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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/11/1999

AQUI JAZ
Surto psicótico da TV Folha:
a submetralhadora engasgou

 

Alberto Dines

Numa crise de onipotência, o folhetinesco Fernando de Barros e Silva investiu grosseiramente contra o programa Observatório da Imprensa na TV, a propósito da emissão de 16/11/99 (domingo, 21/11/99, pg. 2). Não teve a coragem de dar nomes, preferindo esconder-se em sinuosidades viperinas. Não adianta, terá que assumir as conseqüências do acesso de loucura.

Compreende-se o tamanho do seu problema: com o Pacto Globolha, perdeu a chance de destilar a paranóia contra Marluce Dias, Evandro Carlos de Andrade e o Jornal Nacional. O que, diga-se, fazia com certa graça, mas já começava a cansar. Como, por vocação, identifica-se com o populismo fascistóide dos ratinhos da vida (apesar da fingida desaprovação), apontou seu ressentimento contra a TV Cultura, a nascente Rede Pública de TV e todos os esforços da sociedade brasileira para conter a baixaria televisiva. Leitor do Folha-Teen detesta o Rá-Tim-Bum, óbvio. Adotou o espírito e o estilo da Casa quando procura destruir qualquer iniciativa cívica ou comunitária que não tenha saído de algum Bat-Conselho da Barão de Limeira – afinal, a Folha é encarnação, porta-voz e detentora da sociedade civil.

O desatinado não assistiu e não gostou do nosso último programa. O problema é dele. Ou dos editores que admitem esse tipo de leviandade. Ou do médico que o atende. Os leitores deste Observatório podem examinar o compacto do programa e o editorial que o abriu [ver remissão abaixo]. Aqui vai um resumo do seu teor:

* Começamos o primeiro bloco mostrando a denúncia do Jornal Nacional contra um videogame que teria inspirado a Chacina do Cinema. Reprisamos alguns segundos do nosso programa de 3/8, quando o vereador do PT de BH Betinho Duarte mostrou outro videogame violentíssimo. O procurador de Justiça Fernando de Almeida Martins, ao vivo de Belo Horizonte, anunciou a decisão de tirar das lojas os jogos que estimulem agressões.

* No mesmo bloco, o secretário de Direitos Humanos, José Gregori, apresentou sua idéia de coincidir o Dia Nacional da Não-Violência na TV com o Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro). Em nenhum momento foi aventada por algum dos participantes a hipótese de os telejornais daquele dia omitirem notícias. Ao contrário, foi dito diversas vezes que uma informação sobre violência não precisa ser apresentada obrigatoriamente de forma violenta. Foi registrado que a TV Record aderiu imediatamente, o que caracteriza o caráter voluntário e auto-regulador da proposta. Foi mencionado o atraso das redes comerciais em apresentar seus códigos de ética.

* Nos dois blocos seguintes, tratamos da violência dos desenhos animados. Em reportagens gravadas, manifestaram-se diversos especialistas, entre eles Ziraldo, que foi candente na condenação da TV comercial como difusora da violência. Também opinaram Bia Rosenberg, diretora de Programação Infantil da TV Cultura, e a socióloga portuguesa Cristina Barbosa, que estuda o assunto para a ONU. Da discussão participou ativamente, ao vivo de São Paulo, a escritora Ruth Rocha. Os dados sobre a violência dos desenhos animados reunidos pela ONU foram fartamente divulgados pela Folha numa capa da Ilustrada assinada por Gilberto Dimenstein.

* Participaram também ao vivo o jornalista Luís Carlos Bernardes (de Belo Horizonte) e o antropólogo Rubens César Fernandes (Rio), criador do movimento Viva Rio de direitos humanos.

Este foi o programa que fez Fernando de Barros e Silva babar de raiva. Se ficou despeitado porque o secretário José Gregori fez rasgados elogios ao programa, a culpa é do tamanho do surto que o atacou. Nas duas vezes em que o senador Pedro Simon (PMDB-RS) participou do programa também o elogiou. Assim também o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e a ex-deputada Marta Suplicy (PT-SP). Não consta que sejam governistas. Nestas ocasiões também tratamos da baixaria na TV, mas o escriba, então devidamente sedado, calou-se.

