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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/12/1999
DIA DA NÃO-VIOLÊNCIA NA TV
Primeiras avaliações
Alberto Dines
A esta altura (manhã de sexta feira, 10/12) os únicos fatos concretos que podem ser avaliados e relacionados com a proposta da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça (e apoiada por diversas entidades, inclusive este Observatório) são:
- O comportamento das redes diante da proposta.
- Cobertura da imprensa sobre o assunto.
A TV Record foi a primeira a aderir formalmente à idéia, em 8 de novembro. A Bandeirantes comprometeu-se no dia 1/12. O SBT não se manifestou com clareza. E a poderosa Rede Globo, dois dias antes (8/12) mandou dizer que "entende o espírito da proposta" mas considera a sua programação "com um padrão de qualidade que não enaltece a violência nem faz concessões à violência." [Veja abaixo a íntegra da nota oficial da Secretaria de Direitos Humanos].
A manifestação da Rede Globo é simplesmente cínica.
Dos quatro jornalões nacionais, o único a noticiar que hoje, sexta-feira, seria o Dia da Trégua foi a Folha de S. Paulo (Ilustrada, pág. 4-4, "Emissoras de TV ignoram dia sem violência e sem sexo"). Os dois restantes (Estadão e JB) comeram mosca, preocupados em copiar a Folha com alguns dias de atraso. De O Globo não se esperaria outra coisa senão o silêncio. O jornalão carioca assume-se como o braço impresso da Rede Globo – dane-se a credibilidade.
A Urn@ Eletrônic@ deste Observatório manteve um índice médio de 95% de aprovação à iniciativa.
Você que não votou pode fazê-lo mesmo depois do Dia da Paz. O que está em jogo não são os resultados imediatos, mas a criação de uma consciência para empreitadas cívicas e comunitárias.
Urn@ Eletrônic@
Nota da Secretaria
dos Direitos Humanos
Brasília, 08 de dezembro de 1999
A Rede Globo de Televisão, por intermédio de seu Vice-Presidente de Relações Institucionais , Evandro Guimarães, entende o espírito da proposta de trégua da violência na TV, mas considera que sua programação tem um padrão de qualidade que não enaltece a violência, nem faz concessões à apelação.
A emissora salienta que voltou a destacar, recentemente, com a voz de um locutor, no início de cada programa, a classificação indicativa, por faixa etária, feita pelo Ministério da Justiça.
No dia 10 de dezembro a emissora se dispõe a valorizar a mensagem dos direitos humanos.
A TV Record, representada pelo seu Diretor Nacional Corporativo da empresa, Roberto Wagner Monteiro, foi a primeira a aderir à proposta de não-violência na TV, em reunião no dia 8 de novembro de 1999.
A TV Bandeirantes, representada pelo Diretor da emissora em Brasília, Marcelo Meira, também se comprometeu com o Secretário de Direitos Humanos, José Gregori, em reunião no dia 1º de dezembro passado.
O ILANUD (Instituto Latino Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente)vai estar com uma equipe para acompanhar e gravar a programação das emissoras de televisão. (Lúcia Carneiro, Assessora de Imprensa)
NOTÍCIAS DO PLANALTO
Quem manda na mídia?
Vera Silva (*)
Os vários artigos que se escreveram nos últimos dias sobre o livro de Mario Sergio Conti contêm elementos que eu gostaria de comentar sobre a mídia [veja remissões abaixo].
Começo lembrando que o dicionário Aurélio tem pelo menos três definições para comentário: "1. série de observações com que se esclarece e/ou critica uma produção literária ou científica; anotação; 2. apreciação ou análise de um fato, de uma situação; 3. crítica maliciosa". Assim sendo, este comentário, por exemplo, se inclui nas duas primeiras definições; se a produção midiática puder ser considerada como literária.
