ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


ASPAS

PASTORAL DA CRIANÇA
Roldão Arruda

"‘Milagre’ da Pastoral da Criança é a informação", copyright O Estado de S. Paulo, 11/01/01

"A multiplicação de informações e de conhecimentos pode produzir milagres. Essa é uma das principais lições do trabalho da Pastoral da Criança, que o governo brasileiro vai indicar para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Em vez de distribuir remédios e construir hospitais, a entidade se dedica há 17 anos a orientar mães sobre os cuidados com os filhos.

Acompanha-as desde o pré-natal, com ensinamentos sobre nutrição, aleitamento, controle de doenças respiratórias e diarréia, acidentes domésticos, violência familiar, remédios caseiros e por aí afora. O resultado mais visível disso é a queda acelerada nas taxas de mortalidade infantil em todas as regiões onde a Pastoral atua. O lado menos visível, mas não menos importante, é a mudança no comportamento das mães. Elas passam a sentir-se capazes e, sobretudo, dignas.

Ontem, em entrevista ao Estado, a fundadora e coordenadora nacional da Pastoral, a médica Zilda Arns, disse já ter ouvido de muitas mães atendidas, a seguinte expressão: ‘Dona Zilda, agora eu sou gente.’

Essa mudança de comportamento leva parte das mães a se engajarem como voluntárias no trabalho. Querem passar para amigas e vizinhas aquilo que aprenderam, numa cadeia de multiplicação do conhecimento. Segundo o coordenador da Pastoral no Estado de São Paulo, Waldemar Caldin, isso facilita o desenvolvimento das ações, uma vez que tais mulhares falam a linguagem da comunidade onde atuam. ‘Elas são mais ouvidas e respeitadas do que alguém de fora’, diz Caldin, que é voluntário do movimento há seis anos.

Líderes - Na zona sul de São Paulo, a coordenadora da Pastoral da Diocese do Campo Limpo, Sonia Regina Pereira, também chama a atenção para o processo de transformação das mães. ‘Muitas delas, que eram apagadas, doentias, parecem acordar para a vida e se tornam líderes comunitárias.’

Voluntária da Pastoral desde 1987, Sonia atua numa das áreas mais pobres de São Paulo. Estima-se que, do total de 2,5 milhões de habitantes da área da Diocese de Campo Limpo, pelo menos 1,8 milhão é favelado. Só ali a Pastoral atende 3.800 crianças carentes. Elas são pesadas e observadas mensalmente. A partir dos resultados verificados, é feita a orientação materna. ‘Com a fotografia do peso, como costumamos chamar as tabelas que montamos para cada criança, conversamos com as mães.’

A idéia - A Pastoral da Criança é vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e se organiza em torno de dioceses e paróquias. A idéia de criá-la surgiu em 1982, numa conversa entre o então arcebispo de São Paulo, cardeal Paulo Evaristo Arns, e o diretor executivo do Unicef, James Grant. Mais tarde, o cardeal sugeriu a sua irmã, a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, que estudasse o assunto.

No ano seguinte, a médica, que mora em Curitiba, apresentou um projeto à CNBB, então presidida por d. Ivo Lorscheiter. Ele foi aprovado e logo em seguida escolheu-se o município para a fase de testes. Por sugestão de Zilda Arns, foi Florestópolis, com 15 mil habitantes, na Diocese de Londrina.

A taxa de mortalidade infantil naquela cidade era a mais alta do Estado.

Chegava, escandalosamente, a 127 óbitos por mil nascidos. Passados apenas dois anos, a taxa já havia baixado para 20 por mil.

Entusiamados com os resultados, os bispos decidiram apoiar a experiência em outros locais. Em 1983 a Pastoral contava com apenas 20 pessoas envolvidos com a orientação das mães. Hoje são 145 mil, espalhadas por 3.277 municípios. Na média, acompanham mensalmente cerca de 76 mil gestante e 1,5 milhão de crianças carentes de 0 a 6 anos.

Atualmente o programa está sendo desenvolvido em outros dez países (três africanos e e sete latino-americanos). E já existem outros 20 países interessados em aprender com a Pastoral da Criança. O trabalho já recebeu 34 prêmios de instituições do Brasil e do Exterior, entre elas a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), a Unicef, o organismo da ONU dedicado à proteção da infância, a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Conselho Nacional de Mulheres e a Ordem dos Advogados do Brasil.

A história da Pastoral é sobretudo é uma história de esforço coletivo.

‘Lembra o milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixes, narrado no Evangelho’, diz Zilda Arns. ‘Cada líder capacitado multiplica o seu saber por 10 a 20 famílias.’

O resultado também parece milagroso. Em Florestópolis, onde tudo começou, em 1999 registrou-se apenas uma morte no grupo acompanhado pela Pastoral."



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