Se o despeito se origina no fato de não o chamarmos para participar do programa que vá reclamar a seus chefes na Folha – foram eles que proibiram os funcionários de participar de qualquer iniciativa do Observatório. Antes da proibição – nos bons tempos em que tinha liberdade para criticar a TV Globo e participar deste Observatório – jamais reclamou. Era todo elogios.

Foi ele o autor da apresentação deste Observador quando começou a sua última colaboração no jornal (3 de julho de 1997). Babou-se de admiração (babar é o seu meio de expressão). E não apenas com relação ao futuro colaborador, mas também ao seu projeto, este Observatório da Imprensa. Podem conferir.

O indigitado, porém, foi extremamente feliz quando disse o Observatório é o cemitério do jornalismo. Acertou em cheio: aqui estão algumas covas (nem todas) do mau jornalismo. Desvendamos e sepultamos algumas irresponsabilidades, hipocrisias e arrogâncias. Faltam muitas. Aqui foram enterradas algumas cassandras. Nem todas. Aqui jazem desmoralizados os lunáticos que fazem da doença profissão. Aqui, neste cemitério, tem Fernando de Barros e Silva o merecido epitáfio.

 

ASPAS

EDITORIAL
Meia hora dramática

 

A. D.

Bem-vindo ao Observatório da Imprensa. Você vai participar de uma experiência inédita no próximo dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. Nessa data teremos, pela primeira vez no brasil, o Dia da Não-Violência na TV, 24 horas integrais sem tiros, mortes e agressões. Fique atento, você vai ser chamado a participar.

Lembre-se de que o conteúdo da TV, pública ou privada, diz respeito a todos porque todas as emissoras funcionam em regime de concessão, e concessões podem ser revogadas quando não atendem ao interesse público. O mais importante desta experiência é o conceito nela embutido: a sociedade brasileira está incorporando à noção de direitos fundamentais do cidadão a proteção contra agressões à sua tranqüilidade e ao seu bem-estar psíquico e espiritual. Vamos tratar disso ao longo deste programa.

Antes, como ilustração, você vai ver apenas alguns segundos de um dos últimos capítulos da novela Andando nas nuvens, da Rede Globo. Essa novela foi apresentada na faixa das 19h, horário nobre, aberto a crianças e adolescentes. E o capítulo em questão foi levado ao ar minutos antes do telejornal em que foi mostrada a chacina no cinema do shopping em São Paulo. Naquela dramática meia hora foi difícil saber o que era ficção e o que era realidade.

Programa Observatório na TV de 16/11/99 (TV Educativa/TV Cultura, terças-feiras, 22h30)

 

TV FOLHA
Fernando de Barros e Silva

 

"Os nativos estavam eufóricos. ‘Pistoleira, pistoleira, pistoleira’, gritavam em coro da arquibancada, diante da silhueta da mulher protegida por um biombo fosco ao fundo do palco. Sentado numa poltrona, rosto e identidade descobertos, o amante acusava a antiga parceira de outros vários adultérios e seu marido, o suposto traído, de cometer atos de pedofilia com as próprias filhas do casal. Atordoada, ela desmentia, em meio à gritaria do auditório (‘pistoleira...’). Ratinho dava corda, passava a palavra a um e outro, comandando a cena. Nas suas mãos, havia um envelope fechado com um exame de DNA. Detalhe: a mulher estava grávida. O ‘objetivo’ ali era saber se o ex-amante era o pai da criança. Era. Aberto o envelope, os dois foram subitamente removidos do palco pela produção, como lixo varrido. Entrou no ar outra atração. Corta.

Minutos mais tarde, um outro ‘caso’. O pai de uma de duas meninas estupradas no Paraná vingou a filha matando os dois supostos criminosos. Quatro tiros na cabeça de um, seis na do outro, este último espancado a pauladas antes de ser fuzilado. O pai está preso, e a reportagem do programa do Ratinho o entrevista ao vivo da delegacia, depois de ter reconstituído as cenas dos estupros e das chacinas, dramatizando-as em detalhes. Os nativos na platéia se comovem com as declarações do pai, miserável e desdentado. Aplaudem seu depoimento comovido, sobretudo quando diz que não havia criado sua filha com tanto sacrifício para vê-la estuprada por vagabundos. Ratinho toma as rédeas. Condena repetidas vezes a ‘justiça com as próprias mãos’, argumentando que às vezes se cometem ‘injustiças’ (isto é, lincham-se inocentes). Diz a seguir que já foi a favor da pena de morte, mas que não é mais, pelo mesmo motivo: pode-se matar inocentes. Condena a atitude do pai para em seguida ‘absolvê-lo’ na prática, atacando a lentidão da Justiça, a omissão e o descaso da polícia. O saldo do conjunto é inequívoco: o auditório aprovava os linchamentos, entusiasticamente, quase aos urros.

