ARMAZÉM LITERÁRIO

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


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REPÓRTER FREUD
Luís Fernando Verissimo

"Divã curto", copyright O Estado de S. Paulo, 10/01//01

"No livro de conversas com Billy Wilder que Cameron Crowe publicou recentemente, o diretor conta que entrevistou Sigmund Freud quando era um jovem repórter em Viena. Ou quase entrevistou Sigmund Freud. O ano era 1925 ou 26 e Wilder queria saber a opinião de Freud sobre Mussolini e o novo movimento político na Itália. Conseguiu entrar no apartamento onde Freud também mantinha seu consultório e teve tempo para espiar o famoso divã, coberto com tapetes turcos, e a coleção de arte africana e pré-colombiana do doutor, antes deste aparecer com um guardanapo em volta do pescoço - tinham interrompido seu almoço - e, ao saber que Wilder era jornalista, expulsá-lo do local.

Para Crowe, Wilder repetiu o que deve ser uma das suas piadas favoritas.

Disse que ficou impressionado com o pouco comprimento do divã e concluiu que todas as teorias de Freud eram baseadas na análise de gente pequena. Wilder ficou sem saber o que Freud pensava de Mussolini, mas, se quisesse, poderia ter desenvolvido sua tese do divã curto e feito uma boa matéria - sobre o perigo de deduções baseadas na observação rápida de detalhes insignificantes ou sobre a significância insuspeitada de detalhes bem observados, pois quem nos assegura que a teoria freudiana não se sustentou, pelo menos na sua forma original, porque só se aplicava a baixinhos, que cabiam no divã?

Os detalhes, mesmo que não signifiquem nada, podem perseguir alguém por toda a vida e determinar seu lugar na História. Uma certa fotografia de Einstein foi tão reproduzida que o cientista acabou identificável, popularmente, mais pela língua de fora do que pela Teoria da Relatividade. Detalhes podem levar a deduções erradas ou a grandes sacadas - ou a apenas boas piadas -, mas a posteridade de homens públicos pode depender de uma única observação aguda que pegou. A posteridade pode muito bem descartar todas as evidências de espírito democrático e escrúpulo legal de um governante, e todas as atenuantes e circunstâncias, e só registrar o detalhe que foi ele quem tentou subjugar o Ministério Público justamente quando mais se precisava da sua independência. Por exemplo."



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