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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/8/2000


O CORREIO ERROU
Desculpas na primeira página

Luiz Martins (*)

Se há um lugar onde não há espaço para rotina é redação de jornal. Mas, no dia 3, a redação do Correio Braziliense viveu um dia completamente diferente de todos os outros 13.591 dias de sua existência, ao longo de 40 anos. Depois de uma efervescência, reuniões e polêmicas, veio o consenso: o jornal publicaria na edição do dia seguinte a mais inédita de todas as suas manchetes de primeira página: "O Correio errou" [veja remissões abaixo] .

Naquela quinta-feira, dia 3, o Correio havia publicado, como matéria principal, uma barriga intitulada "O grande negócio de Jorge". Eram tantas as denúncias de corrupção envolvendo o ex-secretário do Palácio do Planalto Eduardo Jorge que o repórter do Correio Alexandre Machado embarcou com a maior boa fé no "furo" oferecido por uma "fonte". A matéria parecia extremamente oportuna, pois, no mesmo dia 3, Eduardo Jorge ia depor no Senado.

No dia 2, Machado recebera um telefonema para se encontrar com uma pessoa que lhe passou a seguinte "informação": "Eduardo Jorge recebeu 10% das ações da empresa DTC, cujo principal acionista chama-se Mário Petrelli, por ter favorecido a DTC em um projeto cujos valores chegariam a R$ 3 bilhões. O negócio envolve, além da DTC, as empresas DBO Direct e o Banco do Brasil." Estes e outros detalhes fornecidos pelo "informante" resultaram no júbilo fugaz do repórter ao ver, na manhã seguinte, o seu "brilho" na manchete do jornal – transformado, logo em seguida, em sofrimento. Resultaram, igualmente, num pedido de desculpas aos leitores, no alto da primeira página do dia 4, seguido de mais um terço da página dupla que o jornal dedicou às sete horas e meia de depoimento de Eduardo Jorge Caldas Pereira à comissão formada por 12 senadores. O que prometia ser uma antecipação só gerou confusão e perda de tempo.

Notícia e pauta

No domingo, dia 6, o assunto continuava rendendo, pois foi objeto de quase toda a página de Imprensa do Correio, a começar pela Carta do Leitor que semanalmente nesse espaço é assinada pelo diretor de Redação do Correio, Ricardo Noblat. Além de enumerar os três artigos do Código de Ética do Correio que foram violados pelo falso furo, Noblat renovaria o pedido de perdão aos leitores com palavras ainda mais sinceras: "Salvo o nome Banco do Brasil, grafado corretamente, tudo o mais na reportagem estava errado."

Segundo a reportagem, a empresa DBO Direct tinha um contrato de R$ 120 milhões com o Banco do Brasil para testar um novo sistema de transmissão de dados implantado na agência da 515 Norte, em Brasília, e que a DBO, na verdade, executava o serviço em nome de outra empresa, a DTC, da qual Eduardo Jorge foi sócio. Nem mesmo a sigla DBO estava correta, pois é BDO. Não fica em Curitiba, mas em São Paulo, e o tal contrato com o BB não foi assinado. O serviço referido está sendo executado pelos próprios funcionários do banco, sem terceirização.

O erro "clamoroso" e "retumbante" do Correio, nas palavras de Noblat, obteve como repercussão mais do que desmentidos em notas oficiais por parte do Banco do Brasil e da DTC. O assunto foi amplamente comentado em Brasília, tanto no dia 3 quanto no dia 4, quando o jornal saiu com seu pedido de perdão. O assunto virou notícia de agências e jornais outros, mas também pauta no reinício das aulas dos quatro cursos de Jornalismo existentes em Brasília e, mais particularmente, para o repertório de temas "clipados" e discutidos no âmbito do projeto de pesquisa e extensão SOS-Imprensa, da Universidade de Brasília (em convênio com a Universidade Católica de Brasília), gerando, de imediato, o artigo "O jornalismo e a fé pública" [veja abaixo], publicado no Correio do dia 6, na própria página "Imprensa" do jornal brasiliense, um dos raros espaços em que a mídia brasileira pratica uma leitura crítica de si própria.

Confessadamente, e por várias vezes, o Correio Braziliense, tirou suas lições e acabou dando a volta por cima, em vez de promover o estressante jogo de culpas e punições. O próprio autor da matéria teve espaço no jornal para dar suas explicações, entre outras, a seguinte:

"Errei por ter confiado em uma única fonte, sem qualquer documento que garantisse a veracidade do que ouvi. E sem ter procurado checar por outros meios a história que me foi contada. Errei por ter me apressado a publicar o que ainda não tinha como comprovar. Por fim, errei ao levar o jornal a cometer erro tão grave. Peço desculpas aos leitores e a todos que involuntariamente prejudiquei." (CB, 4/8/2000, pp. 6/7).

