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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
PRISÃO DE LALAU
A mídia queria barulho
E se Batoré negociar sua rendição com a Febem?
Alberto Dines
Por que razão estava mídia indignada com as negociações entre o Ministério da Justiça e a família do fugitivo Nicolau dos Santos, vulgo Lalau?
A mídia queria publicar a foto do ex-juiz algemado. Apenas isso. Queria aumentar a circulação ou audiência às custas da indignação popular. Não estava minimamente preocupada com o interesse público. Caso contrário – como todos os cidadãos honestos –estaria comemorando o fim de uma incômoda impunidade e o início do processo de recuperação do dinheiro desviado do erário.
Na verdade a mídia não queria ficar de fora como ficou. Interessada na badalação, queria exibir o seu protagonismo, assumir-se como defensora da cidadania. Esquecer que no caso do TRT comeu mosca ao longo de quase uma década. O faraônico Fórum Trabalhista de São Paulo está situado a menos de cinco mil metros em linha reta das principais redações (jornais, revistas, emissoras de rádio e TV), passagem obrigatória de pauteiros, editores, chefetes e chefões da mídia paulistana. A ninguém ocorreu investigar aquela imensa obra paralisada durante anos.
As autoridades policiais negociaram a rendição de Jorgina, a bandida do INSS que desviou para o seu bolso quantias se não maiores pelo menos tão fantásticas quanto as de Lalau. Ninguém reclamou ou reclama.
Nos últimos 20 anos, todos os poderosos chefões da máfia negociaram com autoridades federais americanas não apenas suas rendições como o abrandamento das respectivas penas em troca de confissões detalhadas sobre o mundo do crime organizado. A mídia americana, menos farisaica do que a nossa, não chiou.
À sociedade interessa que se faça justiça respeitando trâmites e rituais. À mídia interessa o espetáculo da justiça – interesses não necessariamente coincidentes. Para a sociedade não faz diferença que um criminoso foragido se renda ou seja capturado. Importa que ele vá para o xilindró. Mas o frenesi da mídia buscava algo como justiçamento. Há uma clara influência malufista nesta sede de linchamento (virtual ou real) .
Para Globo & Parceiros não importa que Lalau esteja vendo o sol quadrado. Importa minimizar a vitória da sociedade. Ao destacar na primeira página (domingo, 10/12/00) a histérica declaração de um dos advogados de Lalau de que não houve cerco ao seu cliente ou que este nunca saiu do Brasil (portanto driblou a PF), a Folha de S.Paulo apenas comprova a sua subordinação às jogadas do Cartel – neste momento empenhado em desmoralizar as autoridades que, pela primeira vez, o encostaram na parede.
Na ânsia de mostrar que o governo foi complacente com o Inimigo Público Nº 1, o Jornal do Brasil (que tem todos os motivos para não embarcar nas palavras de ordem de seus inimigos) chegou a insinuar que Lalau gozava de condições carcerárias excepcionais em Higienópolis, "bairro nobre de São Paulo" (primeira página, sábado, 9/12/00).
A segunda razão da fúria mediática contra as autoridades responsáveis pela rendição de Lalau está na esfera específica do Grupo Globo. Trata-se de uma vendeta particular da perversa Venus Enferrujada (ex-Platinada) contra o ministro de Justiça, José Gregori. A este atribuem a cruzada contra a degradação da TV brasileira e o revés moral sofrido pela Campeã de Audiências no caso de Laços de Família. A força do cartel foi jogada contra o ministro ainda em plena batalha judicial em torno da participação de menores nas gravações da telenovela. Esqueceram a iniciativa do Ministério Público, esqueceram o juiz Siro Darlan, esqueceram os desembargadores que reforçaram as sentenças. O Cartel Globo queria um bode expiatório para descarregar a frustração de ser publicamente desmoralizada [veja remissões abaixo].
Prova foi o editorial de O Globo da quarta-feira (7/12/00), dois dias antes da rendição de Lalau, com chamada na primeira página – "Um atestado de incompetência para José Gregori". O editorial não estava na página apropriada (Nossa Opinião, pág. 6) mas escondido num buraco da pág. 13. De onde foi pinçado e valorizado para fazer pendant com a chamada no alto da primeira página sobre a transcendental raspagem dos pêlos capilares da subvedete de Laços de Família.
O editorial de Época (11/12/00, pág. 36), soprado do Rio pela alta direção do grupo Globo, é ainda mais peçonhento. Panfleto caipira, vicioso e viciado – batucado no velho e surrado estilo udenista quando Carlos Lacerda gritava "Mata!" e o O Globo berrava "Esfola!" –, tenta levantar a suspeita de que a demora na captura de Lalau deveu-se ao fato de que o ministro e o ladrão foram colegas de faculdade. Tenta incriminar o ministro Gregori nas trapalhadas da Abin chefiada por outro ministro, o general Alberto Cardoso. Tenta ferir o Ministério da Justiça na área da defesa dos Direitos Humanos, elogiada até pela oposição. Para entender a suavidade dos métodos empregados pela Vênus Enferrujada contra aqueles que ousam questioná-la convém rever o que fez com o também ministro da Justiça Ibrahim Abi Ackel, no início dos anos 80.
Não chamou muito a atenção o fato de que, recentemente, Artur Falk (dono do famigerado Papatudo) tenha passado algumas horas na cadeia. O Cartel não se deteve para examinar a folha corrida do Gênio da Poupança Popular. Nem reclamou contra a sua pronta libertação. Não interessava lembrar que Falk e a sua máquina de engolir dinheiro alheio foram cobiçados por diversos magnatas da mídia, tiveram relações especialíssimas com a TV Globo e que esta promoveu intensamente a arapuca e até emprestou-lhe a darling Xuxa como garota-propaganda [veja artigo de Josias de Souza, Folha de S.Paulo, 10/12/00, pág. A-17, para assinantes do UOL em <http://www.uol.com.br/fsp/brasil/fc1012200029.htm>]. Poupança popular lesada lembra o Caso Delfin. Lembra outros casos nos dourados anos 50, hoje esquecidos.
Negociação ou captura são sutilezas metodológicas. Importa o resultado: o cidadão honesto quer o desonesto atrás das grades. Com ou sem flagrante na primeira pagina. Ou no horário nobre.
Se o cruel cappo do narcotráfico Fernando Beira-Mar negociar sua rendição com as autoridades será sempre melhor do que continue matando, estuprando e corrompendo.
Se o jovem Batoré de 17 anos negociar sua rendição com a Febem, seu tenebroso saldo de assassinatos poderá parar nos 15 que já assumiu.
Se depois do Lalau e inspirados no desfecho da sua fuga, todos os curruptos e sonegadores negociarem suas rendições com as autoridades, o salário mínimo pode ir facilmente a 200 dólares. Sem precisar mexer na Constituição.
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