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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/10/2000


THE NEW YORK TIMES
Foto perfeita, informação nenhuma

Marinilda Carvalho (*)

A bruxa anda solta pela redação do New York Times. Como se não bastassem os dois pedidos de desculpas aos leitores pelo caso Wen Ho Lee, publicados em editoriais nos dias 26 e 28 de setembro e tratados na edição nº 99 deste Observatório [ver remissões abaixo], em 30/9 o jornalão novaiorquino voltou a errar. E por culpa dos outros. Desta vez, publicou ótima foto da Associated Press, aqui reproduzida.

"Policial israelense e palestino no Monte do Templo", dizia a legenda. Que, soube-se depois, era um primor de incorreções. A bruxa deu o ar da (des)graça em 4/10, quando o Times publicou carta do médico Aaron Grossman, morador da Rua Richmond Norte, 6.737, em Chicago, Illinois:

"A propósito de sua foto na página A5 (30 de setembro) do soldado israelense e do palestino no Monte do Templo – aquele palestino é na verdade meu filho, Tuvia Grossman, estudante judeu de Chicago. Ele e dois amigos foram arrancados do táxi em que viajavam em Jerusalém por uma turba de árabes palestinos, e duramente espancados e esfaqueados. A foto não poderia ter sido tirada no Monte do Templo, porque não há postos de gasolina no Monte do Templo, e certamente nenhum com logomarca em hebraico, como se vê claramente atrás do soldado israelense, que tenta proteger meu filho da turba."

Segundo Jonathan Krashinsky, do Jerusalem Post, de 5/10/00, o Times culpou a AP pela "associação errada". Funcionários da agência em Jerusalém assumiram a culpa, mas se recusaram a comentar o assunto. Nathan e Dado Ben-Brith, ingleses residentes em Jerusalém, iniciaram movimento de protesto pela internet, pedindo a todo o seu círculo de conhecidos e colegas que enviasse cartas de protesto ao New York Times. Algumas "delicadezas" da "carta-modelo", de autoria de Gil Remeny:

"Fiquei horrorizado com seu jornalismo primitivamente imoral, anti-semita, unilateral. Não compreendo como um jornal de sua reputação pode descer a tão baixa tática para ‘sensacionalizar’ acontecimentos já sérios o suficiente sem a contribuição de mentiras maldosas. (…) A única maneira de o jornal recuperar um mínimo de sua reputação de jornalismo sério é fazer admissão pública de culpa e sincero pedido de perdão pela grosseira injustiça com o Estado de Israel e com a grande maioria de civis que faria qualquer coisa pelo conforto de viver em paz."

São episódios incomuns no New York Times, registre-se. Mas no Brasil, nas editorias de Internacional dos jornais diários, um dos maiores transtornos é "apurar" as informações contidas nas legendas que acompanham fotos de agências. Com o advento das câmeras digitais, o problema cresce como o conflito no Oriente Médio. No calor da cobertura e na correria para enviar os arquivos à redação, o fotógrafo mal e porcamente identifica as imagens. Ou não identifica. E salve-se quem puder.

(*) Colaboraram Beatriz Singer e Luiz Egypto



Protesto em família

Howard Gissinger, tio de Tuvia Grossman, também escreveu ao New York Times:

"Até o rotineiramente preconceituoso e tendencioso Times em matéria de Oriente Médio conseguiu descer a um nível ainda mais baixo. Já que o Times deseja fazer acreditar que os palestinos são todos ovelhas inocentes atormentadas por um agressivo opressor, o jornal não podia sequer conceber que um homem ferido possa não ser um palestino. Pois o "palestino ferido" é meu sobrinho, Tuvia Grossman, um AMERICANO judeu que estuda em Israel. (…) O soldado israelense (…) estava na verdade salvando a vida dele. (…) Acredito que uma retratação, em lugar de destaque no jornal, é necessária, como também um pedido de desculpas aos pais."



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