Aparições fantasmagóricas
Arnaldo Dines (*)
Rápida análise das pseudo-atrações da última encarnação do Rock in Rio é mais do que suficiente para levar qualquer ateu convicto à acreditar em reencarnação. O problema é que mais do que uma nova encarnação de um distante evento de um distante milênio, o que se está tentando vender agora é uma reencarnação de um culto cujo espírito já morreu há tempos, mas que, ainda não enterrado, foi condenado a perambular pelo eterno limbo comercial da indústria da música popular.
Entre os ídolos adolescentes e os rock stars geriátricos que dominam as paradas de sucesso no mundo inteiro, aparece uma geração em branco, incapaz de produzir em massa os sucessos necessários para manter a insaciável gula do público por melodias e ritmos banais. Prova desta tendência é a fantasmagórica aparição de artistas como Neil Young e James Taylor, importados através de um túnel do tempo diretamente dos distantes anos sessenta para os modernos palcos de um Rio de Janeiro desculturado.
Lamentavelmente, os organizadores do Rock in Rio não puderam ressuscitar John Lennon e os Beatles, que agora, 40 anos após seus primeiros sucessos, voltaram ao primeiro lugar das listas dos mais vendidos nos Estados Unidos. Ou quem sabe Jerry Garcia e The Grateful Dead, cuja especialidade eram os shows ao vivo? Como última opção para o próximo Rock in Rio, os organizadores poderiam chamar Mick Jagger e os seus eternos Rolling Stones, que, apesar de enterrados em camadas de rugas, continuam inexplicavelmente vivos.
Em compensação, a garotada que resolver encarar a atual versão do Rock in Rio, vai levar um banho dos anos oitenta. Por um lado aparecem Sting e R.E.M com harmonias sutilmente mais melódicas e com pretensões de liberalidade anglo-saxônica, enquanto Iron Maiden e Guns n’Roses fornecem os decibéis necessários para abafar ainda mais o calor sufocante do verão carioca.
Para quem conseguir sobreviver, resta ainda encarar Britney Spears, uma clone de cantora concebida especialmente para o consumo da turma da puberdade. Considerada pela crítica especializada norte-americana a nova Madonna, só que com menos talento ainda do que a original, Britney tem tudo para terminar a lavagem cerebral da multidão, disfarçando suas limitaçöes vocais com coreografias que levariam Fred Astaire às lágrimas.
Além da presença simbólica e perdida de alguns artistas brasileiros, os organizadores conseguiram ainda desencalhar uma extensa lista de nomes inexpressivos. Entre estes, figura proeminentemente o grupo Oasis, importado da Inglaterra ao preço de um quilo de carne (com direito à doença da vaca-louca) e cujos desmerecidos 15 minutos de fama foram interrompidos pelas grosserias do seu líder, Liam Gallagher, devidamente reportadas com esmero jornalístico pelas agências de notícias internacionais.
Diante desse desfile de decadência cultural, a questão óbvia que paira sobre o evento é a falta de uma razão real para se desenterrar um conceito do passado neste início do século XXI. O Rock in Rio lembra mais o vampiro Drácula – se recusa a morrer e vive a custa do sangue dos inocentes. E neste curso de reencarnação, o próximo passo lógico seria a Rede Globo desencavar uma nova versão do Festival da Canção Popular.
Se o público no Rio pode enfrentar Neil Young e James Taylor, porque não então João Gilberto, Chico Buarque e Ivan Lins? Tanto nos Estados Unidos como na Europa, a Música Popular Brasileira está em alta, faltando apenas que essa tendência seja devidamente reportada pela imprensa no Brasil para que o público local então resolva também desenterrá-la.
(*) Arnaldo Dines, jornalista e musico, vive em Nova York.
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