DIRETÓRIO ACADÊMICO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001
PROVÃO
Os contornos do tríplice A
Márcia Franz Amaral (*)
É evidente que obter conceito A por três anos consecutivos mexe com o ego de uma instituição, mas o Curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria recebe a notícia sem alarde. Como diz a velha frase de Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. O Curso recebe 25 alunos de jornalismo por ano. Prima por viabilizar produtos laboratoriais, qualificar seu corpo docente e oferecer disciplinas optativas. Isto possibilita que os alunos, mesmo com precários laboratórios, tenham uma boa formação.
Embora o conceito A signifique muito do ponto de vista da imagem dos cursos, é preciso lembrar que o Exame não é o único parâmetro de qualidade. Afinal, o conceito A tem uma margem ampla e não significa necessariamente que o curso seja excelente em tudo. Talvez seja a hora de separar um pouco a crítica às avaliações em si da crítica à cobertura que a mídia faz das avaliações. A postura da mídia ao eleger o Provão como parâmetro de qualidade deve ser atacada. Afinal, a avaliação do ensino superior não pode ser tratada como uma gincana barata. Os rankings de "melhores e piores" escondem informações fundamentais à análise do ensino superior no país, como apontam as críticas ao Exame Nacional de Cursos. O boicote dos alunos ao Provão, seja deixando a prova em branco, ou respondendo-a de forma absurda, por si só já falsifica o resultado final. Assim, poderíamos criticar o uso dos resultados como estratégia de marketing ou como condenação de cursos. Talvez o sistema dos conceitos não seja o mais adequado. Mas o Provão é uma forma de dar satisfações à sociedade. Só os debates gerados em torno das avaliações já são por si produtivos.
Somando o Provão à Avaliação das Condições de Oferta, é possível ter, de forma ainda precária, um perfil do ensino superior no país. Mesmo com falhas, o processo de avaliação do ensino superior brasileiro deve ser entendido com mais serenidade. Enquanto não se tem uma avaliação ideal, é salutar "dar a cara para bater" e abrir nossas portas ao questionamento – postura evidentemente mais fácil às instituições públicas.
Aos cursos que serão novamente avaliados neste ano cabe demonstrar a solução dos problemas apontados ou os possíveis equívocos das avaliações anteriores. Se é verdade que o próprio MEC os autorizou, é também o MEC o responsável pela estrutura de parte deles. Assim, a avaliação dos cursos é obrigatoriamente um processo de auto-crítica do Ministério da Educação.
No nosso caso, não temos sofrido com o boicote dos alunos. A UFSM parece ser muito cara à comunidade. A interiorização do ensino público há 40 anos é até hoje comemorada na região. Esse apego quase provinciano à universidade e a idéia de que ela é o porto seguro do ensino público e gratuito no interior do Estado cria um clima desfavorável ao boicote. Tudo isso, é claro, aliado à falta de debates sobre tema e a um certo imobilismo do movimento estudantil. Dos 17 cursos avaliados na instituição, apenas 4 sofreram boicotes.
O Curso de Comunicação Social ainda está subordinado a um currículo defasado (estamos em fase de debate sobre a Reforma Curricular). Os alunos só têm disciplinas específicas de jornalismo a partir do 4O semestre. Durante um ano e meio cursam disciplinas básicas comuns às demais habilitações, voltadas à formação teórica e humanística. Ao chegarem ao 4o semestre, passam a produzir programas de rádio e televisão e jornais impressos. Para cobrir as falhas do atual currículo, cursam disciplinas optativas voltadas à prática da reportagem e da entrevista e à reflexão teórica sobre o jornalismo. Algumas iniciativas, como é o caso da tradição de trabalhos sobre entrevista e história oral, a existência de uma agência integrada e o rigor no processo de elaboração e avaliação dos Projetos Experimentais (trabalhos de conclusão de curso) certamente contribuem para a boa formação dos alunos.
Mesmo considerando o boicote de alunos de cursos renomados, o fato de nossos alunos terem tido o terceiro melhor desempenho é compensador. Entretanto, o "A" pela terceira vez não muda em nada nosso trabalho. O conceito que nos interessa de fato é aquele que corresponde à formação de jornalistas competentes, éticos, críticos e cientes de sua responsabilidade social. E esse conceito não cabe em uma letra.
(*) jornalista, vice-coordenadora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria/RS
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