(*) Professor da Faculdade de Comunicação da UnB e coordenador do projeto SOS-Imprensa

 

ASPAS
Luiz Martins

"O jornalismo e a fé pública", copyright Correio Braziliense, 6/8/00

"Um jornal tem fé pública? Não, mas é como se tivesse. O que publica é tido pelos seus leitores como fato, verdade, realidade. Uma matéria de jornal não é uma escritura pública, mas, com muita freqüência, tem mais valor e conseqüências do que um documento passado em cartório, com todos os carimbos e rubricas de tabelião. Uma notícia não é um documento, mas é como se fosse. É por essas e outras que fazem sentido as correções, as retificações, tal como fez o Correio Braziliense no último dia 4, em primeira página, com a manchete ‘O Correio errou’. Não tivesse a imprensa credibilidade, ou não a buscasse, os esclarecimentos não teriam razão de ser.

Por vezes, a imprensa vai além dos órgãos de fé pública. Extrapola as suas funções e resvala para o abuso, no caso, um abuso de poder. Abuso típico do Quarto Poder é o ‘flagrante’, a acusação, o julgamento e a sentença (a exposição pública dos ilícitos) muito antes do trânsito em julgado. Por vezes, a imprensa investiga – e com competência , antes da polícia e das CPIs –, fornecendo publicamente elementos para um juízo. Entretanto, quando erra, quando apura mal, ou não o faz, o desastre é feio. O mínimo que pode fazer, para minimizar os prejuízos, é correr com a retificação, o mais breve possível. Não é esta, porém, a prática corrente, razão pela qual é muito distinto do padrão o procedimento adotado pelo Correio na última sexta-feira.

Comumente, as correções publicadas pela imprensa não merecem o mesmo destaque dos erros. O costumeiro tem sido aquelas acanhadas notinhas do gênero Erramos, seguidas de um parágrafo, e, não raro, um contradesmentido sob a retranca Nota da redação (como se todo o corpo redacional se responsabilizasse por ela). Isto, depois de reclamações e protestos por parte dos humilhados e ofendidos. Um expediente institucional mais recente na imprensa brasileira tem sido o ombudsman (que tem mandato e imunidade de um ano após o término de suas funções) e a sua coluna semanal. A saída encontrada pelo Correio, no entanto, foi ousada e, por incrível que pareça, original. Publicar, em manchete de primeira página um pedido de desculpa aos leitores é um fato muito raro. Há precedentes em outros países, mas, no Brasil, trata-se de um ‘furo’, um furo pelo avesso, mas digno de louvor público.

Pelo que se pode inferir, no entanto, o gesto do Correio não foi isolado, ao contrário, enquadrou-se numa seqüência de inovações interativas que têm resultado numa série de aberturas às críticas e à participação dos leitores (agora pautam, fotografam e desenham), bem como a prestação de serviços à comunidade. O Correio não está longe de se emparelhar com a experiência singular do Le Monde, que dispõe de uma Associação de Leitores (Société de Lecteurs), entidade civil, independente e vigilante, que chega a comprar cotas do jornal, com medo que ele venha a depender do capital de empresários inescrupulosos.

O que foi, porém, para o Correio uma atitude de coerência torna-se para a imprensa brasileira como um todo um desafio. Evidentemente, que não se postula uma banalidade confessional, mas a adoção de um comportamento reparador face a uma contingência intrínseca à imprensa que é o erro. Não o erro proposital, maldoso e interessado, mas relativo à margem de imperfeição característica.

Todo ofício tem uma cultura de desacertos. O jornalista, entretanto, depende a todo momento das informações que lhe são prestadas pelas fontes e está sempre trafegando numa espécie de contramão sinistrógira, ou seja, contra o sentido horário. Nada diz que um médico tenha de chegar a um diagnóstico após uma hora de consulta e até pode recorrer a uma bateria de exames para chegar a um veredicto. Um jornal, haja o que houver, terá de cumprir o seu destino; as agências de notícias terão de difundir os fatos, ainda mais agora, num contexto de cobertura em tempo real e distribuição on-line de informações. Não que os fatos tenham de ser publicados sem a devida checagem, mas, nem sempre as fontes fornecem as informações corretas.

Por vezes, a imprensa erra porque as informações foram prestadas por fontes de fé pública, como ocorreu no caso da Escola Base (diretores e professores acusados de abusar sexualmente de crianças) e no caso do oficial de Chancelaria Jorge Mirândola, acusado de ter enviado uma carta-bomba que explodiu nas mãos de uma diplomata do Itamaraty. Corrigir erros, portanto, terá de ser encarado não como uma fraqueza da imprensa, mas como uma franqueza inerente à condição do jornalismo, coragem nem sempre exercida. Tal procedimento só fortalecerá a almejada fé pública da imprensa e o seu necessário vínculo social.

Um pedido de perdão aos leitores, tal como o que foi publicado pelo Correio vem demonstrar que é na prática, no dia a dia, na luta pela informação, que um Código de Ética ganha sentido orgânico. Caso contrário, a ética jornalística seria apenas uma hipocrisia, um principismo retórico. O Correio criou o seu próprio Código de Ética – para além do Código de Ética do Jornalista, aprovado em congresso da categoria, em 1985) e, no escopo das suas auto-reformas, este jornal tem propagado e se valido da divisa segundo a qual ‘um jornal serve para servir’, em resposta à pergunta que em setembro de 1999 publicou em primeira página: ‘Para que serve um jornal?’ (um texto do jornalista TT Catalão assumido como editorial).

