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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000

 

ASPAS

INTERNET EM CRISE?
O Estado de S. Paulo

"Retração de investimentos causa problemas", copyright O Estado de S. Paulo/ The Washington Post, 9/12/00

"Nem a economia da informação - também conhecida como nova economia - está imune à lei da oferta e da procura. Uma das características do ‘boom’ econômico tem sido a explosão dos investimentos comerciais, dominados por despesas com computadores, softwares e redes de comunicações. Mas será possível que haja coisas demais, mais do que as pessoas podem pagar, atualmente?

Aparentemente, a resposta é sim. À medida que a economia se desacelera e flerta com a recessão, os investimentos demasiadamente exuberantes começam a parecer uma ameaça à prosperidade. Isso já contribui para explicar a carnificina que está havendo entre as ações de empresas de alta tecnologia.

Não há uma razão óbvia para que as companhias não possam investir demais no setor de alta tecnologia, exatamente como têm investido demais, historicamente, em edifícios de escritórios ou em jatos comerciais. A decadência das pontocom pode ser simplesmente o prenúncio de um problema maior. O excesso de investimentos reduz os lucros.

Quando as despesas são cortadas há um período de retração, até que o excesso de oferta seja absorvido e a lucratividade restaurada.

Gigante adormecido - Analisemos alguns dados numéricos.

Entre 1995 e 1999, os investimentos em equipamentos de empresas aumentaram cerca de 65%. Três quartos do aumento foram registrados no setor de alta tecnologia. Todos conhecem a história dos computadores. As comunicações são o gigante adormecido.

Em 1999, os investimentos em novas redes - de todos os tipos, desde fibras ópticas até torres de telefonia móvel - atingiram o valor de US$ 99 bilhões, de acordo com o Departamento de Comércio. Esse valor supera, ligeiramente, o dos investimentos em computadores, que atingiram US$ 94 bilhões. ‘Estamos reconstruindo algo cuja construção demorou mais de 100 anos - as antigas redes de telefones’, afirma Tracey Vanik, analista da firma de pesquisas de marketing RHK, de São Francisco.

É verdade. Em 1980 o sistema de comunicações dos Estados Unidos consistia, em essência, da At&T.

Era o sistema de telefone de voz, com fios de cobre instalados nas casas e cabos coaxiais e torres de microondas conectando cidades. O modesto tráfego de dados de computadores estava confinado, principalmente, às grandes empresas e departamentos do governo. A TV, tanto a cabo quanto por antena, existia à parte. Aquele mundo já se foi há muito tempo.

Para começar, o desmembramento da AT&T, em 1984, pôs fim ao monopólio virtual da companhia. A seguir, o número de assinantes de TV a cabo (incluindo os clientes de serviços via satélite) quintuplicou, chegando aos 85 milhões. Depois surgiu um sistema sem fio, com a rede de telefone convencional.

No início de 1985 havia menos de 100 mil usuários de telefones celulares, utilizando 346 centrais de transmissão e recepção (cell sites); em meados deste ano havia 97 milhões de assinantes, usando 95.733 centrais. Finalmente surgiu a Internet, com o aumento do tráfego de informações de computadores.

O antigo sistema que só utilizava voz está dando lugar a uma rede com capacidade de transmitir tudo o que é conversível em sinais digitais - dados, voz (até mesmo, canções) e vídeo.

32 mil vezes - Os sinais eletrônicos são convertidos em ondas de luz e enviados por meio de fibras ópticas. A tecnologia avançou espetacularmente. Em 1984, um único fio de fibra óptica (ligeiramente mais grosso do que um fio de cabelo) transportava cerca de 50 megabits de informações por segundo, afirma Anil Khatod, um dos principais executivos da Nortel Networks, a principal fabricante de equipamentos de redes de fibras ópticas.

Neste ano, a capacidade do mesmo fio de fibra óptica multiplicou-se 32 mil vezes. Em 1984 ele tinha capacidade para transportar o equivalente a cerca de 700 conversas telefônicas por segundo; atualmente pode transportar mais de 20 milhões de conversas. As empresas de comunicações instalaram milhares de quilômetros de cabos de fibra. E os equipamentos da próxima geração da Nortel - que deverão entrar em funcionamento dentro de um ano - prometem quadruplicar a capacidade das fibras.

É precisamente essa aritmética assombrosa que infunde otimismo, às pessoas, em relação à Internet - que, segundo afirmam, ainda está na infância. A isso se contrapõe a mensagem sombria do mercado de ações: os preços das companhias de comunicações - provedoras de serviços e equipamentos - caíram verticalmente.

Citamos alguns exemplos das quedas registradas em relação à época em que as companhias estavam no auge: AT&T sofreu baixa de cerca de 66%; Nortel, de 55%; Cisco (fabricantes de roteadores Internet), 37%; Motorola (fabricante de telefones celulares), de 71%.

Outras causas - Se o futuro é tão brilhante, por que o presente é tão sombrio? A resposta não é, simplesmente, a de que os preços de algumas ações subiram até chegar a um nível que não é realista.

