ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
EUA, BRASIL & LIBERDADE
Arnaldo Jabor
"A liberdade virou uma invenção do demônio", copyright Folha de S. Paulo, 5/12/00
"Ninguém quer ser livre. Outro dia, vi na TV um pastor evangélico berrando para a massa: ‘Não tenham pensamentos livres! O capeta é quem inventa essas idéias. A liberdade é coisa do diabo!’.
Como velho iluminista, fiquei horrorizado, mas, depois, pensei: ‘Para quê aqueles fiéis vão querer liberdade? Eles estão ali para isso mesmo, para ter o imenso alívio da obediência, para ter o consolo de um líder que lhes diga como é o mundo, para que eles esqueçam a tragédia de suas vidas incompreensíveis’. Numa sociedade massificada, a liberdade dói muito; o livre-arbítrio é uma tortura. Daí o sucesso mercantil dos pregadores e demagogos.
A euforia liberal do início dos 90 nos prometia uma diversidade criativa, uma tecnologia iluminada. Agora, com a provável vitória de Bush, ou mesmo sem ele, está visível que a América está sendo dominada pela força conservadora das grande corporações. A América reacionária pode comer a América progressista.
Há sintomas no ar de uma doença grave: a paralisia política e a uniformização geral das consciências, como eu já havia assinalado aqui a propósito do filme ‘O Clube da Luta’.
O totalitarismo do mercado global tende a aprisionar a América em uma doença unidimensional, funérea, explodindo de vez em quando em massacres escolares, em psicopatias criminosas, prenúncio de loucuras mais graves que virão. Quem já morou em NY e viu de perto aqueles batalhões de formigas angustiadas e obsessivas, quem já sentiu o descompasso da extrema opulência americana comparada à mediocridade da vida social, quem já viu a tristeza dos ternos cinzentos marchando pelas ruas, quem já viu o exíguo espaço para o ócio, para o amor e o sexo sabe do terror oculto sob aquela face feliz. Nada que seja docemente inútil é permitido. E aquela população de mercadores produtivos, de ordeiros escravos tem um misto de orgulho e ódio de suas vidas.
Não é à toa que, de tempo em tempo, o cinema americano ‘destrói’ Nova York com volúpia em ‘filmes-catástrofes’ como ‘Independence Day’, ‘Godzilla’, ‘Impacto Profundo’. Toda hora o Empire State cai.
Acho que o totalitarismo da maioria, embutido na democracia liberal, como previu Tocqueville, está se configurando. Vejo se esvanecer a maior beleza da América, que sempre foi sua enorme capacidade de se auto-reformar. Como já vimos esse país mudar! Os negros, as mulheres, o pós-Vietnã, os hippies, a sexualidade, o aumento da tolerância cultural. Isso acabou. Cada vez mais, a antiga dinâmica democrática de auto-aperfeiçoamento poderá ser detida pela lógica corporativa do mercado. Quanta coisa maravilhosa a América já nos deu - dos Boeings aos antibióticos, a música, o cinema, tantas coisas... Mas, hoje, o que nos dá, além da arrogância de um pensamento único? Haverá ainda espaço para uma flexibilização da democracia americana? Só um forte ‘woodstock’ nas almas, um novo jazz de esperança poderia trazer isso: uma arte superior de viver, proporcionada pelo progresso das tecnologias. Mas, infelizmente, é mais provável que prevaleça um amor ‘anal’ pelo ‘mesmo’, o impedimento do novo pela celebração da ‘novidade’, o conformismo cretino pela celebração das diferenças.
E o que acontece na América repercute no mundo todo, batendo no Brasil. Essa paralisia da cultura brasileira é um indício dessa influência. E, por isso, aqui embaixo, no meu ofício de crítico cultural, frequentemente sinto-me um babaca inútil (‘finalmente ele se encontrou...’, rosnarão meus inimigos...). Mas a verdade é que o criticismo, dentro e fora da América, está ficando inviável. A crítica subentende uma mínima ‘esperança’ por outra realidade, que não chega nunca. Daí a crise das artes, a perplexidade ideológica, a infrutífera busca por uma ‘terceira via’ na política.