Classicamente, o serviço a ser prestado por um jornal limita-se ao fornecimento diário de informações corretas. De duas décadas para cá, no entanto, uma polêmica tem assediado numerosas redações norte-americanas. Deve um jornal engajar-se em causas públicas? É dever seu dar suporte a campanhas públicas, a movimentos sociais e a reivindicações comunitárias? De um lado, há os que se mantêm conservadores em relação ao velho papel: informar, e basta, que já é muita coisa. De outro, vem crescendo o civic journalism, gênero que no Brasil ainda não mereceu uma tradução, mas bem que poderia ser chamado de jornalismo público, pois, jornalismo cívico não teria o mesmo sentido.

No seu afã de servir, o Correio tem-se engajado e até liderado grandes campanhas, como a Paz no Trânsito e Eu quero paz.

O jornalismo é um serviço público e o jornalista cumpre uma função pública. Recebem da sociedade a delegação para trabalhar em função do interesse público."

 

André Petry
"Correio publicou reportagem errada", copyright Correio Braziliense, 4/8/00

"O Correio Braziliense pede desculpas aos leitores pela reportagem publicada na edição de ontem na página 22 – e que resultou na manchete na primeira página do jornal sob o título ‘O grande negócio de Jorge’. Noticiamos que a empresa DBO Direct tinha um contrato de R$ 120 milhões com o Banco do Brasil para testar um novo sistema de transmissão de dados implantado na agência da 515 Norte, em Brasília, e que a DBO, na verdade, executava o serviço em nome de outra empresa.

A outra empresa é a DTC, de propriedade do empresário Mário Petrelli, da qual Eduardo Jorge Caldas Pereira fora sócio até duas semanas atrás. A DTC é de Petrelli, Eduardo Jorge de fato foi sócio da empresa – mas, à exceção desse pequeno acerto, nada mais está correto na reportagem. A DTC não tem nenhuma relação com a DBO (veja íntegra da nota abaixo). Pior: a DBO não se chama DBO, mas BDO, e não fica em Curitiba, mas em São Paulo. E seu contrato de R$ 120 milhões com o Banco do Brasil não foi assinado, ao contrário do que publicou o Correio. Segundo nota do BB lançada ontem, esse contrato sequer existe (veja íntegra da nota abaixo). O serviço do novo sistema na 515 Norte está sendo executado pelos próprios funcionários do banco, e não por uma terceira empresa.

O Correio – como está sobejamente demonstrado – cometeu um equívoco grave ao publicar a reportagem. O autor da reportagem reconhece seus erros de procedimento (veja artigo abaixo), mas é bom informar o leitor que um repórter não é o único responsável por sua reportagem: um jornal é um produto coletivo. Seu acerto é coletivo. Seus erros também o são. Quero aqui, portanto, na condição de editor-executivo do jornal e editor da primeira página do Correio, pedir desculpas ao leitor em meu nome pessoal pelo erro que, sob minha responsabilidade, foi cometido. Peço, também, desculpas aos que foram prejudicados pela publicação de uma informação incorreta. O Correio tentará extrair desse episódio o único dado positivo possível: reforçar seus mecanismos de controle sobre a qualidade da informação que publica.

Da empresa

A propósito de matéria divulgada no Correio Braziliense no dia 3 de agosto de 2000, intitulada ‘O grande negócio de Jorge’, e de notícias divulgadas em outros órgãos de imprensa, a empresa DTC – Direct to Company vem a público esclarecer:

1) a DTC não mantém contrato com o Banco do Brasil para prestar serviços de qualquer natureza. O Banco do Brasil atesta, em nota oficial divulgada hoje, 3 de agosto, a inverdade das afirmações feitas pelo Correio Braziliense.

2) o Correio afirma que o ex-secretário-geral do Palácio do Planalto Eduardo Jorge Caldas Pereira tornou-se sócio da DTC para influir em suposto contrato da empresa com o Banco do Brasil. Trata-se de afirmação absurda, uma vez que o referido contrato jamais existiu;

3) Eduardo Jorge Caldas Pereira tornou-se sócio da DTC, de forma rigorosamente regular, no final do ano passado e já deixou a empresa. Não há nem sombra de irregularidade no fato de uma empresa privada ter como acionista um executivo que está disponível no mercado;

4) é inacreditável que o Correio Braziliense desrespeite o próprio Código de Ética e divulgue inverdades sobre uma empresa sem ao menos ouvir seus acionistas;

5) voltada para treinamento empresarial e educação corporativa à distância via satélite e Internet, a DTC, empresa em fase de implantação, vem sendo prejudicada por citações levianas e irresponsáveis de vários órgãos de imprensa. Em face da gravidade das acusações divulgadas, a DTC buscará reparo na Justiça para fazer valer a verdade e esclarecer os fatos. Brasília, 3 de agosto de 2000. Leonardo Petrelli Neto, diretor-presidente da DTC"

Do repórter

"No dia 2 de agosto, recebi um telefonema para me encontrar com uma pessoa. Ela me disse que Eduardo Jorge teria recebido 10% das ações da empresa DTC, cujo principal acionista chama-se Mário Petrelli, por ter favorecido a DTC em um projeto cujos valores chegariam a R$ 3 bilhões. O negócio envolvia, além da DTC, as empresas DBO Direct e o Banco do Brasil.

