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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
O GLOBO
Palavra perigosa
Raphael Perret Leal (*)
O verbo "dever" pode assumir vários significados. Alguns são, em certos contextos, contraditórios, antagônicos. Segundo a Enciclopédia e Dicionário Ilustrado Koogan/Houaiss, "dever" pode significar obrigação imposta por alguém, obrigação moral, intenção, necessidade, probabilidade, suposição. Fica óbvio que o uso do verbo deve ser extremamente cauteloso, principalmente no jornalismo, em que a clareza da notícia é um dos objetivos primordiais.
O Globo, porém, parece que não sabe disso.
Na edição de sábado, 9 de dezembro de 2000, o jornal carioca, em meio ao noticiário sobre a prisão do juiz Nicolau dos Santos Neto, escreveu o seguinte parágrafo, numa reportagem com o título "Gilmar Mendes [advogado-geral da União] diz que força-tarefa vai continuar":
"O ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que por ser réu primário, ter 72 anos de idade, ser juiz, não oferecer perigo à sociedade e ter se apresentado à Polícia Federal, Nicolau pode ser beneficiado com o relaxamento da prisão preventiva dentro de pouco tempo."
A informação é importantíssima. Quem lê, entende por que existe impunidade no Brasil, especialmente em relação a juízes, senadores e congêneres, e suscita reflexões sobre o Código Penal. Pena que O Globo ponha tudo a perder no subtítulo:
"Ministro Marco Aurélio, do STF, afirma que Nicolau deve ser solto logo, ou pelo menos em prisão domiciliar"
Eis o maldito "dever", conjugado devidamente na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. Um leitor mais apressado lê a frase e, já acostumado às idiossincrasias do Brasil, conclui: o ministro está sugerindo, recomendando que o juiz não pode ficar preso ou, no máximo, deve ficar em casa.
E agora, como fica? Lendo a reportagem inteira, vê-se que "não é bem assim". Porém, não se pode culpar alguém por não ler tudo. Os textos precisam ser claros, e não incoerentes. Clareza está longe do subtítulo, que não reflete o verdadeiro teor da frase do ministro. Pior: confunde.
É dessa forma que uma pessoa pública perde credibilidade, poder, moral sem tê-lo merecido. Por causa de uma palavra mal escolhida. Definitivamente, a culpa não é da palavra.
(*) Jornalista <rperret@bol.com.br>
JORNAL NACIONAL
Sob o diáfano "até"
Roberto Loureiro (*)
O Incra concluiu, esta semana, o recadastramento agrário, e constatou que várias propriedades de terra com mais de 10 mil hectares (que somadas têm três vezes a extensão do estado de São Paulo) são suspeitas de "grilagem". O Incra agora está investigando caso a caso.
Além do fato absurdo, também chamou atenção a manchete sobre o assunto do Jornal Nacional da quinta-feira, dia 7/12. A apresentadora informou que "as terras podem até ser utilizadas para a reforma agrária".
Ora, por que "até"? Esse inquietante "atezinho" posto na frase global pode parecer insignificante. Para os mais atentos, todavia, não passou despercebido. Significa muito. Expõe a maneira de como a questão da reforma agrária é encarada pelos "grandes" no país.
Do modo como a frase foi esculpida, exala a idéia de que partilhar a terra, mesmo os latifúndios fora-da-lei, seria uma atitude extremada, algo a ser feito quando todas as outras alternativas para seu uso (ou desuso) estiverem esgotadas.
Até parece que os milhões de pessoas que lutam "até" desesperadamente por uma gleba de terra não estão passando até fome, e que o Brasil "até" é um país sem-sem-terra, sem-sem-teto, sem-sem-comida...
(*) Jornalista, redator do Jornal das Missões, Santo Ângelo, RS <sdl@mailbr.com.br>
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