Quando a tecnologia muda, ninguém sabe o que vai acontecer. Alguns grandes investimentos malogram. O Iridium - sistema de telefonia celular via satélite - foi à falência. O Globalstar, um sistema semelhante, vale US$ 3,5 bilhões e conta com 52 satélites - ele precisaria ter 550 mil usuários para chegar ao ponto de equilíbrio, mas contava com apenas 21 mil em setembro. As tecnologias competem entre si. Alguns usuários de telefones celulares abandonam os serviços de telefonia tradicionais; algumas residências utilizam cabos para telefone e serviços Internet. É provável que um número grande demais de vendedores esteja no encalço de um número muito reduzido de usuários. Dezenas de novas companhias oferecem serviços de redes a empresas e residências. Atualmente as transmissões de dados superam o tráfego de voz (a proporção é de aproximadamente 60-40, afirma Khatod, e a diferença está aumentando a cada ano). Mas os preços são tão baixos que a receita dos serviços de voz ainda supera a receita produzida pela transmissão de informações.

‘A Internet não paga as contas’, escreve o analista Paul Sagawa, da empresa de investimentos Sanford C. Bernstein. ‘Só quatro das 40 grandes operadoras de rede dos Estados Unidos que foram alvo de nossas pesquisas apresentaram um fluxo de caixa positivo.’ O que ajudou a construir as redes de comunicações foi a torrente de dinheiro dos investidores de capital de risco, as ofertas públicas iniciais de ações, e os títulos emitidos por empresas de alto risco. Os investidores desencorajados estão se retraindo e, nesse ínterim, os investimentos diminuirão, podendo chegar a cair muito."



Carlos Franco

"Provedores passam pelo funil da Lei de Darwin", copyright O Estado de S. Paulo, 3/12/00

"A exuberância irracional dos mercados, que elevou o valor de companhias de Internet a milhões e bilhões de dólares de distância daquelas da economia real, a ponto de uma livraria virtual de vendas, a Amazon.com, ficar cotada acima do valor de uma sólida e poderosa Chrysler, chegou ao fim. E Alan Greenspan, o todo poderoso presidente do Federal Reserve (FED), o banco central americano, que popularizou a expressão, pode dormir mais tranqüilo. O vôo é para a qualidade.

O mercado está se ajustando e algumas das empresas cotadas na Nasdaq já perderam mais de 50% do seu valor em um ano, estão mais reais do que nunca e gigantes como a Merrill Lynch e a Salomon Brothers só estão jogando suas fichas naquelas que, virtuais, têm um pé na realidade. A própria Amazon já está abrindo livrarias, na rua, para mostrar que não é apenas um shakesperiano sonho de noite de verão.

Por aqui, o ajuste também começa a tornar-se realidade. ‘Não somos Internet gratuita, somos Internet.’ O desabafo de Nizan Guanaes, de 41 anos, o poderoso presidente e principal executivo do iG na semana em que a empresa ocupou o noticiário após contratar a Salomon Brothers para avaliar propostas de compra, não é apenas um trocadilho de palavras, bem ao gosto dos publicitários.

Sobrevivência - É, sobretudo, uma revelação dos novos tempos enfrentados pelas empresas pontocom e os provedores que dão acesso ao cidadão a esse novo mundo capaz de aliar todos os meios de comunicação e que atende pelo nome de rede global de computadores, ou simplesmente Internet ou WEB.

Ser mais que um provedor gratuito é para Nizan uma questão de sobrevivência.

Ser Internet é abrir novas portas, para novos produtos e soluções. É estar atento para a banda larga, que promete uma revolução nesse meio de comunicação, e antever que o acesso por linha discada pode estar com os dias contados, como alternativa única.

O banqueiro Daniel Dantas, controlador do Opportunity e um dos principais acionistas do iG, traduz o que isso quer dizer: ‘A tendência é que apenas três ou quatro provedores gratuitos, dos 11 maiores existentes hoje, sobrevivam, pois não há espaço para todos.’ Ou seja, não haverá receita suficiente para todos, principalmente porque a bolha em que se transformou o negócio de Internet começa a murchar. Os investidores estão mais seletivos e só apostam em quem tem conteúdo e um pé no mundo real, uma forma real e não virtual de garantir o equilíbrio entre receita e despesa.

Na sexta-feira, de Nova York, Dantas dava mais densidade à sua análise em entrevista ao Estado: ‘Acabou o tempo dos aventureiros, agora, a briga será entre os profissionais.’ Para o banqueiro, conhecido e respeitado por jogadas ousadas, a fase dos grandes investimentos em marketing será uma página virada pois agora o interesse está em consolidar as fatias de mercado conquistadas e buscar o equilíbrio nas contas, o chamado break even. O do iG, por sinal, está previsto para dezembro do próximo ano. Segundo Dantas, ‘apenas três ou quatro provedores gratuitos vão sobreviver, exatamente como ocorre em toda a economia, a exemplo do setor financeiro’. Essa concentração só será inibida por órgãos de controle, quando impedirem a concorrência, diz Dantas.