E, no entanto, no Brasil, na mídia ocidental, só vemos o fervoroso e ostensivo elogio da liberdade. Nos filmes, nos discursos políticos, propaga-se um individualismo delirante, para se legitimar o controle da ‘mão invisível’ das corporações. A tolerância da democracia tenta nos convencer de que o capitalismo estaria se ‘auto-analisando’, no pleno exercício da democracia liberal. A mídia proclama uma obediência ao avesso: ‘Seja inconformista como todo mundo!’. E o sistema estimula uma ‘pequena liberdade’ na vida privada, transformando nosso livre-arbítrio no ridículo privilégio de escolher entre o iogurte A ou B, porque no macro, no atacado, a grande classe-média só quer saber mesmo é de diretrizes, de chefes, de ordens para obedecer.
Hoje, todos os símbolos de revolta já foram fetichizados. O ‘main stream’ da indústria cultural lança filmes ‘cult’ e ‘underground’ programados com todos os simbolozinhos de antigas revoltas: roupas ‘punk’, heróis anarquistas contra a caretice, barbas por fazer, jeans, cinismo ‘beat-chic’. E tudo sob controle de Hollywood.
Num mundo em crise ideológica, as corporações, do alto de suas certezas, nos convidam a um ‘pensar’ fragmentário e vertiginoso, do mesmo jeito que nos incitam ao mercado aberto, mantendo para si um protecionismo esperto, sempre que necessário.
Em um mundo ‘ilógico e pós-utópico’ (arrgggh...!), a América corporativa é a única detentora de um discurso coerente, é a exclusiva proprietária da única ‘grande narrativa’ ainda permitida. Enquanto se alardeia uma democracia formal em cima, um autoritarismo econômico se consolida por baixo. O capitalismo se apossou de uma nova mercadoria: a liberdade. A América corporativa fetichizou o criticismo, a desobediência. Essa democracia abstrata é útil para permitir a eclosão de espasmos de revolta que possam ser cooptados. O capitalismo se autocritica para se reafirmar. A liberdade de expressão é seu supremo artifício."
Roberto da Matta
"Reunião nos EUA e a imagem do Brasil", copyright Jornal da Tarde, 10/12/00
"Curioso que logo depois da minha prece pela humildade intelectual, eu tenha me encontrado com uns 80 colegas, entre os dias 2 e 3 deste dezembro, na Embaixada brasileira em Washington para avaliar estudos brasileiros de 1945 até essa virada de século. Seria preciso falar que numa reunião desse tipo, ‘coberta’ – ademais – por jornalistas, poderia transcorrer sem vaidades?
Prova isso a cobertura da imprensa que leu como dissídio, os debates normais, rotineiros, inevitáveis e cordialíssimos entre os membros da conferência. Treinados a tratar a dissonância como crise e a discussão como bate-boca, os nossos companheiros de jornal viram mais as árvores do que a floresta e anunciaram mais os detalhes do que o grande acordo promovido por essa importante reunião convocada pelo embaixador Rubens Barbosa.
Primeiro porque a iniciativa revela - viva! - uma embaixada decidida a divulgar o Brasil. E divulgá-lo no nível onde as coisas ficam: no mundo da universidade. No universo intelectual que, a despeito de suas mesquinharias, se assume mais pelos livros que ficam, do que pelo poder e pelo narcisismo, que passam. Dimensão intelectual, vale acentuar, caracteriza a diplomacia brasileira. Ou eu preciso lembrar de Oliveira Lima, Joaquim Nabuco, João Guimarães Rosa, Roberto Campos e José Guilherme Merquior?
Outro fato novo é a decisão de usar os recursos da embaixada como um grande catalisador para os ‘estudos brasileiros’ nos Estados Unidos. Aliás, essa nova política intelectual já vem se fazendo há algum tempo, com a criação de ‘cadeiras de Estudos Brasileiros’ nos principais centros de ensino americanos e europeus, inclusive aqui na Universidade de Notre Dame, onde acabamos de inaugurar, com recursos do Ministério da Cultura e locais, uma ‘cátedra’ rotativa de ‘cultura brasileira’.
