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ARMAZÉM LITERÁRIO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
AUTÓPSIA DO MEDO
Euler Belém
"O ex-deputado Tarzan de Castro vai processar Percival de Souza", copyright Jornal Opção
"Com a publicação da biografia Autópsia do Medo — Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury (Editora Globo, 650 páginas, 44 reais), do jornalista Percival de Souza, pela primeira um integrante da repressão política, o delegado do Dops Renato D’Andrea, admite que o ex-deputado e ex-militante da esquerda Tarzan de Castro colaborou com os órgãos de informação do regime militar. Até o depoimento do delegado D’Andrea, colhido com muita dificuldade por Percival de Souza, apenas a esquerda, sobretudo o PC do B, havia denunciado Tarzan como ‘traidor’ e ‘infiltrado’. Na sexta-feira, 15, Tarzan conversou demoradamente com o Jornal Opção, por telefone, e repeliu, com veemência, a versão do delegado D’Andrea e de Percival de Souza. Ele assegura que vai processar D’Andrea e Percival. Ouvido na sexta-feira, 15, por telefone, Percival afirma que não teme o processo.
Percival de Souza conta, na página 383, que não foi fácil entrevistar o delegado Renato D’Andrea, que faz terapia ‘regularmente’. ‘Ele não é maluco’, disse Percival ao Jornal Opção. D’Andrea, que trabalhou no Dops e no DOI-Codi, ‘fez curso com os americanos do Ponto IV, sistema de segurança que treinou policiais civis de São Paulo para aprimoramento em organização e investigação’.
D’Andrea relata, na página 384, que as primeiras informações sobre ‘treinamentos de guerrilhas’ da Ala Vermelha do PC do B foram passadas ao Dops pelo norte-americano Robert Wicha, do Ponto IV. Na década de 60, o PC do B era maoísta — a China de Mao Tse-Tung era o seu modelo de socialismo. Militantes da esquerda foram treinados na China com o objetivo de organizar focos guerrilheiros em várias regiões do país. Depõe D’Andrea: ‘O primeiro a chegar de volta da China, após fazer o curso, foi o Tarzan de Castro. [Ele seria preso em São José dos Campos, São Paulo. Foi um dos primeiros infiltrados nas organizações subversivas, com ‘fuga’ arranjada na Fortaleza de São João, no Rio de Janeiro.]’
Tarzan de Castro contesta: ‘Como levar a sério um livro que não checa nada? Primeiro, não fui preso em São José dos Campos, mas em São José do Rio Preto. Segundo, não escapei da Fortaleza de São João, onde realmente estive preso, mas da Fortaleza de Lages, no Rio de Janeiro’.
Adiante, D’Andrea acrescenta: ‘Levei o Tarzan de Castro para o Rio de Janeiro. Fomos pela Via Dutra, de Fusca. Foi quando mostrei que sabíamos tudo a respeito dele. ‘Como vai teu filho?’, eu quis saber. O garoto tinha meses de vida, morava em Goiânia e nem a família do Tarzan sabia. Ele era mesmo da Ala Vermelha, a extrema esquerda do PC do B. O essencial era descobrir quem era quem’.
Nova divergência: ‘Não me lembro se fui de Fusca para o Rio de Janeiro nem se viajei em companhia desse delegado. Mas parece que fui de avião’. Tarzan afirma que foi preso em Mirassol, São Paulo: ‘Depois fui levado para o Dops e colocado numa cela que chamavam de fundão. Era uma solitária. Eu acredito que, como estava isolado e ninguém sabia de minha prisão, os policiais do Dops queriam me matar. Por isso, comecei a gritar e fazer muito barulho na cela. Por sorte, um grupo de estudantes, que havia sido preso num encontro da UNE, acabou por salvar minha vida. Aloysio Nunes, hoje ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso, conseguiu enfiar um lápis e um pedaço de papel na minha cela e eu escrevi a minha história, o meu nome. Estampada nos jornais, a denúncia assustou a polícia política da ditadura’.