Mas, como digo "fazer uma análise", precisarei acrescentar que o mesmo dicionário define de várias formas o verbo analisar, e entre elas destaco: "1. decompor (um todo) em suas partes componentes; fazer análise...; 2. observar, examinar com minúcia, esquadrinhar." E, para completar, a palavra análise tem também várias definições, como as que separo aqui: "1. Ato ou efeito de analisar; 2. Decomposição de um todo em suas partes constituintes...; 3. exame de cada parte de um todo, tendo em vista conhecer sua natureza, suas proporções, suas funções, suas relações etc...".
Autonomia e dependência
Mesmo que seja um empreendimento arriscado analisar qualquer fato ou situação, é preciso fazê-lo e com propriedade, ou nos tornaremos seus reféns. O ser humano, segundo as pesquisas de Martin Seligman, psicólogo americano, precisa ter previsão e controle sobre a sua vida ou entrará em depressão e até desamparo. Acrescente-se que o desamparo leva à morte súbita, sem causa orgânica aparente. Não somente os indivíduos podem ficar desamparados, acrescento eu, as instituições, formadas que são por indivíduos, também podem padecer de depressão ou de desamparo.
Acompanhe-me, então, neste comentário sobre o dilema da mídia.
Examinemos o seguinte trecho, escrito a propósito do livro de Conti: "Conforme passavam a depender mais do mercado, as empresas dependiam menos do poder, e a mídia ganhou autonomia. É preferível uma imprensa que se rende ao mercado àquela que vivia de favores, alinhamentos partidários e vendettas. A ditadura do mercado é boa porque reduz idiossincrasias, obriga a compromissos públicos mesmo que de fachada, dá latitude e independência de ação. Mas acarreta nivelamento pela média, conformismo e pasteurização. Banaliza a identidade dos veículos e converte toda pluralidade em efeito pirotécnico." (Otavio Frias Filho, "CPI da mídia", Folha de S. Paulo, 2/12/1999).
A contradição expressa pela relação de autonomia com dependência de mercado, que de certo modo parece comum à maioria dos artigos que li, aponta para uma dificuldade da mídia: como sobreviver comercialmente, mantendo independência tanto do mercado quanto do poder?
Método analítico
Este dilema é comum, por exemplo, no setor de concorrências entre pequenas empresas: a maioria das empresas desconta, do valor das propostas, o valor correspondente aos impostos, para vencer a concorrência; quem quiser pagar imposto perde a concorrência; caso a empresa vencedora não consiga burlar o fisco, o tomador do serviço deverá pagar os impostos e as multas; mas quem se importa com isto? É este tipo de atitude que alimenta a cultura da corrupção e que nos faz estar em tão boa classificação entre os países corruptos.
Com um dilema destas proporções, os donos da mídia não podem mesmo lidar com uma autonomia autônoma, se me permitem a redundância. É preciso depender de algo ou de alguém.
Neste ponto, voltamos ao nosso dicionário. A proliferação de comentários do tipo 1 (como a primeira definição) em todas as áreas da mídia tem toda a razão de ser. Para que tivéssemos análise de fatos e de situações seria preciso examinar minuciosamente cada parte dos fatos, enxergar as relações entre eles, dissecar os pontos obscuros, estabelecer relações entre coisas aparentemente díspares. Isto exige, como se diz em pesquisa, método analítico.
Senso crítico
Contudo a análise não predispõe à isenção, como através dos tempos ficamos sabendo. O mito da neutralidade da ciência surgiu desta suposição, inclusive. A falta de análise é o resultado de preguiça e de acomodação, pois o que realmente atrapalha a mídia não é quem a sustenta, mas o fato de ela achar que deve vassalagem ao provedor. Um raciocínio do tipo que faz um policial atirar num trabalhador porque o comandante mandou. Por isso, verificamos o predomínio do comentário tipo 1 em detrimento do comentário tipo 2 e o uso freqüente do comentário tipo 3, principalmente para desqualificar os atos dos opositores do comentarista.
O processo de transformação inclui a conscientização pelo profissional da mídia de que precisa analisar mais os fatos, para que o usuário da mídia seja levado a exercitar seu senso crítico. O profissional da mídia não pode apresentar seu trabalho como uma obra de arte, completa em si mesma, nem pretender ser absorvido como o dono da verdade.