Corta. O programa segue em ritmo circense, com quadro de calouros, acrobatas etc. Ambas as cenas foram exibidas na última terça-feira. Vamos dizer que são... chocantes? Parece frívolo diante da quantidade de problemas e de barbaridades que trazem à tona. Mas nada ali era inventado, nem havia filmes para se responsabilizar pela violência. Debater ‘O Clube da Luta’? A questão, aqui, é muito mais embaixo. Estamos falando de pobres, da exploração abjeta da miséria também, não há dúvida. Corta. Mudemos de canal.

Estamos agora no oásis da TV Cultura, no mesmo dia e no mesmo horário, diante desse cemitério do jornalismo chamado ‘Observatório da Imprensa’. A violência está em pauta, e o secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, é um dos convidados. É dele a idéia de que no próximo dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, as TVs abertas não exibam nenhuma cena de sexo ou de violência. A ‘luz publicitária’ acendeu na cabeça do secretário durante uma ‘reunião de emergência’, convocada na semana passada em função dos assassinatos no MorumbiShopping. Se depender de Gregori, a TV no próximo dia 10 será um conto de fadas. Alguém poderá perguntar: mas, e se, por um acaso remoto, alguma criança for degolada por outras num desses calabouços mirins, a Febem? Ora, estaremos todos vendo o reprise do ‘Criança Esperança’ ou do ‘Castelo Rá-Tim-Bum’. Os jornais que se incumbam de nos devolver à realidade no dia 11.

Sarcasmo do crítico diante de um assunto tão sério? Pois não, porque o assunto é sério, mas o governo não é. É falastrão. Promete códigos de ética (até quando essa piada?), brinca de pressionar emissoras, mostra serviço e se mobiliza de afogadilho diante do crime espetacular no shopping de zona sul; é, em uma palavra, adepto da ‘ética virtual’. A questão não é retórica. A TV francesa, por exemplo, é um lixo, uma das piores do mundo, como se gosta de dizer por aqui, mas lá, na França, a mesma sociedade que a assiste não toleraria a notícia de que uma criança pobre foi trancada por seguranças num frigorífico de supermercado. A República, lá, não é virtual. Mas aqui, no reino de ‘Rá-Tim-Bum’, há uma corte de ‘humanistas’ de cera, bem representados no ‘Observatório da Imprensa’, que dá chancela ao blablablá inócuo do discurso oficial, cuja vocação para o inessencial é inesgotável. São humanistas chapa-branca, vassalos do governo para quem os problemas do país são virtuais. É assim, aliás, que eles vêem as pessoas, como virtualidades.

Ratinho é uma excrescência, não há dúvida, mas a hipocrisia fria desses senhores, que vivem na Suíça da sua imaginação delirante, brincando de boas maneiras na TV, é tão ou mais intolerável, este o ponto. A alegria dos pobres hoje é aparecer na TV, inclusive para serem humilhados; a diversão dessa gente educada e nutrida é escondê-los da mídia. Entre os linchadores eletrônicos e os aristocratas do nada a distância é menor do que parece, ou virtual.

No meio, há um abismo. Antigamente, chamava-se Brasil."

"Ratinho e os aristocratas do nada", copyright Folha de S.Paulo, 19/11/99

 

RODA-VIVA
Resposta a Maklouf

 

Lurian Cordeiro Lula da Silva

Será certo esta revista criticar o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva por ter vetado o nome do "tão premiado jornalista Luiz Maklouf de Carvalho"? Lula foi contestado por censurar a liberdade de imprensa, mas quem questiona a falta de ética do jornalista? Eu, como vítima dele, posso julgá-lo sem qualquer problema.

Aos que desconhecem a história: em abril de 1989 eu tinha 15 anos, e este cidadão me procurou usando o nome do assessor de imprensa do meu pai, o Ricardo Kotscho, dizendo que estava colhendo depoimentos para o livro da campanha presidencial de 1989 que o PT estava elaborando. Eu morava com a minha avó, e como nós sabíamos que o Kotscho estava escrevendo um livro da campanha, ingenuamente caímos no conto desse mau caráter.

