ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000


OMISSÃO DA MÍDIA
Abaixo a ditadura

Orlando Lemos (*)

A classe artística e a imprensa a reboque – justificadamente – botaram a boca no trombone com o embargo da presença de crianças nas novelas globais. Praticamente todos os jornais publicaram fotos dos destaques da dramaturgia televisiva com a mão cobrindo a boca, na alusão à mordaça que a atitude representava e que poderia ser o rascunho da volta à censura.

Tudo muito correto. Só não vi até hoje a imprensa chamar, insinuar ou seja lá o que for com respeito à ditadura econômica em que o Brasil caiu. Democracia, estado de direito não são conceitos aleatórios e ideais olímpicos. São para ser vivenciados, por todos os cidadãos. Só que é bom lembrar – mas é preciso mesmo? – que estado de direito não é só no campo político.

A economia, como pano de fundo em que circulam nações e cada um de seus membros, também oferece campo para aberturas e fechamentos. Se não fosse assim, por que o antigo embargo americano a Cuba? Claro que aí – como quase sempre – política e economia se confundem e mesclam.

E no Brasil não é diferente. Hoje as pessoas xingam o presidente, atiram ovos em ministros, fazem passeatas, atrapalham a vida de milhões de pessoas (como a paralisação imposta pelos taxistas no Rio) e tudo bem. Os jornais só falavam em falta de liberdade quando xingar o presidente era proibido, quando qualquer reunião era assumida como conspiratória. Claro que isto é falta de liberdade.

Mas e a abertura inconstitucional de contas bancárias? O cruzamento de CPMF com declaração de Imposto de Renda? Na edição 8 de dezembro, o jornal carioca O Dia, numa de suas colunas elogia, dando nota 10, a decisão da Câmara dos Deputados de aprovar o cruzamento de informações colhidas com os dados da CPMF (quebra de sigilo) e declarações do IR.

Sem dinheiro para ovos

Estado de direito – político, econômico, social – respeita seus cidadãos. E neste estado de direito todos são inocentes até prova em contrário. Isto é um corolário da democracia.

As empresas não cumprirem as determinações judiciais (supermercados insistem em não colocar etiqueta individualizada nos produtos, as companhias de telefonia celular concorrem oferecendo produtos e ofertas com preços iguais) é o uso do poder econômico, reforça a ditadura econômica, que no caso (como no passado) une Estado e empresários.

Creio que à imprensa – lógico, tocada por grandes empresas – não interessa levantar a bola da falta de liberdade econômica. Manifestada em impostos em cascata, cobranças indevidas, desrespeito ao limite de juros (tanto para financiamento quanto para punição por atraso) e tantas outras evidências.

Cabe por fim a pergunta: existe cotação entre as diversas formas de ditadura? Alguma, por acaso, seria pior do que a outra? Ou todo cerceamento da atividade e da criação humanas tem a mesma pecha? Ditadura deve ser sempre combatida, em qualquer forma, em qualquer grau, com qualquer pseudo boa intenção.

De que adianta a liberdade de jogar ovo no ministro se o povo não pode comer? Chegará o dia em que a liberdade de protesto será anulada na prática porque ninguém terá mais dinheiro para esbanjar jogando ovo em ministro.

(*) Tradutor e jornalista <orlemos@ig.com.br>


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