Conforme eu mesmo ressaltei em Washington, parece que finalmente temos uma política que objetiva diminuir o fosso absurdo e enervante entre a importância do Brasil como parceiro crítico dos Estados Unidos e, mais que isso, como uma sociedade que, a seu modo, também exprime o ideal encapsulado pela ideal da América, e a ignorância que as elites americanas têm de nós.
Para se ter uma idéia desse abismo, vale rememorar um jantar na casa de um importante intelectual americano nessa mesma Washington. Na ocasião dos digestivos, perguntei qual imagem os presentes tinham da América Latina e do Brasil. Era um continente pobre, desordenado, marcado por uma permanente instabilidade política, foi a resposta.
A visão da América do Sul era de profunda e reconhecida ignorância. Uma ignorância que, em parte por nossa culpa, é movida por desinteresse e preconceito. Tanto que um conviva sugeriu que os americanos conheciam mais o Sudoeste da Ásia do que esse continente austral, confusamente tropical e gelado.
Só um dos presente, o meu querido Richard Morse, comentou que, pelo contrário, enquanto a Europa mudou de configuração muitas vezes, assolada por guerras regionais e mundiais, regimes políticos alucinados e holocaustos inenarráveis, a América Latina e o Brasil continuavam os mesmos: com golpes de Estado e confusões políticas, é certo; com muita miséria e vergonhosa corrupção entre as elites, é claro; mas com aquele incrível e comovente fervor religioso e aquela crença no poder do amor e da amizade. O silêncio da sala era tal que eu temia que os outros ouvissem as batidas do meu coração."
TERCEIRO SETOR
RedeGIFE
"‘Espaço na mídia cresce, mas parte da imprensa ainda desconhece 3° setor’", copyright redeGIFE <www.gife.org.br>, nº 173, 4/12/00
"Para o editor de educação da revista Isto É, Gilberto Nascimento, o espaço do terceiro setor na mídia está aumentando sensivelmente. ‘O crescimento é indiscutível. Porém, o número de inserções ainda é pequeno diante da gravidade dos problemas sociais no país’, comenta. Na última semana, o jornalista foi um dos debatedores do II Fórum Brasileiro de Imprensa, Terceiro Setor e Cidadania Empresarial, realizado em São Paulo pelo Senac. Na entrevista a seguir ele analisa a relação entre imprensa e terceiro setor.
Qual a principal dificuldade da imprensa quando cobre o terceiro setor?
Gilberto Nascimento - Muitos jornalistas ainda não sabem o que é o terceiro setor. Da mes ma forma que um bom número deles não sabia o que era o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) há alguns anos e hoje sabe. A situação está mudando aos poucos. Quando jornais como o Valor Econômico ou a Gazeta Mercantil dedicam espaços exclusivos para o tema, estimulam as outras publicações a fazerem o mesmo.
Qual o melhor caminho para as organizações chegarem na mídia?
Nascimento - Só um release não é suficiente. Ele é muito burocrático e dificilmente dará a dimensão que merece um bom projeto. Acho que uma boa conversa com os jornalistas, alimentado-os com resultados e exemplos do trabalho desenvolvido é a melhor forma. Um outro ponto importante é ‘criar um gancho’ para a divulgação, oportunidades que gerem discussões e chamem atenção para um determinado problema. E aqui a presença de um profissional de comunicação é importante pois ele pode estruturar de maneira interessante este processo.
Qual a importância dos meios de comunicação para o trabalho das organizações do terceiro setor?
Gilberto Nascimento - Essas instituições não resolverão os problemas do país, mas elas têm o poder de colaborar para a definição de políticas públicas que podem solucionar as dificuldades sociais. E a mídia pode ajudar na medida em que ela mostra as experiências positivas e que podem ser replicadas."
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