Ele ainda teve a cara de pau de sugerir que eu comprasse o Jornal do Brasil do dia seguinte, que iria sair uma "notinha" sobre o livro.

Qual não foi minha surpresa, no dia seguinte, quando vi que eu era a manchete do JB, intitulada "A filha que Lula omitia." Gostaria de frisar aqui que meu pai nunca foi um pai omisso. Desde que nasci recebi seu nome, e se não o vi antes dos 4 anos foi porque minha mãe não permitiu. Infelizmente, minha maior testemunha destes fatos faleceu em março deste ano. Mas ela, mesmo sendo minha avó materna, desmentiu minha mãe e a imprensa em todos os momentos.

E este jornalista tão premiado (que na minha opinião não merecia o Prêmio Jabuti, mas sim o Prêmio Jaburu) sequer teve o procedimento ético de se redimir e assinar uma matéria corrigindo a manchete do JB. Sequer se preocupou com as conseqüências que tal reportagem poderiam causar a uma adolescente de 15 anos de idade.

Por um lado foi bom. Graças a jornalistas com ele resolvi seguir a carreira. Hoje curso o sexto semestre de Jornalismo na Umesp, e meu objetivo é provar a esses ditadores da imprensa marrom que é possível fazer jornalismo com ética.

 

Resposta a Mino Carta

 

Eliane Cantanhêde

Eu tinha decidido não responder à CartaCapital, simplesmente porque ela beira o ridículo ao partir da premissa de que eu teria "chupado" informações da revista, sem dar o devido crédito. Diz lá: "Para conseguir atirar os olhos sobre tais preciosos documentos foi inescapável recorrer à nossa modesta publicação. Não havia outra saída."

Agora, como vocês republicam a tal carta, resolvi dizer quatro coisas:

1) Não li a correspondência trocada entre a Embratel e a Telebrás, nem na CartaCapital nem no seu site na Internet. Aliás, nem mesmo sabia que eles tinham dado algo a respeito;

2) Acho o cúmulo da megalomania, às raias do ridículo, o Mino achar que um repórter só pode ter acesso a esse tipo de coisa via imprensa. Por que os lados interessados não vazariam?

3) Considero-me em ótima companhia com os colegas Ribamar Oliveira e Gustavo Paul, igualmente envolvidos nessa história. Sou capaz de apostar que nenhum dos dois teve acesso aos documentos pela revista;

4) Está aqui a minha palavra de honra. E o Bob Fernandes, autor da matéria na CartaCapital, sabe muitíssimo bem, e há muitos anos, que tenho palavra e tenho honra.

Um abraço, E. C.

 

CHACINA NO CINEMA
A senhora Cobray

 

Isak Bejzman (*)

A senhora Cobray é uma americana impudente e invejosa. Por ser pessoa sem pejo, a submetralhadora Cobray assumiu uma falsa personalidade, se travestiu de Uzi israelense, usando balas de aço calibre 9 milímetros e disparando uma tonelada de tiros por segundo. Em seu país de origem a respeitável dama costuma ter uso restrito, só é manuseada por agentes federais e oficiais superiores da polícia americana, enquanto no Brasil seu manejo parece ser de livre acesso. Pelas dez e pouco da noite de 3 de novembro, uma quarta-feira, a respeitável e sofisticada senhora entrou sem cerimônia alguma na sala 5 dos cinemas do Morumbi Shopping, em São Paulo. Pelas mãos do senhor Mateus da Costa Meira, penetrou na síntese e representação maior, templo sagrado e paradigma, do modus vivendi de uma parte da sociedade brasileira, aquela capaz de consumir.

E mais uma vez o filme como que numa magia alleniana saiu da tela. Fazendo uso de sua linguagem a senhora Cobray, graças às delicadas e finas mãos do senhor Meira, passou a falar em tempo real. A sala 5 do Morumbi Shopping se inundou de um sangue que até aquela hora, naquela noite, costumava ser visto somente jorrar de jovens negros, pardos e até de alguns brancos, sobre as ruas da periferia da grande cidade. (Minayo). Assim, fatos similares ao acontecido na sala 5, que costumavam eufemisticamente ser denominados de ações justiceiras pela mídia quando ambientados na periferia, sofreu uma transmutação lingüística, passou a se chamar "violência", e como tal, fruto patológico de um impulso agressivo. A necessidade da mídia de negar a realidade social é tão intensa que ela não consegue perceber que apesar da violência ser uma deformação patológica do impulso agressivo já está universalizada no Brasil, e se encontra presente nas cidades e no campo há mais de 30 anos.

