ARMAZÉM LITERÁRIO

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000


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ASPAS

HISTÓRIAS DO PODER
Folha de S. Paulo

"Livro reúne depoimentos sobre cem anos de política no Brasil", copyright Folha de S. Paulo, 7/12/00

"Será lançado hoje em São Paulo um projeto que pretende mapear as estruturas da política brasileira neste século. ‘Histórias do Poder - Cem Anos de Política no Brasil’ é o nome da empreitada, que envolve uma caixa com três livros, uma página na Internet e uma série de oito documentários.

A primeira parte do projeto fica visível hoje, com o lançamento dos livros, organizados pelos jornalistas Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão e publicados pela editora 34.

Os volumes trazem mais de 300 fotos e 52 depoimentos dados por políticos, como o presidente Fernando Henrique Cardoso e os ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco; militares, como os generais Bayma Denis e Leônidas Pires Gonçalves; e empresários, como José Mindlin e Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha.

‘Resolvemos fazer o projeto pois estávamos muito movidos por esses 15 anos de democracia ininterrupta. É um sinal de que estamos amadurecendo’, explica Florestan Fernandes Jr.

O jornalista diz que, entre os testemunhos de maior impacto, está um depoimento em que d. Paulo Evaristo Arns conta que participou do movimento militar em 1964. ‘Ele disse: ‘Fui ao encontro das tropas e os abençoei’.’

Fernandes Jr. conta que também se impressionou com um depoimento dando conta de um pedido do então presidente Jânio Quadros para que as Forças Armadas fizessem um estudo para a invasão e a anexação das três Guianas (Guiana, Guiana Holandesa -hoje Suriname- e Guiana Francesa) ao Brasil.

‘O ex-prefeito de Brasília, Paulo de Tarso, entrevistado por nós, tem uma cópia do bilhete de Jânio solicitando o estudo’, diz.

Nas cerca de 105 horas de depoimentos, há ainda José Sarney dizendo que não queria ter assumido a Presidência, Lula contando que se arrepende de não ter aceitado apoios como o de Ulysses Guimarães nas eleições de 1989 e o general Bayma Denis contando que o movimento de 1964 foi projetado inicialmente apenas por militares da reserva.

Segundo Fernandes Jr., Paulo Maluf foi o único que se recusou a dar depoimento para o projeto.

(Livros: Histórias do Poder - Cem Anos de Política no Brasil; Organizadores: Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão, Editora: 34, Lançamento: hoje, às 18h30 Onde: livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/285-4033), Quanto: R$ 75 (caixa com três volumes), Patrocinador: General Motors do Brasil)"



O Estado de S. Paulo

"A política no País, em 64 relatos", copyright O Estado de S. Paulo, 10/12/00

"O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) acha que o governo de Fernando Henrique Cardoso pode ter a mesma relevância histórica que a administração do ex-presidente Campos Salles (1898-1902), principal articulador da política do café-com-leite durante a República Velha e responsável pelo saneamento financeiro da economia brasileira. Já FH prefere fazer associações de sua passagem pela Presidência com a de Juscelino Kubtschek (1955-1960), que mudou a capital brasileira do Rio para Brasília e foi responsável por um período de desenvolvimento intenso no País.

‘O senhor (referindo-se a FH) pode mais tarde ter uma figura como a do Campos Salles, mas jamais como a do Juscelino, com quem gosta mais de parecer’, disse ACM, durante depoimento para o livro Histórias do Poder - 100 anos de política no Brasil, organizado pelos jornalistas Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão. Os autores entrevistaram 64 pessoas, entre presidentes, ministros, deputados e historiadores que acompanharam a história brasileira para falar sobre o que presenciaram. Leia abaixo alguns trechos resumidos das entrevistas:

Fernando Henrique Cardoso - ‘Na eleição do Collor (em 1989), apoiamos o Lula. Com muita discussão, eu me lembro que fui encarregado, junto com o Euclides Scalco, de debater com o PT um programa, mas não chegamos a acordo. Fui discutir com José Dirceu e Plínio de Arruda Sampaio. Eles queriam ter comitês da redação que mandassem nos jornais e que a reforma agrária fosse feita diretamente pelos sindicatos. E nós dissemos: olha, não é possível, porque nós não acabamos com o direito de propriedade. Logo, não dá para apoiar isso. Depois, chegamos à conclusão de que tínhamos de apoiar o Lula, mas sem comprometimentos.’