Confiando nas informações, redigi a matéria sem ouvir Mário Petrelli, nem ninguém ligado a ele. Não ouvi os donos da empresa DBO Direct. Nesse caso porque a empresa ficava em Curitiba, segundo minhas informações. Ao tentar encontrar seus donos via lista telefônica e Internet, não consegui. Soube no dia seguinte que a empresa é de São Paulo, não do Paraná. E que seu nome é BDO Directa e não DBO Direct.

Procurei o Banco do Brasil. Conversei com o analista consultor de Informática Américo Mendes Júnior. Ele foi indicado pela assessoria do BB para dar informações sobre o setor de tecnologia, e afirmou desconhecer qualquer atuação das empresas DBO Direct ou DTC. No entanto, o que ele disse não foi publicado na íntegra na reportagem de ontem.

Errei por ter confiado em uma única fonte, sem qualquer documento que garantisse a veracidade do que ouvi. E sem ter procurado checar por outros meios a história que me foi contada. Errei por ter me apressado a publicar o que ainda não tinha como comprovar. Por fim, errei ao levar o jornal a cometer erro tão grave. Peço desculpas aos leitores e a todos que involuntariamente prejudiquei. (Alexandre Machado)"

 

A REPORTAGEM ERRADA
Alexandre Machado

"Negócio sigiloso", copyright Correio Braziliense, 3/8/00

"Eduardo Jorge conseguiu contrato sem licitação para empresa de informática do Paraná prestar serviços ao Banco do Brasil. O projeto pode custar até R$ 3 bilhões. O ex-ministro ganhou ações de R$ 4 milhões da companhia, na qual era sócio de um ex-diretor do BB

Está explicada a razão pela qual o ex-secretário do Palácio do Planalto, Eduardo Jorge Caldas Pereira, tornou-se sócio da empresa DTC-Direct To Company S/A, com sede em Curitiba. Em setembro do ano passado, a pedido de Eduardo Jorge, a direção do Banco do Brasil reuniu-se com o sócio majoritário da DTC, Mário Petrelli, para discutir um projeto bilionário e mantido em sigilo: modernizar o sistema de transmissão de dados, dentro e fora das agências do Banco do Brasil, chamado i-Bank. O serviço foi contratado sem licitação, está sendo executado por Petrelli e custará, na primeira etapa, R$ 120 milhões, mas seu custo final pode atingir uma soma fabulosa: R$ 3 bilhões.

A descoberta desse gigantesco negócio sob comando da DTC complica a situação de Eduardo Jorge, considerando-se que:

  • Eduardo Jorge tinha uma evidente influência sobre a direção do Banco do Brasil quando estava no governo, conforme fica demonstrado no papel que o banco exerceu na operação de salvamento da construtora Encol. Por exemplo: segundo depoimento prestado ao Ministério Público pelo ex-dono da Encol, Pedro Paulo de Souza, foi Eduardo Jorge quem lhe mandou recorrer ao BB quando precisava tirar sua empresa do vermelho;
  • Um dos diretores mais poderosos do BB à época em que Eduardo Jorge estava no governo era o responsável pela área de crédito, Edson Soares Ferreira, o mesmo que concedeu empréstimos à Encol sem a contrapartida de garantias reais;
  • Edson Soares Ferreira, segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, também tornou-se sócio da DTC de Curitiba. Assim, Eduardo Jorge e Edson Ferreira eram sócios entre si numa empresa que está tocando de forma sigilosa um projeto bilionário no Banco do Brasil;
  • Ao associar-se à DTC, da qual se afastou há 13 dias, Eduardo Jorge não entrou com dinheiro. Ganhou de presente 10% das ações da empresa do seu amigo Mário Petrelli, segundo declarou o próprio empresário. Considerando que o capital da empresa é de R$ 40 milhões, as ações do ex-secretário do Palácio do Planalto valiam R$ 4 milhões.

O negócio com o Banco do Brasil não constitui nenhuma ilegalidade já que tanto Edson Ferreira como Eduardo Jorge são livres para se associarem numa empresa e procurar bons negócios. O problema é que, sob a suspeita de usar sua ascensão no governo para obter vantagens para si, o ex-secretário Eduardo Jorge vinha participando de um negócio cujos contornos parecem desenhados à base de tráfico de influência. Afinal, tanto Eduardo Jorge como Edson Ferreira eram influentes no Banco do Brasil e é absolutamente incomum que um empresário presenteie alguém, como fez com Eduardo Jorge, com ações de R$ 4 milhões.