É fundamental que a imprensa brasileira comece a investigar se existe ou não uma crise de identidade no cidadão brasileiro; principalmente do jovem. É freqüente ouvir expressões: esse país não muda, esse país não presta e outros qualificativos de caráter negativo. Erikson (1972) descreve algumas características dessa possível crise. Ele pergunta que opções são oferecidas ao jovem para que ele com elas se identifique. Cassorla (1992) afirma existir uma crise de identidade no Brasil: "Desde a confusão fantástica na governabilidade, a perda de confiabilidade, a corrupção, o "levar vantagem em tudo", sendo que esta última o autor pensa ser uma das raras "leis sociológicas" autóctones brasileira.

Identidade auto-satisfatória

É importante pois avaliar e analisar as opções para se identificar se são positivas ou caóticas. A vida se faz de opções, e por isso ela também é um permanente conflito. Acontece que a denúncia do errado e do injusto e da corrupção se faz de forma muito tímida, e eis que as opções caóticas de identificação dão início a suas trajetórias. Infelizmente a imprensa ao ser mais proselitista do que crítica e reflexiva, ao não fazer uso da denúncia de forma permanente sempre que deva ser feita, ao não ser solidária com as vítimas da degradação social, ao não ser ela imprensa cidadã em si mesma e de não disseminar a cidadania, de permitir que a mídia seja simplesmente mídia e não ‘jornalismo’ acaba favorecendo também essa ausência de identificação.

"A saúde mental deve ser considerada, em cada indivíduo, como a possibilidade de integrar as contradições sociais, aumentando progressivamente as suas capacidades de resolver os problemas da existência, através da aquisição de uma identidade auto-satisfatória. A formação da identidade pessoal auto-satisfatória se concebe como um processo de constantes transformações da personalidade face às variações do meio sociocultural, integrando as novas aquisições mantendo uma continuidade essencial do seu passado com o presente e o futuro." (Loyyelo, 1990). O comportamento de um indivíduo se expressa em seu habitat em sua relação com o outro, dentro da família e na sociedade.

O ser humano é história, é vida social, é economia e também ideologia. A emergência do conflito social sem solução em decorrência das identificações caóticas gera níveis de ansiedade que necessitam encontrar uma fonte de descompressão. É como se fosse uma caldeira cujos níveis de pressão precisam de uma válvula de escape. É incrível como a própria mídia não se dá conta de que quem constrói as mudanças das relações sociais é ela mesma, ao promover através de novelas e filmes uma amostragem da estrutura sócioeconômica desejada, porém na maioria das vezes impossível.

Agressividade instintiva?

Para Freud (1895), o primeiro objeto externo era fundamental para o desenvolvimento do aparelho psíquico do ser humano. Baseou o processo de identificação num processo neuronal. Para Melanie Klein é o seio materno. Penso que a fórmula de Freud – condições biológicas ao nascer (genéticas) + vivências infantis + situação atual é = doença mental – possibilita de forma bem mais simples o entendimento da importância da identificação. Acredito que, em termos de agressão, nossa cultura ocidental vive um momento caracterizado pela sublimação de conceitos por ela antes negados, como o canibalismo. O consumismo passou a ser o paradigma do viver. Em síntese, o objetivo é levar vantagem, com aniquilamento da existência do próximo.

Competição pelo alimento, conquista de posição social, satisfação sexual, defesa de seu ‘território’, individualismo praticado em níveis máximos, fazem na sociedade atual com que a importância da vida coletiva e o grau de sociabilidade se degradem. O comportamento agressivo deixa de ser censurado e se modifica assumindo características patológicas que se manifestam através da violência social difusa, universal, indiscriminada. (Levisky, 1992)

Homens de ciência discutem se a agressividade no ser humano é instintiva ou social, se é um desequilíbrio interno ou vem de fora para dentro. Zegers (1987) faz uma análise do acontecimento bíblico Caim e Abel. Para ele, o primeiro crime da humanidade está vinculado a um ato decorrente da liberdade divina ao preferir a oferenda de Abel, rejeitando a de Caim. Deus, ao optar por um deles, rompeu com o caráter necessário de neutralidade das leis naturais, inclusive a dos instintos. Para Zegers, é neste momento que a autocensura do ser humano também vai para o brejo.

