ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000


ASPAS

ELEIÇÕES EUA
Paul Singer

"Democracia e internet à luz das eleições estadunidenses", copyright iG.com (www.ig.com), 17/11/00

"Democracia é o governo da maioria, pela maioria e para a maioria. Só que maiorias mudam e esta mudança é vital para que a democracia seja aceitável por todos, no mundo de hoje. Os que perdem as eleições hoje se conformam porque sabem que em alguns anos terão nova chance do concorrer ao governo. Democracia na prática significa campanhas eleitorais seguidas, interrompidas cada par de anos por eleições, que redefinem quem vai governar e quem vai ser oposição. Eleger é escolher entre candidatos e a manifestação da vontade no ato de votação é a culminação do processo. Se esta manifestação da vontade se frustrar por algum motivo, a democracia entra em crise pois torna a prática político eleitoral sem sentido.

É mais ou menos isso o que está acontecendo nos Estados Unidos. Nove dias depois do pleito ainda não se conhece o vencedor e pela quantidade de recontagens pedidas, a serem feitas manualmente, não dá para prever quando o processo será concluído. A grande luta que se trava entre Democratas e Republicanos não é a respeito de fraudes mas sobre a impossibilidade de registrar corretamente a vontade política de cada um dos 100 milhões de votantes que foram às urnas. O sistema de votação adotado pelos diferentes estados é variado, mas todo ele pré-digital, e dá lugar a enganos que vão desde confusões na hora de assinalar o nome do candidato escolhido até falhas da máquina que deve perfurar o carão eleitoral e da máquina que tabula as perfurações feitas.

Na época da computação e da telemática, é de se crer que basta utilizar métodos computacionais para que o registro perfeito da vontade da maioria esteja assegurado. Como nossas máquinas eletrônicas de votar - que funcionaram impecavelmente nas eleições municipais - parecem demonstrar. Mas, parece que não é bem assim. As máquinas de votar não são invioláveis a hackers, que podem alterar seus programas e distorcer os resultados, sem que seja possível fazer recontagem. Portanto, o imbróglio em que estão os EUA em vez de ser prova de inacreditável atraso tecnológico seria antes demonstração de respeito aos direitos de requerer recontagem dos que se acham prejudicados. O fato é que a prática eleitoral tem seus prazos e por isso a crise coloca os Estados Unidos diante do seguinte dilema: levar os rituais das recontagens manuais até o fim com o risco de deixar o Estado acéfalo durante algum tempo; ou garantir a posse de ‘algum’ governo novo dentro do prazo constitucional, atropelando os direitos dos inconformados. Como é óbvio, nenhuma das duas saídas é boa, do ponto de vista da democracia.

Este problema da manifestação de vontade à prova de engano e fraude não se limita a eleições políticas. Ele é igualmente grave no mundo das finanças. Todos sabem que é possível roubar mediante o uso de cartões de crédito alheios cujos números são captados na rede. E hackers penetram em arquivos de instituições financeiras e se apoderam de quantias pertencentes a depositantes. Portanto, os falsários de moedas e notas têm os seus sucessores digitais. É portanto um desafio incessante à Internet aperfeiçoar as defesas da comunicação para que seus usuários possam confiar em sua integridade.

Neste contexto, é interessante o argumento usado para exigir a recontagem manual dos votos na Flórida: havendo a presença vigilante dos representantes das duas partes em disputa, é o olhar humano o instrumento mais inteligente e mais confiável para encontrar a verdadeira vontade política da maioria. O que, no estágio atual da tecnologia, talvez ainda seja verdade. A inteligência artificial ainda não basta, quando o destino do Estado mais poderoso do mundo depende dum punhado de votos anônimos.

Vai ser interessante o próximo passo dos virtuoses da tecnologia digital. Agora a palavra está com eles."



Folha de S. Paulo

"Gore teria vencido, diz jornal de Miami", copyright Folha de S. Paulo, 4/12/00

"Uma análise de padrões de votação publicada pelo jornal norte-americano ‘The Miami Herald’ indica que Al Gore teria derrotado George W. Bush na Flórida e vencido a eleição para presidente dos Estados Unidos se as cédulas do Estado que foram desqualificadas não contivessem erros e tivessem sido contabilizadas em sua totalidade.

Segundo o jornal, Gore teria vencido a eleição na Flórida por 23 mil votos se todas as 185 mil cédulas não contabilizadas tivessem sido assinaladas com um voto para presidente. Republicanos citados pelo diário da Flórida chamaram a análise de ‘vodu estatístico’.

A análise foi realizada pelo professor de jornalismo Stephen Doig, da Universidade Estadual do Arizona, com base em uma pesquisa feita por repórteres do jornal de Miami em todos os 5.885 locais de votação da Flórida. Eles distribuíram os votos não contabilizados entre Gore, Bush e os outros candidatos, usando como base proporções tiradas das tabulações oficiais em cada local de votação.

Segundo Doig, Gore venceria mesmo que 90% das cédulas não contabilizadas fossem excluídas."



Volta ao índice

Caderno da Cidadania – próximo texto

Caderno da Cidadania – texto anterior



Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você