No momento em que isto ocorrer, teremos força de mudança no ar, na terra e no mar.
(*) Psicóloga
CARTAS
Não se tire o mérito de Mario Sergio Conti. O livro dele é um excelente relato do que se passa entre as redações, as direções e o poder. Trabalhando há 22 anos em Brasília, com passagens nas chefias do Estadão, do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, vi coisas do arco da velha. Sou testemunha de vários fatos contados no livro. Só acho que Conti exagera no quesito "aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei".
Há personagens, no primeiro e segundo casos, absolutamente envolvidos em nebulosas transações, os quais saem do livro como exemplos de bons profissionais. Não vou dar nomes de ex-repórteres do JB ou de Veja nem de ex-funcionários do Palácio do Planalto. Entenda quem entender. Não são pessoas que gozam de conceito profissional, digamos, edificante. Enfim, leia o livro e aprenda como as coisas funcionam no coração do poder.
Severino Goes
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Muito oba-oba para o livro de Mario Sergio Conti, de certa maneira todos simpáticos a esse jornalista que errou feio na Veja (o prato onde comeu) quando menosprezou os leitores noticiando enfaticamente que a morte de PC Farias foi passional. Na Veja também ele poupou Luiz Carlos Barreto quando tratou do esbanjamento de dinheiro público no cinema nacional. E a Veja também andou na sua gestão batendo em Itamar Franco (por que será?) E pelo diz-que-diz, da denúncia na base da palavra (de Augusto Nunes) destrói um velho jornalista.
"Nós jornalistas trabalhamos direito, mas fomos prejudicados pelas circunstâncias", disse Conti. Será? Essa sua desculpa agora vai poder justificar todas as burradas e injustiças na imprensa. Foram as circunstâncias. Me poupem, senhores.
Alfredo Sternheim, jornalista
ESCOLA BASE
CARTAS
A conta da escola
Lamentavelmente não me recordo bem de todos os detalhes do caso, mas se não me engano as reportagens televisivas deram uma cobertura muito forte ao acontecimento, sem verificar se os fatos eram verdadeiros. E deu no que deu. No meu entendimento, é preciso indenizar as vítimas, mas quem deverá fazê-lo são as pessoas que iniciaram e as que catalisaram o ocorrido, e de maneira parcimoniosa.
Não eu, ou o senhor que está lendo isto, que não tomou parte no ocorrido, e que pode ser também uma outra vítima!
Felicio Buonano Filho
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No episódio em questão, a mídia deixou de cumprir a sua finalidade: em vez de informar ela desinformou. Mais que isto, no afã sensacionalista de apresentar algo que chamasse a atenção do público, lançou aos leões, sem o menor critério e nenhum remorso, pessoas inocentes. Ao editor da revista IstoÉ , que se pergunta "quando deveríamos noticiar", há duas afirmações que poderiam balizar a resposta (se ele já não a conhecia):
- Primeiro, coloque-se no lugar de uma dessas vítimas, que nunca terá condições de responder à altura à ofensa que lhes foi dirigida;
- Depois, responda quem deu à mídia o direito de condenar qualquer pessoa, de conduzir a opinião pública em prejuízo de terceiros, muitas vezes inocentes.
É temerário que um segmento tão poderoso não encontre limites em seu campo de atuação, principalmente quando deixa de se pautar pela ética e pela justiça, em detrimento de razões pouco nobres.
Baltieri
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Em minha opinião, vem a tempo a verdade. A condenação da Fazenda Pública paulistana é de se dizer necessária e justa, ante a desídia com que seu agente policial conduziu o caso. Todavia, de outro lado, responsáveis, co-partícipes dos danos sofridos pelos proprietários da Escola Base, a imprensa, a mídia ávida mais por vender jornais que por informar, imparcialmente. Aqui, meus agradecimentos pela forma dinâmica, moderna, séria e, ao que parece, descomprometida com que todos que fazem o programa Observatório da Imprensa se conduzem. Espaço necessário a debates mil.