Além disso, a entrada da DTC no negócio percorreu caminhos estranhos. A primeira etapa de implantação do i-Bank está sendo desenvolvida por uma outra empresa, a DBO Direct, também com sede no Paraná. Como a DTC só veio a ser registrada em 3 de novembro do ano passado, na reunião entre Petrelli e os diretores do BB era necessária outra empresa para executar o negócio. Dessa forma, a DBO Direct, que já prestava pequenos serviços ao Banco do Brasil, assumiu o papel, sob a batuta da empresa de Petrelli.

Na primeira parte do i-Bank seria usado um sistema interno de comunicação que utilizaria rádios de microondas da faixa livre 2,4 mhz denominados breezecom. No final do ano passado, o sistema começou a funcionar em caráter experimental na agência do BB da 515 Norte, em Brasília. ‘‘Estamos fazendo a expansão da intranet (rede de comunicação interna), para torná-la de alta velocidade’’, disse o consultor de informática do Banco do Brasil, Américo Mendes Júnior.

Sistema moderno

Com esse novo sistema, destaca Américo Mendes Júnior, consultor de informática do BB, o banco terá uma ‘‘das maiores intranetes do mundo’’. Segundo ele, há um sistema em fase de testes na 515 Norte. Atualmente, a direção do BB discute se o sistema será empregado nas quatro mil agências da instituição ou apenas nas mais movimentadas, cerca de mil, conforme se propôs a princípio. A implantação do i-Bank em cada agência custa entre R$ 20 mil a R$ 30 mil.
A idéia é que a DTC entre na segunda etapa do projeto. Por ser uma empresa que trabalha com transmissão de dados por satélite, seu papel será o de oferecer efetivamente o know-how para implementar a parte de transmissão de dados entre agências, usando satélites na bandas K-U e L. Um projeto cujo custo total chega a R$ 3 bilhões.

A DTC é uma empresa com oito acionistas, dos quais fazem parte Mário José Gonzaga Petrelli e seu filho Leonardo Petrelli, além de Edson Soares Ferreira. Os Petrelli também são donos da Rede Independência, com sede em Curitiba, e retransmissora da rede Record. Na Junta Comercial de Curitiba, Mario Petrelli aparece como diretor-presidente da empresa – uma emissora de TV paga direcionada ao mercado corporativo em fase de implantação. E entre seus projetos, ela pretende explorar a TV paga via satélite, integrada à Internet. Além disso, os Petrelli são amigos próximos do senador e presidente nacional do PFL, Jorge Bornhausen."

 

ANÁLISE
Renata Lo Prete

"Duas manchetes", copyright Folha de S. Paulo, 6/8/00

"As duas capas reproduzidas acima mostram o que de mais grave pode acontecer dentro de uma Redação: manchete errada. Não uma qualquer, de página interna, mas A manchete do jornal. Não um erro de interpretação ou de informação secundária, mas O erro original. Ficção.

Na quinta-feira, sob o título ‘O Grande Negócio de Jorge’ (Eduardo), o Correio Braziliense noticiou que a empresa DBO Direct tinha um contrato de R$ 120 milhões com o Banco do Brasil para testar um sistema de transmissão de dados, e que por trás da DBO havia uma outra empresa, a DTC, da qual o ex-secretário-geral da Presidência foi sócio até duas semanas atrás.

Desmentidos do banco e da DTC levaram a verificações que resultaram no seguinte:

a) a DTC não tem vínculo com a DBO;

b) a DBO (que na verdade se chama BDO e não fica em Curitiba, como havia dito o jornal, mas em São Paulo) não tem contrato com o BB. O serviço mencionado na reportagem está sendo feito por funcionários do banco.

Do que havia sido informado sobreviveram apenas o nome do proprietário da DTC e o fato de que Eduardo Jorge foi sócio da empresa. Mas nisso não havia notícia, que dirá manchete.
Publicada na sexta-feira, a retratação incluiu, além das notas do banco e da DTC, textos do editor-executivo, André Petry, e do autor da reportagem, Alexandre Machado.

‘Quero pedir desculpas pelo erro que, sob minha responsabilidade, foi cometido’, escreveu o primeiro.

O segundo disse ter ouvido a história de uma pessoa que o procurou. Reconheceu tê-la redigido sem entrevistar ninguém da DTC ou da BDO, e menosprezando informações em contrário fornecidas por um consultor de informática indicado pelo BB para falar sobre o assunto.
‘Errei por ter confiado em uma única fonte, sem qualquer documento que garantisse a veracidade do que ouvi. E sem ter procurado checar por outros meios a história contada. Errei por ter me apressado a publicar o que ainda não tinha como comprovar.’

O absurdo do procedimento foi reconhecido sem meias palavras pelo diretor de Redação do Correio, Ricardo Noblat. ‘Só posso imaginar que houve um acesso coletivo de burrice, em que as regras mais primárias do jornalismo foram desrespeitadas’, disse ele à ombudsman.

Noblat sabia que o jornal trabalhava em uma reportagem sobre Eduardo Jorge e o Banco do Brasil, mas estava fora quando o material foi concluído, na noite de quarta-feira. Ressalta que não pretende, com esse esclarecimento, eximir-se de responsabilidade.