Fim do contrato social

Esse embrulho sóciopsicológico, uma verdadeira náusea, arribou finalmente em terras cabralinas. Creiam, a América do Norte é possuidora de uma gama infinita de valores culturais, mas nós "desenvolvidos" resolvemos nos identificar com o que por lá existe de mais negativo. A sociedade americana está traquejada no estudo do assassinato, do assassinato em massa, do assassinato em série, assim como dos diversos tipos de estupro.

Em meu último artigo, Promoção da intolerância, abordei a questão do contrato social. Parece-me que o senhor Mateus da Costa Meira, ao dar início no Brasil a uma nova cultura, a modalidade do assassinato em massa, iniciou também o fim do contrato social vigente no país. É que um assassino de massas é alguém, por exemplo, que atira em qualquer pessoa no correio, no cinema, e depois pode se suicidar. Esse tipo de assassino mata várias pessoas em questão de horas e não há um resfriamento, enquanto um assassino em série mata várias pessoas durante um período de dias, semanas, meses, até anos. Há um período de esfriamento, e o assassino passa por fases ou ciclos.

Não posso me furtar de reproduzir algumas palavras escritas pelo analista didata da Associação Psicanalitica Argentina, Angel Garma (1970), em seu trabalho Nos domínios do instinto de morte. "Da mesma forma que um indivíduo, qualquer nação tem uma origem e uma evolução. As características de tal evolução estão, no presente, determinadas por suas circunstâncias passadas, que continuam tendo atualidade, obedecendo a uma espécie de compulsão à repetição."

A existência ameaçada

E mais adiante: "Algumas das reações provenientes de vivências passadas que persistem no presente impulsionam qualquer nação ao progresso e bem-estar, outras, ao contrário, são mais destrutivas e provocam sofrimento. Daí se pode afirmar, de modo simplificado, que em uma nação há tendências ou impulsos progressivos, vitais, e outros regressivos ou de morte. Em qualquer comportamento de tal nação intervêm ambas as classes de tendências; sua relativa intensidade, em cada momento, depende da influência que sobre tais tendências têm as características prazerosas ou desprazerosas, construtivas ou destrutivas, das circunstâncias do ambiente atual."

Freud disse: "O impulso agressivo não modificado para melhor – (grifo meu) – ameaça a existência do objeto."

Observação: não me detive em esmiuçar as diversas personalidades dos diversos tipos de matadores por temer uma eventual identificação (conteúdo iatrogênico). Entretanto, apresento abaixo uma rica bibliografia.

Bibliografia

Cassorla, Roosevelt M.S. – A identidade psicológica e a sociedade atual: uma complicação? Revista ABP-APAL, volume 14 nº2, Abril-Maio,1992

Freud, Sigmund – A perda da realidade, na neurose e na psicose, Obras Completas (Bagestero)

Garma, Angel – Nos Domínios Do Instinto de Morte, Revista Brasileira de Psicanálise, volume IV nº4, 1970

Levisky, David Léo – Aspectos do processo de identificação na sociedade atual, Revista ABP-APAL, volume 14, nº1, Janeiro-Março,1992

Loyello, Washington – Teoria da personalidade e sociedade, Informação psiquiátrica, 9(1), 1-32, 1990

Minayo e col. – Estudos sobre a Violência, Cadernos de Saúde (Fiocruz)

Moreira, Marilio Santos – A Violência dos Grandes Centros Urbanos, Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 31(3):149-222, 1982

Zegers, Otto Dorr – Fenomenologia de la conducta agressiva (acerca de la conducta

agresiva en el hombre), Revista ABP-APAL, volume 9, nº 1, Janeiro-Fevereiro-Março, 1987

Literatura americana

Douglas, John & Olshaker, Mark, MindHunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit, Pocket Star Books, 1995

Holmes, Ronald M. & De Burger, James, Serial Murder Studies in Crime, Law and Justice, volume 2, Sage Publications, 1988

Ressler, Robert K., Douglas, John E., Burgess, Ann W., and Burgess, Allen G., Crime Classification Manual, Simon & Schuster, 1993

Saint Louis Dispatch News, 1995

Turvey, Brent E., Behavior Evidence: Understanding Motives and Developing Suspects, Unsolved Serial Rapes Through Behavior Profiling Techniques, June, 1996