Julio Celestino
ASPAS
Regina Terraz
"O delegado Edélcio Lemos, que presidiu o inquérito sobre o caso da Escola Base, foi transferido de posto dentro da Polícia Civil na quarta-feira, mesmo dia em que o Tribunal de Justiça (TJ) o condenou a pagar R$ 10 mil a cada um dos três ex-sócios da escola, Icushiro Shimada, sua mulher, Maria Aparecida Shimada, e Maurício Monteiro de Alvarenga, ex-donos da escola, acusados de abuso sexual e depois inocentados.
O pagamento fez parte da sentença que condenou o governo paulista a indenizar cada ex-sócio com R$ 100 mil, por danos morais, e um valor ainda a ser determinado por danos materiais.
O Diário Oficial do Estado de quarta-feira publicou a transferência do delegado da Corregedoria de Polícia – setor responsável pela apuração de crimes cometidos por policiais – para o Departamento de Narcóticos (Denarc), onde Lemos trabalhará no registro de ocorrência e elaboração de flagrantes. A direção do departamento informou que ele não será designado para nenhuma investigação. Ainda segundo a direção do Denarc, a transferência é um procedimento normal dentro da polícia e não tem relação com o caso.
O Estado foi processado porque o advogado das vítimas, Kalil Abdalla, considerou que o delegado – funcionário público paulista – foi o principal responsável pelos danos causados a seus clientes. Mesmo sem provas concretas, Lemos prendeu o casal Saulo da Costa Nunes e Mara Cristina França, pais de alunos acusados de permitir que sua casa fosse usada para a prática de abuso sexual, indiciou quatro pessoas e divulgou todos os passos das investigações à imprensa. A escola foi depredada e fechada.
O advogado de Lemos, Evelcor Salzano, afirmou que ‘está avaliando’ a possibilidade de entrar com recurso contra a decisão. Ele aguarda o acórdão do TJ para saber quais medidas tomar. ‘A princípio entraremos com recurso, desde que seja possível.’ Para Salzano, ‘parece difícil haver alguma mudança na decisão da Justiça’. De acordo com ele, Lemos foi proibido de conceder entrevistas por seus superiores.
O procurador-geral do Estado, Márcio Sotelo Felippe, afirmou ontem que o governo ainda não decidiu se irá recorrer da decisão. ‘A indenização, a princípio, é justa, mas precisamos apreciar o acórdão antes de anunciar o que fazer.’ Sotelo Felippe afirmou que, neste caso, o Estado não é obrigado a recorrer à instância superior. ‘O governo poderá reconhecer que a causa moral é justa e contestar apenas o valor excessivo da indenização, ou seja, reconhecer o mérito, mas contestar parte da decisão’, explicou.
A Procuradoria, afirmou Sotelo Felippe, também ‘não tem certeza’ de que é o Estado quem deve pagar o total da indenização. ‘Acreditamos que a imprensa tem culpa nesse episódio.’ Segundo o procurador, a decisão é do governador Mário Covas, que anteontem disse que o Estado não irá recorrer."
"Delegado do caso Escola Base vai para o Denarc", copyright O Estado de S.Paulo 4/12/99
O Estado de S.Paulo
"A 8ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça condenou a Fazenda do Estado de São Paulo a indenizar por danos morais os proprietários da Escola Base. Há cinco anos, eles foram alvos da irresponsabilidade do delegado Edélcio Lemos, da imprensa e de mães de dois alunos da pré-escola. Icushiro e Maria Aparecida Shimada, assim como seus sócios, o casal Maurício e Paula Monteiro de Alvarenga, foram acusados por elas de molestar sexualmente as crianças.
Conforme as denúncias, Alvarenga que também trabalhava como perueiro, recolhia as crianças e as levava para a casa de um casal cujo filho também estudava na mesma escola. Ali, os alunos teriam sido violentados. Ao ouvir a denúncia das mães, o delegado tratou de chamar a imprensa para soltar o que chamou de ‘notícia fresca’, um amontoado de calúnias levadas às manchetes sem a devida preocupação com a prévia apuração da veracidade dos fatos. Três meses depois da exploração sensacionalista das denúncias do delegado, ficou irrefutavelmente comprovado que elas eram infundadas.