Cabo Anselmo - Na página 385, Percival encerra o depoimento de D’Andrea e assume suas informações: ‘Tarzan foi infiltrar-se entre os refugiados brasileiros que estavam no Uruguai. O almirante cassado Cândido Aragão, comandante dos fuzileiros navais quando o cabo José Anselmo liderou uma rebelião dos marinheiros, estopim de 31 de março, no Rio de Janeiro, presidia uma comissão de asilados em Montevidéu. Ficou numa casa onde o ‘responsável pela disciplina’ era o ex-tenente-coronel Emanuel Niccoll. O PC do B já desconfiava que Tarzan era infiltrado, que sua fuga fora facilitada pelo governo, e suspeitava ser ele agente da CIA, o serviço secreto dos Estados Unidos. Tarzan relatou tudo o que descobriu para o Ciex (serviço de informação do Exército) na Guanabara, que depois liberou suas informações como se fossem ‘confissões’. Tarzan estava ‘arrependido’, queria ‘iniciar nova vida’. Contou o que os militares queriam saber — principalmente a evolução da Ala Vermelha a partir de um encontro da liderança realizado na Praia Grande. Até esse depoimento do delegado D’Andrea, não se sabia que Tarzan — procuradíssimo em São Paulo, suspeitando-se por longo tempo que ele se escondesse no Centro Residencial da Universidade de São Paulo, Crusp — tinha sido um dos primeiros infiltrados, abrindo caminho para estratégias de inteligência semelhantes às dos Centros de Informações do Exército e da Marinha’.
Na página 521, Percival expõe uma história pouco esclarecedora: o Dops estava atrás de ‘um certo Tarzan, perigoso elemento ligado à esquerda armada’. Continua Percival: ‘Laízio, o irmão de Leonora (Rodrigues) que foi estudar em Moscou, tinha esse apelido na Cidade Universitária porque urrava da janela à meia-noite - havia combinado essa forma estridente de fornecer o horário, aproveitando sua voz possante. O vozeirão de Laízio compensava a falta de relógio e o grito de Tarzan adquiriu a força bem-humorada de converter-se em horário oficial. Os estudantes se divertiam. Mas Laízio já estava estudando na Rússia quando ela (Leonora, amante do delegado Sérgio Fleury) foi chamada ao Dops, onde havia uma intimação para o irmão na Delegacia de Ordem Política, que andava atrás de um certo Tarzan. Mas não era este. O Tarzan procurado era nome próprio, este não passava de apelido. Leonora esclareceu e o Dops se convenceu’.
Ponto final. Percival nada mais diz sobre Tarzan de Castro. Mas, baseado apenas no depoimento de Renato D’Andrea, transforma o ex-deputado goiano no cabo Anselmo civil. Tarzan está vivo, mora em Goiânia, foi deputado estadual e federal e é muito conhecido no meio político, inclusive com ligações nacionais. Mesmo assim, embora tenha endossado o depoimento do delegado de polícia Renato D’Andrea, Percival, que se considera mais repórter do que historiador — o grande historiador da esquerda continua sendo Jacob Gorender, autor do imprescindível Combate nas Trevas —, não cumpriu a missão básica do repórter: ouvir todos os lados de uma questão. Como a história de que Tarzan era ‘agente infiltrado’ é controversa, e não é mais defendida com ênfase pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), o certo era Percival ter ouvido Tarzan de Castro. Ou, então, apresentar provas mais cabais, o que não parece fácil. Se apresentar uma confissão — com Tarzan admitindo, em texto assinado ou numa gravação, que era informante da repressão —, ela pode ter sido arrancada sob tortura.
A tarefa de Percival — repórter tido como consciencioso — não era fácil, mas ele optou pelo mais fácil: ouvir só uma versão. Ao tratar a versão do delegado D’Andrea como ‘a verdade’, não como uma versão, Percival não abriu espaço para a dúvida. Assim, como ficam o leitor e mesmo o historiador (este, mais tarde, vai utilizar o livro do jornalista como bibliografia; curiosamente, Percival não cita bibliografia, como se tivesse trabalhado só fatos brutos, novos)? O leitor só pode concluir: não se sabe quem está dizendo a verdade — se D’Andrea-Percival ou Tarzan.
Processo — Quando o Jornal Opção informou Tarzan sobre o teor do livro, publicado este mês, o ex-deputado reagiu com indignação. ‘Você não imagina como é torturante ser difamado e não ter o direito de explicar às pessoas a minha versão’, frisou.