‘O Collor convidou o PSDB para uma reunião. Houve uma primeira reação contrária. Eu estava na Rússia, quando o Jorge Bornhausen começou a me procurar. Não respondi ao telefonema. O PSDB estava muito inquieto e soube que o partido tinha até se recusado a conversar, a ouvir a opinião do presidente. Se o presidente chama, deve-se procurar saber do que se trata. Bornhausen e Collor nos chamam e dizem: estou convidando aqui o governador Jereissati para que ele venha para o governo e queria também que o senhor viesse para o Ministério das Relações Exteriores. Eu disse: `Presidente, fico honrado, mas nós viemos aqui para ouvi-lo.' Ficaria muito mal se nós saíssemos daqui como ministros. No automóvel, eu e o Tasso conversamos e um disse ao outro que não queria. Porque não nos pareceu que houvesse uma proposta política para o partido. Seria pessoal.’

Antônio Carlos Magalhães - ‘O meu partido foi pró-Maluf e a circunstância pela qual foi é a única coisa que eu não posso lhe dizer ainda hoje. Mas vou dizer um dia. E vai estarrecer muito a nação. Mas não está longe de eu ter de dizer por que o PFL foi pró-Maluf em São Paulo. Se o Jorge Bornhausen quiser ser indiscreto, pode contar. Eu não posso.’

‘Fernando Henrique é um homem inteligente, competente. Mas ele acha, e isso é um erro, que só ele é inteligente e competente. De maneira que ele pensa que sozinho pode manobrar esses assuntos todos. E eu tenho dito a ele: Presidente, por melhor governo que o senhor faça, se não olhar essa sociedade desvalida, não vai crescer popularmente. O senhor pode mais tarde ter uma figura como a do Campos Salles, mas jamais terá uma figura como a do Juscelino, com quem gosta mais de parecer.’

Luiz Inácio Lula da Silva - ‘A minha decepção com o Congresso Nacional é que aquilo é muito um jogo de compadre. Digo, sem medo de errar, que o Congresso Nacional funciona como uma bolsa de valores. O voto tem preço, essa é a verdade. O voto é acordado com o presidente, com o ministro da Fazenda, com as grandes empreiteiras, com as grandes empresas, que determinam o comportamento de pelo menos 50% ou 60% dos deputados.’

Itamar Franco - ‘Quem é que tinha coragem de colocar um sociólogo na economia? Que entende menos de matemática do que eu. Ele mesmo entendia muito pouco de economia. Como acho que até hoje não entende.’

Jarbas Passarinho - ‘Eu tive a oportunidade de pegar na mão um bilhete que ele (presidente Jânio Quadros) escreveu às Forças Armadas pedindo um estudo da viabilidade da invasão das Guianas e sua integração ao Brasil. Talvez fosse um daqueles gestos típicos do Jânio, que ele ia acabar com os três enclaves imperialistas que ainda havia na América do Sul. Então ele começaria logo pela França (risos).’

José Sarney - ‘No dia em que saí da Presidência, antes chamei minha mulher e meus filhos e disse: nós vamos descer a rampa do Palácio. Aí fora tem uma multidão cobrindo a praça. Metade está aí para vaiar o Collor, a outra metade está para aplaudi-lo. Os dois lados vão vaiar o Sarney. E aí desci a rampa do Palácio. Quando cheguei no meio, não sei o que me deu, uma vontade de tirar o lenço do bolso. Não sei se lembram dessa cena. Tirei o lenço branco, como se dissesse: está aqui a minha despedida, cumpri com o meu dever. E de repente houve um milagre. As duas facções que estavam ali para me vaiar, começaram a me aplaudir. Acho que homem público não chora em público. Aprendi a chorar com a garganta. Foi o primeiro milagre da Irmã Dulce.’"




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