Nesse período, houve a depredação do prédio onde funcionava a escola e uma verdadeira perseguição da imprensa aos proprietários. O casal acusado de recolher as crianças em sua casa para molestá-las chegou a ser preso. A euforia do delegado com o ‘sucesso’ que fazia no noticiário o levava a, dia após dia, criar a expectativa de que um suposto pacote de provas contra os acusados estava prestes a ser divulgado. Isso nunca ocorreu.
Os casais Icushiro Shimada e Maurício Monteiro de Alvarenga perderam tudo o que tinham na vida, principalmente a tranqüilidade. Com a escola destruída, afundaram-se em dívidas. O sobrado era alugado e, para devolvê-lo aos donos, tiveram de reformá-lo por completo. Shimada vive de favor até hoje e sua mulher tornou-se dependente de tratamento psiquiátrico.
O casal Alvarenga se separou. Paula vive com as duas filhas e está desempregada até hoje e seu ex-marido se mantém escondido numa cidade do interior de São Paulo, temeroso de que a acusação prejudique o emprego de porteiro de condomínio, o único que conseguiu nesses anos.
A indenização de R$ 100 mil por dano moral, com juros e correção retroativos ao início do processo, a ser paga pelo governo estadual, não compensará o trauma psicológico e patrimonial sofrido pelos acusados. Muito menos a indenização de R$ 10 mil, que o delegado foi condenado a pagar do seu bolso para as vítimas. Como diz Icushiro Shimada, é uma indenização ‘simbólica’ diante da gravidade dos danos morais e patrimoniais causados pelas denúncias falsas.
Não cabe mais recurso da decisão no Tribunal de Justiça, mas tanto o Estado quanto o delegado ainda podem recorrer da sentença ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.
O governador Mário Covas descartou essa possibilidade. Insinuou, porém, que a imprensa é a responsável por esse prejulgamento e brincou: ‘Se couber para o Estado pagar, a gente aumenta o imposto dos jornais e das revistas e paga.’
Não cabe ao governador definir culpas ou penas, ainda que as culpas da imprensa sejam evidentes. Quanto a eventuais penas, dependeriam de outra sentença judicial."
"Indenização simbólica", copyright O Estado de S.Paulo, 4/12/99
SBT REPÓRTER
Humilhação remunerada
Ben Hur De Marco (*)
Quero relatar minha indignação com a completa falta de ética e o total desrespeito ao ser humano manifestados pelo programa SBT Repórter, exibido no dia 1º/12. Foi uma "reportagem" montada e, suspeito (quase com convicção), remunerada, em que um homossexual se vestiu de drag queen e foi visitar, de surpresa, os pais, que vivem numa cidadezinha do interior de Minas. Não o viam há anos e nem sabiam de sua opção sexual.
A humilhação que, deliberadamente, o programa fez aqueles pobres velhos passarem diante de sua comunidade não justifica qualquer aumento de audiência. Garanto que meu comentário não reflete nenhuma predisposição preconceituosa com os homossexuais ou drag queens. Mas induzir (mediante pagamento, como acredito) um homossexual que há anos vive em São Paulo a chegar de surpresa e com estardalhaço, travestido, à cidadezinha onde os pais vivem, e submetê-los àquela vergonha diante dos vizinhos e do Brasil todo. É um crime.
