|
ARMAZÉM LITERÁRIO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
ASPAS
DEUSA FERIDA
Alessandro Greco
"Na contracorrente", copyright no. (www.no.com.br), 5/12/00
"Organizar um livro de crítica à televisão no momento em que se comemora seu cinqüentenário pode parecer somente uma tentativa de chamar a atenção nadando na contracorrente. Afinal, a cinqüentona é motivo de orgulho no exterior pela qualidade, por exemplo, de suas novelas e integra a emoção das platéias de diferentes regiões com seus símbolos sexuais efêmeros, apresentadores de auditório animados e telejornais emotivos na medida certa. Um prato cheio para a construção de uma nova realidade na qual mundo real passa a ser o que se passa na telinha - quem assiste à novela Laços de Família, da TV Globo, por exemplo, vê sempre belas paisagens sejam elas uma mansão ou uma casa simples. Os defeitos ficam para os personagens. Nada preocupante, eles irão se redimir ou morrer, às vezes literalmente, na solidão no final da trama. Em uma reflexão sobre o papel da televisão na criação dessa nova realidade, da formação cultural brasileira, das relações perigosas das emissoras com o poder e das deficiências da sua regulamentação atual, o livro ‘A TV aos 50 - Criticando a Televisão Brasileira no seu Cinqüentenário ‘ (Ed. Fundação Perseu Abramo, 201 págs., R$ 24) reúne artigos de estudiosos da comunicação como Eugênio Bucci, Esther Hamburger, Gabriel Priolli e Inimá Simões, entre outros, que será lançado na quinta-feira, dia 7, em São Paulo.
No primeiro deles, Priolli coloca uma questão interessante: ‘de que forma a televisão contribui para a construção de uma certa idéia de nação?’ e reflete sobre ela afirmando que os dois maiores mercados de produção e consumo do país, São Paulo e Rio de Janeiro, criaram uma nova realidade imaginária. Uma afirmação impossível de refutar - basta olhar para a telinha e ver, como diz Priolli, o Sudeste branco falando para o Brasil, em nome do Brasil. Interessante também é a análise de Esther no capítulo ‘Política e novela’ sobre a relação entre elas, em especial no caso escrutinado por ela do ‘O Rei do Gado’, que incorporou a luta da reforma agrária em seu enredo. Já a relação da censura durante o regime militar, com a novela é tratado no capítulo ‘Nunca fui santa (episódios de censura e auto-censura)’, de Inimá Simões. No que é talvez o mais esclarecedor do livro para os que não viveram a época, ele apresenta uma sucessão de histórias sobre as posições tomadas pelas emissoras de televisão frente ao regime militar. O caso das telenovelas é exemplar. ‘Enquanto as novelas seguiram o figurino mexicano, fiel ao dramalhão tradicional e seus temas recorrentes, como paternidade desconhecida, a troca de identidades, as heranças controvertidas....as novelas não enfrentaram problemas. Quando Beto Rockefeller (TV Tupi, 1968-69)... levou a trama para o asfalto das cidades... a censura começou a olhar as telenovelas com mais atenção’.
Qualquer semelhança com a história atual da censura em ‘Laços de Família’ não é mera coincidência.
Pior, mostra que mudou o regime, mas que as cabeças mudaram somente na superfície. Continuam a pensar de forma limitada sobre o que é adequado ou não para os olhos e a mente do espectador. O artigo ‘Comunicação- Educação: aproximações’, de Maria Aparecida Baccega, segue a linha do problema do filtro pelo qual passa a informação antes de chegar à televisão. Os dois artigos seguintes enveredam pelo mesmo caminho - a atuação da tv como mediadora das relações de cada brasileiro com sua identidade nacional imaginária (escrito por Eugênio Bucci) e a relação da imagem com a violência (Maria Rita Kehl). Uma leitura bastante densa, que exige mais determinação que os três primeiros artigos citados. Já ‘A TV pública’, artigo de Laurindo Leal Filho, retoma uma linha mais ágil mostrando a herança do rádio na televisão e a falta de um modelo de tv pública quando da sua criação há 50 anos atrás. - o modelo de tv pública chegou 19 anos depois com a Rádio e TV Cultura de São Paulo segundo Leal Filho. A jurássica legislação brasileira de concessão de canais também está no livro. Vale a pena ler o artigo ‘A lei da selva’ da mestre em direito e jornalista Vera Maria de Oliveira Nusdeo Lopes e verificar algumas diferenças entre a legislação brasileira e a legislação de países como Estados Unidos e Inglaterra. Nos Estados Unidos, segundo Vera, um grupo de cidadãos pode, por exemplo, participar ativamente de todas as fases de uma concessão de televisão, inclusive na renovação de licenças.
O curioso do livro é que se chega ao final com a certeza de que seus potenciais leitores nunca serão aqueles a quem ele deveria atingir - a parcela da população brasileira que tem na televisão seu meio de entendimento do mundo, aprendizado e sobretudo diversão. Para os leitores capazes de olhar a televisão sob um olhar crítico, há bastante a aprender, da influência às histórias, muitas vezes esquecidas, da cinquentona mais louvada e menos criticada da história brasileira. Somente não se deve esperar deste livro amenidades. É preciso ler, pensar e digerir os temas propostos."
Volta ao índice
Armazém Literário – texto anterior

|
|