No trecho final de documento dirigido à Redação, o diretor recomendou a todos a releitura do código de ética que o Correio tem desde 1998.

Embora espetacular, o erro não é a única coisa a chamar atenção neste episódio. O leitor não terá visto muitas vezes – se é que viu alguma – reconhecimento tão desprovido de rodeios quanto o da manchete de sexta-feira: ‘O Correio errou’.

Pode-se argumentar que a absoluta fantasia da reportagem exigia providência à altura. Ou que, se recorresse a subterfúgios, o jornal poderia esperar o pior de uma eventual ação na Justiça. Ou ainda que a atitude não diminui a gravidade da falha.

Tudo verdade. Ainda assim, o grau de transparência é tão raro quanto bem-vindo. Quando não há como evitar correção de tamanha visibilidade, o mais frequente é usar o título para restabelecer os fatos, deixando em letras menores a verdadeira notícia, ou seja, o erro.

Por vários motivos, não é apropriado tripudiar sobre o desastre do Correio. O mais óbvio é a inexistência de jornal que não tenha passado por situação semelhante.

Varia o grau de segurança da apuração em cada incidente (neste foi zero), mas manchete errada todos já publicaram (ou vão publicar) um dia.

Outra razão para lamentar o ocorrido é a trajetória recente do Correio, um jornal que deu salto qualitativo nos últimos anos. Por vezes suas reportagens pautam diários maiores. No momento, além da Folha, é dos poucos a demonstrar empenho em apurar o caso Eduardo Jorge.

Por fim, é inevitável que o episódio venha a servir de combustível para o crescente movimento de reação a essa cobertura. Seus porta-vozes na imprensa enxergam pouca ou nenhuma anormalidade no que já se sabe a respeito das atividades de EJ. Reclamam dos holofotes sobre os procuradores do Ministério Público, mas não parecem ter nada contra holofotes voltados para quem lhes interessa defender.

Se alguma lição pode ser extraída do revés do Correio, trata-se da necessidade de aliar, na apuração jornalística, doses igualmente elevadas de esforço, paciência e rigor.

Sem CPI, é a única chance que a imprensa tem de cumprir o papel que tanto incomoda os caçadores de holofotes: encontrar as peças e descobrir onde elas se encaixam."

 

CARTAS
Isso é credibilidade

Achei fantástica a atitude do Correio Braziliense, que errou em uma reportagem sobre as supostas relações da Eminência Parda, digo, Eduardo Jorge, com a (inexistente) empresa DBO Direct, no dia 3 de agosto, e deu na primeira página, no dia seguinte, com o devido destaque, a informação de que cometera sério equívoco.

Geralmente nossos jornais mal se explicam quando cometem deslizes e o fazem em colunas do tipo Errata, que pouca gente lê. Parabéns ao Correio pela decisão acertada, assegurando sua credibilidade. Mandei o e-mail abaixo à redação, refletindo minha satisfação de leitor e jornalista com o ato raro de humildade e profissionalismo.

Fabiano Golgo, Praga

"Mil parabéns pela aula de bom jornalismo ao não apenas admitir o erro do Correio – o que outros jornais fazem, mas em pequenas notas perdidas na nunca lida Errata, – mas por tê-lo feito na primeira página, com letras garrafais. Isso é credibilidade.

Errar é humano (e repórteres, às vezes, também são), mas admitir o erro é um exemplo de bom senso. Com isso, eu, leitor, me sinto seguro ao ler as informações do jornal, uma vez que tenho a certeza de que são responsáveis, pois, caso equivocadas, haverão de ser corrigidas com o devido destaque, para que não deixemos de notar o reparo.

Muito obrigado também como jornalista, pois assim (quem sabe...) a classe veja que pode seguir o exemplo sem medo de perder a credibilidade: muito antes pelo contrário. Fabiano Golgo"

 

Tudo por uma manchete

Na linha das manchetes escolhidas pelo jornalista Luís Nassif, a matéria sobre o caso Encol, na Veja, também é um primor de tendenciosidade. Repete-se apenas a versão do ex-dono da construtora (de que era muito estranho que o Banco do Brasil, após emprestar durante anos à empresa, "de repente" interrompera o fluxo de recursos e colocara funcionários seus para intervir na empresa falida). Esse procedimento é absolutamente normal e no melhor interesse dos acionistas do BB, ou seja, os cidadãos brasileiros.

Manoel Yang

***

Acompanho a trajetória de Alberto Dines desde o Pasquim. Acho que esse trabalho de discutir o papel da imprensa é fundamental, pois em determinados momentos alguns veículos metem os pés pelas mãos. A posição de Luís Nassif, como sempre, é da maior dignidade. Temos uma publicação, o Jornal de Vila, restrito à nossa aldeia, e precisamos de referências legítimas.

João Augusto Barbosa

***

Realmente, o material de Luís Nassif sobre as manchetes produzidas para criar sensacionalismo demonstra de maneira clara como a imprensa brasileira em geral trabalha.