(*) Professor de Sociologia da Comunicação, Curso de Comunicação Social, Universidade do Oeste de Santa Catarina
SITES NAZISTAS
Jornal do Brasil
"A reportagem ‘Comunidades digitais/De sites nazistas a discussões evangélicas. Tem de tudo na Web. Saiba como encontrar os endereços e as pessoas que mais se afinam com você’, publicada no caderno Internet, provocou iradas reações de dezenas de leitores que nela viram uma propaganda dos sites radicais, sobretudo os nazistas. Não foi esta a intenção deste jornal – que, em seus editoriais, renova diariamente sua tradição francamente democrática –, mas sim mostrar que até sites nazistas e grupos racistas estão disponíveis na rede. Tal fato está a exigir providências do governo ou do Ministério Público, já que a Constituição (inciso 42 do art. 5º) dispõe que ‘a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei’. O JB reconhece, no entanto, que a reportagem não deixou bastante claro o seu caráter denunciativo, no casos dos sites nazistas e racistas.
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"Na recente reportagem sobre comunidades digitais os senhores colocaram no mesmo nível grupos neonazistas, evangélicos e outros. Lendo a reportagem, o leitor é induzido a pensar que o nazismo é meramente um clube ou um grupo que nada tem de nocivo à nossa sociedade. Isso demonstra um desconhecimento apavorante. Os senhores se dizem os jornais da inteligência brasileira, mas esquecem a monstruosidade histórica que foi o nazismo. Milhões de pessoas, judeus e não-judeus, morreram por causa desta ideologia virulenta que os senhores propagandeiam. É de bom-tom que um jornal dito inteligente evite propagandear essa ideologia. Se não bastasse esse motivo para evitar que os senhores fizessem esse tipo de reportagem, existe a lei brasileira, à qual eu imagino que os senhores também estejam submetidos. É crime inafiançável fazer propaganda racista de qualquer cunho e a sua reportagem claramente convida as pessoas a visitarem algum dos sites citados na reportagem, até mesmo os nazistas. Eu não sou assinante do seu jornal, mas compro-o em banca eventualmente (especialmente ao domingos e nos dias em que o caderno de Informática é publicado), mas meu pai é um anunciador freqüente em seu caderno de classificados e minha avó é assinante. Ao menos que os senhores se retratem, repudiando veementemente essa reportagem, minha família boicotará o jornal e eu concentrarei meus esforços em iniciar um processo contra ele. Ricardo Linden _ Rio de Janeiro.
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(...) A divulgação de endereços nazistas, por tudo o que o nazismo representou, e o que ele fez para o fim das liberdades individuais e da eliminação de minorias étnicas, políticas e religiosas, é tão hediondo e amoral quanto seria a divulgação de sites de pornografia infantil ou a fabricação de bombas, por exemplo. Lamentável. A imagem do JB fica maculada após esse artigo. Ricardo Vibranovski _ Rio de Janeiro.
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Quanto à resposta dada ontem pelo JB sobre a questão do nazismo na Internet: Se a intenção do jornal, divulgando sites de nazismo era ‘mostrar como a WEB vem se transformando em campo fértil para a disseminação de ideologias de todos os tipos. Uma das grandes virtudes da Internet consiste em trazer para a luz do dia movimentos subterrâneos que agindo na clandestinidade podem contrariar a constituição de um país (..)’, faço uma pergunta: por que o jornal também não se preocupou em fazer a divulgação de sites de pedofilia, criação de bombas etc.? Grato por uma resposta! Danny Langier _ Rio de Janeiro.
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Ontem, no fim da tarde, recebei um e-mail, como outros que tenho recebido, denunciando um foco de propaganda nazista no Brasil. Resolvi checar, pois o ‘acusado’ era o JB, principal fonte de informação de minha família durante os vinte e poucos anos vividos na casa de meus pais, judeus. Resolvi checar porque, para mim, JB e ignorância _ que é, em essência, divulgar ‘inocentemente’ sites nazistas na capa de um caderno de informática _ não combinam. Antes de chegar na palavra nazismo, na quarta linha da matéria, cheguei às ceitas satânicas. Ceitas? Aí fica fácil entender a que ponto a crise levou o JB. Coincidentemente, agora de manhã estava com o rádio ligado e ouvi um anúncio do tipo ‘compre o JB de domingo e receba grátis o Língua Viva , ou algo que se assemelhe. Os repórteres e editores também recebem este tal de Língua Viva? Não seria interessante, depois do básico em língua portuguesa, matriculá-los num cursinho de história? Esperando poder em breve voltar a assinar o JB. Alexandre Kacelnik _ Rio de Janeiro.