(*) Jornalista e médico psiquiatra

 

SBT REPÓRTER
Marília e Seu Joaquim

 

Shirley Sammia M. Barreto (*)

Seu Joaquim me foi apresentado na quarta-feira, 17/11, e o foi a todos os demais telespectadores, pela jornalista Marília Gabriela, que ancorou o SBT Repórter num especial sobre jogos. Ele (o Seu Joaquim) é uma pessoa tranqüila e de hábitos simples, tão simples que, apesar de ter ganho US$ 150 milhões na Megassena, mora com a mulher e os filhos num bairro de classe média no interior de São Paulo (o programa não omitiu o nome da cidade).

Para ilustrar a afirmação de que "Não existe método para acertar sorteios, e sim sorte, por isto alguém que joga um único bilhete na vida pode ser o ganhador entre outros que jogaram muitos bilhetes muitas vezes na vida", feita pelo matemático Osvald de Sousa, a repórter que localizou Seu Joaquim o escolheu por haver este ex-carroceiro se tornado milionário com tamanha sorte. A sorte, no entanto, costuma não bater na mesma porta duas vezes, e Seu Joaquim, sem nenhuma maldade, abriu as portas de sua casa à repórter sem se preocupar com o custo da gentileza.

Não houve preocupação com a preservação nem mesmo da família: todos foram filmados, entrevistados e até induzidos a dizer o que fariam com o resto do dinheiro: "Temos que economizar, o dinheiro rende mais se continuar investido", segundo a mulher de seu Joaquim, que lavava roupa no tanque e foi questionada por não haver contratado uma empregada.

Agora, este senhor e sua família correm risco de assalto ou seqüestro. A produção do programa não terá visto este risco? Não se sentem responsáveis pelo que venha a acontecer à vida deles? É desconcertante tamanho descaso por parte da mídia.

(*) Estudante de Jornalismo

 

LANÇAMENTO
O Diplô está chegando

 

Demorou, mas a França se curvou. Será lançado no dia 9 em São Paulo a edição brasileira do Le Monde Diplomatique, jornal criado em 1954 e já traduzido para oito idiomas que esculacha a globalização e espinafra o neoliberalismo desde os primórdios. Com a presença de seu diretor, Bernard Cassen, também presidente da Attac (associação que defende o Imposto Tobin, taxa sobre transações financeiras internacionais, voláteis e fujonas – aquela que até FH meio que defendeu em Florença...

O brasileiro vai poder arquivar em papel e em português os textos – que antes se virava para caçar na rede... :-))) – de Eduardo Galeano, Noam Chomsky, François Chesnais, José Saramago, subcomandante Marcos, o rebelde mexicano, Ivan Illich, o contestador de Cuernavaca, Ahmed Ben Bella, o revolucionário argelino – entre outros.

Infelizmente, por falta de grana, numa primeira etapa os criadores da expressão Pensamento Único não terão edição autônoma impressa: vão estar associados a jornais "comerciais" existentes. Há negociações em SP, RS, MG, BA, PB e ES. (Alô, Rio!!!)

A mídia alternativa progressista poderá reproduzir matérias em condições facilitadas. Na Internet, a edição completa estará disponível mediante "assinatura acessível", garantem. Caros Amigos é "associada especial", e a edição de dezembro da revista inaugura o Diplô brasileiro (veja a pauta completa em <www.resenha.com.br>, site da Resenha da Internet, de cujo release estas informações foram tiradas. Com textos, entre muitos outros, sobre a Rodada do Milênio, o primeiro evento neoliberal mundial que a sociedade civil organizada vai peitar em bloco! Imperdível! (M. C.)

 

Veja Também

Compacto do Observatório exibido em TV de 16/11/1999
(Para assistir ao programa é necessário ter instalado o Real Player G2)

 

Leia Também

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Cuidado, canibais em ação, Mino Carta

A chacina do cinema, primeiras avaliações, Alberto Dines

No começo era o cinema, Mauro Malin

O foco é outro, Cláudio Buongermino

Até o assassino sabe, Gilberto C. Marotta

Kurosawa e o precipício, Eduardo Lamas

Cocaína com bula, metralhadora com porte, José Antonio Palhano

Sangue em Brejo dos Buritis, Antonio Fernando Beraldo

Mudemos o mundo, Vera Silva

O laboratório de Canudos, Rogério Souza Silva

 

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