‘Contra-informação. Mentira. Despropósito. Maldade. Crueldade.’ Estas as palavras de Tarzan para rebater as informações do livro de Percival. ‘Só pode se tratar de uma montagem. Ao longo de minha militância na esquerda, no final da década de 60 e início da de 70, fui preso e muito torturado fisicamente. Nunca conseguiram provar nenhuma acusação que refutasse minha retidão moral. Minha conduta foi exemplar. Se eu denunciei militantes da Ala Vermelha por que nenhum caiu nas mãos da repressão? Eu tinha um ponto com Lincoln Oeste e ele não caiu. Por quê? Porque eu não dei informações à repressão. Com um pouco mais de seriedade, o sr. Percival de Souza não teria publicado informações velhas como se fossem novas’, critica Tarzan.
Apesar de ter 650 páginas, o livro de Percival de Souza é um dos mais vendidos nas livrarias brasileiras — em Goiânia, nas livrarias Siciliano e Companhia dos Livros, o estoque esgotou-se rapidamente. A distribuição da Editora Globo é eficiente, portanto, não há como evitar que a versão do Tarzan ‘infiltrado’ não se espalhe. Tarzan assegura que vai processar Percival de Souza por danos morais. ‘O jornalista está tentando manchar a minha imagem pública’, destaca. ‘Ele transcreveu a história do sr. Renato D’Andrea e a endossou. Mais tarde, aparece outro livro, que copia a história e vai passando para frente. No final das contas, sem que ninguém tenha me ouvido, vou ficar como o bandido da história. No processo, vou pedir à Justiça que exija que o sr. Percival de Souza, nas próximas edições, retire o depoimento do delegado Renato D’Andrea e publique um esclarecimento, com a minha posição. O sr. Percival de Souza foi irresponsável e, embora se diga experimentado, agiu como um foca. Eu insisto: ele deveria ter me ouvido. Sou uma figura pública.’ Tarzan acredita que, na Justiça, ele pode conseguir que os exemplares que estão nas livrarias sejam recolhidos. Há um precedente, embora por motivos diferentes. A biografia de Garrincha escrita pelo jornalista Ruy Castro foi recolhida pela Justiça, a pedido da família do jogador. E só foi liberada depois de um acordo judicial.
Indenização — Ouvido pelo Jornal Opção, denotando surpresa com a polêmica, Percival de Souza diz que não deu muita importância ao caso Tarzan de Castro. ‘Não é o assunto principal do meu trabalho’, ressalta. ‘Do ponto de vista judicial, Tarzan de Castro pode fazer o que bem entender. Vai ser até pior. Não dei muito espaço para sua história no livro, mas no processo, na Justiça, poderei relatar os detalhes do que pesquisei a respeito de Tarzan de Castro.’ O delegado Renato D’Andrea é sério, pergunto. Percival é lacônico: ‘É um delegado do setor de informação’. E repete: ‘Tarzan de Castro não era o meu tema. Vai ser embaraçoso para o próprio Tarzan’. Como?, insisto. ‘Ele verá’, pontua. Percival sugere que tem informações extras sobre Tarzan.
O Jornal Opção solicitou a Percival o telefone do delegado Renato D’Andrea, mas não conseguiu. ‘Não é fácil falar com D’Andrea. Vou entrar em contato com ele e depois converso com o jornal.’ Ao conversar com o Jornal Opção, Percival estava a caminho do aeroporto, em São Paulo.
Tarzan diz que vai mover processos contra Percival de Souza e Renato D’Andrea. ‘Vou processá-los na Justiça de Goiânia. Quero que eles venham a Goiás, que fiquem cara-a-cara comigo. Eu garanto que, fora as versões, eles não têm prova nenhuma contra mim e terão de se retratar.’