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Venho percebendo que a qualidade do JB, infelizmente, tem caindo visivelmente. Matérias feitas às pressas, bons colunistas deixando o jornal (vide o Verissimo), cada vez menos reportagens e mais erros de português, contudo me mantinha fiel ao bom e velho JB. Dia 2, entretanto, a reportagem do caderno de Informática, que tinha tudo para ser uma matéria inofensiva e bem interessante, mostrou como realmente a qualidade desse jornal está despencando. Como pode um jornal de respeito em todo o país divulgar sites nazistas como se estivesse prestando um serviço à sociedade? Como se fosse um site de um movimento ou corrente qualquer. É uma afronta à memória da Humanidade e uma falta de sensibilidade enorme por parte dos chefes da Redação do jornal. A impressão que dá é de que a matéria foi feita por duas ignorantes e não foi revista por ninguém. Não sei nem se foi por maldade ou com alguma má intenção por trás, mas senão, foi por pura falta de cultura histórica mesmo. Claudio Oksenberg _ Rio de Janeiro"
"Comunidades digitais", Deu no JB, copyright Jornal do Brasil, 4/12/9
Nota do O.I.: O primeiro texto foi a segunda justificativa do jornal após a avalanche de ligações e cartas contrárias à matéria que indicava endereços de sites de grupos neonazistas e racistas. Para conhecer a primeira resposta, acione o link Irresponsável incentivo ao ódio, abaixo.
A TARDE, BAHIA
Pérola suja
Alexandre Reis
Um jornal precisa ter respeito ao seu leitor. Um jornal precisa ter credibilidade para obter sucesso. Um jornal precisa ser ético. Todos sabem disso, menos A Tarde, um dos três jornais mais importantes do estado da Bahia. Em 1º/12/1999 este veículo de comunicação, num editorial (e, conforme todos também sabem, o editorial é a opinião do veículo), perdeu a credibilidade, agiu sem a mínima ética e, pior ainda, desrespeitou profundamente o ser humano, principalmente aquele que já sofre todos os tipos de preconceito: o aidético.
O editorial, publicado no dia da luta contra a Aids, dizia que "(...) remediar de nada adianta. Quando o vírus começa a produzir sintomas, o mais correto para a vítima é procurar uma funerária ou um coveiro. Reservar uma vaga no cemitério é ser mais realista do que perder dinheiro com coquetéis que embebedam o orçamento familiar e no máximo prorrogam por alguns meses ou semanas o dia fatal dos aidéticos."
Dá para acreditar? Qual terá sido o objetivo do jornal A Tarde com tamanha asneira? Alertar a população sobre a fatalidade do vírus? Qual terá sido a reação de alguém que, tendo Aids, leu uma coisa destas no dia internacional de luta contra a doença?
É de fato repugnante. Pensar assim um jornal que se diz o mais lido do Norte-Nordeste (o que não é verdade, é o mais lido no estado da Bahia, até porque não temos, infelizmente, muitas opções por aqui)...
Como disse um colega meu, se estivéssemos num país civilizado um boicote a este veículo de comunicação seria a atitude mais digna. É por exemplos como este que notamos como o nosso jornalismo vai mal, muito mal.
SEGUNDO TEMPO
A vez do e$porte
Roberto Andrade (*)
Os jornalistas já começaram a discutir suas relações com o poder político. Pelo livro Notícias do Planalto, o aproveitamento do poder da mídia para o aumento do poder político fica explicitado para a "pequena" imprensa e para o público em geral. O livro é uma espécie de mea culpa. Porém, o zé povinho, se não sabia, já desconfiava que havia alguma coisa de podre entre os poderosos, sejam eles de que poder sejam.
Seria interessante para o aprimoramento da democracia brasileira que houvesse um livro com o título Notícias do Esporte. Quantos jornalistas de grandes empresas (editores, narradores, repórteres especiais) não estarão ganhando para enaltecer este ou aquele clube, este ou aquele atleta (especialmente jogador de futebol), para valorizar contratos, garantir negociações etc...
