assumir minha antes imperdoavelmente negligenciada condição de rei do sexo. Meu primeiro passo será marcar horários de atendimento (topo tudo, é claro, embora, como figura pública responsável, que deve dar bom exemplo e não ser espinafrada pelo dr. Serra, sempre de camisinha - sem calça, mas de camisinha), para aulas teóricas e práticas gratuitas, por puro espírito cívico. Só não aceito convites para posar nu, porque receio que, ai de mim, minha reputação de rei do sexo se veria irremediavelmente abalada. Nós, tarados e atletas sexuais, precisamos preservar certos mitos, como um que não conto porque tenho vergonha, mas minha foto pelado talvez desmoralizasse, não posso jogar pela janela meu futuro."

"O rei do sexo", copyright O Globo, 7/11/99

 

Ivson Alves de Sá

"[A propósito do artigo de João Ubaldo Ribeiro, acima] Às vezes, é tão ridículo que fica engraçado. (...) A arrogância, a irresponsabilidade e a burrice pura e simples que avançam nas redações apenas irritam e constrangem os bons profissionais e os cidadãos em geral.

Exemplo é o acontecido com um neurologista e psiquiatra, famoso em suas especialidades e que por isso vira e mexe é consultado por coleguinhas. Desta vez, ligou para a casa dele a repórter de um jornal grande aqui do Rio (misericordiosamente, ele não declinou os nomes ao contar o caso na turma de um curso que está ministrando na Instituto de Psiquiatria da UFRJ):

- Como é que uma criança se torna criminosa? - tascou a moça logo depois do bom-dia- como-vai.

O professor, meio surpreso, respondeu que seria impossível dizer algo a respeito, pois cada caso é um caso, não há nada na literatura médica que indique algo conclusivo... Foi interrompido bruscamente:

- Como não? Claro que o senhor sabe como isso acontece! O senhor é psiquiatra, tem que saber como uma criança se torna criminosa!

O professor perdeu a paciência com a estupidez da senhora (que, segundo ele, assina matérias sobre a área com razoável freqüência) e reagiu com firmeza:

- Olha aqui, minha filha, sei porque você está me perguntando isso. É por causa daquele rapaz que matou as pessoas no cinema, né? Vocês andam escrevendo que ele é esquizofrênico, né? Pois vou te dizer só o seguinte: a taxa de violência praticada por esquizofrênicos é muito menor do que entre a população dita normal (citou a taxa, algo absurdamente menor). Em 30 anos como psiquiatra, nunca vi um esquizofrênico agir com violência. Só vi eles sofrerem violência.

Foi neste ponto, que ele, me parece, meteu o dedo fundo na ferida:

- Eu sei o que vocês da imprensa querem. Querem é estigmatizar ainda mais o doente mental. Fazer com que qualquer ato violento praticado sem explicação seja coisa de maluco e que maluco tem é que ficar atrás das grades. Pois não contem comigo pra isso!

E bateu o telefone na cara da idio...quer dizer, da jornalista, que deve ter ficado ofendidíssima, se sentindo a injustiçada, e achando o médico um grosso incompetente.

O bom doutor acertou no diagnóstico, mas creio que, mais do que uma intenção de prejudicar os já sofredores doentes mentais, o que há nas redações é uma quase inacreditável preguiça mental. Pouca gente tira uma hora por dia para ler um livro fora dos que versam sobre área que o(a) distinto(a) cobre ou um romance de sucesso (e isso na melhor das hipóteses). Livro de História, Psicologia, de divulgação científica? É ruim, hein?! Na verdade, é mais comum do que deveria os jornalistas só lerem a parte do jornal em que saem as suas matérias.

Assim, realmente fica impossível montar uma pauta criativa, fazer perguntas pertinentes e escrever matérias que acrescentem algo ao leitor. E se não for para cumprir estas tarefas, pra que raios serve um jornalista?"

"Burros à solta", copyright Coleguinhas, Uni-vos <www.coleguinhas.jor.br/ <http://www.coleguinhas.jor.br/>>, 14/11/99



Mande-nos seu comentário

Início do Entre Aspas





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você