A pedido de Tarzan, a Abin, sucessora do SNI, forneceu um relatório-certidão de suas atividades políticas nas décadas de 60 e 70. A certidão é de 27 de março de 2000. A investigação diz, por exemplo: ‘Em data não precisa viajou para Cuba e China Comunista, onde fez curso de política e história militar em Nankin, tendo retornado ao Brasil em 1966’. Um trecho contesta o relato D’Andrea: ‘Em 1966, fugiu juntamente com outros da Fortaleza de Lages, no Estado do Rio de Janeiro, onde se encontrava detido, e mediante a quantia de um mil cruzeiros, um barqueiro os levou até a Praia do Flamengo. Em seguida, penetraram na Embaixada da República Oriental do Uruguai’. Mesmo depois da abertura de Geisel-Figueiredo, Tarzan continuava sendo espionado: ‘Em 1983, foi considerado comunista infiltrado nos órgãos do Poder Legislativo e nos partidos políticos’. Não há qualquer referência a delações.
Depois de ter abandonado a carreira política, Tarzan se dedicou às atividades empresariais. Nas eleições de 1998, foi um dos articuladores da campanha de Iris Rezende a governador.
Tarzan contratou advogado e vai pedir indenização à União. ‘Fui torturado intensamente e tive de sair do país, morei no Chile e na França. Quero ser ressarcido pelo tempo que perdi e por ter sido espancado barbaramente.’
Mídia ignorou o essencial no livro
A imprensa brasileira, sem exceção, leu mal, muito mal, o livro de Percival de Souza, Autópsia do Medo.
Do ponto de vista do glamour, a divulgação do nome de Leonora Rodrigues, irmã do jornalista Raimundo Rodrigues Pereira (fundador dos jornais Opinião e Movimento), como amante de Sérgio Fleury é, mesmo, muito mais espetacular. As informações de Leonora colaboraram para Percival montar um perfil, digamos, humano de Fleury — o homem sob a capa do ‘monstro’, que lia gibi e chorava nos cinemas.
Mas, do ponto de vista histórico, o que Leonora acrescentou? Quase nada. A não ser o engraçado apelido de Fleury, dado por ela: Ronc-ronc, e a informação de que o delegado não era infenso ao amor.
Percival lança luzes sobre os assassinatos de Carlos Marighella, Carlos Lamarca e do sargento Onofre Pinto (Jacob Gorender e Luís Mir, por exemplo, não esclarecem a história de Onofre Pinto), os chefões da guerrilha. O assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, estava esclarecido, mas Percival apresenta novas informações. Sobre isso, a imprensa nacional, em suas várias resenhas, nada disse. Não percebeu que Percival de Souza publicou vários furos — em livro, que pode ser chamado de uma grande reportagem. O ‘defeito’ (se for ‘defeito’) que resultou da apuração parcial do caso Tarzan-D’Andrea não tira o brilho geral do livro, que é bem escrito, ao contrário do que escreveu Mario Sergio Conti, numa resenha medíocre para a Folha de S. Paulo, na qual não consegue mostrar o que é novidade no livro.
O jornalista brasileiro, em geral, não tem cultura histórica, talvez por influência do submarxismo nos cursos de ciências humanas. Na tentativa de ‘interpretar’ demais, considerando a história fatual como sem nenhuma importância, o jornalista, assim como o estudante de história, acaba por nada compreender e por não estabelecer conexões, por exemplo, com outros livros. A obra de Percival é inovadora em relação a Combate nas Trevas, de Jacob Gorender, e A Revolução Impossível, de Luís Mir, e, para quem conhece história, não é difícil provar isso. Mas nenhuma resenha, nem a de Época, é iluminadora. Pelo contrário, todas foram redutoras e, pior, sensacionalistas. O livro de Percival, ótimo, ainda está por ser examinado. Nas próximas edições, a editora Globo poderia incluir um índice remissivo (além de fazer uma revisão mais criteriosa). E, em vez de retirar a informação sobre Tarzan de Castro, Percival poderia incluir a versão do político-empresário goiano. O que, provavelmente, evitaria processos e prejuízos morais e financeiros.
A história da infiltração dos órgãos de informação na esquerda merece um registro à parte. Os guerrilheiros do Araguaia, por exemplo, que não é objeto de análise de Percival, foram descobertos às custas de infiltração. No livro, cheio de lacunas, de reticências, Percival revela que, além do maior poder de ação das forças do governo militar, a infiltração foi decisiva para demolir a esquerda. E a infiltração não foi só de gente da esquerda na esquerda, mas também de gente dos órgãos de informação."
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