Sou formado em Jornalismo pela Metodista (SP) e me lembro das aulas sobre a redação de títulos/manchetes. Meu professor (aliás, editor do caderno de Esportes da Folha de S.Paulo na época) dizia que tínhamos que considerar o fato jornalístico para colocar no título. Você fica sabendo de uma história e precisa identificar o que realmente é interessante para o leitor. Esta parte do assunto deve constar no título e no lead da matéria.

Até aí não existe nada de errado. Trata-se de uma técnica jornalística normal. O problema, como foi demonstrado muito bem pelo Nassif, é usar este método de maneira leviana. Na verdade, o que o profissional acaba fazendo é deturpar a informação, transformá-la para alavancar a venda de jornais.

A obtenção das informações é outra coisa preocupante. Com a desculpa de revelar a verdade, muitos crimes são cometidos. Temos vários casos de fitas comprometedoras, revelando conversas telefônicas, por exemplo. Quem gravou estas fitas? Muito provavelmente, não foi de maneira legal, com a devida autorização judicial. Vejam bem, não estou aqui querendo defender os acusados neste material. Não entro no mérito da questão, se o tal juiz é culpado ou não, estou escrevendo sobre a atividade jornalística, as técnicas utilizadas para tal.

A maioria do público da imprensa não é da área, não percebe que acaba sendo manipulado de maneira desavergonhada. Posso ver isto claramente na empresa onde trabalho (não é em veículo de comunicação). Todos discutem o material que foi divulgado, mas ninguém repara como o jornal conseguiu aquela informação, nem que aquelas pessoas estão sendo acusadas e não condenadas pela Justiça.

É a primeira vez que entro no site de vocês e gostaria de parabenizá-los pelo material e a iniciativa. Espero ter contribuído em alguma coisa com meus comentários. Obrigado pelo espaço!

Eduardo D. Loureiro

 

JOSÉ GONÇALVES FONTES
Cabelos brancos

Ivson Alves
(*)

"De ilusão e ilusionismo também se vive. Talvez por isso o repórter morra mais cedo do que os profissionais de outros sonhos. É ele, quase sempre, por dever de ofício, a testemunha fiel dos sentidos. Ver, ouvir e refletir como eles realmente aconteceram."

O autor da reflexão acima morreu na segunda-feira, dia 31 de julho, e agora você, que tem menos de 30 e nunca trabalhou no Jornal do Brasil, não terá mais chance de conhecer José Gonçalves Fontes. Fontes foi, nos últimos anos, pauteiro do JB, jornal em que começou a carreira em 1957, levado por Odilo Costa, filho, diretor do então jornal da condessa. Em seus 43 anos de carreira, levou três prêmios Esso, categoria principal, para casa, um recorde mantido até hoje.

Você não vai conhecê-lo, e nem eu. Porque apesar de ter (bem) mais de 30 e haver trabalhado no JB duas vezes, também só o vi, de longe, algumas vezes. É que ele chegava sempre à meia-noite e, quando calhava de eu estar lá, não dava tempo de conversar com ele. Um fato que sempre me deu muita tristeza, aumentada agora, quando fui informado de que Fontes estava para dar um depoimento gravado ao Instituto de Artes e Comunicação da UFF.

A perda da chance de gravar a história de Fontes é aflitiva porque talvez só desta eu e você, meu jovem, pudéssemos quebrar a barreira que se ergueu entre gente como Fontes, e outros cabeças brancas, e nós. Estou exagerando? Então, quantos jornalistas com mais de 50 anos há aí em sua redação? Conta, vai... Não dá nem 5% do total, né? E acima de 40? Melhor, mas não como seria de esperar, certo? E, alguma vez, você já conseguiu conversar com algum deles por tempo suficiente, na mesa de um bar ou mesmo, de maneira picada, na cantina?

Pois nem sempre foi assim. Quando comecei nas redações, lá pelo início dos 80, gente experiente é que não faltava. No Globo, só para pegar o lugar onde fiquei mais tempo, tive oportunidade de ser chefiado por Lutero Soares, Luiz Mario Gazzaneo, João Rats e Heraldo Dias. Trabalhei ao lado de Marcos de Castro, Aloísio Flores, Maria Helena Pereira, Cristina Konder, Benedito Assis e muitos outros veteranos. Alguns dos que citei ainda estão na ativa em redações, mas postos num canto, em lugares em que não podem passar para quem é mais jovem tudo o que aprenderam e, principalmente, tudo o que acham ainda estar pendente em matéria de jornalismo.

E não fiquei aí pensando que não tem garoto e garota interessado em ouvir as histórias e ensinamentos daqueles "das antigas". Não poucos se queixam de não sentirem firmeza e experiência nos seus chefes atuais, alguns apenas uns poucos anos mais velhos do que eles. "Não dá pra respeitar um cara que nem tem idade pra ser meu irmão mais velho", definiu, um dia, uma coleguinha que ainda não chegou aos 30.