Esta probabilidade me ocorreu outro dia, vendo a forçação de barra de um narrador sobre o futebol de um jogador ruim. Aí, me lembrei das brigas entre Galvão Bueno e Reginaldo Leme nos campeonatos de Fórmula Um, quando estavam juntos na pista Ayrton Senna/Bueno e Nelson Piquet/Leme. Os dois discutiam na transmissão por razões puramente emocionais?
Relações estreitas
Vejam o exemplo do Campeonato Brasileiro deste ano. Não sei se o Cleber Machado, da TV Globo, é vascaíno, mas que narrando os jogos do Vasco ele abusa de adjetivos pró-Vasco, abusa. Recebe algum, ousaria alguém perguntar? Com certeza, outros narradores regionais têm seus interesses. Se emocionais ou financeiros só as comprovações dirão. Mas que há exemplos fortes de maracutaias, isto é inquestionável.
E os analistas de arbitragem proprietários de afiliadas da rede-mãe que não podem questionar este ou aquele juiz e devem "avalizar" a qualidade das arbitragens para garantir a honestidade deste ou daquele campeonato?
E os presidentes de clube que vendem jogadores em série para receber as comissões, especialmente se a empresa dele, presidente, é a responsável pela negociação? (Se não for a dele é a do primo, de um amigo... )
Camisa, só a do lucro
No Espírito Santo, havia um editor de esportes, da principal emissora regional de TV, que acumulava o cargo de editor do principal jornal, pertencente à mesma rede, que era diretor de um dos clubes de futebol do estado; e que ficou famoso, entrando para o folclore local, pelo fato de sempre dar a manchete com o nome de seu time em primeiro lugar, em qualquer situação. Um exemplo clássico: "Desportiva fica em segundo. Rio Branco, campeão capixaba".
Pelo Brasil, inúmeros "editores", "repórteres", "empresários", "jogadores", "narradores", "políticos" etc. buscam tirar vantagem do esporte. Milhões de dólares são movimentados pelo segmento, e não acredito que haja inocentes nesse meio.
A imprensa é essencial à democracia. Mas também é essencial ao capitalismo. Liberdade é lucro para quem for mais esperto. Ditadura só é lucro para quem tem o poder. Um livro mostrando a relação de promiscuidade, no âmbito do esporte, entre os donos de empresas de comunicação, jornalistas, empresários, empresas nacionais e estrangeiras, atletas etc. poderá mostrar ao torcedor que todos os poderosos vestem uma só camisa: a do lucro. Idiotas somos nós.
Não temos suspeitas demais para uma grande e boa investigação? Vamos fazê-la?
(*) Jornalista
PRÊMIO ESSO
Injusto e descabido
Flavio Rodrigues (*)
Quero parabenizar o artigo de Paulo Oliveira sobre o Prêmio Esso 99. Neste sentido, e sendo solidário à questão, sugiro uma visita a <www.photosynt.net/ano2/especial/premioesso/premioesso.asp>, que já evidenciava há quase um ano a falta de critério dos organizadores do Esso e, conseqüentemente, dos editores-juízes.
Promovemos uma votação extra, e o resultado mostra que o absurdo havido no Prêmio Esso foi muito grande. A fotografia premiada com o Esso 98 não chegou a ter 10% dos votos
Pode-se dizer, na gíria mais comum, que a vencedora não paga nem placê.
Não sabemos quais foram os critérios usados para essa premiação absurda.
Já é sabido que, embora o Jornal do Brasil tenha novamente duas fotografias classificadas para a final da edição do Prêmio Esso de 99, não haverá nenhum representante seu na decisão, o que é, na pior das hipóteses, injusto e descabido.
(*) Editor do site <www.photosynt.net> e editor-assistente de Fotografia do Jornal do Brasil

Dinâmica da verdade vence malícia do Sistema
Folha recusou oba-oba
Irresponsável incentivo ao ódio
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