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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001
ASPAS
Renato Lemos
"Eu não vou", copyright Jornal do Brasil, 12/01/01
"Segundo o último censo, a cidade do Rio de Janeiro tem 5.850.544 habitantes espalhados por uma área de 1.255,28 km2. Muito mais gente que as 1,5 milhão de pessoas esperadas para ocupar os 250mil m2 da Cidade do Rock nos sete dias de shows do festival. Se você é do tipo que pensa que Oasis é uma churrascaria bacana em São Conrado e imagina que a primeira providência para se ter um mundo melhor seria amordaçar o Axl Rose, não se desespere. Nem tudo está perdido. Durante a semana que durar o Rock in Rio, os cariocas que ficarem de fora do evento terão muito o que fazer. A cidade está repleta de ótimos shows, peças e filmes. Ivan Lins (no Teatro Rival) e Martinho da Vila (no Canecão) são apenas duas opções de um vasto cardápio capaz de agradar todo o tipo de gente. Principalmente os que acham que red hot chilli peppers no ouvido dos outros nem sempre é refresco.
Ivan Lins até gosta dos americanos dos Red Hot, mas vai estar ocupado demais para conferir o show dos roqueiros. Desde a última quarta, ele está fazendo temporada no teatro Rival. É um espaço bem menor que o palco do Rock in Rio. Em 1985, Ivan esteve lá, apresentando-se na noite de abertura. Adorou. Mas não sabe se faria de novo agora. ‘Estou feliz em estar apresentando meu show no Rival, que é um espaço ótimo, onde o público fica bem perto da gente’, diz o cantor. Ele enxerga as diversas opções musicais da cidade - o Rock in Rio incluído - como resultado da miscigenação do brasileiro: ‘A música é a forma mais cristalina da democracia no Brasil’
Se tiver uma folga, o cantor diz que gostaria de - além dos brasileiros Milton Nascimento e Gilberto Gil - conferir a apresentação de Sting. O inglês foi indicado ao Grammy por sua interpretação de She walks this earth, versão de Soberana Rosa (Ivan e Chico César), incluída num tributo ao compositor gravado por artistas americanos. Os dois andaram se encontrando durante a semana. ‘Ele faz o tipo de música que independe da língua e isso nos aproxima muito.’
Se Ivan escolhe Sting como seu favorito, Martinho da Vila faz outra opção: ‘Eu gostaria de ver o Ivan Lins de novo naquele palco, mas no Rival ele está mais pertinho da gente’, elogia o sambista que na última quinta-feira esteve no Rival para assistir ao show do amigo - e foi aplaudido de pé pelo público. Agora, espera a visita de agradecimento. Desde quinta-feira ele ocupa o palco do Canecão com um show dedicado a duas de suas paixões: o Rio de Janeiro e a Vila Isabel. No repertório, os sambas da Vila mostram a concepção que Martinho criou para o próximo carnaval da escola, que desfilará no segundo grupo. ‘Quero transformar o Canecão numa quadra de ensaio. Vou fazer o Samba in Rio’, ri o cantor e compositor.
Mas nem só de Vila Isabel viverá o show de Martinho. Ele carrega no bolso uma penca de sucessos para não deixar a peteca cair de jeito nenhum: Disritmia, Ex-amor, Mulheres entre muitos outros. Músicas que já são exigência de seu público cativo. ‘Tem música que se eu não cantar nego me mata’, conta o cantor. Sobre o evento que estará acontecendo na Cidade do Rock, ele vê com um pouco de desconfiança. Diz que falta Brasil. No momento em que a cidade apresenta dois ótimos shows de samba - Arlindo Cruz e Sombrinha no Seis e Meia do João Caetano e Walter Alfaiate no Hipódromo Up -, o ritmo estará quase ausente na Cidade do ROck, em Jacarepaguá. ‘Como é que pode ser um mundo melhor sem samba?’, pergunta o cantor, que fica em cartaz até domingo, se não for prorrogado.
Foi o que aconteceu com o show de Ithamara Koorax no Mistura Fina. Previsto para o fim de semana passado, ganhou quatro sessões extras (hoje e amanhã às 20h30 e 22h30) devido ao sucesso. Na segunda passada, um punhado de gente fazia fila (não era a fila da UNE para comprar ingressos para o Rock in Rio, mas era uma fila). Um êxito mais do que justo. A cantora - que recebeu três pré-indicações para o Grammy por seu último CD, Seranade in blue - está num ótimo momento. A conceituada revista Downbeat a elegeu uma das três celebridades musicais do ano passado, atrás apenas de Santana e Sting. O último, por sinal, seria sua escolha entre as atrações do Rock in Rio: ‘Eu adoro o Sting. Ele faz o tipo de som sofisticado que eu também busco.’
Ithamara busca esse som em todos os cantos do mundo. ‘Eu canto no Rio da mesma forma que canto em Londres ou em Seul. No rock, acho que o Sepultura faz algo parecido, música de expansão’. Com um repertório escolhido a dedo (a versão para Um homem uma mulher é um luxo) e sua bagagem repleta de ótimas críticas, a cantora é, por si só, o atestado de uma cidade cosmopolita que abriga todas as tendências musicais: em linguagem Rock in Rio, Ithamara é uma mistura de todas as tendas."