Obviamente, esta juvenilização das redações não é algo acidental. Em 1995, na aula da abertura do primeiro Projeto Calandra, Mário Marona, então no Globo, disse, com todos os efes e erres, que para O Globo "jornalismo é profissão de jovens" e, por isso, a idade máxima permitida para se pleitear uma vaga no projeto era de 28 anos.

Esta decisão diz se basear na idéia de que os mais velhos não teriam condições de acompanhar o ritmo atual dos jornais (e, assim, conclui-se que abre-se um novo campo de trabalho para maratonistas e triatletas...) Mas acho que o buraco é mais embaixo. Coincidência ou não, poucos anos antes da declaração do Marona, um americano de ascendência japa, por Francis Fukuyama conhecido, fez um tremendo sucesso com um livro chamado O Fim da História. A idéia é o ser humano havia chegado ao seu ápice como espécie e agora o resto do tempo que nos separa da explosão do Sol que terminará a vida na Terra, daqui a bilhões de anos, teríamos que gastar polindo nosso carros...

Claro que a guerra nos Balcãs acabou com esta baboseira, mas que ótima idéia para ser aplicada em termos localizados, hein? Numa redação, por exemplo...A gente tira os velhos, que são a História encarnada, e assim ela é esquecida e, portanto, acaba. Junto, vão coisas idiotas como companherismo (os velhos ensinam muito essa bobagem ao passar seus ensinamentos sem cobrar nada); orgulho e amor pela profissão (que péssimo exemplo dão estes trastes conseguindo sobreviver anos e anos na profissão. E num mesmo lugar!! E sendo respeitados!!!); capacidade de refletir (os matusaléns têm o lamentável hábito de lembrar de fatos passados que contextualizam os fatos presentes) etc. etc...

Por essas e por outras, gente como José Gonçalves Fontes ficou esquecida, encostada num lugar meio perdido da madrugada, de onde sua vivência e exemplo de profissionalismo influiriam cada vez menos conforme o tempo passasse. Mas, só pra contrariar, aqui vão algumas frases que Fontes deixou e que não serão esquecidas por quem o conheceu, ou por aqueles que só verão estas pérolas escritas (pelo menos assim espero):

"Repórter não usa saia, não tem frescura, sobe morro e não corre da notícia. É, por profissionalismo, um ente assexuado."

"O corpo de um jornal é composto de informação, notícia e reportagem. A alma é o repórter."

"Notícia não se guarda. Gaveta é pra defunto."

"Antes de iniciar qualquer apuração, lembre-se de uma verdade: a resposta para qualquer reportagem pode estar no catálogo de telefones, caso já não esteja na sua agenda."

"Repórter sem fonte é repórter sem horizonte."

"Talento não se aprende na escola, muito menos nas redações. É inato a um ser privilegiado. Mas de que valerá ao repórter se não tem ele garra e humildade? Mero desperdício de um dom da Natureza..."

"Na Natureza, nada se cria. Nada se perde. Tudo se transforma. A Lei de Lavoisier para explicar os fenômenos da química também ganhou acepção lingüística para a imprensa moderna: em jornalismo, tudo se cria, tudo se repete e tudo se deteriora."

"No jornalismo de hoje, os sinais aritméticos têm o seguinte significado: o de menos, menor salário; o de mais, mais trabalho; o de multiplicação, problemas; o de divisão, escassez de infra-estrutura."

(*) Jornalista, editor do site Coleguinhas, uni-vos <www.coleguinhas.jor.br>, onde foi publicado este artigo, em 7/8/00

 

ASPAS
Fritz Utzeri

"Zé Fontes, um caminho", copyright Jornal do Brasil, 6/8/00

"O jornalismo perdeu muito com a morte de José Gonçalves Fontes. Ele foi o primeiro que identificou neste repórter um jeito para a crônica. Foi num carnaval, eu era foca e ele mandou que fizesse um texto sobre o porre nos dias de Momo. Fiz e ele passou anos citando e relembrando o texto. Obrigado, velho, tenho certeza de que aí onde você está o jornal é melhor do que o nosso aqui. Para dizer melhor, dou voz à sensibilidade feminina da jornalista Magdalena de Almeida: ‘E lá se foi o nosso Zé. Quando soube de sua doença e liguei para matar as saudades e falar qualquer coisa que pudesse ser útil naquele momento (como se isso fosse possível), a voz do outro lado da linha parecia mais consolar do que ser consolada. Fiquei mudinha em minha insignificância, diante daquela grandeza toda que conversava sobre suas dores como quem disserta sobre as últimas notícias do dia. Nem naquele instante deixou de ser o grande repórter que sempre foi. Me deu o lead, o sublead, os entretítulos, deixando a manchete para o final: ‘Não sei quando vou, mas vou em paz’. Eu queria dizer qualquer coisa, tipo ‘seja forte’, ‘agüenta firme’, ‘pensamento positivo’, mas as palavras não saíram e foi ele quem me disse tudo isso. Eu é que tive de ser forte, agüentar firme e pensar que um dia a medicina poderia curá-lo. Não deixou apenas saudades. Deixou-nos um caminho a seguir’."

 

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