No caso dos provedores gratuitos, de fato alguns já encerraram a atividade, depois de grandes gastos em marketing, como é o caso da NetGratuita, controlada pela UOL, que reúne os grupos Folha e Abril. O sócio da Delloite Consulting, Milton da Vila, explica: ‘O grande problema dos provedores gratuitos está na receita, pois ao contrário do que ocorre na Europa, aqui as empresas de telefonia não repassam parcela do fluxo telefônico decorrente do uso da WEB para os provedores.’

Receita - Essa situação, afirma Vila, faz com que a receita dependa essencialmente de publicidade ou operações ainda incipientes de comércio eletrônico. Hoje, diz ele, os provedores têm na cobrança de mensalidade cerca de 70% da sua receita, portanto, oferecer o acesso gratuito é correr um risco muito elevado. ‘Daí, a tendência natural de que só os mais fortes, com um número expressivo de visitantes, consigam conquistar uma fatia do bolo publicitário maior ou oferecer outros serviços para gerar receita.’

O analista de Internet do IDC Brasil, empresa mundial de consultoria em Tecnologia da Informação, João Bustamante, também concorda com a opinião de Dantas e Vila de que o mercado passará por enxugamento no curto prazo, mas tem uma visão mais otimista do futuro. ‘Os provedores, mesmo os gratuitos, conseguirão sobreviver, em menor número do que o hoje existente, oferecendo serviços personalizados para as classes A e B, enquanto aguardam o ingresso das classes C, D e E na Internet.’ Esse ingresso, acredita, abrirá novas portas para provedores gratuitos. ‘O brasileiro das classes A e B não se importa em pagar R$ 15 ou R$ 20 de mensalidade por um provedor mais veloz, que ofereça melhores recursos, embora tenha instalado também provedores gratuitos. Já para quem ganha menos, a mensalidade pesa.’

As estatísticas da Pyramid Research, uma divisão de pesquisas da Economist Intelligence Unit (EIU) de Londres, apontam que o número de internautas no Brasil, de 15 milhões em 2001, aumentará em cerca de 10 milhões anualmente até 2005. O que é música nos ouvidos dos controladores dos provedores de acesso gratuito, mesmo que de uma dezena restem apenas quatro ou cinco como prevêem analistas. Além disso, avisa Bustamante, uma outra briga está por vir: ‘Com a banda larga, quem sair na frente, oferecendo produto diferenciado, com som e imagem de qualidade, levará vantagem.’

Dantas concorda e aposta na tecnologia. Quem não a tiver vai sumir ainda mais rápido, tudo muito real, nada virtual como no tempo dos aventureiros, que criavam sites, ofereciam conteúdo e ficavam esperando grandes propostas.

Bustamante garante, porém, que aquele que não tiver conteúdo para oferecer também desaparecerá."



Carla Jimenez

"Saída é ter parceiro no setor de telefonia", copyright O Estado de S. Paulo, 3/12/00

"Embora nem tenha entrado na pauta de discussões dos órgãos competentes, a partilha de receita entre provedores e operadoras de telefonia fixa das tarifas telefônicas gastas pelos internautas pode ser uma luz no fim do túnel para as pontocom. Não é à toa que algumas já se associaram a empresas de telefonia, como o iG, o Terra e o Zip.net. De acordo com o analista do banco UBS Warburg Dillon Reed Steve Graham, é essa divisão de receitas que diferencia o valor de mercado de dois provedores gratuitos, o norte-americano Netzero, avaliado na semana passada em US$ 190 milhões, e o britânico Freeserve, que na quarta-feira passada valia US$ 2,5 bilhões. O primeiro tem cerca de 5 milhões de usuários e o segundo, 2 milhões. A grande diferença é que nos EUA há pouco para dividir entre provedor e companhia telefônica. Lá, as empresas de telefonia adotam o chamado flat rate, ou tarifa fixa. Por esse modelo, tanto faz uma pessoa ficar cinco minutos ou três horas numa ligação local. Pagará o mesmo preço mínimo, independentemente do tempo gasto ao telefone. O mesmo, portanto, vale para a Internet. Tanto faz se um usuário ficar cinco minutos ou uma madrugada inteira. O custo da chamadas será o mesmo.

Já na Inglaterra, o modelo de flat rate ainda não foi incorporado, o que justifica o alto valor de mercado. Para Graham, tanto o iG como outros provedores do mercado estariam esperando a chegada de 2002, para negociar esse tipo de solução. ‘Quando o mercado for aberto e a competição entre as telefônicas começar para valer, será possível barganhar esse reembolso das telefônicas’, acredita.

Se os cálculos de um executivo do iG estiverem corretos, as operadoras não se farão de rogadas. Segundo ele, o provedor gratuito já criou um tráfego de US$ 400 milhões para a Telefônica, em São Paulo. Por isso, acredita Steve Graham, é difícil imaginar que algum provedor, inclusive o iG, tenha o seu break even no ano que vem. ‘O comércio eletrônico e o mercado de publicidade ainda não estão maduros’, avalia."




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