Israel do Vale
"Por um marketing melhor", copyright Folha de S. Paulo, 12/01/01
"As redes de rádio e TV só aderiram à veiculação dos três minutos de silêncio que vão ao ar esta noite mediante pagamento; pelo menos 90% dos artistas escalados nunca tiveram envolvimento com causas que não fossem as próprias; a campanha de levantamento de fundos pela Internet para projetos educacionais teve resposta tímida -mas o criador do Rock in Rio, Roberto Medina, abre as portas da Cidade do Rock esta tarde convicto de que seu projeto contribui para despertar a cidadania e estreitar o ‘abismo social’, como gosta de dizer. Com uma ressalva: ‘A juventude ainda não entendeu que o recado era para ela. É um trabalho de longo prazo’.
O Rock in Rio por um Mundo Melhor, festival bem-intencionado de rock que baniu da programação o rap (gênero musical mais combativo socialmente), já cravou na história a marca megalomaníaca de 151 atrações desta edição (metade de tudo o que o Free Jazz levou ao palco em 15 anos de existência), contribui para que 2.000 alunos concluam o primeiro grau (financiando cursos supletivos) e prevê um repasse de 5% de tudo o que arrecadar para investimento em projetos sociais e educativos, via Unesco e Viva Rio. Mas tende a ficar na memória, para o mundo da música, mais como um bom negócio que como uma boa ação.
Nem mesmo os cachês reduzidos pagos às atrações nacionais -padronizados em R$ 1.000 para os que tocam nas tendas e R$ 20 mil para os do Palco Mundo- ou a deserção de seis dos mais fortes nomes da cena pop nacional de hoje, O Rappa, Skank, Charlie Brown Jr., Jota Quest, Cidade Negra e Raimundos, por divergências com a produção, foram suficientes para macular a imagem do festival de R$ 70 milhões aos olhos de artistas e gravadoras.
Vitrine mais reluzente que a música brasileira já viu desde os festivais de TV, o Rock in Rio 3 mobilizou executivos de gravadoras e empresários de artistas. Para eles, o festival é uma cruzada por um marketing melhor.
Se de um lado o evento precisa de artistas para formar a programação, de outro as gravadoras precisam de espaço para promover seus artistas e têm, num festival desse porte, uma visibilidade raramente alcançada.
Parcerias desse tipo, pouco visíveis para o público médio, juntam o que se chama de a fome com a vontade de comer -e, naturalmente, interferem no perfil artístico do evento. ‘A Sony, como as demais gravadoras, propôs alguns nomes para a Tenda Brasil, que é um espaço muito bom para artistas novos’, conta Ronaldo Viana, diretor artístico da gravadora, que tem nove artistas entre os diferentes palcos do festival.
‘A Mary's Band, por exemplo, é uma banda ‘de palco’, que ainda não é conhecida no Rio; precisa estar num evento desses’, diz, referindo-se a uma de suas mais novas contratadas. Como o cachê é simbólico e a banda não é radicada no Rio, a Sony arca com os custos da ida ao festival -um dos investimentos mais baixos feitos no dia-a-dia pelas gravadoras.
A programação geral do evento foi pulverizada entre cerca de 40 gravadoras, dos mais variados tamanhos. Mas três majors (BMG, Universal e EMI) e uma independente de médio porte (a Trama) se sobressaem pelo número de artistas que emplacaram -no caso das primeiras, 15 de cada uma, em média. Três gravadoras concentram, portanto, quase um terço da programação do festival.
Conseguir encaixar um artista do seu cast é um grande negócio para qualquer gravadora e inverte a lógica: em vez de o produtor do evento pagar para o artista tocar, a gravadora é que paga para que ele possa vender o peixe no festival.
Um selo de tamanho médio, a Indie Records, ilustra bem a situação. Só a Indie investiu R$ 400 mil no patrocínio da Tenda Eletro. Ganhou, em contrapartida, regalias como o direito de distribuir material promocional e de projetar vídeos da gravadora, além de usar a marca Rock in Rio em três compilações que começa a lançar na próxima semana.
A primeira delas, ‘Rock in Rio Eletro - Fly by Dance’, sai com tiragem inicial de 100 mil cópias -número bastante significativo para quem chega a lançar bandas com 3.000 discos. A oportunidade estimulou a Indie a se embrenhar pela primeira vez na música eletrônica e permitiu que Liber Gadelha, diretor-presidente da Indie Records, emplacasse na Tenda Eletro o DJ espanhol Jose Padilla e o casal britânico Jim Masters & Lulu. ‘Vou lançar os CDs deles, e trazê-los ajuda a promover.’
Segundo Gadelha, o negócio vale a pena. ‘Se você não investir uns R$ 250 mil, R$ 300 mil para divulgar um artista, ninguém vai saber que ele existe.’"
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